quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O "oitavo rei" e a nova ordem mundial (parte 2)

Concluí a última postagem advertindo o leitor de que é preciso olhar na direção certa se quisermos identificar seguramente quem são os protagonistas na construção da futura ordem mundial e em que consistirá este novo arranjo. Olhar na direção certa significa olhar na direção indicada pela profecia, sem a qual não teríamos meios de discernir este fenômeno de proporções globais, nem tampouco preparar-nos para a crise vindoura.

Reconheço que a tarefa de renovar nossa perspectiva sobre o assunto à luz da Bíblia pode ser especialmente dolorosa para aqueles que, inadvertidamente ou não, ainda creem em um dos dois sistemas dogmáticos de interpretação forjados pelos jesuítas (preterismo e futurismo) ou em sistemas afins, todos os quais suprimem, à sua própria maneira, a aplicação das profecias bíblicas sobre o anticristo ao poder papal.


O fato de que o conceito do anticristo era um tema familiar à igreja apostólica e que as advertências a seu respeito foram reconhecidas como uma parte essencial da mensagem que nosso Senhor Jesus comissionou à Sua igreja nos fará lembrar, contudo, da importância de uma exegese biblicamente consistente, cuja aplicação histórica esteja de acordo com a hermenêutica do evangelho, isto é, centrada em Cristo e em Seu povo da nova aliança. O que Lutero disse sobre a doutrina cristã em sua relação com a justificação se pode aplicar à escatologia em sua relação com a palavra profética: a primeira se sustenta ou sucumbe segundo a interpretação da segunda.

Ao aceitar, pois, o desafio de olhar a crise do tempo do fim através das lentes do evangelho, devemos fazê-lo na certeza de que o Espírito Santo, que Deus concede àqueles que Lhe obedecem (Atos 5:32), nos “guiará a toda a verdade” e nos “anunciará as coisas que hão de vir” (João 16:13), de modo que “não sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Efésios 4:14).

O problema da união da Igreja e Estado no tempo do fim

Temos agora de retornar à questão básica da explicação do anjo sobre a fase futura da besta escarlate e que diz respeito à união entre Igreja e Estado como fenômeno preparatório para a futura ordem mundial: Qual agente tornará possível a sujeição do Estado à Igreja, de modo que o primeiro imponha os dogmas do segundo sob pena de graves sanções para os transgressores?

Já vimos que em Apocalipse 17 João observa os acontecimentos de interesse profético do ponto de vista do tempo e lugar da visão. Desta perspectiva, cinco das cabeças ou reinos da besta haviam passado para a História, correspondendo, portanto, à fase “era” da besta. A quinta e última cabeça dessa fase simboliza, sem dúvida, Roma papal, que, tendo sido favorecida em 538 pelo código bizantino e a proteção militar de Belisário, foi despojada de seu poder temporal pelo código napoleônico e a intervenção militar de Berthier mil duzentas e sessenta anos depois (Daniel 7:25; 12:7; Apocalipse 11:2, 3; 12:6, 14; 13:5).

A sexta cabeça, pertencente à fase “não é” da besta, representa, por conseguinte, o período inaugurado pela França revolucionária, cuja escala das mudanças promovidas não se restringiu aos cidadãos franceses, mas espalhou-se pela Europa e demais continentes, provocando uma mudança estrutural muito mais ampla que deu origem à nação moderna e à cultura democrática que conhecemos hoje.

Esta ordem político-social inaugurada pela Revolução, em que a religião é mantida separada do estado, e o estado não discrimina nem favorece pessoas ou grupos com base em suas crenças religiosas, é a antítese da ordem que prevaleceu nos tempos medievais, quando a Igreja, apoiada na uniformização de crenças e ritos em todo o Ocidente sob a proteção dos reinos cristãos, interferia nas políticas e nas leis e dirigia a consciência dos homens.

Em função do crescente movimento republicano e secular, a Igreja parecia, a princípio, destinada a ter suas ações restritas a assuntos que dizem respeito exclusivamente à religião católica, e, portanto, a natureza perseguidora dos estados sob um domínio papal parecia algo cada vez mais distante. Mas o anjo adverte que a besta que “era” e presentemente “não é”, “está para emergir do abismo” (Apocalipse 17:8), o que significa que a velha ordem, na qual a Igreja dirigia os negócios civis, ressurgirá com força renovada ao fim do regime republicano e democrático simbolizado pela sexta cabeça!

Então, agora, esta conclusão é, ela mesma, o tópico principal de nossa discussão, visto que o retorno da velha ordem em escala universal (pois é nisso que consiste, essencialmente, a nova ordem mundial), simbolizado pelo renascimento da besta escarlate, depende da breve atuação da sétima e última cabeça ou reino, o qual cumpre-nos identificar. Para isso, consideremos novamente o notável paralelismo entre Apocalipse 13 e 17.

Nas duas visões, João nota três fases distintas e sucessivas nas trajetórias das bestas ali apresentadas. No capítulo 13, a primeira fase abrange o período em que a besta marítima recebe do dragão “o seu poder, o seu trono e grande autoridade... para agir quarenta e dois meses” (versos 2 e 5); a segunda, no momento em que uma das cabeças da besta é “como golpeada de morte” (verso 3a); e a terceira, quando “essa ferida mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou, seguindo a besta” (verso 3b), isto é, todos “aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (verso 8). [1]

No capítulo 17, as três fases existenciais da besta escarlate são reveladas mais distintamente e com maior ênfase, como é próprio das profecias que são sucessivas, paralelas e complementares: a besta “era e não é, está para emergir do abismo e caminha para a destruição. E aqueles que habitam sobre a terra, cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida desde a fundação do mundo, se admirarão, vendo a besta que era e não é, mas aparecerá” (verso 8).

Podemos identificar melhor esse paralelismo complementar entre ambas as visões no quadro a seguir:



Nele se nota que a ascensão da besta escarlate do abismo, que ocorre durante a dominação da sétima cabeça (Apocalipse 17:11), corresponde à cura da “ferida mortal” da cabeça papal da besta do mar (13:3). Em ambos os casos, temos a mesma reação de admiração por parte daqueles “que habitam sobre a terra”, “cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida”, indicando indubitavelmente que as visões descrevem um único e mesmo evento.

Ademais, como já foi dito, nota-se mui claramente as três fases existenciais do anticristo tanto na besta do mar quanto na besta escarlate, assim como o ponto de vista do tempo nas duas visões: em Apocalipse 13, João vê a besta no momento em que uma de suas cabeças foi “como golpeada de morte”; em Apocalipse 17, no período em que a besta “não é”.

Com base nesse paralelismo, em que ambas as visões se complementam e se esclarecem mutuamente, podemos inferir que a futura sétima cabeça da besta escarlate, durante cuja atuação a própria besta revive, corresponde à entidade vindoura responsável em curar efetivamente a ferida de morte infligida à cabeça papal da besta do mar, e que é descrita na segunda parte do capítulo 13 como a besta que emergiu da terra (versos 11 e seguintes)!

Notemos que na primeira metade de Apocalipse 13 (versos 1-10), a cura da “ferida mortal” da besta marítima é parcialmente explicada, ao passo que na segunda metade do capítulo (versos 11-18), a cura dessa ferida é totalmente explicada em conexão com o protagonismo da besta que subiu da terra. Nesse contexto, duas vezes se indica expressamente quem beneficia e quem é beneficiado:

Exerce [a besta da terra] toda a autoridade da primeira besta na sua presença. Faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta, cuja ferida mortal fora curada.
Seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta, àquela que, ferida à espada, sobreviveu. (Apocalipse 13:12 e 14).

É a segunda besta, portanto, quem cura efetivamente a ferida mortal da primeira, ou seja, quem restaura plenamente sua condição primitiva. Logo, o poder simbolizado pela segunda besta corresponde à sétima cabeça da besta escarlate de Apocalipse 17, em cujo domínio essa besta revive e passa a ser contada como “o oitavo rei”, que “procede dos sete” (verso 11). Ora, é contada como o oitavo não porque constitui uma oitava cabeça, mas porque a besta incorpora em si mesma no momento de sua ressurreição a última de suas cabeças pertencentes à fase “era” - a cabeça papal -, que fora “golpeada de morte” e que agora é restaurada juntamente com a besta e, por isso, se diz que é “o oitavo rei, e procede dos sete”.



A besta que emerge da terra

Consideremos, então, as características singulares deste novo poder que entra em cena e que será um agente determinante na restauração do papado e no estabelecimento de uma nova (velha) ordem mundial. Este poder simbolizado pela besta que emerge da terra completa a tríade satânica do tempo do fim, da qual fazem parte o dragão e a besta do mar (Apocalipse 16:13).

Entre estes últimos há uma relação especial, porque ambos possuem as mesmas sete cabeças e dez chifres (Apocalipse 12:3; 13:1). O fato de que o dragão delegue seu poder e trono à besta do mar é uma imitação deliberada de como Deus delegou Seu poder e trono a Seu Filho, Jesus Cristo (5;12, 13; 13:2). Este paralelo extraordinário caracteriza a besta marítima como o anticristo. [2] Mas a besta que emerge da terra, apesar de suas peculiaridades, se distingue de seus companheiros apenas na aparência. [3]

Pois ao dizer “Vi ainda outra besta emergir da terra” (Apocalipse 13:1, itálico acrescentado), João usa a palavra grega allos para se referir a outra que é do mesmo tipo ou de um tipo semelhante (neste caso, à primeira besta), um detalhe confirmado pelo espírito perseguidor da besta terrestre, que fala “como dragão” na medida em que age em estreita aliança com a besta marítima.

A expressão “vi ainda” claramente relaciona esta seção da visão com o cativeiro da primeira besta (verso 10), que João vê como “golpeada de morte” (verso 3). Ao testemunhar a ferida/cativeiro da primeira besta, a atenção do profeta se volta no mesmo instante para a ascensão da segunda, ou seja, João vê a segunda besta emergir da terra no momento em que a cabeça papal da besta do mar é ferida. Deve, pois, representar um poder que surge e se desenvolve depois do domínio da besta do mar por 42 meses.

E o fato de a segunda besta emergir da terra, e não do mar, é outra particularidade que devemos considerar. Em seu sentido profético, mar “são povos, multidões, nações e línguas” (Apocalipse 17:15), um quadro descritivo da Europa, berço do sistema papal. Por inferência, terra deve simbolizar uma região proporcionalmente desabitada e certamente distante, como o Novo Mundo, de onde emerge ou sobe a segunda besta, palavra, aliás, que, no grego (anabainó), também é empregada em Mateus 13:7 para se referir ao crescimento de uma planta, destacando-se, assim, o processo de emergir pacífica e silenciosamente.

Notai, além disso, que a besta que surge da terra tem “dois chifres semelhantes aos de um cordeiro”, uma característica inédita em uma besta simbólica. Chifres representam força e poder (Deuteronômio 33:17; Miquéias 4:13) e são empregados nas profecias para simbolizar potências beligerantes cuja política da força é indispensável para a concretização de suas ambições.

Mas paradoxalmente a besta terrestre tem chifres cuja aparência transmite inocência, mansidão, qualidades que não se espera encontrar em uma besta feroz. A contradição aumenta quando consideramos que as outras trinta ocorrências da palavra “cordeiro” no Apocalipse se aplicam exclusivamente a Cristo – “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1:29). A besta de dois chifres ostenta, então, uma aparência messiânica que reflete sua história [4], embora suas palavras revelem o mesmo espírito do dragão e da besta marítima. A evidente contradição entre a aparência e o discurso da besta terrestre caracterizam-na como um “falso profeta” (Apocalipse 16:13; 19:20; 20:10).

Assim, Apocalipse 13 revela não um, mas dois personagens anticristãos que, imbuídos do espírito do dragão (12:9) atuarão numa união íntima no tempo do fim: um anticristo, simbolizado pela besta do mar, que pretende ocupar na terra o lugar de Cristo, e um falso profeta, representado pela besta de dois chifres, que reivindica ser em favor do primeiro o porta-voz de Deus, e cuja atuação marcará o início da última grande crise.

Finalmente, a besta terrestre deve ser uma superpotência, pois “opera grandes sinais, de maneira que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens” (Apocalipse 13:13); deve também possuir autoridade global e ser a mais religiosa entre as potências ocidentais, tendo em vista que “faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta” (verso 12); deve, ainda, ser um poder que se manifesta como tal no tempo do fim, já que sofrerá o juízo derradeiro de Deus juntamente com a primeira besta (Apocalipse 19:20; 20:10).

Aí tendes em resumo o que a profecia diz acerca deste poder. E há apenas uma única nação dentre as demais que cumpre as especificações do tempo, do lugar, das características, e da relação com a primeira besta. Esta nação são os Estados Unidos da América!

Trata-se do único país que despontava como uma potência promissora no Novo Mundo ao fim dos 42 meses proféticos, quando a primeira besta sofreu o cativeiro em 1798. Dez anos antes, foi ratificada sua original Constituição, que entrou em vigor no mesmo ano em que irrompeu a revolução na França. As três primeiras palavras da Carta Magna - “Nós, o Povo” - afirmam que o governo dos Estados Unidos existe para servir seus cidadãos, que o povo exerce sua supremacia por meio de seus representantes eleitos. [5]

Ora, tal princípio de governo não pode prosperar em uma nação governada segundo o sistema católico-romano, pois o papado é fundamentalmente uma união da Igreja e Estado. A Constituição dos EUA, ao estabelecer a separação entre ambos, garante a liberdade civil e a liberdade religiosa indispensáveis ao governo do povo, pelo povo e para o povo. Além de justos, estes dois grandes princípios são perfeitamente inocentes e pacíficos, como o caráter de um cordeiro.

O evidente contraste entre esse sistema de governo e aquele que então predominava nas nações do Velho Mundo não poderia ter sido melhor descrito do que nas palavras de Alexis de Tocqueville em sua análise perceptiva do sistema político e social dos Estados Unidos no início do século XIX, Democracia na América:

No continente europeu, no início do século XVIII, triunfava em todas as partes a monarquia absoluta, por sobre os escombros da liberdade oligárquica e feudal da Idade Média. No seio dessa Europa brilhante e literária, jamais, talvez, a ideia dos direitos fora tão inteiramente desconhecida; jamais povos viveram menos a vida política; jamais noções de verdadeira liberdade preocuparam menos os espíritos; e é então que esses mesmos princípios, desconhecidos nas nações europeias, ou por elas desprezados, foram proclamados nos desertos do Novo Mundo e tornaram-se o símbolo futuro de um grande povo. As teorias mais audaciosas do espírito humano foram postas em prática nessa sociedade, tão humilde em aparência, de que nenhum estadista teria então se dignado a ocupar-se; abandonada à originalidade de sua natureza, a imaginação do homem improvisou ali uma legislação sem precedentes. [6]

E o modo como nasceram os EUA é significativamente descrito por um autor que provavelmente não estava familiarizado com a linguagem profética:

Nessa teia de ilhas, as Antilhas, começou a vida de ambas as Américas [do Norte e do Sul]. Ali avistou Colombo a terra. Ali começou a Espanha seu brilhante império ocidental. Dali partiu Cortez para o México, de Soto para o Mississipi, Balboa para o Pacífico, e Pizarro para o Peru. A história dos Estados Unidos foi separada por uma benéfica providência desta selvagem e cruel história do resto do continente, e como silenciosa semente crescemos até chegar a ser um império. [7]

Em 1890, os Estados Unidos tinham uma economia que, de longe, era a mais produtiva do mundo, com uma indústria que produzia o dobro de seu concorrente mais próximo, a Grã-Bretanha. Mas o país não era uma grande potência militar e diplomática. Seu exército contava com menos de trinta mil soldados e sua marinha possuía apenas dez mil marinheiros. O exército da Grã-Bretanha tinha cinco vezes o tamanho de seu equivalente americano e sua marinha era dez vezes maior [8].

Atualmente, os EUA são a maior potência econômica - com um PIB equivalente à soma das duas maiores economias atrás deles no ranking, China e Japão - e militar – com um orçamento que corresponde a 36% dos gastos militares globais, o que dá uma medida de sua liderança e influência.

São também, e significativamente, a nação mais religiosa de todas as democracias ocidentais desenvolvidas. Segundo uma recente pesquisa do Pew Research Center, os americanos oram com mais frequência, têm maior probabilidade de participar de cultos semanais e atribuem maior importância à fé em suas vidas do que os adultos de outras democracias ocidentais ricas, como o Canadá, a Austrália e a maioria dos estados europeus.



Se formos fiéis aos critérios de interpretação que têm norteado nossas investigações, será inconcebível aplicar os símbolos proféticos de Apocalipse 13:11-18 (ou aqueles que nos foi possível considerar até aqui) a qualquer outra nação senão os Estados Unidos da América.

Pois este país afirmou-se como tal durante o cativeiro da primeira besta, isto é, quando uma de suas cabeças foi ferida de morte, uma imagem que descreve, sem dúvida, a destruição temporária do papado em 1798, no auge da revolução na França. Nasceu não no Velho Mundo, mas num território que, em comparação, era despovoado, distante e pouco conhecido, e cresceu silenciosamente como uma planta, até alcançar preeminência e influência.

E em virtude do caráter de seu governo, tal como simbolizado pelos dois chifres sem coroas semelhantes aos de um cordeiro, é uma nação que nasceu distinta dos poderes civis e eclesiásticos do Velho Mundo; um país republicano em sua forma de governo e protestante em sua religião, que se distingue pela separação da Igreja e Estado e, portanto, se notabiliza pela liberdade civil e religiosa, a única dentre as nações, com efeito, cuja aparência corresponde tão notavelmente a este aspecto da profecia.

Uma teoria da conspiração extravagante?

Mas, justamente por essas qualidades, parece absurdo imaginar que um dia os EUA possam falar como dragão e agir em estreita colaboração com a primeira besta, isto é, que este país possa renunciar completamente às virtudes de cordeiro que o consagraram como o “farol da liberdade no mundo” e erigir, por meio de sua política e de suas leis, uma imagem da hierarquia papal em nome e na presença do próprio papado.

Porque esta identificação dos Estados Unidos com o espírito e governo de Roma papal certamente implicaria a adoção de um sistema de governo onde a Igreja deve estar unida ao Estado e o Estado à Igreja; um sistema em que a Igreja possui poder temporal para empregar a força [9], e onde cabe ao poder civil a obrigação de castigar, mediante determinadas penas, os violadores da religião católica [10].

Ora, foi mediante essa infeliz união de poderes que a Igreja perseguiu e puniu pelo confisco de bens, prisão, tortura, e até pela morte “os violadores da religião católica”, tendo se tornado a mais intolerante e opressora instituição dentre todas as criações humanas (na medida em que agiu assim em nome de Cristo), servindo-se do poder real para impor seus dogmas a toda a cristandade e eliminar qualquer dissidência.

Para alguns leitores, tudo isso pode parecer uma teoria conspiratória estranha, e nada mais. Afinal, como disse Barack Obama no discurso da vitória no Grand Park de Chicago [11], “para todos aqueles que se perguntam se o farol dos EUA ainda brilha com a mesma intensidade, esta noite nós provamos uma vez mais que a verdadeira força de nossa nação não emana da capacidade de nossas armas ou do tamanho de nossa riqueza, mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e inflexível esperança”.

Como conciliar declaração tão pungente com a perspectiva nada promissora da profecia? Como os EUA abandonarão o poder duradouro de seus ideais, a verdadeira força da nação, em benefício de um sistema historicamente oposto e em preparação para um futuro governo mundial no qual, não o povo, mas uma elite internacional – com o papa como rei - estará no comando?

As mudanças que levam à próxima era”, escreve George Friedman na introdução de seu livro, The Next 100 Years, “são sempre surpreendentemente inesperadas”. “Em um certo nível, quando se trata do futuro, a única coisa de que podemos ter certeza é que o bom senso estará errado. Não existe um ciclo mágico de vinte anos; não existe uma força simplista que governe esse padrão. Simplesmente as coisas que parecem tão permanentes e dominantes em um dado momento da história podem mudar com uma rapidez impressionante”. [12]

Friedman tem razão. Eras vêm e vão. Nada é permanente. Por mais inimaginável que pareça, podemos estar certos de que a mudança virá, inesperada e surpreendentemente. Não porque há um padrão por meio do qual podemos prever as linhas gerais da mudança, mas porque a profecia diz que será assim.


Notas e referências

1. Para uma explicação sobre porque a ferida mortal deve ser localizada na profecia como um evento posterior aos 42 meses proféticos, ver Hans K. LaRondelle, As Profecias do Tempo do Fim, p. 242-243.

2. Hans K. LaRondelle, As Profecias do Tempo do Fim, p. 238.

3. No artigo “A besta que emergiu da terra”, apresento uma explicação mais detalhada sobre o assunto.

4. Sobre as características messiânicas da besta de dois chifres, ver o artigo “A liberdade sob ameaça”.

5. https://www.senate.gov/civics/constitution_item/constitution.htm

6. Alexis Tocqueville. A Democracia na América. Tradução e notas de J.A.G. Albuquerque. Coleção Os Pensadores, tomo XXIX: Federalistas. Textos selecionados por Francisco C. Weffort. São Paulo: Abril, 1973, p. 189, 196 e 197. Itálicos acrescentados.

7. G.A. Townsend. The New World Compared with the Old. Hartford, CN: S.M. Betts & Company, 1870, p. 635. Itálicos acrescentados.

8. http://www.digitalhistory.uh.edu/disp_textbook.cfm?smtid=2&psid=3158

9. Syllabus. Contendo os Principais Erros da Nossa Época, Notados nas Alocuções Consistoriais, Encíclicas e Outras Letras Apostólicas do Nosso Santíssimo Padre, o Papa Pio IX. MONTFORT Associação Cultural, #55 e 24.

10. Quanta Cura. Carta encíclica do Papa Pio IX Sobre os principais erros da época, promulgada em 8 de dezembro de 1864. MONTFORT Associação Cultural.

11. https://abcnews.go.com/Politics/Vote2008/story?id=6181477&page=1

12. George Friedman, The Next 100 Years: a forecast for the 21st century. New York: Doubleday, 2009, p. 6 e 3.

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