Blog dedicado ao estudo de Apocalipse 14:6 a 12.

sábado, 15 de julho de 2017

De esposa fiel à meretriz (parte 2)

Por suas características, não há dúvida de que a meretriz de Apocalipse 17 simboliza a deplorável condição da igreja cristã, que, à semelhança de Israel no passado, exaltou-se a si mesma, repudiou a pura verdade do evangelho de Cristo e abandonou o próprio Salvador como seu legítimo Esposo, a fim de unir-se ilicitamente ao mundo e devotar-lhe sua fidelidade e amor.

Ao proceder assim, a igreja assumiu o papel de uma mulher adúltera ou prostituta, que abandona o marido a quem prometeu amor e lealdade e procura manter relações ilícitas com outros homens.


E assim como a influência da adúltera natural no seio da família e da sociedade humana, a influência corruptora da igreja apóstata se faz sentir na cristandade e em cada povo, língua e nação que tenha cedido aos seus sedutores encantos.

Afinal, não é ela a "grande meretriz que se acha sentada sobre muitas águas, com quem se prostituíram os reis da terra; e, com o vinho de sua devassidão, foi que se embebedaram os que habitam na terra"? E não são as águas sobre as quais está sentada "povos, multidões, nações e línguas" (Apocalipse 17:1-2, 15)?

São suas relações impróprias com o mundo, as quais sacrificam o amor a Deus e à verdade, que determinam sua infeliz condição e, portanto, sua progressiva queda moral e iminente ruína, exatamente como antecipada na mensagem do segundo anjo (Apocalipse 14:8).

Predita a apostasia religiosa

Não obstante, é um fato que a "grande meretriz" nem sempre foi assim. De sua prostituição com o mundo e seus falsos ensinos infere-se que um dia ela possuiu a pureza original do evangelho eterno, tal como simbolizada pela mulher virtuosa de Apocalipse 12.

Ora, foi pelo abandono da verdade que a igreja institucional tornou-se uma meretriz, de modo muito semelhante ao antigo Israel, quando se apartou do Deus verdadeiro e de Sua Palavra.

E é sobre esta apostasia que trata o apóstolo Paulo, ao advertir os cristãos de Tessalônica sobre a desditosa experiência da igreja antes do bendito retorno de nosso Redentor:

Ninguém, de nenhum modo, vos engane, porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus. (II Tessalonicenses 2:3-4)

Ao procurar corrigir falsas expectativas quanto à volta de Jesus, Paulo advertiu que isto não aconteceria sem que primeiro a apostasia surgisse dentro do "santuário de Deus", expressão que o apóstolo emprega não para se referir ao templo de Jerusalém, como alguns supõem, mas aos cristãos, o corpo místico de Cristo (ver I Coríntios 3:16-17; 6:19; II Coríntios 6:16-18; Efésios 2:19-21).

Portanto, em consonância com as palavras de Paulo aos anciãos da igreja de Éfeso (Atos 20:29-31), a apostasia surgiria no seio da igreja cristã.

O aparecimento do "homem da iniquidade ou "o iníquo" (II Tessalonicenses 2:9) seria o clímax desta apostasia, mas o "mistério da iniquidade" já estava em operação nos dias do apóstolo (verso 7), e deveria desenvolver-se até alcançar sua plena maturação antes do bem-aventurado aparecimento de nosso Senhor.

A origem da profecia de Paulo

É de grande significação que a advertência de Paulo tenha sido estruturada com base no discurso profético de Jesus, em Mateus 24, e que tanto o próprio Salvador como Seu servo coloquem na perspectiva correta o Dia do Senhor a partir das profecias de Daniel!

De fato, Paulo usou o mesmo método de Cristo ao aplicar certos aspectos das profecias de Daniel à sua própria geração e aos eventos ainda distantes no futuro, demonstrando que o Dia do Senhor não era algo iminente, mas que muitos séculos transcorreriam até que o homem da iniquidade se revelasse plenamente e o Senhor Jesus o destruísse "com o sopro de sua boca" e "pela manifestação de sua vinda" (II Tessalonicenses 2:8).

É digno de nota que o esboço profético de Jesus em Mateus 24 (e paralelos) é, ao lado do sermão da montanha, Seu discurso mais importante, com a singular diferença de que foi dirigido somente aos discípulos, os quais se tornariam os primeiros líderes da igreja!

Neste sermão profético memorável, Cristo não trata de obviedades.

Ao advertir de que muitos "hão de se escandalizar" - no grego, skandalizó, tropeçar ou ofender-se - e que "levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos" (versos 10-11), Ele não se refere primariamente ao mundo em geral, mas aos Seus professos seguidores, muitos dos quais tropeçariam na fé, tornando-se, por sua vez, pedras de tropeço na igreja.

Nesse sentido, se a predição de nosso Senhor em Mateus 24:12 - "E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos"- se aplicasse apenas ao mundo, pareceria previsível demais, visto "que o mundo inteiro jaz no Maligno" (I João 5:19).

Mas seria certamente surpreendente que o mesmo fenômeno ocorresse no seio da igreja cristã, a última comunidade em que alguém esperaria que o amor esfriasse de quase todos (ver Apocalipse 2:2-5)!

Com base nesta linha de raciocínio, é compreensível que João, ao contemplar o julgamento da grande meretriz em Apocalipse 17, tenha se admirado "com grande espanto" (verso 6)!

Afinal, quem poderia imaginar que cristãos professos tornar-se-iam como uma prostituta cruel sedenta de sangue?

Similaridades entre as profecias de Cristo e de Paulo

Assim, da mesma forma que Cristo advertiu Seus discípulos, ao começar Seu discurso profético - "Vede que ninguém vos engane" (Mateus 24:4) -, Paulo inicia sua exortação aos cristãos com as palavras: "Ninguém, de nenhum modo, vos engane" (II Tessalonicenses 2:3).

Cristo então se refere à apostasia vindoura como "o abominável da desolação situado onde não deve estar" (Mateus 24:15; Marcos 13:14), uma referência explícita a Daniel 8:9-13, 9:27, 11:31 e 12:11!

Paulo localiza a mesma apostasia "onde não deve estar", isto é, no santuário de Deus, ao descrever "o homem da iniquidade, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus".

A percepção de Cristo e de Paulo sobre o lugar onde começa a apostasia, ou seja, na igreja cristã, está direta e intencionalmente embasada nas profecias apocalípticas de Daniel, em particular nas que se referem à visão "do sacrifício diário e da transgressão assoladora" (Daniel 8:13).

A maneira como nosso Salvador e Paulo tomam o esboço profético de Daniel para formar seu próprio panorama do futuro demonstra o quão essenciais são estas profecias para se estabelecer historicamente o cenário envolvendo a igreja cristã, desde os seus dias até à consumação dos séculos.

Com efeito, embora Cristo identifique inicialmente o "abominável da desolação" com a destruição de Jerusalém pelos exércitos romanos no ano 70 da era cristã (ver Mateus 24:16-20), a expressão que Ele usou em referência a Daniel vai além desse evento e do próprio período de Roma imperial.

A palavra hebraica para "abominação", shiqquts, é frequentemente usada nas Escrituras para se referir à idolatria, uma forma grave de rebelião contra Deus (Deuteronômio 29:16-18; II Reis 23:24; Jeremias 4:1; 7:30).

Este tipo específico de abominação relacionada à idolatria é evidente em Daniel 8:9-13: a fase religiosa do chifre pequeno - o "abominável da desolação" (1) - de algum modo tira do Príncipe do exército o "contínuo" (a palavra "sacrifício" não se encontra no original) e o substitui por seu próprio sistema de culto (ver Daniel 11:31).

Ora, no contexto do antigo santuário, o "contínuo" designava o serviço regular ou diário dos sacerdotes no átrio e no lugar santo do tabernáculo, "os quais ministram em figura e sombra das coisas celestes" (Hebreus 8:5; 9:24).

A ambição do homem do pecado

A ambição do poder representado pelo chifre pequeno é muito maior do que se seria natural esperar da mera avareza dos homens; ele tem em vista usurpar o contínuo ministério de intercessão do Príncipe do exército no "lugar do seu santuário", isto é, o santuário celestial!

Para realizar sua pretensão blasfema, esse poder deve "assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus".

Como evidentemente não pode fazê-lo no santuário do Céu, ele o fará no santuário de Deus na Terra, ou seja, na igreja de Cristo, tornando-se a cabeça em lugar de nosso Criador (ver Colossenses 1:18).

Em função de sua vil natureza, não é de surpreender que esta abominação ou idolatria seja chamada desoladora! Ela procura destruir tanto a verdade do santuário celestial como os seus fiéis adoradores.

O chifre pequeno "proferirá palavras contra o Altíssimo, magoará os santos do Altíssimo e cuidará em mudar os tempos e a lei; e os santos lhe serão entregues nas mãos, por um tempo, dois tempos e metade de um tempo" (Daniel 7:25).

Em seu esboço profético, nosso Senhor se refere ao mesmo desenvolvimento histórico, ao advertir que, depois da destruição de Jerusalém pelos exércitos romanos e antes da vinda do Filho do Homem, a igreja seria oprimida e perseguida pelo mesmo poder mencionado em Daniel 7:21-26.

De modo que a advertência de Jesus: "porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais" (Mateus 24:21), vai muito alem do cerco romano à cidade dos judeus. Trata-se da mesma tribulação predita em Daniel 7:25 e 12:7, e que diz respeito à igreja na era cristã.

E podemos ter uma ideia da angustiosa condição desse tempo nas impressionantes palavras do Mestre: "Não tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo; mas, por causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados" (Mateus 24:22).

Portanto, a aplicação inicial que Cristo faz da "abominação desoladora", ou seja, no dramático cerco romano a Jerusalém, não é senão um tipo ou prefiguração de uma abominação ainda maior que teria lugar dentro da igreja cristã, e que é explicada por Paulo como devendo ocorrer antes do retorno de nosso Senhor.

A natureza da apostasia

Uma vez que nos parece bem estabelecido o tempo e lugar desta apostasia, passaremos a considerar sucintamente a sua natureza.

Como nosso amado Salvador, Paulo reconhece nas profecias apocalípticas de Daniel a principal referência para descrever a apostasia então vindoura.

Por isso, há um notável paralelismo entre o ensino apocalíptico de Paulo e o sermão profético de Jesus.

À luz da descrição de Cristo, o apóstolo se refere até mesmo à fase escatológica (referente aos últimos dias) da apostasia, mencionando o fato de que sua plena manifestação seria acompanhada de sinais e prodígios de caráter sobrenatural (Comparar Mateus 24:24 com II Tessalonicenses 2:9).

Assim, para Paulo, o "homem da iniquidade" que se assenta no santuário de Deus corresponde à "abominação desoladora" no lugar santo da profecia de Cristo, de modo que ambos são um e mesmo fenômeno.

A apostasia é, então, um fenômeno definido, uma revolta ou rebelião contra Deus e Sua lei que, a princípio, permanece velada, porém, à medida que se desenvolve, manifesta o homem da anomia, isto é, o homem da ilegalidade ou do desprezo absoluto pela lei do Senhor, e, portanto, a entidade que "cuidará em mudar os tempos e a lei" (Daniel 7:25).

Por isso, Ele é também chamado "o filho da perdição", uma expressão empregada uma única vez na Bíblia, quando Jesus Cristo a atribuiu a Judas (João 17:12), um discípulo tão próximo do Mestre quanto os demais, mas que O traiu ao permitir que Satanás entrasse em seu coração (João 13:2, 27; Mateus 26:47-50).

O homem do pecado "se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto", exatamente como o "rei" na profecia de Daniel, que "fará segundo a sua vontade, e se levantará, e se engrandecerá sobre todo o deus" (Daniel 11:36).

Além disso, esse personagem ou poder exalta a si mesmo "a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus" (II Tessalonicenses 2:4), um pormenor que requer nossa atenção por um instante.

Pretensão arrogante e blasfema

A menção de Paulo ao fato de o "homem da iniquidade" assentar-se no templo de Deus parece ser uma referência à visão de Daniel sobre Deus em Seu santuário: "Continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e o Ancião de Dias se assentou" (Daniel 7:9).

Ao assentar-se em Seu trono, o Ancião de Dias abre a sessão do tribunal divino que julga as pretensões blasfemas do "chifre pequeno" (Daniel 7:10, 21-22, 25-27).

Deus, porém, julga somente na pessoa do Filho do Homem (Daniel 7:13), pois "o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo o julgamento", "e lhe deu autoridade para julgar, porque é o Filho do Homem" (João 5:22 e 27)!

Assim, quando Paulo descreve o homem do pecado assentado no santuário de Deus, "ostentando-se como se fosse o próprio Deus", refere-se à tentativa deliberada desse poder de usurpar para si as prerrogativas de Cristo como Sumo Sacerdote e Juiz no santuário celestial.

Esta é a mesma pretensão do chifre pequeno, que "engrandeceu-se até ao príncipe do exército; dele tirou o sacrifício diário e o lugar do seu santuário foi deitado abaixo" (Daniel 8:11).

É importante frisar que um ataque dessa natureza ao santuário de Deus na Terra - o qual Paulo, conforme foi observado, aplica ao corpo de crentes - representa um ataque ao santuário celestial, pois ambos estão naturalmente conectados em virtude da obra sacerdotal de Cristo na sede de operações no Céu.

Tal é a magnitude da pretensão blasfema do anticristo que, pela apostasia da verdade, revelar-se-ia dentro da igreja de Deus, reivindicaria para si atributos exclusivos da Divindade, e cuidaria "em mudar os tempos e a lei" (Daniel 7:25).

A natureza essencial do anticristo manifesta-se, então, em um duplo ataque a Deus: ele muda os "tempos e a lei" (Daniel 7:25) e substitui a adoração verdadeira no templo de Deus pelo seu próprio sistema idolátrico de culto, ao usurpar o sacerdócio de Cristo (Daniel 8:11-13, 25). Trata-se de um ataque à lei e ao evangelho eterno.

De posse de todas estas informações, resta-nos fazer o link com a descrição da "grande meretriz" de Apocalipse 17, e encontrar nela as mesmas características do homem do pecado.


Notas e referências

1. Para uma exposição mais detalhada sobre o "chifre pequeno" em Daniel 7 e 8, recomendo ao leitor conferir os artigos que escrevi a respeito, clicando aqui e aqui.

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