terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Alarmes de distanciamento social em empresa francesa

"Quando a gente pensa que já viu de tudo...". A frase soa quase como um clichê, mas, diante de tudo o que temos vivenciado, faz todo o sentido.

Segundo o canal internacional de notícias, France 24, a filial francesa de uma fabricante sueca de produtos de higiene pessoal pretende adotar entre seus funcionários um dispositivo que emite um som de alerta de 85 decibéis caso eles não respeitem o distanciamento social.

A decisão indignou o sindicato da categoria, que denunciou os alarmes como "um sistema comparável aos que tentam dissuadir os cães de latir", acrescentando que seria estressante para os funcionários, além de infantilizá-los.

Os colaboradores foram informados de que os dispositivos são para sua própria segurança e que serão desativados no refeitório, banheiro e áreas de atendimento médico.

Os sensores não serão personalizados nem terão um sistema de rastreamento, de acordo com a direção da empresa.

Christine Duguet, uma representante do sindicato, previu que "eles vão acabar nas latas de lixo ou ficar em um armário. Isso é um completo absurdo".



Felizmente, os dispositivos não causam efeitos mais adversos, como em The Running Man, um filme de ficção distópico de 1987, em que os detentos que não respeitam o perímetro da prisão têm sua cabeça separada do corpo!

Brincadeiras à parte, tudo isso representa uma tendência rumo às soluções restritivas e extremas antecipadas em Apocalipse 13:15-17.

Segundo a profecia (veja os versos 3, 7 e 8), a tirania irá se apoderar não só das estruturas governamentais, mas também da mentalidade de seus cidadãos, na medida em que estes negociam sua liberdade em troca da segurança oferecida pela besta.

Como nosso Senhor Jesus adverte em João 9:4: "É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar."

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domingo, 17 de janeiro de 2021

Uma experiência perturbadora com a música cristã contemporânea

Em meio aos dias comuns, há os que trazem consigo um brilho especial e que, por seu encanto, tornam-se particularmente importantes para nós em relação a todos os demais.

E há também aqueles que, num impulso natural, queremos esquecer; dias cujas sombras parecem nunca se dissipar.

Mesmo tais dias, porém, nos proporcionam lições preciosas, que, se bem compreendidas e assimiladas, contribuem para uma comunhão mais constante e mais íntima com Deus!

O que vou narrar a seguir foi um desses dias.

Aconteceu há muitos anos. Eu era jovem e, devo dizer, pouco experiente a respeito do que já se tornara a causa de muitos conflitos e divisões na igreja: A música de adoração.

Confesso que, mesmo entre irmãos, a esterilidade das eternas discussões e a obstinada separação em grupos, que ora se chocavam, ora se repeliam, desgostavam-me profundamente.

E um caso que presenciei, que resultou na renúncia do primeiro-ancião e na divisão da igreja, marcou-me por muito tempo.

Mas nada poderia se comparar ao que testemunhei anos depois. Por razões éticas, omitirei o nome do grupo musical e a igreja onde ocorreu o incidente.

Foi numa tarde de sábado, lembro-me ainda com alguma nitidez.

O grupo, que ainda existe, escolhera uma seleção de canções que, por suas características, possivelmente induziriam um transeunte a julgar tratar-se de uma daquelas igrejas pouco ortodoxas, da qual ninguém quer ser vizinho.

Porém, naquela tarde, uma transeunte em particular não pareceu incomodar-se com o barulho.

Magra, cabelos desgrenhados, olhos desproporcionais no rosto decaído e marcado por traços profundos, a mulher, que era alcoólatra, costumava cruzar a rua da igreja embriagada e, ocasionalmente, abordava os irmãos em busca de assistência.

Ora, o grupo ainda cantava, quando a mulher, visivelmente bêbada, entrou no templo e, sem cerimônia, atravessou o corredor central dançando animadamente ao som da música.

À cena tragicômica seguiu-se o terror.

Alguns irmãos procuraram conduzi-la para fora, mas como a mulher passou a emitir gritos terrificantes e a resistir com uma força incomum, a ponto de três, talvez quatro homens (alguns dos quais de compleição robusta) não serem capazes de contê-la, ficou claro que não se tratava apenas de embriaguez, mas de uma possessão demoníaca.

O espetáculo grotesco parecia não ter fim.

À essa altura, a apresentação musical já havia sido interrompida e, em meio à evidente consternação dos cantores e do público, todos ajoelharam e alguém orou.

Alguns minutos depois, não se ouviam mais gritos nem tumultos. Em cada gesto, em cada olhar chamejava um desejo mal disfarçado de retorno à normalidade. O que se seguiu depois, não sou capaz de recordar.

Ao longo da minha vida presenciei muitos casos de possessão em diferentes igrejas, e não é de admirar que muitos deles tenham ocorrido durante sermões ou séries evangelísticas sobre os livros de Daniel e Apocalipse.

Eu mesmo tive a infelicidade de me deparar com essa situação duas ou três vezes, e, para ser honesto, nunca me senti tão impotente.

Posso assegurar-lhe que orações momentâneas não são o bastante. É preciso uma vida impulsionada pela oração e pela presença do Cristo vivo, pois somente por meio dEle os efeitos da possessão desaparecerão juntamente com a causa (Lucas 9:37-42).

No entanto, ao contrário das quedas, convulsões ou gritos que geralmente acompanham esses incidentes, o que havíamos testemunhado naquela tarde foi, pelo menos a princípio, inusitado.

Uma vez no templo, a mulher, então já endemoninhada, não gritara, não se debatera, não ameaçara ninguém; simplesmente dançara ao som do "louvor"!

Em razão da música, o espírito ou espíritos que se apossaram daquela mulher demonstraram estar muito à vontade na casa onde invocamos o nome do Senhor, e não pareceram incomodar-se com a presença dos professos filhos de Deus.

Essa foi uma experiência marcante e, até onde sei, única em sua natureza, e trouxe consigo uma importante lição.

Quando "louvamos" a Deus com estilos musicais que agradam o diabo, não só desonramos o santo nome do Senhor, mas também atraímos para dentro da igreja espíritos de demônios e os convidamos a fazer-nos companhia.

Você pode imaginar algo mais assustador?

Sim, há algo mais assustador!

No sábado seguinte estávamos cantando com uma naturalidade acintosa os mesmos estilos musicais que foram a causa daquela experiência bizarra e desconcertante!

Aqueles a quem o diabo deseja destruir primeiro ficam cegos.

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sábado, 16 de janeiro de 2021

Discernimento em tempos líquidos

É lícito recorrer a todos os meios disponíveis para testificar do evangelho, ou os meios devem ser tão santificados quanto os fins?

A resposta depende do conceito que temos do caráter de Deus, de Sua vontade e da obra que Ele nos confiou. Portanto, você já sabe qual a tarefa de casa!

Antes de prosseguir, preciso explicar aos meus leitores regulares (caso ainda não esteja claro) que o propósito deste site não é focar nos problemas que afligem a igreja de Deus.

Tampouco simpatizo com os que se tem em alta conta pelo mero fato de fazer oposição e que mal disfarçam sua negatividade crítica e impertinente.

No entanto, como a maldade nunca é estática e a estupidez é sempre ativa em todas as direções, eventualmente sinto-me constrangido a abordar alguns desses problemas, na medida em que afetam nossa identidade e senso de missão.

E o problema de hoje está relacionado à pergunta que abriu a presente postagem.

Em um artigo anterior, mencionei a tese de Marshall McLuhan - "O meio é a mensagem" - como uma parte importante da explicação do porquê devemos ser prudentes na escolha dos meios, canais ou tecnologias em que a comunicação se estabelece, cujos efeitos sociais e psicológicos ignoramos.

Segundo  McLuhan, os meios possuem um "conteúdo" próprio, que se distingue do conteúdo do que é transmitido e, por isso, têm um efeito subliminar, ou seja, atuam à margem da atenção consciente, afetando de modo inesperado o campo total dos sentidos.

Assim, à título de exemplo, e mais diretamente relacionado à nossa discussão, o "conteúdo" da música secular é música secular, por mais cristã que seja a letra, da mesma forma que o "conteúdo" da novela é novela, mesmo que o enredo seja inspirado em histórias da Bíblia.

Nesse caso, o efeito apelativo, envolvente, cativante da teledramaturgia, reforçado pelo uso de uma variedade de técnicas, ao estimular as faculdades inferiores da mente e inibir as superiores (estas últimas indispensáveis para fazer escolhas sensatas), representa o "conteúdo" efetivo, que se sobrepõe subliminarmente à mensagem ou, conforme o caso, a reforça, impactando os sentidos e, por conseguinte, a qualidade das decisões.

Só esta constatação bastaria para fazer disparar o sinal de alerta. Além disso, pelas evidentes implicações na experiência cristã, ela nos lembra que nem toda profissão ou prestação de serviço convém a um cristão minimamente consciencioso.

Os que argumentam que produções baseadas em temas bíblicos dão maior visibilidade à igreja e agregam valor à pregação do evangelho precisam pesar essas questões. Devem avaliar se as supostas vantagens justificam os elevadíssimos custos.

O que Deus pensa a respeito

"O Senhor conhece os que lhe pertencem" (II Timóteo 2:19), e, para alcançá-los, Ele pode converter maldição em bênção. Esta, porém, é uma prerrogativa divina. Para os Seus servos, Deus deixou instruções e princípios claros sobre como agir e quais meios utilizar.

Por amor à brevidade, mencionarei apenas dois exemplos, um no Antigo Testamento e outro no Novo Testamento.

Em Deuteronômio 17:16, Deus deu uma ordem expressa a Israel a respeito de seu rei, dizendo: "Porém este não multiplicará para si cavalos, nem fará voltar o povo ao Egito, para multiplicar cavalos; pois o Senhor vos disse: Nunca mais voltareis por este caminho".

Embora carros e cavalos fossem meios vantajosos em um ambiente altamente belicoso como o que Israel vivia, Deus ordenara a Seu povo que não recorresse a eles, pois: (1) carros e cavalos eram usados pelas demais nações para fins militares; (2) adotá-los significava tornar-se um povo militar, dependente de recursos militares, e não de Deus; (3) seriam tentados, portanto, a conquistas meramente humanas, perdendo de vista sua vocação espiritual; e (4), manter uma cavalaria implicava fazer alianças com nações vizinhas, algo que Deus também proibira (Êxodo 23:31-33; 34:12; Deuteronômio 7:1-6).

A ordem de Deus a Israel nos lembra que, para cumprir o seu chamado, a igreja não deve recorrer a todos os meios, indiscriminadamente. Ou seja, não deve depender de meios que Deus não aprovaria, em virtude das implicações mencionadas acima.

Quais são os "carros" e "cavalos" de nosso tempo? Quais são os meios cujo uso ou relação pode nos expor às mesmas tentações de Israel e aos mesmos resultados?

Decerto, a teledramaturgia é um deles, pois: (1) a teledramaturgia é um recurso secular, usada por uma sociedade secular para fins seculares; (2) adotá-la ou encorajá-la significa correr o risco de tornar a igreja secular, dependente de recursos seculares, e não de Deus; (3) seríamos tentados, portanto, a conquistas meramente humanas, perdendo de vista nossa vocação espiritual; e (4) manter ou relacionar-se com a teledramaturgia implica fazer aliança com os incrédulos, algo que Deus proibiu (II Coríntios 6:14-18; Tiago 4:4; I João 2:15-16).

Em João 14:16, nosso Senhor Jesus Se referiu ao Espírito Santo como "outro Consolador" e, mais adiante, Ele descreveu o papel ativo e abrangente da Terceira Pessoa da Trindade em nossa salvação.

O Espírito Santo: (1) Ensinará e fará lembrar (João 14:26); (2) dará testemunho de Cristo (15:26); (3) convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo (16:8); (4) guiará a toda a verdade e anunciará as coisas que hão de vir (16:13); e (5) glorificará a Cristo e receberá dEle para comunicar aos discípulos (16:14).

Os destaques em itálico são para nos ajudar a perceber que os múltiplos papéis do Espírito Santo na obra de redenção visam o intelecto, não os sentidos. Apelar por vias escusas, pela estimulação sensorial, não faz parte de Sua obra.

Em contraste, Babilônia recorre à sedução, ao encanto, ao fascínio, mediante estímulo sensorial (Apocalipse 13:13-14), embriaguez espiritual (14:8) e feitiçaria (18:23), meios que, evidentemente, são incompatíveis com a natureza e o modo de agir de Deus.

Como o Antigo Testamento, o Novo Testamento ensina que devemos ser criteriosos na escolha dos meios que utilizamos ou com os quais nos envolvemos.

Nem todos os meios ou recursos são benéficos em termos de formação do caráter nem são compatíveis com a elevada natureza e propósito da obra que nos foi confiada pelo Senhor.

Como Deus considera a Sua mensagem

Se, de fato, buscamos, em primeiro lugar, o reino de Deus e Sua justiça (Mateus 6:33), o caráter exaltado da mensagem que nos foi confiada e o poder e glória que devem acompanhar sua proclamação farão parte de nossos parâmetros ao decidir adotar um recurso ou nos envolver em um projeto.

Na visão de João em Apocalipse 10, nosso Senhor Jesus assume a forma de um mensageiro celestial para comunicar à igreja, na pessoa de Seu servo, a comissão evangélica para o tempo do fim. Trata-se do evangelho como ele sempre tem sido, mas aqui o Anjo forte enfatiza sua aplicação especial para essa geração.

O fato de nosso amado Salvador não enviar um anjo, mas Ele mesmo apresentar-Se como mensageiro celestial para comunicar pessoalmente à igreja do tempo do fim uma nova comissão revela a natureza exaltada de Sua mensagem.

Em outras palavras, na visão, é o próprio Senhor Quem entrega a mensagem! Isso deveria nos fazer refletir sobre a santidade, a sublimidade e a magnificência da obra que Ele está confiando ao remanescente do tempo do fim!

E a própria mensagem é representada pela figura de anjos celestiais, testificando da pureza, glória e poder que a cercam (Apocalipse 14:6-12)! Por sua incomparável natureza, esta mensagem única, singular e toda-suficiente deve encher a terra com a glória que procede do trono de Deus (18:1)!

Comentando sobre a mensagem do primeiro anjo, Ellen G. White observou em O Grande Conflito, p. 355.2:

É significativo o fato de afirmar-se ser um anjo o arauto desta advertência. Pela pureza, glória e poder do mensageiro celestial, a sabedoria divina foi servida de representar o caráter exaltado da obra a cumprir-se pela mensagem, e o poder e glória que a deveriam acompanhar. E o voo do anjo "pelo meio do céu", "a grande voz" com que é proferida a advertência, e sua proclamação a todos os "que habitam sobre a Terra", "a toda a nação, e tribo, e língua, e povo", evidenciam a rapidez e extensão mundial do movimento.

Em II Coríntios 10:4-6, o apóstolo Paulo escreveu:

Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão.

Os meios não são menos importantes do que os fins, especialmente tendo em vista a natureza de nosso chamado e o caráter de nossa mensagem.

Como a história de Israel demonstra, desviar-se em um único ponto das condições da aliança de Deus pode determinar nossa ruína.

Multiplicar respostas não verdadeiras para justificar escolhas precipitadas apenas nos faz sentir mais seguros em nossos erros. Urge evoluir a mente em direção ao padrão mais elevado, em lugar de reduzi-lo para adequá-lo à mente (Romanos 12:1-2).

Conclusão

Robert Gore escreveu: "O compromisso entre o bem e o mal significa morte para o bem".

Não há nas Escrituras exortação mais enfática do que sobre a necessária distinção que deve existir entre o povo de Deus e o mundo. Essa distinção foi estabelecida pelo Senhor em Gênesis 3:15 e constitui a fundamento de todas as exortações bíblicas nesse sentido.

Significa que não pode haver nenhum acordo, nenhum arranjo entre Cristo e Satanás, entre os servos de Deus e seus métodos e as forças satânicas e seus métodos, visto que o conflito iniciado no Céu e que se estendeu à terra procede dessa inimizade.

Em sua rebelião contra o Filho de Deus, a "antiga serpente" não pôde tocar-Lhe a cabeça, mas está determinada a tocar a mente dos seguidores de Jesus, de modo a estimular a inimizade que há no coração humano caído para resistir à salvação proporcionada a tão elevado custo.

Somente o Autor da promessa feita no Éden pode implantar no coração a inimizade contra Satanás e o pecado e despertar na alma o desejo de viver segundo o coração de Deus (Ezequiel 36:26-27).

Que cumpramos as condições estipuladas pelo Senhor em Sua promessa para conceder-nos Sua bênção!

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sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Como a Covid pavimentou o caminho para a servidão

Por Rob Sutton, The Critic*

O livro de Friedrich Hayek, The Road to Serfdom, mantém uma influência quase inigualável na imaginação política de pensadores conservadores e liberais clássicos. Publicado em 1943, no auge do consenso keynesiano, elaborou uma visão de mundo considerada intolerável na economia acadêmica.

A tese central de The Road to Serfdom é que o declínio em direção à tirania é a trajetória final e inevitável de uma sociedade na qual a soberania do indivíduo é subvertida na acumulação de poder econômico pelo estado. O planejamento central leva invariavelmente ao autoritarismo. Hayek não é tímido em fazer essas afirmações.

Estudando os sistemas políticos aparentemente díspares que dominaram a Europa no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial (comunismo, fascismo, socialismo), Hayek concluiu que cada um deles tinha um objetivo comum - o desenvolvimento de um estado totalitário. Apesar de seus objetivos sociais e econômicos contrastantes, cada um necessitava da consolidação central do poder e do planejamento explícito de uma economia para atingir esses objetivos.

Como tal, seus sabores políticos distintos eram amplamente irrelevantes para seu destino. A posição ao longo do eixo político era menos importante do que a maioria dos comentaristas previu. O binário que Hayek estava interessado, em vez de esquerda versus direita, era se o estado usa sua autoridade para promover a liberdade individual ou para restringi-la.

Hayek viu que os governos do tempo de guerra da Alemanha nazista, da Itália fascista e da Rússia comunista se enquadravam na última categoria: eles sacrificaram a liberdade dos indivíduos para capacitar o estado a atingir seus próprios objetivos. Ao fazer isso, seus cidadãos sofreram de forma semelhante. A repressão, a pobreza e a morte são consequências de um governo que assumiu as responsabilidades anteriormente assumidas pelos cidadãos.

O argumento de Hayek enfrentou uma luta difícil. Apesar de sua enorme popularidade entre os liberais clássicos e legisladores conservadores, continuamos a ver as máquinas políticas da primeira metade do século 20 através das lentes de seus rótulos autoatribuídos, em vez de sob o guarda-chuva consequencialista do coletivismo totalitário de Hayek.

Sua crítica ao socialismo não é um argumento de esquerda versus direita, mas uma observação geral da tendência dos sistemas de governo que acumulam poder econômico para alcançar objetivos sociais que se voltam repentinamente para a repressão. Os diferentes rótulos políticos são apenas posições diferentes ao longo do caminho para a servidão, valorizando o planejamento econômico centralizado sobre a liberdade individual.

Ao transcender os rótulos políticos tradicionais e reagrupar os governos em termos de como eles exercem o formidável poder do estado, The Road to Serfdom ganha seu apelo duradouro. Suas lições são um severo aviso para qualquer um que acredite que um governo pode acumular vastos poderes e mantê-los para fins puramente benéficos.

O caminho descrito por Hayek, aquele em que os cidadãos com direito à liberdade comercial, propriedade privada e o estado de direito podem, em última análise, ver sua soberania individual se tornar secundária em relação aos objetivos do estado, é preocupantemente benigno em sua aparência superficial. A transição não é particular a nenhum momento, lugar ou posição política. Não há descontinuidade ou transição abrupta de poder. A passagem pela qual os indivíduos se tornam subservientes ocorre gradualmente e, frequentemente, em lugares onde os comentaristas não acreditariam que fosse possível.

Para Hayek, a liberdade econômica é inseparável da liberdade individual. Quando a liberdade econômica do indivíduo é entregue ao estado, é um passo fundamental em direção ao governo totalitário. A liberdade econômica é uma condição necessária para a liberdade individual. A liberdade individual não pode existir por muito tempo sem liberdade econômica.

Hayek observa que a transição do poder dos indivíduos para o estado é quase sempre voluntária, pelo menos inicialmente. Golpes militares e assassinatos políticos geralmente acontecem tarde ao longo da estrada, depois que o poder do estado já acumulou um poder considerável, e são mais um sintoma do que uma causa. Mais importante é o sacrifício constante e insidioso da liberdade econômica realizado pelos cidadãos em troca de segurança. Os indivíduos esperam que seu governo desempenhe um papel cada vez maior na função econômica de seu país e, como tal, em suas vidas, e aqueles no governo que desejam o poder ficam muito felizes em aceitar.

A transferência de poder é muito lenta para fazer soar o alarme, mas nunca sem custos e, quando ocorre de forma constante, permite ao estado adquirir gradualmente instrumentos de enorme influência social e económica. A natureza da sociedade é tal que eventualmente se torna psicologicamente dependente do estado; a cada novo problema, seus cidadãos recorrem a seus planejadores centrais na expectativa de uma solução. A conveniência tem precedência sobre a responsabilidade pessoal.

E à medida que esse poder é acumulado, em vez dos instrumentos dos estados servirem aos seus cidadãos, uma mudança começa a ocorrer. Cada vez mais se pede aos cidadãos que sirvam aos instrumentos do estado, e não o contrário, muitas vezes para cumprir algum objetivo vago de bem-estar geral.

Vimos isso durante a atual pandemia com o sempre presente slogan "Proteja o NHS" [Serviço Nacional de Saúde, na sigla em inglês, o serviço público de saúde do Reino Unido]. No entanto, poucos ousaram perguntar por que estamos sendo solicitados a sacrificar essas liberdades conquistadas a duras penas em nome de uma instituição estatal. Para aqueles que apontam o aparente egoísmo de tal questionamento, Hayek observa que as crises que precipitam a transição de poder do individual para o coletivo são frequentemente impulsionadas inicialmente por concepções de "bem público" em que uma resposta nacional unificada é exigida.

O NHS foi, é claro, fundado com a mais nobre das intenções. Mas isso não significa que não devamos questionar por que nos encontramos agora, mais de 70 anos após o seu nascimento, em uma situação em que todas as facetas da vida pública foram redirecionadas para proteger um instrumento do estado, com o qual as carreiras políticas de nossos planejadores centrais estão intrinsecamente ligadas.

O caminho em direção a uma sociedade opressora geralmente começa com medidas de proteção adotadas com boas intenções, como aconteceu com a Covid-19. Um passo inicial comum nessa direção é a emergência nacional. Isso pode ser guerra, depressão econômica, impasse político ou uma pandemia. Os cidadãos estão dispostos a aceitar que uma restrição temporária da liberdade individual é necessária para superar uma crise nacional.

Uma assimetria entre a urgência exigida pela crise inicial e a fome do público em proteger suas liberdades pessoais é explorada. Supõe-se que as liberdades perdidas serão rapidamente recuperadas. Essa assimetria, obtida ao ponto do dilúvio, permite que os primeiros céticos sejam facilmente sufocados. No entanto, o poder permanece centralizado mesmo depois que a crise inicial passa. Surgem os argumentos de que "o que é bom em tempo de guerra é bom em tempo de paz". Os indivíduos que podem ganhar pessoalmente com o acúmulo de poder relutam em devolver o controle aos cidadãos que anteriormente o renunciaram de boa-fé. Uma estratégia de saída não está disponível.

Essas dificuldades são exacerbadas nas nações "avançadas". As instituições do estado na Grã-Bretanha chegaram a tal ponto que esses são pequenos aspectos da vida pública não regulamentados pela supervisão departamental. A influência substancial é mantida sobre aspectos cada vez mais de alta resolução da vida individual. O inchaço dos manifestos partidários a cada eleição é um testemunho disso, e a crescente intrusão do estado em nossas vidas o prepara para um executivo que deseja exercer esse poder sem restrições.

Um estado que aceita prontamente a responsabilidade pelas minúcias da vida de seus cidadãos irá inevitavelmente infantilizá-los até certo ponto. E quando surgem novas dificuldades, os cidadãos são condicionados emocionalmente a esperar que o estado intervenha novamente. A esfera de influência do indivíduo é reduzida à medida que a esfera coletivista de governo se expande para formar uma narrativa política e moral cada vez mais abrangente.

Em vez de enfrentar a dificuldade de construir um consenso político durante a Covid-19, vimos a concentração de poderes executivos fora do alcance do escrutínio parlamentar. As políticas implementadas não têm um objetivo claro ("salvar vidas" é vago, inútil e, seria de esperar, o objetivo padrão natural da política de qualquer maneira) e nenhuma estratégia de saída clara.

O escopo se expandiu para além das medidas que poderiam ser consideradas no âmbito da saúde pública, para prescrições absurdamente detalhadas de como devemos viver. Onde devemos trabalhar, que tipo de negócios são suficientemente importantes para continuar, com quem devemos nos relacionar e em que horas, como as instituições democráticas podem se reunir, que causas podem ser legitimamente protestadas.

Esses objetivos vão muito além do que poderia ser razoavelmente descrito como dentro dos limites da saúde pública. E com esse poder acumulado, os governos parecem implementar restrições lamentavelmente detalhadas enquanto tentam substituir o bom senso: que trajeto seguir dentro de um supermercado, quais produtos são considerados "essenciais" pelos planejadores do governo, quão distantes devemos estar, onde a vovó deveria se sentar à mesa de jantar.

As medidas implementadas em nome de uma emergência de saúde pública não são medidas de saúde pública. Elas são, ao contrário, uma prescrição social e econômica abrangente de como devemos viver e trabalhar, autorizada por um executivo usando medidas extraparlamentares que eles argumentam que a complexidade e a gravidade da situação tornaram necessárias.

Qualquer sistema de planejamento central é necessariamente uma imitação pobre da inumerável complexidade capturada por uma economia de livre mercado. As tentativas dos comitês centrais de atribuir aos produtos e serviços valores que só podem ser verdadeiramente atribuídos pelos cidadãos introduz ineficiência. Mas Hayek não está defendendo a economia laissez-faire ["deixe fazer", expressão francesa empregada para identificar um modelo político-econômico completamente livre da interferência estatal]. Ele argumenta que existe um dever natural do "planejamento" do governo: nivelar o campo de atuação para aqueles que se engajam no comércio e reduzir as barreiras à entrada no mercado. Isso se opõe a uma visão de "planejamento" que usa o controle econômico para atingir objetivos sociais específicos.

Essas duas categorias de planejamento são necessariamente exclusivas. O planejamento não pode ser realizado com o objetivo de alguma intervenção social sem necessariamente distorcer os mercados e criar barreiras ao livre comércio, independentemente da finalidade. As medidas abrangentes introduzidas para reduzir a transmissão da Covid-19 demonstram isso claramente: as pequenas empresas sofreram terrivelmente, enquanto gigantes corporativos como a Amazon consolidaram seu domínio no mercado.

A Grã-Bretanha é geralmente uma nação de consenso político. Desde a Segunda Guerra Mundial, com exceção do advento do thatcherismo, tem havido uma transferência unidirecional e constante de poder de cidadãos individuais para as mãos do governo. Estando tão dispostos a aceitar as prescrições do governo em regular os mais minuciosos aspectos de nossa vida cotidiana, preparamos o palco para um evento como a atual pandemia, precipitando uma mudança dramática de uma sociedade em que o indivíduo é soberano para uma em que suas necessidades são secundárias às do estado e de suas instituições.

A mensagem final de Hayek é que, no que diz respeito à relação entre o estado e seus súditos, nada é de graça. Aquilo que o governo nos dá requer necessariamente o sacrifício da responsabilidade individual. A segurança tem custos e a liberdade só pode ser protegida com um preço. O único sistema verdadeiramente progressivo é aquele que respeita o individualismo acima do coletivismo.

Essas vidas que podemos salvar reduzindo a transmissão com bloqueios acabarão cobrando o preço no futuro. Seja por meio daquelas condições que decidimos ser secundárias em prioridade à Covid-19, daqueles ataques cardíacos, derrames e câncer sendo diagnosticados e tratados tarde demais, ou pelo incontável custo de oportunidade da inovação sufocada em uma sociedade cujo governo obteve maior controle econômico e social desde a Segunda Guerra Mundial. A liberdade, conquistada a duras penas, é facilmente perdida.

* Ênfases minhas.

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