segunda-feira, 20 de abril de 2020

O maior gatilho desde o 11 de setembro


O ano mal começara, e novas aspirações, novos propósitos e resoluções ainda ocupavam nossa mente, quando a "geopolítica sofreu uma guinada dramática", nas palavras de Mark Gongloff, da Bloomberg, a propósito dos ataques aéreos norte-americanos que mataram Qassem Soleimani, o homem mais forte do Irã depois do aiatolá Ali Khamenei. "Sabíamos que 2020 seria um ano interessante", ele escreveu. "Levou apenas dois dias para começarmos a descobrir o quão interessante será".

Nem Mark ou qualquer outra pessoa podia imaginar na ocasião quão interessante 2020 realmente seria. Não no sentido primário da palavra, como ele observa, mas segundo o uso irônico do termo ("May you live in interesting times"), baseado em uma suposta maldição tradicional chinesa, significando tempos de angústia e insegurança.

Ninguém podia supor, de fato, que dois meses depois metade da humanidade estaria sob algum tipo de quarentena, que medidas de contenção draconianas, de vigilância e censura, no melhor estilo orwelliano, se tornariam mais comuns à medida que uma pandemia provocada por um vírus sobre o qual a maioria das pessoas nunca ouvira falar se espalhava pelo mundo, e que em apenas quatro semanas quase 22 milhões de americanos solicitariam o seguro-desemprego devido à crise, um recorde sem precedentes.

"Sem precedentes" e expressões similares têm, aliás, se tornado comuns no vocabulário cotidiano desde que a crise provocada pela Covid-19 adquiriu contornos globais. "Este é um momento sem precedentes na história da humanidade", escreveu Dan Schulman, presidente e CEO de uma das maiores empresas do ramo de pagamentos online, em um comunicado aos seus clientes e parceiros.

O diretor executivo da Northwest Seaport Alliance, John Wolfe, se referiu à interrupção na cadeia de suprimentos global como "sem precedentes", enquanto Gita Gopinath, no prefácio ao relatório semestral do FMI de abril de 2020 escreveu: "Esta é uma crise como nenhuma outra". O mesmo relatório observa, com evidente surpresa:

A projeção para o crescimento global é de -3% em 2020, um resultado muito pior do que durante a crise financeira global de 2009. A previsão de crescimento foi reduzida em mais de 6 pontos percentuais em relação às projeções do WEO [World Economic Outlook] de outubro de 2019 e da atualização do WEO de janeiro de 2020 - uma revisão extraordinária em um período tão curto.

Na mesma semana, o Fundo Monetário Internacional revelou que metade dos países do mundo solicitou empréstimos de emergência para enfrentar a crise financeira global causada pelo novo coronavírus (o que significa maior dependência de instituições internacionais em detrimento das soberanias nacionais, outro precedente bastante significativo). A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, disse em uma entrevista à CNBC: "Esta é uma emergência como nenhuma outra".

Nunca as pedras clamaram tão alto!

"Não vamos voltar ao normal"

O ritmo da história é marcado por eventos importantes que tendem a provocar mudanças igualmente significativas e duradouras na sociedade.

Na perspectiva da Palavra profética, um evento importante é aquele que tem o potencial de mudar o rumo da história na direção indicada nas profecias. É o que eu chamo de gatilho, uma crise severa o bastante para causar mudanças definitivas na sociedade e, assim, viabilizar as poucas porções finais de algumas cadeias proféticas que ainda aguardam seu cumprimento.

A pandemia pelo novo coronavírus se tornou um evento verdadeiramente significativo não tanto pela tragédia em si, mas pelas tendências que representa e que, no momento, não somos capazes de divisar em toda a sua variação e alcance. Afinal, as profecias não nos foram dadas pela Divina Providência para nos tornar clarividentes, mas para fortalecer nossa fé quando elas se cumprirem (João 14:29)!

O que parece certo é que as tendências imediatas da pandemia lançaram a humanidade numa espiral de múltiplas crises, que se intensificarão à medida que a obra derradeira de Cristo na sede de operações no Céu se aproxima do veredito final que decidirá a sorte de todo o homem.

Em outras palavras, é até possível que, caso não haja uma nova mutação e um novo surto, a pandemia seja contida em questão de meses e se torne história, mas não se pode dizer o mesmo de suas profundas implicações.

Nesse sentido, a pandemia pela Covid-19 é o maior gatilho que já tivemos desde o 11 de setembro de 2001, não só pelo fato de criar novas tendências especialmente relevantes para aqueles que conhecem o tempo, mas por acelerar tendências que já estavam em curso desde aqueles ataques terroristas que marcaram o início do século 21 e mudaram para sempre o rumo da história.


O século 21 começou no dia 11 de setembro de 2001 (Crédito: Michael Foran via Wikimedia Commons)

Não se trata, com efeito, de uma crise como as que vêm e vão e que causam impactos relativamente pequenos no mundo, mas de um acontecimento ligado ao final do tempo de graça e, portanto, uma advertência solene sobre a necessária obra de preparação para o tempo de angústia.

Os que ainda acreditam que essa crise, a despeito de sua evidente relevância histórica e profética, é passageira e que tudo voltará ao normal em breve, deveriam considerar, ao menos, as observações de Michael Muharrey, da SchiffGold, sobre o papel econômico da crise e suas evidentes implicações sociais:

Gire a chave e a economia será reiniciada. Isso é um mito que muitas pessoas no mercado sustentam desde que os governos começaram a fechar a economia em resposta à pandemia de coronavírus. Isso não vai acontecer. Não vamos voltar ao normal. De fato, as coisas não eram "normais" antes da pandemia... A economia era uma bolha de dívida enorme, inflada e assustadora. O normal era anormal.... O coronavírus estourou a bolha.... Não voltaremos ao normal tão cedo.

O mundo está mudando, e muitas coisas não serão mais as mesmas.

A crise como oportunidade política

Uma crise de grande proporções, como a provocada pela Covid-19, representa a oportunidade de ouro para que os atores nos altos escalões do poder possam implementar políticas que dificilmente seriam aceitas em outras condições. E uma vez que a crise se alimenta do medo e da incerteza, as pessoas tendem a sacrificar direitos civis por segurança, permitindo que esses atores ajam em seu nome e adotem medidas políticas incomuns, que comprometem as liberdades mais fundamentais.

Direita ou Esquerda, não importa. Em tempos de crise, prevalece a suposição de que só o governo pode nos salvar.

Foi exatamente o que aconteceu logo após o 11 de setembro. O choque inicial dos atentados levou a sociedade americana a superar diferenças de opinião e a aumentar o apoio ao governo para responder à crise e à nova ameaça, mesmo em prejuízo de seus direitos civis.

O USA Patriot Act, um pacote de medidas que dava ao governo maiores poderes de busca e vigilância e de detenção de suspeitos de terrorismo, foi negociado em apenas cinco semanas e aprovado em 5 de outubro de 2001, tendo sido assinado pelo presidente George W. Bush um dia depois. Nenhuma lei até então havia tramitado tão rapidamente na história do Congresso americano. [1]

Embora sob o pretexto de preservar a vida e a liberdade, na prática essas medidas aumentavam excessivamente os poderes do governo, em detrimento dos direitos individuais, com alguns críticos na ocasião suspeitando que tais medidas seriam um precedente para a imposição de lei marcial. A esse respeito, Naomi Wolf observou de maneira perceptiva:

Historicamente, a imposição da lei marcial, ou de um governo que age por decretos de emergência, costuma ocorrer durante uma crise. Uma crise permite a um aspirante a ditador, mesmo numa democracia, usar poderes de emergência para restaurar "a ordem pública". Esse tipo de coisa não acontecerá nos Estados Unidos. Mas atualmente nós temos uma infraestrutura jurídica que pode respaldar um "golpe letal" - uma versão mais civilizada e vendável de uma investida violenta. [2]

A mesma tendência se verifica nos Estados Unidos e no mundo de hoje, só que em proporções muito maiores.

Os formuladores de políticas sabem que não pode haver mudança definitiva na sociedade sem a experiência do choque. A pandemia é a oportunidade perfeita para a instauração de uma ditadura tecnocrática autoritária sob um verniz de democracia e um discurso civilizacional. As medidas incomuns que prometem certo alívio e segurança escondem ambições maiores que levarão a reformas que não serão temporárias nem reversíveis.

Olhando na direção certa

O problema, no entanto, é que os cristãos em geral estão focando sua atenção no "rei do sul" - para usar a terminologia profética de Daniel 11 -, ao passo que quem estará no centro do palco e dirigirá a ação é o "rei do norte". Eles olham na direção dos globalistas, das sociedades secretas e dos comunistas ateus, quando, de acordo com a Bíblia, o inimigo mais letal é outro.

Os aliados mais próximos do dragão, que, em última instância, representa Satanás (Apocalipse 12:9), não são ateus, humanistas e liberais, mas cristãos conservadores!

A besta que emerge do mar e recebe do dragão "o seu poder, o seu trono e grande autoridade" (13:2); que a exerce "sobre cada tribo, povo, língua e nação" (verso 7); que receberá da parte destes admiração, lealdade e adoração (versos 3, 4, 8); e que perseguirá os que se opuserem à sua autoridade (verso 7), não simboliza a ONU ou qualquer outro organismo internacional, mas o papado.


Papa celebra missa em uma Basílica de São Pedro vazia (Crédito: AFP via Getty)

A besta que emerge da terra e que "exerce toda a autoridade da primeira besta na sua presença" (13:12), embora fale como dragão, tem a aparência de um cordeiro, qualidade que caracteriza não os Iluminados ou a Maçonaria, e sim os cristãos protestantes da América.

E a união entre Igreja e Estado de que trata Apocalipse 17, que determinará a futura ordem mundial pouco antes da volta de nosso Senhor Jesus, não é uma iniciativa dos adeptos da Nova Era ou das religiões orientais, mas de cristãos nominais representados pelo papado e o protestantismo norte-americano!

As pretensões político-religiosas do papado e as ações da nova direita cristã na América, as quais, inadvertidamente ou não, tendem a favorecê-las, têm cumprido com notável exatidão essas profecias. À semelhança dos demais jogadores na arena política internacional, esses atores têm se aproveitado das crises com potencial de mudança para fazer avançar uma agenda que contraria os valores e liberdades que professam amar e defender.

Diferentemente do evangelismo bíblico, que procura conquistar pessoas para Cristo, o evangelismo atual da direita cristã, em harmonia com o espírito do papado, deseja moldar sociedades inteiras "para Cristo". Nesse cenário, em que a nação deve ser moldada em uma sociedade cristã governada pela lei de Deus (com o agravante de que essa lei reflete mais a tradição humana do que a vontade divina), ninguém é livre para escolher tornar-se ou não um cristão.

Uma vez que a separação entre igreja e Estado é o fundamento da liberdade de consciência, a ação de tornar princípios morais religiosos a base das leis do Estado constitui uma ameaça ao foro íntimo de cada um. Mais cedo ou mais tarde, tal iniciativa resultará em perseguição àqueles contrários às ideias predominantes.

Eles também sabem jogar

A lógica de um regime baseado na união entre Igreja e Estado só faz sentido se a Igreja for atuante na esfera política e o Estado, forte o bastante para que essa atuação se reflita nas políticas públicas. Conforme temos testemunhado, uma crise global como a provocada pela pandemia do novo coronavírus tem o potencial de favorecer ambas as condições em um curto espaço de tempo.

O 11 de setembro já havia aberto um precedente nesse sentido, na medida em que a concepção evangélica de grupos religiosos da direita cristã, em sua maioria cristãos protestantes, que haviam desempenhado um papel de destaque na eleição do presidente George W. Bush, foi um fator importante na reação do governo tanto no plano doméstico como no externo após os atentados. [3]

Aprendendo com seus erros e com o processo político, a direita cristã aprendeu a jogar o jogo, tornando-se um jogador habilidoso.

"Certas circunstâncias históricas apresentam oportunidades excepcionais para injetar novos pensamentos na 'arena' da política", ou seja, "... alguns think tanks [formuladores de políticas] podem estar mais aptos a exercer uma considerável influência política, porque um evento político, como os ataques terroristas ao WTC e ao Pentágono no 11 de Setembro, tornou sua agenda ideológica mais palatável".

Para os conservadores, financiar os think tanks foi um meio de exercer um impacto significativo no diálogo político. Esse movimento não parou mais, nem encontrou resposta similar no lado liberal...

Na verdade, hoje é a direita norte-americana que pauta a agenda política. Isso significa que os eleitores "expulsaram" os republicanos, mas não se moveram para a esquerda. Trocaram, de certa forma, os republicanos moderados por democratas mais conservadores - o que pode dar no mesmo ou ser ainda mais à direita. Basta lembrar da trajetória dos neocons. [4]

Embora a trajetória desses grupos religiosos e políticos que compartilham valores e ambições comuns não seja linear, traumas sociais, como o 11 de setembro e a atual crise global, que justificam, alimentam e evidenciam o poder do discurso conservador mais do que muitos cristãos e não cristãos gostariam, deveriam servir como um sinal de alerta sobre o crescente papel desses atores na política americana.

Em uma postagem anterior, escrevi que, apesar do idealismo utópico que permeia o discurso de protestantes e católicos dedicados em derrubar o muro de separação entre Igreja e Estado na América, o espírito subjacente às suas medidas revela um discurso completamente diferente.

Conforme afundamos em uma espiral de crises sem paralelo, esperamos ver esse discurso adquirindo contornos mais definidos. Afinal, a crise muda a maneira de pensar, e na medida em que desejam freneticamente o poder para restaurar a ordem do mundo em nome de Deus, cordeiros também podem falar como dragão.


Continua...


Notas e referências

1. Christiano German, As Novas Leis de Segurança na Alemanha e nos Estados Unidos: Os efeitos para a comunicação local e global. Revista CEJ - Centro de Estudos Judiciários, nº 19, out/dez 2002, p. 79.

2. Naomi Wolf, O fim da América: Cartas a um jovem patriota norte-americano. Rio de Janeiro: Record, 2010, p. 213.

3. Alessandro Shimabukuro, "O impacto do 11 de setembro sobre política, religião e sociedade nos Estados Unidos". Em Carlos Eduardo Lins da Silva (Org.), Uma Nação com Alma de Igreja: religiosidade e políticas públicas nos EUA. São Paulo: Paz e Terra, 2009, p. 174.

4. Tatiana Teixeira, Os Think Tanks e sua influência na política externa dos EUA: a arte de pensar o impensável. Rio de Janeiro: Revan, 2007, p. 120, 140 e 234. O destaque está no original.

8 comentários:

  1. Muito profundo Ricardo.
    Esse texto realmente nos faz pensar muito além do que a pandemia representa.

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    1. Obrigado pelo comentário! Que Deus nos preserve em meio a essa crise. Um forte abraço!

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  2. Parabéns pelo originalidade do texto; sempre suspeitei dos conservadores.

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    1. Somos dois, primo! Obrigado pelo comentário! Que Deus te abençoe e te guarde. Um forte abraço!

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  3. Muito bom!! Em breve ocorrerá essa união ... Entre o estado e região

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    1. Sem dúvida! E mais cedo do que imaginamos. Obrigado pelo comentário! Que Deus nos preserve para o Seu reino!

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  4. Pra se pensar. Mas falta peças nesse quebra cabeca

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    1. Obrigado por seu comentário! Ler os demais artigos que já publiquei e que, de certo modo, estão relacionados ao assunto, poderá ajudá-lo a encontrar as peças que faltam.

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