Blog dedicado ao estudo de Apocalipse 14:6 a 12.

sábado, 5 de agosto de 2017

A mulher e a besta

Uma igreja não se converte numa meretriz, no sentido profético da palavra, por que deixou de guardar o sábado, atender às necessidades dos mais pobres ou praticar um estilo de vida saudável. Ela decai da sua condição original quando abandona seu "primeiro amor" (Apocalipse 2:4).

Nesta circunstância, um cristão pode muito facilmente perder de vista o significado de seu chamado ao confundir crenças e práticas externas do cristianismo com a religião verdadeira, ao passo que só pode observá-las corretamente, na hipótese de que estejam em harmonia com a Palavra de Deus, se Cristo estiver em seu coração (João 15:4-5).


Os verdadeiros discípulos de Jesus não são reconhecidos por sua profissão de fé, aparência de piedade ou eloquência, mas pela natureza de seu relacionamento com o Mestre, de modo que se possa dizer a seu respeito: "Eles estiveram com Jesus" (Atos 4:13)!

Se nosso amado Salvador não puder ser visto em nossos olhos, em cada atitude e palavra, até mesmo pelos mais ferrenhos adversários do cristianismo, como foi no caso de Pedro e João, de que valerá ter o bom nome de cristão? O que se dirá de nós, e, mais importante ainda, que dirá Cristo quando o nosso nome passar diante do tribunal celeste (ver Mateus 10:32-33)?

Como observa George R. Knight, guardaremos verdadeiramente os mandamentos de Deus somente quando nossas ações fluírem de um coração repleto do amor de Deus e ao próximo. Sem esse amor, apenas encenaremos a guarda dos mandamentos que está relacionada à fé de Jesus. (1)

Uma lição que não devemos esquecer

Cristãos que abandonam esse princípio fundamental do cristianismo, essa força motivadora que distingue tão marcadamente a igreja do mundo, podem esforçar-se por manter a aparência de piedade e de devoção a Deus, mas, para todos os efeitos, tornam-se piores do que seus inimigos.

O "primeiro amor" da igreja - o amor forte e ardente por Jesus Cristo que uma vez sentiram os crentes, ao serem atraídos pela luz do conhecimento de Deus e justificados pela fé em Jesus - foi, com o tempo, substituído por aquela paixão perigosa e infame que sente uma mulher quando permite que os galanteios de qualquer homem que não seja seu marido cativem suas primeiras afeições.

E, desde que os interesses da igreja estejam nas coisas deste mundo, e não em Cristo, é uma questão de tempo até que ela se prostitua com muitos amantes, e estes, por sua vez, sejam embriagados pela ação entorpecente do vinho que é produto de sua própria prostituição.

Tal é o quadro que se descortina diante de João na visão de Apocalipse 17.

Somos informados pelo anjo que a visão se refere ao "julgamento da grande meretriz que se acha sentada sobre muitas águas, com quem se prostituíram os reis da terra" (Apocalipse 17:1-2).

Na visão, a "mulher" corresponde à "grande meretriz", e a "besta escarlate", aos "reis da terra" (verso 3).

Como a aplicação da figura da mulher à igreja cristã foi suficientemente explorada até aqui, passaremos a considerar brevemente a figura da besta como símbolo dos governantes políticos, e, mais adiante, sua subserviência à mulher, que pretende conduzir e controlar as nações para os seus próprios fins.

O uso figurativo de animais nas profecias

Temos observado que o Apocalipse é quase que inteiramente estruturado a partir de expressões e imagens do Antigo Testamento, em particular aquelas empregadas no contexto da aliança de Deus com Seu povo.

A linguagem e o simbolismo apropriados pelo Apocalipse são, porém, aplicados na perspectiva do novo concerto, no qual Cristo é o personagem-chave, e Sua igreja, o Israel da nova aliança.

Só poderemos nos salvaguardar de interpretações errôneas se tivermos em mente que a linguagem hebraica do pacto presente no Apocalipse deve ser compreendida do ponto de vista do evangelho, isto é, em seu cumprimento em Cristo e na igreja.

Assim como a mulher, a figura da besta é extraída do Antigo Testamento, onde é sempre revelada em oposição ao povo da aliança de Deus.

No capítulo 7 de Daniel são mencionadas quatro bestas ou feras de natureza excepcional, as quais são expressamente identificadas como "quatro reis" ou "reinos" (verso 17).

O uso de animais como símbolos de governos não é algo incomum. O Egito era representado pela figura da serpente e do touro. Os medo-persas usavam a águia, assim como Roma, e a China, desde tempos imemoriais, é simbolizada pelo dragão. A Grã-Bretanha é representada pelo leão, e os Estados Unidos, pela águia.

Da mesma forma, as Escrituras fazem uso desse meio efetivo de ilustração para destacar certas qualidades de um animal, ou sugeridas por suas características singulares, que estão presentes nos poderes mundiais de interesse profético.

Nos animais simbólicos de Daniel 7 vemos que cada reino aí representado tem características próprias, porém todos eles possuem algo em comum: são simbolizados por uma besta ou fera predadora que não visa outro objetivo senão a conquista.

Nenhuma ordem mundial jamais foi baseada em padrões morais elevados. Nenhum grande império foi fundado por motivos mais nobres oriundos do sentimento de solidariedade e do bem comum.

Tais como bestas ferozes, movendo-se com uma determinação selvagem e assustadora atrás de sua caça, os reinos do mundo vivem para a posse do poder, anseiam por expandi-lo e não hesitam em recorrer a todo tipo de expediente moralmente reprovável. Desejam sua porção do poder com a mesma voracidade de uma besta faminta.

A natureza da besta escarlate e sua relação com a mulher

Em Apocalipse 17, esperamos encontrar a mesma natureza na besta escarlate de sete cabeças e dez chifres, que guarda certas semelhanças com o grande dragão vermelho, de Apocalipse 12, e a besta marítima, do capítulo 13, mas que também se distingue deles.

A exemplo de Daniel 7, a besta escarlate representa o poder político, claramente distinto da mulher, que em Apocalipse 17 simboliza o poder religioso.

Fato interessante é que nos capítulos 12 e 13 do Apocalipse os poderes políticos e religiosos empenhados em perseguir o povo de Deus são quase indistinguíveis um do outro, pois se acham representados no mesmo símbolo profético.

Apocalipse 17 estabelece uma clara distinção entre ambos apenas para fins didáticos, visto que não é possível entender um sem pelo menos certa compreensão do outro.

Ao descrever a mulher como montada na besta (Apocalipse 17:3), a visão pretende mostrar a relação de subordinação do Estado à Igreja, que com ele mantém relações ilícitas.

Em função disso, deixou de ser uma igreja, no sentido evangélico da palavra, para converter-se, ela mesma, em um Estado em meio aos Estados do mundo.

Como escreve A.S. Mello, a igreja não está ligada ao Estado por afinidades espirituais para espiritualizá-lo, mas por afinidades políticas, isto é, para fazer do Estado um dócil instrumento de sua política sob o véu de religião. Esta igreja não dá a César o que lhe é devido - o direito de governar sem a sua intromissão - e isto porque deixou de dar a Deus o que também Lhe é devido - a honra a que Ele tem direito como Deus. (2)

Assim, a igreja cristã, menos apostólica e mais católico-romana, subverteu, a um só tempo, os direitos de César e os direitos de Deus, exaltando-se sobre ambos.

E por esse ato inaudito, desprezou a mais ilustre honra prometida à igreja triunfante - de assentar-se com o Senhor Jesus em Seu trono (Apocalipse 3:21) - para fundar o seu próprio trono na Terra e ostentar-se como se fosse o próprio Deus (II Tessalonicenses 2:4).

As duas espadas

Para a igreja que abandonou a Cristo como o firme fundamento da fé, império e imperador tornam-se um perigo real na medida em que lhe serviam de modelo.

Ninguém pode servir a dois senhores. A história do conluio entre Igreja e Estado, acerca do qual a visão de Apocalipse 17 nos adverte, demonstra vivamente como nos movimentos políticos do tempo insinuam-se os movimentos espirituais e religiosos, com consequências bem conhecidas.

Em face dos movimentos heréticos e cismáticos e de outros perigos que então ameaçavam a igreja, pareceria razoável a um observador comum que ela devesse buscar o apoio do Estado para salvaguardar sua unidade espiritual.

Sim, porque tendo sido privada da liderança do Espírito Santo, em função de sua própria infidelidade, só lhe restava apelar à força do poder secular, seu novo mantenedor em lugar de Cristo, de modo que ainda pudesse afirmar-se como comunidade sagrada, depositária dos dons celestiais, e que deveria abranger o mundo inteiro.

E desde que Constantino elevou-se ao trono, e por cuja influência os clérigos cristãos alcançaram posições de prestígio e poder nas cortes imperiais, sua política, e a dos imperadores cristãos que o sucederam, contribuiu substancialmente para que o bispo de Roma, uma figura que teria sido estranha aos cristãos primitivos, obtivesse a supremacia.

Esta, no entanto, não deveria limitar-se às questões eclesiásticas, mas abranger também as temporais. Como observa Carl C. Eckhardt:

Sob o Império Romano, os papas não tinham poder temporal. Quando, porém, o império se desintegrou e seu lugar foi tomado por vários reinos rudes e bárbaros, a Igreja Católica Romana não só se tornou independente desses estados em assuntos religiosos, mas dominou também os assuntos seculares. Às vezes, sob governantes como Carlos Magno (768-814), Otto, o Grande (936-973) e Henrique III (1039-1056), o poder civil teve certo controle sobre a Igreja, mas em geral, durante o débil sistema político do feudalismo, a Igreja, bem organizada, unificada e centralizada, tendo por cabeça o papa, não só era independente nos assuntos eclesiásticos, como também controlava os assuntos civis. (3)

Isto se tornou uma doutrina medieval, conforme explicada pelo papa Bonifácio VIII (1294-1303):

Somos informados pelos textos dos evangelhos [?] que nesta Igreja e em seu poder estão duas espadas; nomeadamente, a espiritual e a temporal... Ambas, portanto, estão sob o poder da Igreja..., a primeira, porém, deve ser administrada para a Igreja, e a última, pela Igreja; a primeira, pelas mãos do padre; a última, pelas mãos dos reis e soldados, mas pela vontade e permissão do sacerdote. (4)

A consequência mais atroz de uma Igreja estatal

Este ponto de inflexão na história do cristianismo não deixou de ser lembrado por Pio IX, em seu breve apostólico, promulgado em 26 de março de 1860:

Por um decreto especial da Divina Providência sucedeu que, com a dissolução do Império Romano e sua divisão em vários reinos, o Pontífice Romano, a quem Cristo fez cabeça e centro de toda a Igreja, obteve o poder civil. (5)

O que pode resultar de tal sorte de coisas?

Então, vi a mulher embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus; e, quando a vi, admirei-me com grande espanto. (Apocalipse 17:6)

Talvez nada tivesse causado maior espanto a João do que testemunhar, em visão, o que cristãos professos são capazes de fazer quando abandonam o primeiro amor, a ponto de perseguir os próprios irmãos a quem deviam amar e acolher, superando até mesmo a tenacidade feroz dos inimigos mais implacáveis da igreja durante a era das primeiras perseguições.

Usurpar títulos honoríficos e divinos para afirmar sua autoridade (sobre isso, clique aqui) transforma a Igreja em um instrumento de opressão tão certamente quanto dois mais dois são quatro.

A fusão entre Igreja e Estado restringe a liberdade religiosa, e qualquer afastamento da doutrina e da disciplina da igreja estabelecida resulta em punição civil.

Referindo-se a essa condição notavelmente presente durante os séculos de ferro da Igreja, Philip Schaff escreve:

Esta perseguição aos hereges foi uma consequência natural da união dos direitos e deveres religiosos e civis, da confusão dos direitos civis e eclesiásticos, das autoridades judiciais e morais, o que ocorreu desde Constantino... A Igreja, de fato, aderiu firmemente ao princípio de que, como tal, devia empregar apenas sanções espirituais, excomunhão em casos extremos... Envolvida, porém, no conceito de teocracia judaica e de uma igreja estatal, ela praticamente confundiu de várias maneiras a posição do Direito e do evangelho, e a princípio aprovou a aplicação de medidas severas contra hereges, e não raro encorajou e estimulou o Estado para que, assim fazendo, assumisse ao menos indiretamente a responsabilidade pela perseguição. Isto é especialmente verdadeiro no que se refere à igreja romana durante o período de sua maior grandeza, da Idade Média até fins do século XVI, e por esta conduta a igreja se fez mais ofensiva aos olhos do mundo e da civilização moderna do que por suas doutrinas e costumes peculiares. (6)

De olho na profecia

Benjamin Franklin tinha razão, ao escrever:

Quando uma religião é boa, imagino eu que ela se sustentará por si mesma; quando ela não pode se sustentar e Deus não cuida de dar-lhe apoio, tão logo seus ensinadores se veem obrigados a clamar por ajuda do poder civil, isto é um sinal, creio eu, da falsidade de sua natureza. (7)

Toda a história da subordinação dos interesses civis aos interesses religiosos, do entrelaçamento entre Igreja e Estado, tal como revelado em Apocalipse 17, traz consigo uma advertência que não deve ser esquecida.

Porque aquilo que parece resultar em grande bem para a religião e para a sociedade pode, invariavelmente, ir de mal a pior e terminar em perseguição contra todos os que querem servir a Deus segundo os ditames de sua consciência.

Em vista disso, ainda temos muito a aprender desta extraordinária visão, antes que possamos nos posicionar definitivamente ante a mensagem do segundo anjo (Apocalipse 14:8), o qual anuncia a iminente queda da grande Babilônia.


Notas e referências

1. George R. Knight. A Visão Apocalíptica e a Neutralização do Adventismo: Estamos apagando nossa relevância? Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2010, p. 49.

2. A.S. Mello. A Verdade sobre as Profecias do Apocalipse. São Paulo, 1959, p. 492 e 493.

3. Carl C. Eckhardt. The Papacy and World-Affairs. Chicago: University of Chicago Press, 1937, p. 1.

4. Unam Sanctam, One God, One Faith, One Spiritual Authority. Pope Boniface VIII - November 18, 1302.

5. Breve Cum Catholica Ecclesia del Sommo Pontefice Pio IX.

6. Philip Schaff. History of the Christian Church, Vol. III: Nicene and Post-Nicene Christianity. A.D. 311-600. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 2002, p. 99.

7. http://www.azquotes.com/quote/575142

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