sábado, 30 de maio de 2020

A ascensão da China: fim do domínio americano?


Em um tom abertamente provocativo, um editorial do Global Times, a versão em inglês do tabloide controlado pelo Partido Comunista da China, criticou a reação dos Estados Unidos à lei de segurança nacional para Hong Kong, administrada por Pequim.

As provocações do governo chinês não são novidade, mas, neste caso, os seguintes parágrafos chamaram especialmente minha atenção:

Como os EUA estão emaranhados na epidemia de COVID-19, sua capacidade real de intervir externamente está enfraquecendo. A Casa Branca alegou que iria impor sanções à China, mas as ferramentas e os recursos à sua disposição são menores do que aqueles que ela poderia mobilizar antes do surto. Eles estão apenas blefando.

O mundo ocidental inteiro não seguirá os EUA. A China é um mercado imenso e os EUA são incapazes de fornecer compensação suficiente para equilibrar as perdas se os países ocidentais ficarem alienados da China. Os valores ainda têm um forte apelo, mas não podem substituir os interesses fundamentais de um país em busca do desenvolvimento.

A provocação em uma questão que tem sido a causa mais recente da rápida deterioração das relações sino-americanas, com o risco real de um conflito armado, possui implicações que vão muito além da retórica. Como Kyle Bass, da Newsweek, escreveu:

Hong Kong se tornou o marco zero para o choque ideológico entre democracia e comunismo chinês repressivo. O mundo deve se concentrar em Hong Kong. Não se trata apenas do destino de milhões de manifestantes pacíficos, mas da democracia, de promessas renegadas e de uma ordem global que está mudando à medida que o Partido Comunista Chinês continua a mudar seus termos de compromisso.

A queda do Muro de Berlim impactou o regime soviético e seus estados satélites, mas não a ideologia. O embate cada vez mais inflamado ainda gira em torno do conflito entre dois sistemas de governo que são mutuamente excludentes, e agora chegamos a um ponto nas tensões que pode ser decisivo. A questão é: Neste choque ideológico, quem sairá vitorioso?

A ausência de organização e liderança dos Estados Unidos na resposta à pandemia, tanto no plano doméstico, como mundial, não parece favorecer o país nesse conflito. A crise revelou uma nação mais fraca, menos influente e mais desprezada, algo que a imprensa não deixou de explorar:

Enquanto a América parece incapaz de exercer a liderança em meio à crise, a China a tem usado como um trampolim para colocá-la no centro do poder e influência globais.

“Com a provável emergência da China como a primeira grande economia mundial a suspender os bloqueios e recuperar o crescimento”, escreveu Frederick Kempea, da CNBC, “a Covid-19 agora oferece uma chance única em um século de acelerar a mudança geopolítica a favor de Pequim em 2020 e muito além”.

Isso realmente poderia acontecer? De acordo com a Bíblia, a resposta é NÃO! Todo o maciço investimento político, tecnológico e militar da China nesse sentido está fadado ao completo fracasso. Nem mesmo a "janela de oportunidade" aberta pelo coronavírus trará vantagens concretas a Pequim. Vejamos a razão.

A geopolítica no tempo do fim

Consideremos por um instante a visão de Daniel no capítulo 11. Como nas demais séries proféticas do livro, este capítulo cobre basicamente a mesma linha do tempo, começando nos dias do profeta e avançando continuamente até o tempo do fim e o estabelecimento do reino eterno de Deus.

A visão foi dada a Daniel no terceiro ano do reinado de Ciro (Daniel 10:1). Por isso, a visão começa com o domínio persa, mencionando em seguida seu conflito com a Grécia (verso 2), cujo "rei poderoso", no auge do poder, tem seu reino "quebrado e repartido para os quatro ventos do céu" (versos 3 e 4), uma clara referência ao império de Alexandre, o Grande, que, com sua morte prematura, e sem um sucessor direto, teve o imenso território dividido em quatro reinos.

Do verso 5 em diante, a profecia se concentra em dois destes reinos, em virtude de sua influência sobre o povo de Deus: a Síria, governada pelos selêucidas, e o Egito, comandado pelos ptolomeus. Do ponto de vista geográfico da Palestina, o "rei do Norte" e o "rei do Sul", respectivamente.

Observe, no entanto, que a identificação desses reinos muda à medida que acompanhamos o fluxo natural da visão.

Duas referências importantes na profecia indicam claramente essa mudança. A primeira é ao "príncipe da aliança" (verso 22), o mesmo Príncipe que faz "firme aliança com muitos" e é identificado como "Ungido", o Messias (Daniel 9:25-27).

Considerando que o "príncipe da aliança" foi "quebrantado" durante o domínio do "homem vil" (Daniel 11:21), este não pode ser outro senão Tibério César, sucessor de Augusto, sob cujo governo Jesus Cristo foi crucificado (ver Lucas 3:1).

Portanto, neste ponto da visão, o "rei do Norte" representa o Império Romano, em harmonia com a sequência das demais séries proféticas.

A segunda referência ocorre em Daniel 11:36-39. Estes versos apresentam novas especificações sobre o "rei do Norte" que não podem ser historicamente aplicadas a Roma em sua fase imperial. Para ser objetivo, mencionarei apenas o verso 36:

Este rei fará segundo a sua vontade, e se levantará, e se engrandecerá sobre todo deus; contra o Deus dos deuses falará coisas incríveis e será próspero, até que se cumpra a indignação; porque aquilo que está determinado será feito.

Note que a descrição neste verso é paralela às descrições que encontramos em Daniel 8:11, 25; II Tessalonicenses 2:4; e Apocalipse 13:2, 6. O seguinte quadro nos ajuda a perceber melhor esse paralelismo (clique para ampliar):




Não há dúvida de que estas especificações paralelas descrevem o mesmo poder: o papado! Assim, em Daniel 11:36-39, o "rei do Norte" simboliza Roma em sua fase papal.

Ocorre, porém, que, no "tempo do fim" (verso 40), o papado não é o único poder compreendido na designação "rei do Norte".

Sabemos disso à luz de Apocalipse 13:11-18. Nestes versos, o papado é identificado pela expressão "primeira besta" (verso 12), a besta cuja cabeça papal fora mortalmente ferida (verso 3), mas que revive no tempo do fim graças à atuação de sua promotora e agente, a segunda besta, símbolo da América protestante.

11 Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão.

12 Exerce toda a autoridade da primeira besta na sua presença. Faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta, cuja ferida mortal fora curada.

14 Seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta, àquela que, ferida à espada, sobreviveu.

Apocalipse 16:13-14 também menciona os dois poderes agindo em conjunto com o dragão, símbolo de Satanás (Apocalipse 12:9). Da mesma forma, ambos os poderes são "aprisionados" na segunda vinda de Cristo (19:20), e ambos sofrem, juntamente com o diabo, o juízo executivo de Deus depois do milênio (20:10).

Assim, o "rei do Norte" em Daniel 11:40 designa tanto o papado como os Estados Unidos da América, visto que estes dois poderes atuarão em estreita colaboração dentro do marco do tempo do fim e partilharão a mesma sorte.

Um conflito ideológico decisivo

Se, no tempo do fim, o "rei do Norte" representa o papado e a América protestante, quem é o poder simbolizado pelo "rei do Sul"?

Lembre-se que não devemos ser dogmáticos diante de profecias ainda não cumpridas. O que vem a seguir oferece uma explicação possível à luz dos acontecimentos mais recentes.

A princípio, o "rei do Sul" se referia ao reino do Egito sob a dinastia ptolomaica. O Egito se tornou conhecido por negar a existência do Deus de Israel e por desafiar os mandamentos do Senhor. Faraó disse: "Quem é o Senhor para que lhe ouça eu a voz [...]? Não conheço o Senhor" (Êxodo 5:2).

Devemos esperar encontrar a mesma característica no "rei do Sul" do tempo do fim.

Há em Apocalipse 11:8 um precedente importante para o emprego da palavra "Egito" como figura de linguagem. Neste texto, a "grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito" é identificada com a França, palco das forças revolucionárias ateístas no fim do século XVIII.

De modo que o "rei do Sul", no contexto do tempo do fim, representa um poder que, à semelhança de faraó no Egito e da França revolucionária, nega a existência de Deus. Ele usará seu ateísmo militante para derrubar a hegemonia do "rei do Norte", isto é, a América do Norte, o aliado mais poderoso do papado.

Qual país hoje é o ícone do ateísmo no mundo? A China comunista, que pretende estender sua influência econômica, militar e ideológica sobre todo o planeta! Pequim se apresenta como a principal alternativa à ordem democrática e liberal liderada pelos Estados Unidos.

Daniel 11:40 descreve, então, um conflito ideológico que será decisivo:

No tempo do fim, o rei do Sul lutará com ele, e o rei do Norte arremeterá contra ele com carros, cavaleiros e com muitos navios, e entrará nas suas terras, e as inundará, e passará.

Note que neste confronto ainda futuro, o "rei do Sul" é quem avança primeiro. Este verso sugere fortemente que ainda não vimos o capítulo mais dramático deste conflito ideológico.

A política agressiva de Pequim para assumir o protagonismo no mundo é bem conhecida, e o surto de coronavírus tem sido uma oportunidade para a China se apresentar como superpotência emergente.

Como observado em uma matéria do Financial Times, os custos que a China suporta hoje são pequenos em comparação aos que ela precisaria arcar - durante décadas - para se tornar uma superpotência. Isso, porém, não parece afetar o ímpeto da política expancionista de Pequim.


Print screen de uma imagem da rede de televisão chinesa, CCTV, no momento da decolagem de um caça J-15 do primeiro porta-aviões construído na China, o Shandong.

A julgar pelas crescentes tensões militares entre China e Estados Unidos, é possível que estejamos no limiar de um conflito mundial que poderá redefinir a ordem do mundo. Como a profecia claramente antecipa, nesta disputa ideológica o "rei do Norte" triunfará sobre o "rei do Sul", certamente não para a vantagem das liberdades que a América protestante e o papado moderno professam amar e defender.

Não só o Ocidente, mas o mundo inteiro seguirá os Estados Unidos. A China não terá qualquer protagonismo. Como Ellen G. White observa:

Quando a América, o país da liberdade religiosa, se aliar com o papado, a fim de dominar as consciências e impelir os homens a reverenciar o falso sábado, os povos de todos os demais países do mundo hão de ser induzidos a imitar-lhe o exemplo. (Testemunhos Seletos, A mensagem dos três anjos, p. 373).

A despeito dos atuais desafios à governabilidade, os Estados Unidos continuarão sendo a única superpotência verdadeiramente unipolar.

Daniel 11 revela que haverá guerras e conflitos até o fim. Podemos estar certos de que eles aumentarão, à medida que a obra de intercessão e juízo de nosso Sumo Sacerdote no santuário celestial se aproxima rapidamente de seu desfecho.

Quando este dia chegar - e ele está muito próximo -, "o reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu", que as bestas e o chifre pequeno usurparam, "serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será reino eterno, e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão" (Daniel 7:27).

Queira Deus que estejamos entre aqueles que reinarão com Cristo pelos séculos dos séculos (Apocalipse 22:5)!

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A luz da liberdade está sendo extinta


"Para que uma sociedade seja livre, seu governo precisa ser controlado". Assim Ayn Rand, romancista e filósofa russo-americana, sintetizou a condição indispensável para a existência de uma sociedade na qual o indivíduo é reconhecido como um cidadão de direito, ao passo que um funcionário público é obrigado a agir segundo os atos oficiais do governo. "Um indivíduo pode fazer qualquer coisa, exceto o que é legalmente proibido; um funcionário do governo não pode fazer nada além do que é legalmente permitido".

Assinalando que a natureza das leis próprias de uma sociedade livre e a fonte da autoridade de seu governo devem ser derivadas da natureza e do objetivo de um governo adequado, ela observa que o princípio básico de ambos é indicado na Declaração de Independência dos Estados Unidos: "para garantir esses direitos [individuais], os governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados...".

A autora esclarece oportunamente esse ponto:

A fonte de autoridade do governo é o "consentimento dos governados". Isso significa que o governo não é o governante, mas o servo ou agente dos cidadãos; que o governo, como tal, não tem direitos, exceto os direitos delegados a ele pelos cidadãos para uma finalidade específica. [1]

Ela lembra que, na história, a compreensão do bom funcionamento do governo é uma conquista muito recente, e que o sistema americano de freios e contrapesos representa exatamente essa conquista; "a conquista incomparável" do "conceito de constituição como um meio de limitar e restringir o poder do governo".

A Declaração dos Direitos afirma que os direitos do povo, e, particularmente, do indivíduo, não derivam do Estado, mas são de origem natural e divina. A Declaração não concede direitos ao povo; apenas os reconhece, ao passo que limita os poderes do governo, restringindo as ações daqueles que ocupam cargos públicos.

No entanto, a Carta de proteção dos cidadãos contra o governo nunca esteve tão ameaçada em face do esforço conjunto que tem sido feito para suprimi-la, à medida que o poder do Estado aumenta, como observei em um artigo recente. As palavras de Ayn Rand a esse respeito merecem ser citadas, tendo em perspectiva a atual crise:

Agora considere a extensão da inversão moral e política na visão predominante do governo de hoje. Em vez de ser um protetor dos direitos do homem, o governo está se tornando seu violador mais perigoso; em vez de salvaguardar a liberdade, o governo está estabelecendo a escravidão; em vez de proteger os homens dos instigadores da força física, o governo está introduzindo a força física e a coerção indiscriminadamente e sob o pretexto que desejar; em vez de servir como instrumento de objetividade nas relações humanas, o governo está criando um reino mortal e subterrâneo de incerteza e medo, por meio de leis não objetivas cuja interpretação é deixada às decisões arbitrárias de burocratas aleatórios; em vez de proteger os homens de danos por capricho, o governo está arrogando para si o poder do capricho ilimitado - de modo que estamos nos aproximando rapidamente do estágio da inversão final: o estágio em que o governo é livre para fazer o que bem entender, enquanto os cidadãos podem agir apenas com permissão; que é o estágio dos períodos mais sombrios da história humana, o estágio do governo pela força bruta. [2]

Essa inversão moral e política nunca foi tão evidente como na aplicação excessivamente zelosa das políticas de quarentena e das atuais medidas que visam regular as condições de circulação, distanciamento social, reuniões públicas, transações comerciais e uso dos espaços públicos, além das políticas de vigilância e rastreamento, censura de informações, etc., em resposta ao surto do novo coronavírus.

Diante desses fatos e da nova realidade que desponta - o mundo pós-lockdown das "bolhas sociais" criadas por um Estado mais forte e mais onipresente -, somos forçados a admitir que já chegamos ao "estágio da inversão final: o estágio em que o governo é livre para fazer o que bem entender, enquanto os cidadãos podem agir apenas com permissão".

Mudança de paradigma: da luz da liberdade à escuridão distópica

Conforme entramos em uma era de crescente instabilidade e incerteza, presenciamos os direitos essenciais que dependem da limitação e restrição constitucionais dos poderes do governo sendo sistematicamente comprometidos em nome da segurança pública.

Não é meu propósito aqui discutir se as respostas governamentais à Covid-19 são justificáveis ou não, mas destacar o quanto essas decisões políticas têm servido de pretexto a um processo totalitário.

No início de abril, o secretário de Estado, Mike Pompeu, alertou que as autocracias usarão a crise "para se tornarem mais agressivas, negarem às pessoas seus direitos" e "mentirem mais". Ele estava se referindo a regimes como o da China, mas algo semelhante tem acontecido em países com longa tradição democrática.

Na França, durante a quarentena, os cidadãos que necessitassem sair de casa deveriam portar um formulário de autorização, expedido pelo governo, com a indicação de uma ou mais das sete opções previstas. As autoridades francesas enfatizaram que o tempo de permanência fora de casa deveria ser restrito a uma vez por dia e nunca ultrapassar uma hora para determinadas tarefas, como passear com o cachorro ou fazer alguma atividade física individual. E para garantir que as pessoas cumprissem as regras, policiais foram mobilizados para vigiar ruas e estradas.

No Reino Unido, o governo pretende expedir passaportes de imunidade para britânicos que já contraíram e se recuperaram do vírus, uma condição para que retornem à vida econômica. Em Bedfordshire, a Central Community Team, que representa a polícia local, tuitou a seguinte mensagem: "Se você acha que indo a um piquenique em um local rural ninguém o encontrará, não se surpreenda se um policial aparecer das sombras! Estamos cobrindo todo o condado".


No momento em que escrevo, o governo italiano anunciou um programa de recrutamento de 60 mil pessoas, especialmente entre os desempregados, para monitorar as atividades de seus concidadãos e garantir que estejam cumprindo as políticas de distanciamento social. Chamadas de "assistentes cívicos", elas denunciarão infrações ao uso de máscaras faciais e a outras regras pós-lockdown prescritas pelo Estado.

Seguindo a política de países como Cingapura, Índia e Tunísia, a União Europeia planeja usar robôs e drones equipados com câmeras infravermelhas para patrulhar os turistas e aplicar as regras de distanciamento social durante a temporada de verão.


Robô da Boston Dynamics patrulhando um parque em Cingapura.
O futuro distópico dos romances do gênero deixou o domínio da ficção para se tornar realidade.

Os Estados Unidos têm sido palco de um sem número de casos perturbadores, dos quais convém citar aqueles que me parecem mais representativos.

A polícia de Bellevue, em Washington, usou um aplicativo de utilidade pública para transformar vizinhos em informantes do governo, pedindo aos moradores que denunciassem violações da ordem de "ficar em casa".

Em Los Angeles, o prefeito chegou a anunciar que a cidade recompensaria aqueles dispostos a denunciar violadores das medidas emergenciais, com a Associated Press informando que algumas pessoas estavam felizes, até entusiasmadas em delatar seus vizinhos.

Em Louisville, Kentucky, um juiz ordenou que as pessoas que ignorassem as ordens de ficar em casa deveriam usar tornozeleiras com GPS.

Em Rhode Island, a polícia estadual montou bloqueios visando veículos com placas do estado de Nova York, epicentro da pandemia, enquanto a Guarda Nacional foi mobilizada para ir de porta em porta à procura de cidadãos procedentes daquele estado.

Em Baltimore, Maryland, a Guarda Nacional foi acionada para impor o toque de recolher devido à Covid-19, e em Chicago, o prefeito ameaçou prender pessoas que violassem as ordens de permanecer em casa.

A polícia de Detroit foi autorizada a usar aviões e câmeras de vigilância para punir com multa de US$ 1.000,00 e até seis meses de detenção pessoas que não observassem o distanciamento social.

Em Brighton, Colorado, um pai foi preso em um parque por jogar Tee-ball com sua esposa e filha de 6 anos porque não observou o distanciamento social.

Visando dar às autoridades americanas o poder de deter indefinidamente seus cidadãos durante uma emergência, o Departamento de Justiça pediu discretamente ao Congresso a competência de solicitar aos juízes a detenção de pessoas por tempo indeterminado sem julgamento durante emergências - o que o Politico descreveu como "parte de um impulso por novos poderes que surgem à medida que o novo coronavírus se espalha pelos Estados Unidos".

Além disso, o Senado votou para conceder às autoridades policiais acesso a dados de navegação na web sem um mandado, e para dar ao procurador-geral William Barr a prerrogativa de examinar o histórico de navegação na web de qualquer americano - incluindo jornalistas, políticos e rivais políticos - sem um mandado, apenas sob a justificativa de que é relevante para uma investigação.

George Orwell deve estar se revirando no túmulo!

Um prenúncio de tempos difíceis

Ao dar aos governos novos poderes invasivos de vigilância e coleta de dados, a pandemia revelou quão subitamente os valores democráticos e as liberdades civis podem se tornar mera retórica política e, o mais das vezes, uma cobertura apropriada para o poder e o controle sem limites.


Mapa mundial do reconhecimento facial (clique na imagem para ampliá-la).
As regiões em verde indicam onde a tecnologia está sendo empregada (Crédito: Visual Capitalist)

Um artigo publicado no site da Forbes observou (note as palavras):

[O] uso em massa de sensores conectados deixa claro que a pandemia de coronavírus está - intencionalmente ou não - sendo usada como um teste para novas tecnologias de vigilância que podem ameaçar a privacidade e as liberdades civis. Portanto, além de ser uma crise de saúde global, o coronavírus tornou-se efetivamente um experimento sobre como monitorar e controlar pessoas em grande escala.

Em breve, um número significativo de países aproveitará a tecnologia inteligente para monitorar o tráfego de veículos e pedestres, verificar se estamos observando regras de distanciamento social e rastrear nossos contatos. E após a pandemia, essa tecnologia pode acabar sendo usada para monitorar e investigar o comportamento humano em geral. Escusado será dizer que aqueles que estão monitorando e investigando podem nem sempre ter nossos melhores interesses em estima.

Usar uma crise como um experimento para monitorar e controlar pessoas não é o que se esperaria de um "governo do povo, pelo povo e para o povo".

Em uma recente entrevista, o controverso Edward Snowden expressou preocupações semelhantes:

Parece que [o coronavírus] pode ser a maior questão da era moderna em torno das liberdades civis, em torno do direito à privacidade. No entanto, ninguém está fazendo essa pergunta. À medida que o autoritarismo se espalha, à medida que as leis de emergência proliferam, à medida que sacrificamos nossos direitos, também sacrificamos nossa capacidade de deter a queda em direção a um mundo menos liberal e menos livre. Você realmente acredita que quando a primeira onda, essa segunda onda, a 16ª onda do coronavírus for uma memória esquecida há muito tempo, esses recursos não serão mantidos? Que esses conjuntos de dados não serão mantidos? Não importa como está sendo usado, o que está sendo construído é a arquitetura da opressão.

A menção à "queda em direção a um mundo menos liberal e menos livre" é particularmente significativa. Embora devamos defender um mundo mais liberal (economicamente falando) e mais livre, sabemos pela Palavra de Deus que as condições nos últimos dias não favorecerão nem uma coisa nem outra.

Por certo, a besta marítima - símbolo do poder papal - não receberá "autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação" (Apocalipse 13:7) nem tampouco a exercerá em um contexto verdadeiramente democrático. Da mesma forma, a imposição de "certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte", condição essencial para que os assinalados tenham vida econômica (13:16-17), não pode ocorrer sob um sistema que reconhece a liberdade de consciência e a liberdade de expressão da forma como são consagradas pela Declaração dos Direitos.

No entanto, o mais surpreendente é que as massas adorarão entusiasticamente este poder, e, sob a sedução extraordinária da segunda besta - a América protestante - cederão facilmente suas liberdades ao erigir "uma imagem" à primeira besta (Apocalipse 13:14)! Ora, a imagem da besta nada mais é do que o autoritarismo de Roma papal como modelo para os Estados Unidos.

Esta faceta do comportamento humano antecipada na profecia pode ser vista, ainda que em proporção menor, na crise global provocada pela Covid-19, na medida em que, para muitos, a liberdade se tornou menos importante do que a segurança.

Ao comentar sobre a resposta da polícia ao coronavírus em uma entrevista ao programa World at One, da BBC Radio 4, Jonathan Sumption, ex-juiz da Suprema Corte britânica, disse o seguinte:

O verdadeiro problema é que, quando as sociedades humanas perdem sua liberdade, geralmente não é porque os tiranos a tomaram. Geralmente é porque as pessoas renunciam voluntariamente à sua liberdade em troca de proteção contra alguma ameaça externa. E a ameaça geralmente é uma ameaça real, mas comumente exagerada. É isso que eu temo que estejamos vendo agora. A pressão sobre os políticos veio do público. Eles querem ação. Eles não param para perguntar se a ação funcionará. Eles não se perguntam se vale a pena pagar o custo.

Referindo-se às políticas pouco transparentes da guerra ao terror, Nicholas Hagger identificou o mesmo comportamento, ao observar:

Nós abrimos mão de liberdades com grande satisfação em troca de segurança. Se um governo mundial for capaz de garantir nossa segurança, então será bem-vindo. Se ele for capaz de colocar sob um escudo protetor três quartos do mundo contra o truculento um quarto e desenraizar seu terrorismo por um período de tempo, transformando o mundo todo em um lugar mais seguro, então cooperaremos com ele. [3]

Pense nas implicações proféticas destas declarações!

Ao advertir sobre a crise dominical iminente, Ellen G. White escreveu:

Os dignitários da Igreja e do Estado unir-se-ão para subornar, persuadir ou forçar todas as classes a honrar o domingo. A falta de autoridade divina será suprida por legislação opressiva. A corrupção política está destruindo o amor à justiça e a consideração para com a verdade; e mesmo na livre América do Norte, governantes e legisladores, a fim de conseguir o favor do público, cederão ao pedido popular de uma lei que imponha a observância do domingo. A liberdade de consciência, obtida a tão elevado preço de sacrifício, não mais será respeitada. No conflito prestes a se desencadear, veremos exemplificadas as palavras do profeta: “O dragão irou-se contra a mulher, e foi fazer guerra ao resto da sua semente, os que guardam os mandamentos de Deus, e têm o testemunho de Jesus Cristo.” Apocalipse 12:17.

Você acredita realmente que mesmo os democratas mais convictos não renunciarão às suas convicções quando os clamores do povo forem suficientemente claros e sonoros?

Não é exagero dizer que estamos testemunhando a luz da liberdade sendo extinta em nome do "bem comum". Nada disso, porém, deveria nos surpreender, pois a Bíblia declara que o mundo caminhará precisamente nesta direção. Não tenho dúvida de que chegou o tempo para se realizar uma reforma completa entre o povo de Deus, sem a qual não seremos capazes de enfrentar as provas, dificuldades e tribulações ainda por vir.


Notas e referências

1. Ayn Rand, Capitalism: The Unknown Ideal. New York: The New American Library, 1967, p. 331 e 332.

2. Ibid., p. 336.

3. Nicholas Hagger, A Corporação: A História Secreta do Século XX e o Início do Governo Mundial do Futuro. São Paulo: Cultrix, 2009, p. 247 e 248.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Três lembretes da Declaração dos Direitos


Por Jacob G. Hornberger, The Future of Freedom Foundation

Como condição para aceitar a Constituição, o povo americano exigiu a promulgação da Declaração dos Direitos imediatamente após a ratificação da Constituição. Eles tinham certeza de que a Constituição estava criando um governo nacional cujos poderes eram limitados aos enumerados na Constituição. Mas isso não os satisfez. Eles queriam uma Declaração dos Direitos para deixar claro que o governo federal estava proibido de fazer as coisas listadas na Declaração. Há várias coisas importantes a serem observadas sobre a Declaração dos Direitos:

Primeira, a Declaração dos Direitos não concede direitos ao povo. Nossos ancestrais entenderam que os direitos vêm da natureza e de Deus, não do governo. Os direitos do povo preexistem ao governo.

Segunda, a Declaração dos Direitos consiste em proibições e restrições ao governo federal. Por que isso é importante? Porque nossos ancestrais sabiam que o poder federal atrairia inevitavelmente pessoas para cargos públicos que fariam os tipos de coisas que estavam sendo restringidos. Elas criminalizariam o discurso, especialmente o discurso que criticasse as autoridades federais. Proibiriam protestos contra o governo. Forçariam as pessoas a aderir a uma certa religião. Apreenderiam as armas das pessoas. Puniriam qualquer malfeitor simplesmente fazendo com que agentes civis ou militares levassem as pessoas sob custódia, as encarcerassem, torturassem ou executassem, tudo sem julgamento por júri e o devido processo legal. A Declaração dos Direitos deveria servir como um lembrete de que as autoridades federais não têm poder legítimo para fazer nenhuma dessas coisas.

Terceira, a Declaração dos Direitos não contém nenhuma exceção de emergência ou crise. Isso porque nossos ancestrais sabiam que historicamente crises e emergências são o meio consagrado pelo tempo de tirar as liberdades do povo e entregá-las nas mãos de seu próprio governo. Durante esses períodos, as pessoas ficam com medo e sua tendência natural é procurar o governo para mantê-las seguras. Esquecem que a maior ameaça à sua liberdade é o seu próprio governo, conforme refletido na Constituição e na Declaração dos Direitos. Assim, elas trocam avidamente sua liberdade por "segurança". Mais tarde, quando a crise ou emergência passa, descobrem que o governo não está disposto a renunciar ao poder que adquiriu sobre elas.

sábado, 16 de maio de 2020

A tempestade perfeita


“Tempestade perfeita” é uma expressão que se refere a um evento climático de grandes proporções, produzido por uma rara combinação de fenômenos meteorológicos. Em sentido figurado, significa qualquer evento em que uma situação é sobremodo agravada por um conjunto de circunstâncias excepcionalmente incomum.

O que o mundo está enfrentando agora é uma tempestade perfeita. Os efeitos do surto do novo coronavírus têm sido exacerbados por uma confluência de crises que vão desde a acumulação de condições econômicas recessivas e crescente tensão geopolítica até condições climáticas extremas, que incluem erupções vulcânicas, pragas de gafanhotos e, é claro, tempestades.

Assumir um retorno à normalidade inconscientemente pressupõe que o mundo era normal antes da pandemia. Não, não era, e o futuro será menos normal do que imaginávamos ser o presente até há pouco. Como escreveu John Gray, do New Statesman:

O mundo será diferente de como o imaginamos no que pensávamos ser em tempos normais. Não se trata de uma ruptura temporária em um equilíbrio estável: a crise pela qual estamos passando é um ponto de inflexão na história.

Este não é o tipo de evento que pode ser subestimado ou exagerado.

Por que isso é importante?

Pontos de inflexão biblicamente relevantes não são muito comuns. Eles normalmente marcam o início e o fim de grandes períodos proféticos, como "um tempo, dois tempos e metade de um tempo" (Daniel 7:25), "42 meses" (Apocalipse 13:5) ou "1.260 dias" (12:5), expressões que se referem ao período de supremacia papal.

A libertação de Roma do cerco ostrogodo em março de 538 foi o acontecimento decisivo que permitiu ao pontífice romano exercer a jurisdição legalmente prevista quatro anos antes no Código Imperial de Justiniano, marcando o início de uma longa escalada em direção ao poder político que definiu a história europeia por séculos.

Transcorreram exatos 1.260 anos até que outro evento crucial inaugurasse um novo rumo na história.

Em fevereiro de 1798, Roma foi ocupada pelas tropas napoleônicas. Dentro de poucos dias, o papa foi deposto enquanto soberano temporal, preso e exilado na França, onde veio a falecer no ano seguinte. Em março de 1798, o então presidente do Conseil des Anciens, Pardoux Bordas, pronunciou "uma oração fúnebre pelo papado", um gesto simbólico que marcou o fim do antigo regime e o início do estado secular.

Outro exemplo significativo é a profecia de Daniel 8:14 - “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado”. Trata-se do maior período profético das Escrituras.

“Tardes e manhãs” correspondem a dias (Gênesis 1:5, 8, 13, 19, 23 e 31). Portanto, as 2.300 tardes e manhãs equivalem a 2.300 dias proféticos, ou, segundo o princípio bíblico do dia/ano (Números 14:34; Ezequiel 4:4-7), 2.300 anos literais.

Uma vez que a profecia das “setenta semanas” de Daniel 9 é parte integrante dos 2.300 dias proféticos do capítulo 8, o evento que marca o início do período menor também assinala o início do período maior.

A “saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém” (Daniel 9:25) é o ponto de partida de ambos os períodos proféticos. O livro de Esdras registra três decretos referentes à repatriação dos judeus, dos quais o último, o de Artaxerxes (Esdras 7:1-26), concedeu-lhes autonomia completa, sob o domínio persa.

Este decreto foi promulgado “no sétimo ano do rei Artaxerxes”, quando Esdras “subiu da Babilônia” em direção a Jerusalém (Esdras 7:1-7), tendo chegado à cidade “no quinto mês, no sétimo ano deste rei” (verso 8), ou seja, no outono de 457 a.C.

Dois mil e trezentos anos depois, cumpre-se a profecia da purificação do santuário, isto é, no outono de 1844. Visto que a purificação de que fala Daniel 8:14 corresponde ao juízo no Céu de Daniel 7:9 e 10, o evento que assinala o fim dos 2.300 anos diz respeito à purificação do “maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, quer dizer, não desta criação”, no qual Cristo, nosso Sumo Sacerdote, é ministro (Hebreus 9:11; 8:1-2)!

Ao contrário de 1798, que marcou o fim dos 1.260 anos de hegemonia papal, referindo-se, portanto, a um evento terrestre, o ano de 1844 assinala o início de um evento celestial - a purificação do santuário no Céu ou juízo investigativo -, o qual inaugurou efetivamente o tempo do fim. Eis a razão por que Gabriel instruiu Daniel a “preservar a visão, porque se refere a dias ainda mui distantes” (Daniel 8:26. Ver também 12:4 e 8-9).

Nesse ponto, somos levados ao livro do Apocalipse. Nele há três séries proféticas de sete: as sete igrejas (2:1 a 3:22), os sete selos (6:1 a 8:1) e as sete trombetas (8:2 a 11:19). Como nas séries proféticas de Daniel, as séries de sete no Apocalipse são paralelas e complementares entre si, ou seja, cobrem basicamente a mesma linha de tempo e cada série seguinte lança mais luz sobre a anterior.

Imagine que cada uma dessas séries proféticas divide a história cristã em sete capítulos, com o último capítulo de cada série culminando com a segunda vinda de Cristo.

Agora note que na série das sete trombetas há um intervalo entre a sexta e a sétima trombetas, uma visão parentética, em que um “anjo forte” jura solenemente que “já não haverá demora” (Apocalipse 10:6).

À pergunta: “Até quando durará a visão...?”, em Daniel 8:13, seguiu-se a resposta: “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado.” (verso 14). Mas agora, entre o soar da sexta e da sétima trombetas, ou seja, entre o penúltimo e o último capítulos da história, o “anjo forte” anuncia em um juramento solene que "já não haverá demora"! Ele não se refere ao fim do tempo em geral, mas ao fim do tempo profético de Daniel.

Sua declaração marca o início do tempo do fim, e inaugura uma nova dinâmica no fluxo dos eventos, em que a sucessão de fatos com potencial de alterar o curso da história não depende mais de longos períodos proféticos! Agora os pontos de inflexão na história se tornam mais frequentes e mais intensos, indicando um tempo de crises como nenhum outro. Tais crises têm acelerado o processo histórico em direção à sua consumação definitiva.

Por isso, ao mencionar a parábola da figueira em conexão com os sinais que indicam a proximidade da Sua vinda, Jesus quis enfatizar quão imprescindível é que sejamos capazes de reconhecer essa nova dinâmica e compreender seu significado:

Aprendei, pois, a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam, sabeis que está próximo o verão. Assim também vós: quando virdes todas estas coisas, sabei que está próximo, às portas. (Mateus 24:32 e 33)

A nova dinâmica na história

À luz do que foi exposto nos parágrafos precedentes, considere os seguintes eventos:


  • Nos anos 1910 houve a Primeira Guerra Mundial, “a guerra para acabar com todas as guerras”, que se estendeu de 1914 a 1918, mobilizou 70 milhões de militares e custou a vida de 9 milhões de combatentes e 13 milhões de civis como resultado direto da guerra, enquanto os genocídios resultantes e a pandemia de influenza de 1918, relacionada ao conflito, causaram outras 17 a 50 milhões de mortes em todo o mundo. A guerra foi um divisor de águas que pôs um fim definitivo à belle époque.
  • No fim dos anos 1920 ocorreu a quebra na bolsa de valores de Nova York, que começou em setembro de 1929 e terminou no final de outubro, quando os preços das ações despencaram. Foi o colapso mais devastador do mercado de ações na história dos Estados Unidos, considerando sua extensão e a duração de seus efeitos posteriores, e marcou o início da Grande Depressão.
  • Entre os anos 1930 e 1940 eclodiu a Segunda Guerra Mundial, que durou de 1939 a 1945. Foi o conflito mais mortal da história, com 70 a 85 milhões de mortes, a maioria civis, e que incluiu massacres, genocídios (como o Holocausto), bombardeios estratégicos, mortes premeditadas por fome e doenças e o único uso de armas nucleares na guerra. O conflito mudou o alinhamento político e a estrutura social global e preparou o cenário para a Guerra Fria, com quase meio século de duração.
  • Entre os anos 60 e 70, na esteira de duas guerras mundiais, surgiu nos EUA a contracultura, marcada pela rejeição dos jovens aos padrões culturais de seus pais, que dividiu o país e se espalhou pelo mundo. É importante sublinhar que os excessos culturais dessa época foram o terreno fértil para o surgimento de novas tendências na direita americana, que têm procurado estreitar as relações entre Igreja e Estado.
  • No fim dos anos 80, um evento crucial na história mundial marcou a queda da Cortina de Ferro e o início do colapso do comunismo na Europa Central e Oriental. A queda do Muro de Berlim foi tão surpreendente quanto decisiva, na medida em que provocou um efeito dominó no fim do qual a Alemanha Oriental e o Bloco Soviético deixaram de existir.
  • No início dos anos 2000, os Estados Unidos sofreram o pior ataque terrorista de sua história. A série de quatro ataques coordenados ocorreu na manhã da terça-feira, 11 de setembro de 2001, e resultaram em quase 3 mil mortes e mais de 25.000 feridos. Os espaços aéreos civis dos EUA e Canadá permaneceram fechados por três dias, e Wall Street suspendeu suas operações por quase uma semana. O ataque teve um efeito significativo nos mercados globais.
  • No fim da mesma década ocorreu uma das mais graves crises econômicas mundiais. A crise financeira de 2007-2008 é considerada por muitos economistas como a mais séria desde a Grande Depressão da década de 1930. A crise foi seguida por uma desaceleração da economia global da qual o mundo ainda não se recuperou completamente.
  • No início dos anos 2020 estamos sofrendo a mais grave pandemia desde o surto da gripe espanhola de 1918. Além do custo humano e emocional, a pandemia da Covid-19 tem pressionado severamente um sistema econômico já fragilizado pela falta de liquidez resultante de crises anteriores, prejudicando de forma inédita muitos setores, regiões e mercados. Desde fevereiro, somente nos EUA, 30 a 40 milhões de pessoas perderam o emprego, com 4 a 5 milhões solicitando o seguro-desemprego a cada semana. Nem todos terão seus empregos de volta quando o “novo normal” chegar.

Além de representarem pontos de inflexão na história, todos esses eventos têm em comum o efeito cumulativo, o impacto mais severo e extenso que cada crise tem sobre a seguinte, em cumprimento à profecia de nosso Senhor Jesus. Essa condição, no entanto, tem cumprido também outra profecia de Cristo igualmente significativa.

O renascimento do poder do Estado

Em Apocalipse 17, a besta na visão de João simboliza o poder político, que “era” e agora “não é”, mas “está para emergir do abismo” (verso 8). A mulher que a cavalga, chamada “Babilônia, a Grande, a Mãe das Meretrizes e das Abominações da Terra”, simboliza o poder religioso, especialmente representado pela Igreja de Roma e suas filhas evangélicas e protestantes que ainda seguem seu exemplo (A profecia denuncia sistemas religiosos, e não pessoas sinceras, que vivem segundo sua fé. A estas, Cristo estende o convite: “Retirai-vos dela, povo meu”. Apocalipse 18:4).

Ora, o aumento do poder do Estado é um sinal inegável de que a besta “está para emergir do abismo”, e que, nesta condição, o Estado estará apto a se unir à Igreja novamente. A consequência natural dessa união já é conhecida (Apocalipse 17:6).

Desde o início do século XX, o poder do Estado tem crescido em proporção direta ao aumento das crises. Além de catalisadoras do processo histórico recente, essas crises são o combustível de alta octanagem que tem impulsionado o poder estatal a níveis incompatíveis com as liberdades individuais. Mais do que qualquer outra coisa, a pandemia tem evidenciado o quanto o poder do Estado se tornou onipresente e invasivo.

Não é preciso ser um cristão para perceber que a presença mais invasiva do Estado não se harmoniza com a liberdade de consciência e a liberdade de expressão tão eloquentemente expressas na Constituição dos Estados Unidos:

O Congresso não fará lei relativa ao estabelecimento de religião ou proibindo o livre exercício desta, ou restringindo a liberdade de palavra ou de imprensa, ou o direito do povo de reunir-se pacificamente e dirigir petições ao governo para a reparação de seus agravos.

Também não é preciso conhecer profundamente a história para saber que Roma papal, em virtude de sua estrutura rigidamente hierárquica e das pretensões temporais de seu chefe, dialoga melhor com um Estado forte e autoritário, do que com um sistema no qual o poder soberano reside no povo. Trata-se de dois sistemas de governo irreconciliáveis.

À semelhança das crises passadas, a pandemia deu ao governo novos poderes. A maioria das medidas temporárias de mitigação e contenção de crises em nome do bem comum se torna permanente em pouco tempo, e serve de base para a tomada de decisões diante de novas crises, as quais, por sua vez, serão usadas para justificar medidas emergenciais ainda mais restritivas, que finalmente minarão o que restou das liberdades individuais.

Um Estado forte é o sonho de consumo de uma Igreja ávida por reaver sua antiga posição. Apesar dos grandes desafios que isso representa, essa perspectiva me enche de esperança, pois anuncia que a nossa libertação final está próxima. Em breve, as dores e angústias presentes serão coisas do passado! Cumpre-nos agora estar unidos a Cristo, a fim de que sejamos parte da eterna vitória que Deus dará a Seu povo!