A proposta de um 'dia de descanso uniforme' da Heritage Foundation


Os nacionalistas cristãos da América se distinguem por duas qualidades verdadeiramente admiráveis: sua determinação tenaz na defesa de sua causa e seu sentimento de urgência.

Há um forte senso entre os conservadores americanos de que seu país vive um período de retrocesso moral sem precedentes, cujas consequências vão muito além de suas fronteiras.

O aborto sob demanda, que mata milhões de bebês todos os anos, se tornou uma prática comum. A violência, o sexo e a vulgaridade são temas recorrentes no entretenimento público. A homossexualidade, o transgenerismo e outros desvios semelhantes estão obtendo larga aceitação, mesmo entre as denominações cristãs tradicionais.

E como se tudo isso não bastasse, há os arquivos Epstein.

Os documentos, imagens, registros e conexões explícitas divulgados revelam mais do que um escândalo sexual envolvendo indivíduos poderosos.

Nas palavras do jornalista Lucas Leiroz, o que foi exposto aponta para práticas sistemáticas, organizadas e ritualizadas amparadas por uma profunda proteção institucional. Não se trata meramente de degeneração cultural ou perda de valores. É algo mais sombrio: uma elite que opera fora de quaisquer limites morais reconhecíveis e que, no entanto, continua a governar.

Eu acessei algumas das quase 3,5 milhões de páginas publicadas. Foi uma experiência nauseante face ao nível de horror infligido às vítimas e, por isso, pouparei o leitor dos detalhes. Acredite em mim. A ignorância, neste caso, é uma bênção.

Diante de tamanha queda dos valores, vinda de uma tal altura intelectual como a dos Estados Unidos, não é de admirar que a direita cristã esteja engajada numa cruzada para restaurar a sociedade americana e levar o país "de volta a Deus".

E o caso Epstein pode ser a gota d'água que faltava em um cenário que justifica a urgência do chamado à ação.

A busca pela restauração dos valores americanos

Curiosamente, menos de um mês antes da divulgação dos arquivos Epstein pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a Heritage Foundation – o influente think tank de direita sediado em Washington, D.C. – publicou o relatório "Saving America by Saving the Family: A Foundation for the Next 250 Years".

O documento de quase 170 páginas não deixa margem para dúvidas quanto à severidade da crise familiar americana e seu impacto social e econômico. Os principais pontos do relatório que ilustram essa crise são:

  • O declínio da taxa de fertilidade nos EUA, que atingiu um mínimo histórico de 1.59 filhos por mulher, muito abaixo do nível de reposição populacional de 2.1. Esse declínio é acompanhado por uma queda contínua na proporção de adultos casados, que já não constituem a maioria dos lares americanos, e por um aumento expressivo na idade média do primeiro casamento.

  • As políticas públicas ruins na década de 1960, que causaram rupturas na vida familiar americana, exacerbadas por convulsões culturais que mudaram radicalmente as normas sociais sobre sexo, sexualidade, casamento, filhos e papéis de gênero.

  • A desestruturação familiar, cujo impacto social é direto e mensurável. O relatório associa a ausência da família natural a maiores índices de pobreza infantil, desempenho educacional inferior, instabilidade comunitária e criminalidade.

  • A dimensão econômica do problema. A análise do relatório estima que o declínio das famílias com dois pais resultou em uma redução de 5,5% do PIB anual, o que equivale a uma perda de US$ 1.3 trilhão somente em 2021. Este dado demonstra que a estabilidade familiar não é apenas um valor moral, mas um motor essencial para a prosperidade econômica.

Diante desse quadro, é compreensível que a busca por soluções eficazes seja considerada uma prioridade nacional pelos autores do relatório.

Eles observam que "a única maneira de a América prosperar nas gerações futuras é reconstruindo a família, e isso só pode acontecer com um compromisso social" que "mobilize o capital político, social e econômico" da nação.

Nesta ação coletiva, "o papel principal do governo é limpar as ervas daninhas e evitar que suas políticas e programas envenenem o solo" (ênfases minhas).

É nesse contexto que surgem propostas variadas, incluindo aquelas que visam reconfigurar o ritmo da vida social.

Concordando com o diagnóstico, questionando o remédio

Como observei a propósito do projeto de transição presidencial elaborado pela Heritage – o Projeto 2025, cuja metade das propostas já foi implementada pelo governo Trump até o início de 2026 – há muitas coisas boas no relatório "Saving America by Saving the Family", e certamente nós, adventistas do sétimo dia, partilhamos das mesmas preocupações de seus autores.

A premissa de que a desintegração familiar representa uma ameaça existencial ao futuro dos Estados Unidos (e de qualquer nação) é bem fundamentada.

Não é possível ignorar os dados sobre o declínio acentuado da família natural – definida como a união de um homem e uma mulher casados, com seus filhos – e suas profundas consequências para a estabilidade social, econômica e demográfica do país.

Contudo, embora a crise da família americana seja real, profunda e exija uma ação decisiva, a busca de soluções esbarra em propostas que, a despeito de suas melhores intenções, criam um precedente perigoso para a própria liberdade que se pretende preservar.

Uma medida decretada hoje em nome do descanso comunitário poderia, por essa mesma lógica, ser reaproveitada em uma crise diferente para impor a coesão nacional através da observância religiosa obrigatória.

Se implementada, ela lançará as bases de um modelo político que destruirá o experimento americano e levará o mundo de volta à Idade das Trevas.

O declínio da frequência religiosa

Isso nos leva a um dos pontos centrais do relatório da Heritage Foundation, que identifica o declínio da frequência às igrejas como uma das principais causas da desintegração da família americana.

Se "o que as pessoas valorizam é moldado e transmitido por instituições culturais, incluindo o histórico familiar e a religião", "uma grande parcela da culpa pela enfermidade atual reside em tendências morais e culturais" que incluem o desprezo pela religião (particularmente a religião cristã), em contraste com os enclaves "explicitamente religiosos" – mórmons, católicos devotos ou judeus ortodoxos –, onde "as normas culturais e a infraestrutura cívica tendem a apoiar as famílias", um fato que os formuladores de políticas não devem ignorar.

Mais adiante, o documento assinala que um dos maiores fatores para o declínio da religiosidade nos Estados Unidos é "o crescente alinhamento da identidade política liberal com o secularismo durante as décadas de 1990 e 2000".

Observe que, embora o declínio da frequência às igrejas seja um fenômeno religioso, os autores do relatório atribuem o problema a causas intrinsecamente políticas, o que justifica, na visão deles, uma solução política.

O problema não é político. É espiritual. Eles não compreendem que a baixa adesão religiosa e o declínio da sociedade americana decorrem principalmente do fracasso das igrejas cristãs em cumprir a comissão de Jesus em Mateus 28:18 a 20.

Ao usar instrumentos políticos para converter a sociedade, eles estão não só repudiando as cláusulas do Não-Estabelecimento e de Livre Exercício – guardiãs gêmeas da liberdade de consciência que guiaram os primeiros 250 anos da nação –, mas também, e sobretudo, contradizendo as palavras e o exemplo deixados por Aquele a Quem professam amar e servir (João 18:36; Lucas 20:24-25; 22:25-26).

Agora note: O que os autores apontam como "evidências quase experimentais de que, quando substitutos seculares se tornam mais acessíveis, a frequência e as doações às igrejas diminuem"? As revogações das leis dominicais americanas (blue laws), "sugerindo que uma restauração dessas leis poderia ter um efeito vivificador" sobre a nação!

Para fundamentar seu ponto de vista, o relatório menciona dados que mostram que "a frequência regular a serviços religiosos está associada a taxas de divórcio 50% menores em idades mais avançadas" e que "a religiosidade dos pais está associada a uma série de benefícios para o desenvolvimento psicológico e social das crianças".

O relatório então detalha o efeito potencialmente benéfico das leis dominicais na restauração da família e dos valores americanos (todas as ênfases a seguir são minhas).

Apoio a um dia de descanso uniforme

Sob esse título, os autores argumentam que, assim como as leis de zoneamento determinam onde os negócios podem operar, as leis de descanso dominical refletem um julgamento comunitário sobre quando eles devem operar.

O objetivo explícito é reservar um tempo comum para atividades familiares, comunitárias e de observância religiosa, fortalecendo os laços sociais. A escolha natural recai sobre o domingo.

No caso McGowan v. Maryland (1961), a Suprema Corte decidiu por oito votos a um que as leis de fechamento dominical que visam proporcionar um dia de descanso uniforme são constitucionais e podem acomodar o fato de que a maioria das pessoas que tiram um dia de descanso por motivos religiosos o faz aos domingos. Massachusetts, por exemplo, exige que 'todo empregador de mão de obra envolvido em qualquer estabelecimento ou oficina fabril, mecânica ou mercantil... deve permitir a cada pessoa... pelo menos vinte e quatro horas consecutivas de descanso... em cada sete dias consecutivos'.

A menção a McGowan v. Maryland é significativa, pois a decisão marcou a primeira vez em que a Suprema Corte dos Estados Unidos sustentou a constitucionalidade de algumas leis dominicais, diferentemente de como atuara no passado.

A Heritage Foundation argumenta que a decisão estabelece um precedente constitucional válido para reativá-las como forma de restaurar o equilíbrio entre o trabalho e a vida familiar, em aparente harmonia com o parecer da Corte, de que as leis dominicais devem ser antes seculares que religiosas para serem constitucionais.

Em seu parecer, o juiz-chefe Earl Warren reconheceu a origem religiosa das blue laws que restringiam o comércio aos domingos, mas argumentou que essas leis têm hoje uma conotação secular, ou seja, deixaram, há muito, de ser religiosas.

Naturalmente, a decisão ignorou que algumas expressões recorrentes na redação das leis dominicais americanas, tais como "Dia do Senhor", "Dia de Sábado" e "profanação", envolvem uma demanda religiosa específica, ainda que pretensamente secular, contrariando a opinião da Corte. O leitor poderá conferir algumas dessas expressões clicando aqui.

Assim, o relatório adota uma estratégia juridicamente astuta, enquadrando a proposta em termos de bem-estar secular, mesmo que a sua motivação subjacente – revelada pela preocupação com a queda na frequência à igreja – seja inegavelmente religiosa.

Ademais, ao observarem que essas leis "servem como uma espécie de reservatório jurídico" para "um dia de descanso uniforme que limite a atividade comercial", os autores do relatório citam como primeiro benefício a garantia da observância religiosa!

O documento diz claramente que a restauração de "um ritmo comum de descanso e reflexão" poderia "ajudar a reverter a tendência de 'falta de moradia espiritual' e promover os hábitos sociais necessários para que as comunidades se coadunem e floresçam". Então conclui:

Apesar da cultura sob demanda de hoje, o Serviço Postal dos EUA não entrega correspondência regular aos domingos, a maioria dos esportes juvenis organizados evita competições dominicais e a maioria dos bancos está fechada aos domingos. A popular rede Chick-Fil-A fecha seus restaurantes aos domingos para o benefício de seus trabalhadores e suas famílias. Onde novas comunidades planejadas ou comunidades em transição se formam, elas devem considerar a inclusão de dias de descanso como parte de seus planos diretores para uma vida comunitária equilibrada e próspera.

Mesmo que enquadrada em termos seculares, essa proposta arrisca violar a Cláusula do Não-Estabelecimento, pois sua associação histórica e cultural com o domingo a vincula de forma inegável a uma tradição religiosa majoritária.

Por que isso é perigoso

O leitor não deve se deixar enganar pelas boas intenções, principalmente quando se sabe quem são os agentes envolvidos.

Nesse caso, melhor seria interpretá-los como tendo outras intenções, quais sejam sancionar uma prática religiosa específica por via estatal, criando uma hierarquia cultural semelhante à que existiu na Idade Média.

A visão da Heritage Foundation sobre o domingo não é, pois, um assunto de pequena monta, já que é baseada na perigosa ideia de que a religião necessita do apoio do poder civil – uma ideia que está se tornando rapidamente uma força viva na América.

Além disso, a presidência de Donald Trump tem adotado grande parte de seu Projeto 2025 como política de governo, e muitas das figuras que ajudaram a redigi-lo ocupam cargos importantes na Casa Branca.

Um detalhe digno de nota é a diferença sutil entre as menções ao domingo no Projeto 2025 e no relatório "Saving America by Saving the Family". Enquanto o primeiro admite uma exceção aos "empregadores que sinceramente observam outro período sabático", o segundo se refere explicitamente às leis dominicais americanas e ao fato de servirem como "reservatório jurídico" para "um dia de descanso uniforme"!

Mais adiante, ao tratar do caso de Israel como exceção ao declínio da família, o relatório chega às seguintes conclusões:

  • "o sentimento religioso é um pilar do perfil demográfico distinto de Israel";
  • "a prática religiosa generalizada reforça os valores pró-família em toda a sociedade israelense”;
  • "a observância religiosa generalizada" "molda valores mesmo entre os seculares e nominalmente religiosos".

Quando entendemos que o argumento do domingo está implicado nestas expressões em destaque e em outras ao longo do documento, como "compromisso social", "restauração da cultura e do espírito nacionais", "renovação cultural sustentada", "[família como] um princípio organizador central da política" e "necessidades humanas essenciais", fica claro até onde a Heritage Foundation está disposta a ir com a reabilitação e reavivamento das leis dominicais na vida pública americana.

Nada disso é surpreendente. De acordo com uma reportagem do The Guardian, Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation e arquiteto do Projeto 2025, mantém laços estreitos e recebe orientação espiritual regular de um centro liderado pela Opus Dei em Washington, D.C. 

A organização católica ultra ortodoxa se tornou notória pelo envolvimento de seus membros com a autoflagelação e outras práticas de mortificação corporal e, segundo a reportagem, tem como um dos dogmas centrais a união "simbiótica" entre Igreja e Estado.

Há anos, Roberts visita semanalmente o Centro de Informação Católica (CIC) para missas e "formação", uma instituição chefiada por um padre da Opus Dei e incorporada pela arquidiocese de Washington.

Portanto, o empenho da Heritage Foundation em transformar a observância dominical em política pública reflete, em última análise, o desejo de Roma de ver o domingo como um dia de descanso protegido civilmente, um movimento que ruirá o último obstáculo à restauração do poder temporal do papa: o muro de separação entre Igreja e Estado na América.

Lisa Graves, cofundadora do Court Accountability, observou significativamente que algumas elites poderosas, como Roberts, que não conseguiram convencer o povo americano a adotar sua agenda, parecem ansiosas para usar o Poder Executivo de modo a impor suas visões religiosas pessoais como leis vinculativas a outros americanos.

Visto que, nas palavras de Massimo Faggioli, professor de teologia e estudos religiosos na Universidade Villanova, a Opus Dei faz parte de um movimento do catolicismo conservador e tradicionalista dos EUA que sustenta a visão de que a América é o último bastião da cristandade, a agenda faz todo o sentido.

Se for consolidada na vida pública americana, ela transformará a América em uma imagem de Roma, um desenvolvimento sobre o qual Apocalipse 13 nos adverte e que ocorrerá à medida que a apostasia e os decretos papais se tornarem a norma para a suposta restauração moral da nação.


Se você quiser ajudar a fortalecer o nosso trabalho, por favor, considere contribuir com qualquer valor:

ou

Postar um comentário

0 Comentários