segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Revendo pontos importantes da profecia

Depois de uma longa ausência, é um grande prazer dirigir-me ao leitor novamente!

Alguns reveses postergaram este momento mais do que eu esperava.

Contudo, os reveses estão entre os instrumentos de Deus para o fortalecimento e robustecimento de nosso caráter, pois nos levam à maior vigilância e mais intensa oração ao Senhor, e nos lembram de que, embora estejamos no mundo, não pertencemos a ele; que aspiramos "a uma pátria superior, isto é, celestial" (Hebreus 11:16)!


Pois bem, em minhas postagens anteriores buscamos compreender a natureza, a identidade e a atuação do poder simbolizado por Babilônia, cuja queda o segundo anjo de Apocalipse 14:8 enfaticamente anuncia no contexto do tempo do fim.

A histórica cidade de Babilônia é aqui usada pela divina providência como tipo ou prefiguração profética da essência religiosa do anticristo.

O adversário de Jeová antes da cruz, a arrogante cidade de Babilônia (Jeremias 50:29), que se idolatrava a si mesma (Isaías 14:1-14) e julgava e dominava entre as nações (Jeremias 51:25, comparar com Salmo 22:28; Daniel 2:34-35, 44-45), representa o protótipo perfeito do adversário de Cristo na era cristã, que dominará e julgará como se fosse o próprio Deus, arrogando-se a autoridade divina (II Tessalonicenses 2:3-4).

É nesse sentido prefigurativo ou tipológico que a palavra "Babilônia" é empregada no último livro da Bíblia.

E a primeira menção a esse nome é feita justamente em Apocalipse 14, no anúncio da queda de Babilônia, cujo significado completo se desenvolve mais tarde nos capítulos 16 a 18.

Nesta seção particularmente elucidativa, o capítulo 17 figura como um dos mais significativos, na medida em que expõe a carreira criminosa de Babilônia com base em um julgamento da parte de Deus (verso 1).

Sem essa ação divina, de natureza moral e legal, não teríamos uma percepção adequada nem das implicações espirituais da apostasia de proporções ecumênicas que Babilônia representa, e que a mera abordagem histórica, por si só, é incapaz de proporcionar, nem de seu lugar na escatologia apocalíptica.

Aqui, o anticristo e a apostasia anticristã são revelados como sendo uma única e a mesma realidade, marcadamente hostil a Cristo e Seu evangelho. Neste conflito de dimensões cósmicas, cada pessoa deve tomar uma decisão. A escolha individual feita agora em favor ou não de Cristo revela, em princípio, a escolha que todos terão de fazer no tempo do fim entre Cristo e o anticristo.

Assim, fomos justificados a examinar esta extraordinária visão na qual se apresenta o libelo divino contra Babilônia, os motivos de sua iminente queda, e a razão por que devemos atender com toda a diligência o derradeiro apelo de nosso Redentor: "Retirai-vos dela, povo meu" (Apocalipse 18:4).

O leitor poderá conferir em retrospecto tudo o que foi publicado a respeito, clicando no marcador "Apocalipse 17", no topo desta postagem.

A relação entre a mulher e a besta

Para o bem do leitor, há dois aspectos na profecia que necessitam ser reforçados, antes que possamos prosseguir do ponto em que paramos.

O primeiro se refere ao panorama que se descortina perante João logo no princípio da visão: ele vê "uma mulher montada numa besta escarlate" (Apocalipse 17:3). A mulher e a besta serão as protagonistas na visão.

Ambas devem ser interpretadas a partir de suas conexões literárias e temáticas com o Antigo Testamento e identificadas por suas relações com o evangelho eterno no marco do tempo do fim.

A imagem da mulher ou "grande meretriz" (verso 1) é diretamente extraída da história do fracasso de Israel como esposa fiel de Deus.

A correspondência simbólica e literária com os profetas do Antigo Testamento indica uma conexão tipológica entre a história de Israel e a história da igreja cristã na profecia, e que prediz não só o elevado chamado de Deus a Seu povo, mas também o fracasso da igreja em corresponder a esse chamado.

A figura da besta tem o seu antecedente nas quatro bestas ou feras mencionadas em Daniel 7 e que são identificadas ali como "reis" ou "reinos" (verso 17).

O fato de entidades políticas serem simbolizadas por bestas revela o caráter instintivo, selvagem, inspirado nas virtudes da violência e manifestado amiúde no uso da força, inerente ao jogo do poder.

A visão de Apocalipse 17 trata, então, da união ilícita entre a mulher e a besta, entre a Igreja cristã apóstata e o poder civil - união que caracteriza Babilônia como tal e que se manifesta em níveis tão comprometedores que raramente é possível compreender um sem pelo menos certa compreensão do outro.

Essa singular relação de interdependência, ou melhor, de subordinação do poder civil ao religioso, visto que a mulher aparece na profecia como cavalgando naturalmente a besta, como se a tivesse domado e a ensinado a obedecer aos seus comandos, é reiterada ao longo da visão.

Primeiramente na própria disposição da profecia como um todo, em que a ênfase da visão na mulher (versos 3 a 7), e a ênfase da explicação da visão na besta (versos 8-18) sugerem que ambos os poderes só podem ser entendidos tendo em vista suas relações, e não independentemente um do outro.

Depois, na declaração do anjo: "[...] dir-te-ei o mistério da mulher e da besta..." (verso 7), querendo dizer com isso, entre outras coisas, que tanto a mulher como a besta são partes do mesmo mistério, e que não convém, por conseguinte, separá-las, sob o risco de perder-se o verdadeiro sentido, "que tem sabedoria" (verso 9).

Eis a razão por que a profecia reitera as relações entre a mulher e a besta: compreender o verdadeiro sentido da visão, o que inclui as diferentes fases de experiência da besta, tais como reveladas a João pelo anjo (verso 8), e, consequentemente, os demais elementos que a constituem, ou seja, as sete cabeças e os dez chifres (versos 9 a 12).

E essa construção de significado da parte de Deus visa lembrar-nos de que a cena final do drama não é o fenômeno da iniquidade em si, mas o glorioso desenlace, a maravilhosa vitória de nosso invencível General, que jamais perdeu uma batalha, e em Quem devemos manter os olhos fixos até o fim (verso 14)!

A pergunta mais importante, então, não é: "Qual a identidade das sete cabeças e dos dez chifres da besta?", como se disso dependesse toda a profecia, e sim: "Que fator comum determina as fases da besta 'era', 'não é', 'mas aparecerá'?".

A resposta procedente da revelação: as relações entre a mulher e a besta, entre a Igreja e o Estado!




Assim, conforme observamos em minha última postagem, as sucessivas fases da besta escarlate, bem como de suas respectivas cabeças, devem ser entendidas em função de suas relações com a mulher.

A fase "era" da besta foi caracterizada pela união entre a Igreja e o Estado, e, muitas vezes, pelo domínio do primeiro sobre o segundo, em especial durante os séculos de ferro da Igreja, quando esta frequentemente interferia nas políticas de potentados europeus.

Este período de hegemonia papal, profeticamente antecipado nos livros de Daniel (7:25; 12:7) e Apocalipse (11:2, 3; 12:6, 14; 13:5), começou em 538, quando o imperador Justiniano reconheceu o papa como cabeça de todas as igrejas, e terminou em 1798, no auge da Revolução Francesa, quando Berthier, general de Napoleão, aprisionou o papa Pio VI e privou a Igreja de seu poder temporal.

A fase "não é" da besta, por conseguinte, é definida pela ruptura entre a Igreja e o Estado em virtude da Revolução, e que deu origem ao laicismo, princípio político da separação entre ambas as esferas, que tem prevalecido até o momento.

A fase "está para emergir" ou "aparecerá" (Apocalipse 17:8) se refere, com efeito, a uma renovação da milenar aliança entre a mulher e a besta, entre a Igreja papal e o Estado, cujos sinais podem ser vistos desde a assinatura do Tratado de Latrão, entre Mussolini e a Igreja, que resultou na criação do Estado do Vaticano.

A localização de João na visão

Esta constatação exclusivamente favorecida pela profecia e historicamente comprovada nos leva ao segundo aspecto da visão: a localização do profeta no fluxo dos eventos de interesse da Providência.

O tempo presente para João na perspectiva de sua experiência visionária é claramente o tempo indicado pelo anjo na explicação da visão: a fase da besta "não é", que corresponde à cabeça que "existe", isto é, a sexta cabeça (versos 8 a 11).

Em outras palavras, João foi transportado de seu tempo e lugar reais, para o tempo e lugar da visão, especificamente para a fase "não é" da besta.

E, segundo vimos acima, essa fase corresponde à ruptura na relação Igreja-Estado, de modo que, em visão, o profeta foi conduzido ao nosso tempo para testemunhar acontecimentos de nossos próprios dias!

Isso é confirmado pela forma como as profecias do Apocalipse foram estruturadas.

Conforme já observamos em outras ocasiões, o santuário é central no Apocalipse. Não obstante, a partir do capítulo 10, há uma mudança significativa na dinâmica da revelação profética do primeiro para o segundo compartimento do santuário.

Essa mudança é assinalada em Apocalipse 11:19, em que João vê "o santuário de Deus que se acha no céu, e... a arca da Aliança no seu santuário", indicando que desse ponto em diante a revelação profética está intimamente associada à obra de Cristo no lugar santíssimo do santuário celestial.

Significa que João passa a testemunhar acontecimentos de interesse profético na perspectiva da realidade do juízo pré-advento, que é a etapa final da obra de Cristo na história da redenção, iniciada no ano de 1844, em cumprimento a Daniel 8:14, e que, à semelhança do Dia da Expiação levítico, realiza-se desde então no segundo compartimento do santuário celeste.

Portanto, as profecias do tempo do fim são reconhecidas como tais em virtude de sua conexão com a derradeira obra de Cristo como nosso Sumo Sacerdote e Juiz na sede de operações no Céu.

É da perspectiva do tempo do fim, ou seja, de 1844 em diante, que João contempla os últimos acontecimentos, inclusive as fases derradeiras da besta de Apocalipse 17. Não admira que as cenas da queda de Babilônia e do triunfo da Nova Jerusalém sejam introduzidas pelo mesmo anjo das pragas (17:1; 21:9)!

Uma vez reforçados esses dois importantes aspectos da visão, convém retomar nossa jornada e prosseguir em direção ao propósito maior da profecia: a vindicação final de Deus e de Seu povo!

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