As pegadas dos jesuítas – 17. Derrubada do poder temporal do papa

Quando Pio IX se deixou levar pela observação emocional citada no último capítulo – que ele nem podia nem queria admitir tais modificações nas leis como o povo desejava – ele cometeu um erro fatal. Isso o colocou em oposição direta à expulsão dos austríacos, à criação de um governo constitucional e de uma nação italiana independente. Ele deve ter sido grosseiramente enganado por seus conselheiros eclesiásticos se não soubesse que o povo fôra intensamente despertado pelo desejo de ver todas essas coisas realizadas, que a revolução não tinha outro significado, e que tudo o que estava acontecendo indicava inequivocamente que a pacificação era impossível sem elas. Ele teria sabido, com um pouco de reflexão, que a verdadeira fé cristã da Igreja, conforme ensinada pelos apóstolos e "os pais," não estava, em nenhum sentido razoável, envolvida em nenhuma dessas proposições; que elas tinham a aprovação de milhões de católicos em todo o mundo e de uma vasta maioria dos italianos, e que ao empregar sua autoridade pontifical para enxertar na fé a odiosa doutrina jesuítica de que era heresia negar o poder temporal e a realeza do papa, ele estava não só violando as convicções honestas dessas multidões de cristãos, mas também empenhado em converter a Igreja, como representante de todo o corpo de seus membros, em uma máquina para a perpetuação do monarquismo e a supressão do direito ao autogoverno popular.

Dizer ao povo da Itália, como Pio IX fez, que um governo constitucional estabelecido por eles violaria a lei divina, em face do que tais governos haviam feito em outras partes do mundo – especialmente nos Estados Unidos – foi, além de um ato de fraqueza de sua parte, uma acusação à inteligência popular do mundo. Tal doutrina só foi suportada na Idade Média porque a multidão era educada para a servidão e obediência, e mantida nesta condição pela autoridade conjunta da Igreja e do Estado. Mas sua declaração em meados do século XIX só podia ser entendida, mesmo em Roma, como a expressão de um desejo de ver o período do progresso humano chegar ao fim pelo triunfo permanente do poder imperial. Era o delineamento de uma política para as nações progressistas modernas que, ao destruir suas constituições, as sujeitaria à dominação papal em todo o vasto domínio da fé e da moral; pois se, como o papa declarou, os duzentos milhões de católicos espalhados pelo mundo se tornassem sujeitos à sua convocação para defender o poder temporal do papa, eles se tornariam, por meio disso, criaturas de sua vontade e instrumentos passivos de seu poder. Havia muito poucos tão ignorantes a ponto de serem enganados por seus apelos pela continuidade de seu próprio poder monárquico e absoluto e, portanto, sua tentativa, com a ajuda dos austríacos, de colocar rebites mais fortes em suas correntes apenas os tornou mais resolutos na determinação de quebrar seus grilhões completamente.

À medida que os dias passavam, mais o povo se familiarizava com as opiniões e propósitos de Pio IX. No entanto, com louvável paciência, eles se submeteram às suas repetidas censuras em virtude de seu verdadeiro amor por ele, não menos do que pela veneração por seu ofício. Se o papa os tivesse compreendido plenamente, emoções mistas o teriam sensibilizado – as que fazem vibrar as cordas mais sensíveis do coração, e as que resultam invariavelmente do orgulho, da vaidade e da ambição. Mas, além das emoções que ele pode ter experimentado pessoalmente, o papa era controlado por circunstâncias contra as quais era impotente, porque as complicações existentes haviam sido produzidas antes de seu tempo por combinações que não reconheciam simpatia pelo sofrimento popular e que se fortaleceram o bastante para dominar até mesmo o próprio papado. Possivelmente suas tendências naturais poderiam tê-lo inclinado a quebrar os laços que o mantinham nas garras dos monarcas e dos jesuítas; mas ele era tão incapaz de fazê-lo quanto uma criança é de se afastar dos braços de um homem forte. Pio IX era, de fato, dificilmente ele mesmo, mas vítima de outros muito menos escrupulosos, que acalmavam ou despertavam suas paixões e vaidade ao seu bel-prazer, não importando qual destino lhe sobreviesse, à Igreja ou ao povo da Itália. Se olhava para além da Itália, o papa encontrava o grande poder militar e monárquico da Áustria segurando-o pela garganta, e apertando mais forte a cada dia. Se olhava para Roma, onde deveria ter tido conselhos sábios, via-se cercado por um corpo de eclesiásticos cujas mentes – por mais iluminadas que fossem – eram atrofiadas pela falta de conhecimento prático do mundo e experiência na gestão de assuntos, e que viam no progresso humano apenas o que colocava um freio em sua própria ambição e um limite à autoridade eclesiástica. Mas em qualquer direção para a qual olhasse, ele era assombrado pelo espectro de Loyola, que pairava pelos recessos do Vaticano o tempo todo, pronto para "aguçar seu propósito quase embotado" sempre que se tornasse vacilante e irresoluto. O grito popular de "constituição" soava como um dobre de finados para todos esses conselheiros, a quem uma guerra com a Áustria e uma Itália independente eram violações sacrílegas da lei divina. Não devemos, portanto, censurar Pio IX com muita severidade quando o encontramos cercado e encurralado por tais influências, às quais poucos homens teriam força suficiente para resistir. Não importa quais glórias se agrupassem em torno de seu ofício sagrado, ele era humano como outros homens.

A guerra com a Áustria logo se tornou o grito popular; e quando o povo das províncias foi informado de que o papa não a favorecia, eles começaram imediatamente a procurar assistência em outra direção. As relações entre a Áustria e a Sardenha há muito eram hostis, e era natural que eles procurassem uma aliança com o Piemonte, então armado, para a proteção que o papa recusava. Quando Pio IX se recompôs o suficiente para antecipar até mesmo a possibilidade de tal passo, ele, provavelmente pela primeira vez, foi levado a perceber o quão rapidamente os perigos estavam se acumulando e se adensando em torno do papado, e o quão incompetente ele seria para enfrentá-los, se a vingança popular, despertada por sua indiferença e negligência, se voltasse contra ele. O papa foi, consequentemente, induzido a ceder novamente aos melhores impulsos de sua natureza e tentou desviar a ira pública por meio de medidas adicionais de reforma. Havia alguns prisioneiros políticos que não tinham sido incluídos em sua anistia, e estes foram perdoados. Ele também mandou derrubar os muros que separavam os judeus das outras partes da população. Mas estas medidas, embora importantes, eram de pouca consequência enquanto fosse permitido aos jesuítas permanecer em Roma. Eles eram considerados uma ferida cancerosa que corroía o coração da sociedade com um apetite muito voraz para ser aplacado. Eles tinham sido expulsos de todas as cidades das províncias e foram seguidos por um grau de ódio popular que teria desanimado qualquer outro corpo de homens. Mas, longe de sofrerem esse efeito, seu conhecimento da má reputação que os acompanhava teve apenas a consequência de intensificar seu ódio por tudo o que tendia a favorecer a causa do povo em seus esforços para garantir uma constituição. Encontrando abrigo em Roma, os jesuítas se aglomeraram em torno do papa, praticando todas as suas artes em explorar sua vaidade, incitando suas paixões e voltando-o contra o povo. Finalmente, a medida do ódio popular que pairava sobre eles tornou-se tão grande que Pio IX, concluindo que sua presença era perigosa, os expulsou da Itália. Foi preciso alguma coragem, mas teria exigido infinitamente mais para não fazê-lo, visto que o ódio contra os jesuítas era quase universal entre o povo, grande parte do qual estava disposta a atribuir apenas à sua influência muito do que era feito pelo papa. Sua expulsão, sob tais circunstâncias, foi, portanto, um ato louvável de Pio IX, não apenas porque foi feita em deferência à opinião pública, mas porque indicava que ele havia tomado conhecimento de suas más influências e estava desejoso de evitá-las.

Nunca se saberá, é claro, em que medida os jesuítas moldaram as opiniões de Pio IX. Mas como empregaram todo o período após seu restabelecimento para tentar controlar todos os papas, e foram eminentemente bem-sucedidos com Gregório XVI, pode-se supor razoavelmente que a mente desavisada e impressionável de Pio IX foi incapaz de detectar sua astúcia e, consequentemente, foi influenciada por eles. Levando em consideração tudo o que diz respeito às suas relações com o papa, na medida em que podem ser conhecidas agora, a conclusão é inevitável de que sua expulsão da Itália foi não apenas o resultado de uma necessidade imperativa, mas a mais alta evidência possível de sua indignidade. Esta é a inferência natural e inevitável do próprio fato. No entanto, o papa já tinha ido tão longe na tentativa de impor doutrinas que o povo atribuía aos jesuítas, que mesmo a sua expulsão não o aliviou da suspeita de já ter cedido demais em favor deles. Por causa disso, ele pode ter obtido mais prejuízo do que benefício. Enquanto permaneceram na Itália, os jesuítas serviram como um escudo, protegendo-o, em grande parte, da censura pública; pois, como o povo o amava e os odiava, os jesuítas receberam toda a força da indignação que recaiu sobre o papa após sua partida.

Com a saída dos jesuítas, e tornando-se claro que Pio IX ainda aderia às suas doutrinas inaceitáveis no que diz respeito a um governo constitucional independente e à obrigação religiosa de manter o poder temporal do papa como um princípio de fé, ele se viu, muito mais do que antes, incapaz de fugir da crítica e da reprovação pública. Se o papa tivesse prosseguido seu curso até este momento sem ter dado a devida consideração aos possíveis resultados, e fosse então pela primeira vez levado a refletir sobre eles, não é fácil entender como ele falhou em perceber que tinha ido longe demais e que não dispunha mais de poder para deter o curso dos acontecimentos que então se apressava rapidamente para os resultados que ele mais deplorava. Pio IX provavelmente nunca se permitiu considerar o povo como um poder a ser temido; pois, além de estar ciente de sua fidelidade à Igreja e de sua estima pessoal por ele, o papa foi manifestamente influenciado pela crença de que as combinações entre Igreja e Estado eram suficientemente poderosas para suprimir qualquer levante popular em favor do governo constitucional. Se estas ideias ocupavam seus pensamentos, ele deve ter ficado convencido, depois de expulsar os jesuítas, de que havia sido enganado por eles e que eles eram os verdadeiros responsáveis por seus infortúnios. Não é provável, no entanto, que sua excitação diminuísse o suficiente para uma reflexão ponderada. Nem é provável que algo tenha ocorrido para despertá-lo de seu sonho de segurança até que descobrisse que seu renovado esforço de reforma não teve outro efeito senão assegurar ao povo italiano que sua independência só poderia ser alcançada abolindo o poder temporal do papa por meio de uma aliança com a Sardenha. Ele havia imprudentemente criado um problema com seu próprio povo, e não era mais capaz de controlá-lo.

A iminência da guerra levou ao envio de tropas italianas para a fronteira para expulsar os austríacos; e como Pio IX não podia tomar parte em tal guerra porque se considerava "o pai de todos os fiéis" – incluindo os austríacos – ele implorou ao Imperador da Áustria para retirar suas tropas e enviou um núncio ao Rei da Sardenha, convidando sua cooperação na formação de uma confederação de repúblicas italianas, com o papa à sua cabeça! O imperador recusou-se a cumprir seu pedido; e o rei não teve tempo para se dedicar a esquemas impraticáveis e visionários com um inimigo como a Áustria por perto, pronto para despojá-lo de seus territórios e converter a Sardenha em uma dependência austríaca. Os austríacos, enfurecidos com os movimentos das tropas italianas, anunciaram que as tratariam como bandidos e bandoleiros e ameaçaram invadir e assolar as províncias italianas. Os italianos, portanto, tendo falhado em obter qualquer assistência ou encorajamento do papa, embora este insistisse que era seu rei de direito e eles seus súditos, e sendo deixados para lidar sozinhos com a Áustria, tiveram que escolher entre guerra e degradação. Sob estas circunstâncias, eles não podiam deixar de perceber que tudo o que pertencia à sua prosperidade e interesses futuros exigia o primeiro – o orgulho proibia o último. Assim, a partir desse momento, a guerra foi, para eles, uma questão de autodefesa. E não foi difícil ver, desde o início, que com um adversário como a Áustria, e o papa resistindo em vez de ajudá-los, os italianos foram forçados a confiar em sua aliança com a Sardenha, que a essa altura havia se separado das influências ditadas pela "Santa Aliança" e estava rapidamente se tornando um poder importante e independente.

Na batalha de Novara, entre a Áustria e a Sardenha, Carlos Alberto, o rei da Sardenha, foi derrotado com perdas terríveis. Ele imediatamente abdicou de seu cargo e entregou a coroa a Vítor Emanuel, seu filho, que conduziu os assuntos de modo a tornar-se influente nos grandes movimentos que levaram à paz de Villafranca e, por hábil estadismo, a obter dos austríacos a cessão da Lombardia para a Sardenha. A força militar da Sardenha, tendo sido assim aumentada, encorajou grandemente os italianos e, a fim de contrariar as influências que tendiam a uma aliança entre eles e Vítor Emanuel, a proposta de criar uma confederação italiana, com o papa à sua cabeça, foi revivida. Mas os italianos, que se tornaram relutantes em se submeter ao domínio de um monarca absoluto por mais tempo, resistiram a este esquema, pela convicção de que isso ainda os manteria aos pés de seus antigos mestres. E para tornar esta resistência mais eficaz, várias das províncias italianas transferiram sua lealdade para a Sardenha, aumentando assim sua força além do que jamais havia sido e sua importância como poder militar.

A postura adotada pela Sardenha após essas adesões introduziu na política da Europa uma nova e importantíssima questão – se estas províncias italianas insurgentes deveriam ser forçadas a retornar ao domínio temporal do papa, ou se lhes seria permitido resolver sua própria posição e destino por si mesmas. Embora esta questão envolvesse o princípio do autogoverno, foi considerada como tendo um aspecto internacional e, consequentemente, atraiu a atenção de outros poderes além daqueles imediatamente interessados. Luís Napoleão, entretanto, tinha se tornado Imperador da França e, estando totalmente imbuído da "ideia napoleônica" de sua própria importância, aventurou-se a sugerir a Pio IX, a título de conselho, que seria bom para ele e para a Igreja deixar as províncias revoltadas "irem em paz." O papa, no entanto, rejeitou desdenhosamente este conselho e declarou que preferia a morte a tal degradação – no que é justo supor que ele foi sincero. Mas sua recusa não resolveu coisa alguma, tendo apenas provocado uma renovada resistência à sua política entre os italianos. No entanto, levou a tais resultados que o direito das províncias italianas de se unirem à Sardenha, se considerassem oportuno, foi reconhecido. Esta foi uma questão prática, pois envolvia o direito do povo de cada província de permanecer ou não sob o domínio do papa, conforme sua vontade. Como era de se esperar, Pio IX considerou isso como um golpe mortal visando seu poder temporal e, consequentemente, anatematizou-o severamente. Do ponto de vista papal, ele não poderia ter feito de outra forma. E, no entanto, se ele tivesse interpretado corretamente os eventos em curso, poderia ter percebido que o cetro temporal estava rapidamente saindo de suas mãos, e que medidas severas de sua parte, em vez de impedir, apenas apressariam esse resultado. A violência de sua resistência foi respondida por Parma e Módena, ambas as províncias anexadas à Sardenha. A Toscana e as províncias Emilianas seguiram com os votos de uma imensa maioria do povo. Outras províncias também seguiram seu exemplo. E assim, por meio destas importantes adesões, Vítor Emanuel foi capaz de assinalar seu reinado convertendo a Sardenha no Reino da Itália. Esta medida de atração, tendo sido apresentada aos italianos, logo se tornou um entusiasmado ponto de encontro, e as Duas Sicílias, sob a liderança de Garibaldi, se uniram à Sardenha por um voto popular quase unânime. Úmbria e Ancona fizeram o mesmo. Uma por uma, portanto, estas províncias italianas, com populações católicas, separaram-se por votos solenes do domínio temporal do papa, e deixaram Pio IX a lamentar sua sorte em rápido declínio e a se arrepender – se suas paixões excitadas permitissem o arrependimento – da loucura que havia produzido esse resultado.

O Governo da Sardenha, sem demora desnecessária, promulgou as leis exigidas por esta nova condição de assuntos. Vítor Emanuel procurou, consequentemente, abrir negociações com o objetivo de realizar uma reconciliação entre os dois poderes, espiritual e temporal. Esta proposta envolvia, necessariamente, a separação da Igreja e do Estado, e foi concebida para definir as respectivas esferas e funções de cada um, para que no futuro não houvesse conflito ou rivalidade entre eles. Vítor Emanuel era católico e nunca expressou nem entreteve o desejo de prejudicar, em qualquer grau, a autoridade espiritual ou a independência do papa. Nem tal desejo prevaleceu entre o grande corpo do povo que havia ajudado a trazer a nova ordem de coisas – permanecendo católicos, como sempre foram. Tudo o que Vítor Emanuel e o povo desejavam era tornar o Estado independente da Igreja na promulgação e administração das leis temporais, e a Igreja, independente do Estado em assuntos espirituais, sem prejuízo da liderança do papa. Se neste ponto fosse necessário um modelo a ser seguido, ele seria encontrado na forma de governo construída pelo povo dos Estados Unidos, que deve ter influenciado aqueles que conduziam os assuntos da Sardenha, pelo menos na medida de separar a Igreja e o Estado. Mas Pio IX não podia consentir com isso sem ser infiel à causa do papado, distinto do bem-estar e do melhor interesse da Igreja, que manifestamente exigia que ele conciliasse, e não antagonizasse ainda mais as populações católicas em cujo nome a proposta do governo da Sardenha foi feita. Em vez de conciliação, no entanto, o papa – com uma mente singularmente constituída e curiosamente errática – rendeu-se inteiramente ao domínio de suas paixões e, a fim de condenar essa forma de governo e repreender o espírito amigável exibido por Vítor Emanuel, emitiu uma alocução pontifical, que bem pode ser chamada de brutum fulmen [um raio brutal], porque foi inteiramente ineficaz pela violência de sua linguagem, bem como por seu ataque desconsiderado e intemperado aos princípios basilares que prevalecem entre as nações modernas. Visto que esta alocução pretendia ser um anúncio oficial da fé mantida por Pio IX sobre as questões político-religiosas envolvidas, e era de data tão recente, merece consideração especial, em virtude de sua relação direta com a questão de restaurar o poder temporal do papa. Onde mais devemos procurar as doutrinas papais senão no chefe infalível do papado?

Pio IX acusou o novo Governo da Itália de "atacar a Igreja Católica, suas leis saudáveis e todos os seus ministros sagrados" – uma acusação que perdeu sua força pelo excesso de sua deturpação, como os fatos detalhados a pouco abundantemente mostram. O cerne deste ataque foi a proposta de separação da Igreja e do Estado; mas, além de outros assuntos de que ele se queixava, o papa designou especialmente os casamentos civis – como os previstos pelas leis de todos os Estados Unidos – que, segundo disse, "encorajaram um concubinato perfeitamente escandaloso." Isso significava que a prole de todos os casamentos solenizados de outra forma que não pelo clero católico é considerada bastarda em virtude do caráter ímpio e ilegítimo da cerimônia. E com a intenção expressa, sem dúvida, de se explicar completamente sobre a questão vital então pendente, ele anunciou sua reivindicação à "autoridade civil" – isto é, seu direito de usar a coroa de um rei temporal – declarando que ele e seus sucessores nunca podem estar "sujeitos a qualquer poder leigo," mas devem "exercer, em total liberdade, autoridade e jurisdição supremas sobre a Igreja" em toda a sua plenitude. A ideia do papa – mais de uma vez repetida por ele e afirmada por seu sucessor – era esta: que, em qualquer país onde a Igreja tenha um ponto de apoio, ela não deve ser governada pelas leis temporais do Estado em conflito com seus interesses, mas apenas pelas Leis Canônicas que ela própria promulgou e que conferem aos papas poder pleno e soberano para definir o que podem fazer e exigir dos outros no domínio da fé e da moral, juntamente com o poder coercitivo necessário para garantir a obediência. Aparentemente inconsciente de que estava se colocando na rota da tempestade popular que então varria os apoios nos quais o trono papal havia repousado por muito tempo, o papa imaginou que sua "autoridade apostólica" ainda lhe permitiria dirigir seu curso de modo a evitar o naufrágio final do poder temporal. Vestindo, portanto, sua armadura papal completa a exemplo de alguns de seus predecessores, concentrou-se em derrubar e destruir o novo governo da Itália pelo trovão de seus anátemas. Ele, assim, ab-rogou e declarou "nulas e sem efeito" todas as leis e decretos do novo governo em conflito com sua reivindicação de autoridade suprema e absoluta sobre os assuntos espirituais e temporais da Itália, incluindo as províncias anexadas à Sardenha! É preciso uma imaginação muito fértil para conceber um ato de loucura mais insano do que esta inútil alocução. [1]

Se Pio IX estivesse menos perturbado e calmo o bastante para raciocinar logicamente, ele poderia ter observado quão fatal para sua própria conclusão foi uma confissão importante feita por ele nesta alocução oficial. Sem parecer compreender seu significado e força total, ele declarou ser "um arranjo singular da Divina providência" que o papa "foi investido com sua autoridade civil" na época da queda do Império Romano; isto é, durante a segunda metade do século V, e quase quinhentos anos após o início da era cristã. Nisso, ele admite – certamente por implicação necessária – que durante todo o longo período que precedeu esse evento, os assuntos da Igreja haviam sido conduzidos sem a assistência de um monarca temporal em Roma ou em outro lugar, e apenas por autoridade espiritual – por bispos que cuidavam de assuntos religiosos e não políticos. [2] Ele deve ter sido culpado de uma singular omissão de dever se não lhe ocorreu perguntar por que uma mudança tão grande e radical na gestão dos assuntos da Igreja não havia sido feita antes da queda do Império Romano, mas havia sido adiada até aquele período particular. É muito fácil entender como os papas podem ter se tornado reis em um sentido puramente temporal, após esse evento; mas essa não era a questão que Pio IX estava considerando. Seu objetivo era mostrar que quando o Império Romano caiu, o poder temporal foi divinamente adicionado ao poder espiritual do papa e, portanto, seria uma violação da lei divina se ele fosse privado da coroa da realeza temporal, que os papas dos tempos primitivos não possuíam. Uma breve, mas ponderada reflexão poderia tê-lo permitido ver, à luz de sua própria declaração, que falácia existe na pretensão de que a crença no estabelecimento Divino do poder temporal é uma parte necessária e essencial da verdadeira fé religiosa; pois se tivesse sido o propósito Divino que o Cristianismo não existisse sem ele, esse propósito teria sido cumprido muito antes da queda do Império Romano. A concessão de Pio IX deve, portanto, ser considerada fatal para a reivindicação do poder temporal como necessariamente pertinente à causa do Cristianismo ou à Igreja como um corpo religioso. Os cristãos primitivos não tinham conhecimento disso, e o fato de não o terem – que ele concede – sugere tal contraste entre o que era a Igreja primitiva imediatamente após o período apostólico e o que se tornou depois que o papado foi estabelecido por meio apenas do poder temporal, a ponto de mostrar conclusivamente que a pretensão papal de soberania deve ter sido o resultado de usurpação.

A condição das nações europeias no período aqui referido – embora certamente não planejada para esse fim pelos principais atores – era favorável à causa da independência italiana. Os ciúmes e as rivalidades entre os soberanos os havia colocado em tais relações que exigiam imensos exércitos permanentes para vigiar uns aos outros. A Áustria era não só um dos mais inquietos, mas o mais arbitrário dos grandes poderes, e logo achou necessário, por sua própria vontade, retirar seus exércitos da Itália, a fim de se proteger contra ataques em pontos expostos dentro de suas próprias fronteiras. A remoção deste formidável adversário encorajou grandemente todas as populações da península italiana, entre as quais o desejo de se unificar com o Reino da Itália tornou-se quase universal. Depois que a Venécia, por um voto praticamente unânime, decidiu fazê-lo, o espírito revolucionário foi grandemente despertado. Havia, no entanto, entre os revolucionários, alguns que eram tão entusiastas a ponto de exigir uma república, o que, por um tempo, ameaçou um pouco a causa da independência. Todos estes favoreciam o novo governo sob Vítor Emanuel em vez de uma continuidade do domínio papal, mas desejavam dispensar completamente um rei, preferindo que o povo fosse totalmente investido da soberania política. Estes facilmente se reuniram ao chamado de Garibaldi e fizeram preparativos para atacar Roma. Enquanto isso, após a retirada dos austríacos, Luís Napoleão – agindo sob uma espécie de fascínio que ele nunca conseguiu explicar bem, e ninguém conseguiu entender totalmente – havia enviado um grande corpo de tropas francesas para a Itália para proteger o poder temporal de Pio IX e mantê-lo no trono, tendo sido plenamente demonstrado a essa altura que nada além de força militar estrangeira poderia fazê-lo. Os garibaldinos foram derrotados pelos franceses, evento que, embora tenha produzido uma tristeza temporária entre os patriotas italianos, não os intimidou. O curso dos eventos entre os soberanos favoreceu sua causa a tal ponto que há motivos muito melhores para dizer que eles foram providencialmente projetados para abolir o poder temporal do que há em apoio à pretensão de que ele foi divinamente estabelecido na queda do Império Romano, ou em qualquer outro momento. Luís Napoleão tinha em vista seus próprios assuntos. Seu roubo da coroa imperial da França tinha dado novo estímulo à sua ambição, mas sua perfídia era tão flagrante que mesmo entre os monarquistas mais fervorosos ele era tido em desprezo. Sua presunção tornou a guerra entre a Prússia e a França inevitável; e quando esse evento foi provocado, ele percebeu, provavelmente pela primeira vez, que havia estado envolvido no trabalho ignominioso de impedir a independência da Itália e forçar o povo italiano a aceitar um rei que eles quase unanimemente decidiram rejeitar. Quer tenha percebido isso totalmente ou não, suas necessidades o obrigaram a retirar as tropas francesas da Itália e a deixar Pio IX sem o apoio de tropas estrangeiras, que haviam guardado sua coroa temporal durante cada hora de seu pontificado. A guerra entre a Prússia e a França foi um golpe terrível para Pio IX, mas um evento de valor incalculável para a causa da independência italiana. E quando levou a Sedan, à captura de Paris e à perda da Alsácia e Lorena pela França, Vítor Emanuel manteve firmemente os olhos na unificação da Itália, que até Pio IX entendeu significar a abolição do poder temporal.

Vítor Emanuel teve novamente a oportunidade de agir francamente para com o papa e justamente para com a Igreja. Ele procurou se explicar em uma carta a Pio IX, na qual, "com a fé de um Católico" mas "com a dignidade de um rei," declarou que não era seu propósito prejudicar ou interferir na autoridade espiritual ou independência do papa, e que ele as manteria com suas tropas; e, aconselhando-o a reconhecer os fatos obstinados que o confrontavam e que era impotente para mudar, ele o instou a aceitar isso como a única solução prática e possível para as dificuldades que o cercavam. Ele encerrou seu apelo nestas palavras: "Vossa Santidade, ao libertar Roma das tropas estrangeiras, ao livrá-la do perigo contínuo de ser o campo de batalha de partidos subversivos, terá realizado uma obra maravilhosa, dado paz à Igreja e mostrado à Europa, chocada pelos horrores da guerra, como grandes batalhas podem ser vencidas e vitórias imortais alcançadas por um ato de justiça, e por uma única palavra de afeto." [3] Aqui, em um apelo eloquente e tocante, o rei implorou ao papa para "dar paz à Igreja," sabendo bem, como ele sabia, que o único propósito da revolução era livrar-se do poder temporal e estabelecer um governo constitucional, e que se esta questão fosse resolvida pela aquiescência de Pio IX, a vasta multidão de católicos então em armas retornaria aos seus lares e ficaria satisfeita em viver em paz e tranquilidade sob seu domínio espiritual. A questão era única e simples, que não podia ser mal interpretada; e para que ficasse tão clara que até a mente mais comum pudesse compreendê-la totalmente, Vítor Emanuel acompanhou sua carta com uma declaração dos termos que ele propôs para ajustar as relações entre a Igreja e o Estado. Eram estes: todas as nações deveriam ter acesso irrestrito ao papa; todas as igrejas em Roma deveriam se tornar neutras; os embaixadores do papa deveriam gozar de imunidade total; os cardeais deveriam manter suas rendas e imunidade; os salários de todos os funcionários militares e civis deveriam continuar a ser pagos como antes; e os bispos e clérigos em toda a Itália deveriam ter "o exercício pleno e absolutamente livre de suas funções eclesiásticas".

Seria difícil, senão impossível, para uma mente liberal encontrar falhas nestas proposições. Elas foram tão geralmente aceitas como justas que qualquer comentário a seu respeito é desnecessário. Elas não encontraram objeção – exceto daqueles que preferiam que o papa permanecesse um monarca temporal absoluto, com poder total para fazer e desfazer todas as leis – a um governo constitucional representando o povo. Foram feitas por um rei católico, representando e falando em nome de vários milhões de católicos e, além de serem o reflexo de um espírito conciliatório e amável, carregavam em sua face evidências conclusivas de sinceridade. Se tivessem sido aceitas pelo papa, a verdadeira fé da Igreja teria permanecido intocada, e o papa em plena posse de todos os seus poderes espirituais legítimos e necessários. A Igreja, de fato, teria sido trazida de volta à sua condição primitiva antes da queda do Império Romano. Mas Pio IX, em vez de retribuir a generosidade do rei, lamentou a "profunda dor", que encheu sua "vida de amargura," e, ao mesmo tempo, tratou as proposições do rei com intenso desdém. Ele era então o primeiro papa, em toda a longa história da Igreja, a quem foi permitido declarar autoritariamente sua própria infalibilidade pessoal. Ele havia convocado o célebre Concílio do Vaticano, no qual, poucas semanas antes, os jesuítas haviam conseguido que ele fosse declarado infalível pela aprovação de um decreto ditado por ele mesmo, e garantido pela supressão do debate, contra o protesto de vários bispos, incluindo muitos dos Estados Unidos. [4] Tendo obtido esta vitória sobre o liberalismo da Igreja, e assim se lançado completamente nos braços dos jesuítas, e preferindo uma aliança com eles à união com milhões de católicos que favoreciam um governo constitucional, ele tornou impossível dar um único passo em direção à conciliação, ou realizar até mesmo uma discussão amigável com o rei. Pio IX manifestamente sentiu como se nenhum poder humano tivesse o direito de exigir ou esperar conciliação ou discussão de um papa infalível. O Concílio havia afirmado sua soberania universal e o encorajou na crença de que ele possuía o poder da onipotência, de modo que aqueles que recusavam obediência a ele estavam sob a maldição de Deus. O tempo para o debate, portanto, havia passado, e pensamentos de paz e conciliação estavam fora de questão. Consequentemente, ele é representado por uma pena amiga como tendo, com um ar de majestade imperial, interrompido a entrevista oficial com o enviado de Vítor Emanuel, externando "a medida total de seu desprezo e indignação" nestas palavras expressivas: "Em nome de Jesus Cristo, digo-vos que sois todos sepulcros caiados!" [5]

Não restou então nada para Vítor Emanuel senão avançar com suas tropas e tomar posse da cidade de Roma, em nome do novo Reino da Itália. Ele não demorou mais. Depois de atravessar a fronteira do território papal, seu exército se envolveu em várias escaramuças com os zuavos do papa, mas não encontrou resistência séria. Em 20 de setembro de 1870, ordens foram dadas para atacar a cidade. Duas brechas foram logo abertas nas muralhas e, quando os vitoriosos italianos entraram, as tropas papais recuaram, e Pio IX se refugiou no Castelo de Sant'Angelo como um fugitivo da cidade onde, pouco tempo antes, um decreto de sua infalibilidade pessoal havia sido imposto por meio de um Concílio manipulado por métodos aos quais nenhum outro corpo de homens no mundo teria se submetido, e ao qual não é provável que tivessem se submetido se não fosse pelas influências dos jesuítas. Tendo o papa fugido e se tornado um prisioneiro voluntário no Castelo de Sant'Angelo, os deveres restantes pertinentes ao governo papal recaíram sobre o Cardeal Antonelli, que ainda se autodenominava Secretário de Estado. Isso consistiu em um protesto formal e pueril em nome do papa fugitivo, no qual ele declarava que nada feito pelo Reino da Itália havia transmitido quaisquer direitos contra o domínio e posse do papa, e que o papa "tanto conhece seus direitos, quanto pretende conservá-los intactos e reavê-los efetivamente no momento oportuno." Tudo o que pode ser dito sobre isso é que, embora praticamente fosse mera bravata sem sentido, expôs plenamente a política e os propósitos de Pio IX, pelos quais ele esperava, com a ajuda dos duzentos milhões de católicos no mundo, destruir o novo governo italiano e sujeitar novamente o povo ao domínio papal. Estranha fatuidade, intensificada pelo fato de que estes anúncios procederam do primeiro papa cuja infalibilidade pessoal havia sido aprovada por decreto conciliar!

A posse de Roma e a fuga do papa tornaram necessário colocar em operação a maquinaria do novo governo. Portanto, um governo temporário foi formado e foi feita provisão para um pleito em que a população decidiria se apoiava ou não a "unificação da Itália." Nesta votação, uma maioria esmagadora decidiu a favor do novo governo – indicando assim que, mesmo que o povo tivesse sido persuadido a acreditar que a realeza do papa era de origem Divina, achavam-se suficientemente esclarecidos para entender que a Providência havia permitido que essa realeza continuasse por certo tempo; e que, como ela separara os cristãos Ocidentais dos Orientais e dividido o todo em facções rivais e em conflito, havia chegado o tempo em que, por uma nova dispensação, o departamento espiritual da Igreja deveria ser purificado despojando o papa de sua autoridade imperial e ampliando a esfera de suas funções e deveres espirituais. Percebendo que Deus governa o mundo em todas as coisas por suas providências, e observando as nações onde prevalecia o maior grau de prosperidade e felicidade, convenceram-se de que, como estes haviam sido produzidos onde a Igreja e o Estado estavam separados, a sabedoria Divina manifestou-se ao apontar-lhes uma medida semelhante de alívio para suas queixas existentes. Ensinados por seus próprios instintos a acreditar que as dispensações mutáveis das providências de Deus eram apenas mais métodos de exibir seu poder soberano, e que, como Ele havia permitido que seus antepassados e eles próprios suportassem o fardo do poder temporal papal por séculos, era natural para eles concluir que Deus havia pelo menos lhes indicado o dever de substituir esse fardo por aquela liberdade e desenvolvimento intelectual que governos constitucionais livres haviam assegurado a outros povos como meio de torná-los mais felizes e mais prósperos – mais capazes de apreciar e cumprir os deveres que pertencem à cidadania, bem como à vida cristã. Deus havia tolerado seus infortúnios apenas no sentido em que permitiu que a escravidão existisse; mas eles não podiam ser persuadidos a acreditar que Deus pretendia perpetuá-los por mais tempo por suas providências, nem mais do que o povo deste país pode consentir que a existência anterior da escravidão aqui derrubou a verdade fundamental estabelecida em nossa Declaração de Independência, de que o direito inalienável à liberdade e à igualdade civil deriva da lei natural.

Como a grande maioria dos votos dados nas províncias foi a favor do novo governo – os votos contrários foram menos de dois mil –, tornou-se necessário ajustar as relações futuras entre a Igreja e o Estado, para que pudessem coexistir harmoniosamente, cada um no pleno exercício de suas funções específicas. Consequentemente, o papa e todas as autoridades papais foram notificados de que a máxima liberalidade seria demonstrada em relação à Igreja, e que não haveria interferência alguma, exceto a abolição do poder temporal do papa e as provisões em relação aos assuntos temporais que isso tornava necessário. É preciso apenas observar as principais provisões feitas pelo novo governo para mostrar sua liberalidade e demonstrar a tolice de sua rejeição; e para perceber o quanto a Igreja perdeu pela política imprudente e apaixonada de Pio IX, basta observar que não há governo existente no mundo hoje do qual os mesmos termos conciliatórios poderiam ser obtidos. Nem todos eles poderiam ter sido obtidos, mesmo então, de qualquer outra população que não fosse católica.

A política do novo governo foi estabelecida da seguinte forma: O papa teria plena liberdade para exercer todos os seus direitos espirituais como antes; ele continuaria a possuir "as prerrogativas de um príncipe soberano," e sua corte seria provida com essa visão; ele teria garantida "uma imunidade territorial" restrita, é claro, dentro de limites a serem definidos, onde seria livre e independente do Estado; todos os prelados, cardeais, arcebispos, bispos e aqueles em ordens eclesiásticas que fossem convocados a Roma pelo papa gozariam de imunidade de interferência civil; o papa teria permissão para se comunicar com potências estrangeiras e com a Igreja em todo o mundo, e teria serviço postal e telegráfico especial à sua disposição; todos os representantes de potências estrangeiras na corte do papa desfrutariam de perfeita liberdade; a liberdade de publicação e comunicação seria assegurada; o papa teria garantida "total liberdade para viajar em todos os momentos e em qualquer época do ano, dentro e fora do país", e seria tratado e honrado como "um soberano leigo estrangeiro" em toda a Itália; sua "pensão real" e os membros de sua corte seriam fornecidos pelo novo governo, que também pagaria as dívidas dos Estados pontifícios; as liberdades da Igreja e a independência espiritual do papa seriam total e amplamente garantidas. [6]

Estas disposições justas e liberais referiam-se apenas às novas relações produzidas pela abolição do poder temporal. Elas envolviam uma questão puramente política, exceto na medida em que havia sido tornada político-religiosa pela doutrina dos jesuítas, que Pio IX havia adotado, no sentido de que era uma parte necessária da fé da Igreja que o papa deveria ser um monarca temporal. A população católica da Itália, tendo rejeitado esta doutrina e exigido a expulsão dos jesuítas porque a ensinavam, demonstrou por meio destas disposições seu desejo de deixar Pio IX em plena posse e gozo de todos os seus poderes espirituais. A intenção era apenas prover a nova condição de assuntos e reconhecer o Reino da Itália como um fato consumado, que não deveria ser contestado nem alterado. Vítor Emanuel, como um católico firme e consistente, não estava disposto a fazer nada menos, e suas obrigações para com o povo italiano não lhe permitiriam fazer mais. Mas Pio IX, ainda lamentando a destruição do "antigo regime" e agarrando-se à ideia jesuíta de que a perda de sua coroa temporal era uma ofensa para Deus, recusou-se a ser reconciliado. Lamentando a incompetência do povo para decidir entre o certo e o errado nos assuntos de governo e a ruína inevitável que ele imaginava que se seguiria à tentativa do povo de ser governado sem um papa-rei, Pio IX novamente lançou seus anátemas mais ferozes contra o novo governo e contra as cabeças de todos os que haviam colaborado com sua criação. E tendo feito isso, a controvérsia chegou ao fim, deixando claro que a Igreja e o Estado haviam sido finalmente separados na Itália por uma população católica, e que Pio IX não aceitaria a perda de sua soberania temporal que essa separação ocasionou, nem com nada aquém de sua restauração ao poder real absoluto. Havia outros atos necessários para completar todo o drama, mas estes nos levariam a campos repletos de uma multidão de combatentes. Estamos agora preocupados apenas com o conflito sobre o poder temporal e a influência desse poder sobre o direito do povo italiano de ter voz na construção do governo e na aprovação das leis que seu próprio bem-estar exigia. Essa era a única questão entre os italianos e o papado – entre Vítor Emanuel e Pio IX. Se este último tivesse aderido às suas próprias convicções quando introduziu pela primeira vez medidas de reforma, e tivesse seguido os ditames gentis de seu próprio coração, muitas amarguras e disputas poderiam ter sido evitadas, e a Igreja poderia ter escapado de um golpe sério e chocante. Os contendores de ambos os lados eram apegados à Igreja, sua história, suas tradições e sua fé. Uma discussão calma entre eles sobre o que a Igreja tinha ou não ensinado em relação ao poder temporal teria deixado claro que não envolvia nenhum artigo essencial do credo cristão, e eles poderiam assim ter sido levados a ver que, como este poder não existia nos tempos apostólicos e primitivos, não poderia existir legitimamente na nova condição do mundo nada que o tornasse absolutamente necessário à existência e ao crescimento do Cristianismo na era atual. Mas quando Pio IX deixou-se impressionar pelos ensinamentos e doutrinas dos jesuítas, e permitiu que moldassem sua política pontifical, a declamação apaixonada tomou o lugar da discussão ponderada, e tornou a reconciliação impossível.

E agora, quando aqueles mais dedicados à Igreja olham para trás e refletem sobre esse conflito, e percebem sobre quantos de seus irmãos cristãos ainda pesam as anátemas papais, por causa de sua recusa em consentir com um dogma de fé que ataca o fundamento do governo constitucional livre, eles não podem deixar de observar que, embora o golpe tenha caído pesadamente sobre a Igreja, somente os jesuítas alcançaram o triunfo. Eles lançaram as bases desse triunfo extorquindo de Pio IX – em um momento em que sua natureza confiante era facilmente manipulada – sua célebre Encíclica e Sílabo, pelos quais ele declarou que a liberdade de expressão, de consciência e de imprensa eram erros que a Igreja não podia tolerar; que a Igreja deve ser a única juíza de sua própria jurisdição e possuir o poder de coagir a obediência dentro do círculo que ela atribui a si mesma; e que ela nunca pode se reconciliar ou concordar com o "progresso, o liberalismo e a civilização" da era atual. Com isso, ele colocou uma barreira entre o papado e todas as principais nações modernas, que os jesuítas estão trabalhando diligentemente para superar, porém sem êxito; mas que só pode ser quebrada por aquela caridade cristã que enobrece a natureza de seu portador e ensina que Deus implantou nos corações da humanidade um espírito de irmandade que nenhum credo, dogma ou cerimônia pode extinguir.

Pio IX, entretanto, acrescentou aos seus sofrimentos a pretensão de dificuldades que não eram reais. Foi-lhe permitido regressar a Roma sem ser molestado e retomar sua residência novamente no Vaticano. Ele se autodenominou prisioneiro e induziu outros a fazê-lo, dando assim um exemplo que seu sucessor imitou. Mas ele não era um prisioneiro, exceto quando ele, por sua própria vontade, se trancou no Castelo de Sant'Angelo. Ele estava, até o fim de sua vida, livre para ir onde e quando quisesse. Nenhuma restrição foi imposta às suas ações. Nenhuma indignidade ao seu ofício espiritual ou à sua pessoa foi permitida. Ele podia abrir e fechar as portas do Vaticano a seu critério e admitir ou excluir quem quisesse. Ele desfrutava da máxima liberdade de expressão e de escrita, e concedia louvor ou censura conforme sua conveniência. Mas, em vez de desfrutar da liberdade real que lhe foi garantida pelas leis do governo sobre o qual sua maldição pontifical repousava, Pio IX desgastou sua vida com queixas inúteis e anátemas adicionais, que indicavam apenas que sua vaidade estava insatisfeita e sua ambição desapontada. Ele morreu finalmente, não de tristeza – pois ele foi sempre um soberano espiritual – mas com a melancólica consciência de que seu braço pontifical tornara-se muito fraco para suportar o cetro temporal que muitos de seus predecessores seguraram tão firmemente. Seria difícil escrever sua vida bem e fielmente; foi tão impulsiva, variada e febril. Seus propósitos eram honestos, seus afetos sinceros, sua generosidade ilimitada, sua natureza gentil e simpática; mas ele era tão impotente para afastar a tempestade que assolava o papado quanto um marinheiro é para medir a velocidade dos ventos quando a tempestade está em fúria. E agora que ele apareceu perante o Juiz final*, que é infalível, poderia ser apropriadamente gravado em seu túmulo que ele foi um bom sacerdote, mas um estadista pobre e incompetente.

[* Ver nota adicional no fim do capítulo 12.]

Notas

1. Appleton's Ann. Cyclo., 1866, p. 674. "O papa havia perdido toda a sua antiga simpatia pela causa popular e estava mais do que disposto a garantir sua restauração no Vaticano com a ajuda da ocupação austríaca da Romagna e do cerco francês a Roma." (Life of Victor Emmanuel. Por Dicey. Página 118.)

2. Durante o desenrolar da revolução italiana, o atual papa, Leão XIII, então cardeal Pecci, escreveu uma carta pastoral intitulada "Sobre o domínio temporal dos papas", com o objetivo expresso de manter esse domínio. Referindo-se ao período de sua primeira introdução, ele disse que havia sido "consagrado por um período de onze séculos". Nem ele nem Pio IX foram capazes de fixar o tempo, exceto em termos gerais e indefinidos, diferindo em várias centenas de anos, embora infalíveis! (Life of Leo XIII. Por Bernard O'Reilly. Página 200.)

3. Maguire, p. 470. Appleton's Ann. Cyc., 1870, p. 410.

Após a ocupação de Roma pelo exército italiano, os cidadãos foram obrigados a decidir, por meio de um plebiscito, se eram ou não a favor da união com o reino da Itália, quando a votação popular foi de 133.681 a favor e apenas 1.507 contra. Vítor Emanuel, então, manifestou sua lealdade à Igreja com estas palavras fortes e expressivas: "Como rei e como católico, ao proclamar a unidade da Itália, permaneço fiel à minha decisão de garantir a liberdade da Igreja e a independência do sumo pontífice". (Life of Victor Emmanuel. Por Dicey. Páginas 317-318.)

4. Eight Months at Rome. Por Pomponio Leto (Francis Vitteleschi). Edição londrina. Página 212.

5. Maguire, p. 473.

6. Appleton's Annual Cyclopedia. 1870. Páginas 414-415.


Capítulo 18

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