As pegadas dos jesuítas – 18. Exigências papais

Com a morte de Pio IX, ele deixou a quem quer que o sucedesse, como herança oficial, a decisão sobre se a Igreja deveria aceitar e se reconciliar com a abolição do poder temporal do papa, ou ser agitada e possivelmente ainda mais fragmentada pela exigência de sua restauração. Nesse ínterim, a Itália havia se tornado uma nação organizada e assim era reconhecida em todo o mundo. A capital, após várias mudanças, havia sido estabelecida em Roma, e as câmaras legislativas se reuniam quase à sombra da antiga casa do senado dos Césares, sob as restrições e garantias de uma Constituição escrita, para promulgar leis para e em nome do povo italiano. Existia um rei, mas sem poder absoluto, e ele havia alcançado grande popularidade por sua eminente aptidão e reconhecida fidelidade às responsabilidades que lhe foram confiadas. Consequentemente, exigia-se pouco conhecimento prático para prever que a paz e o bem-estar futuros da Igreja dependiam, em grande medida, da política a ser seguida em relação ao poder temporal – que não mais existia, mas havia sido abolido por populações católicas que, com grande deliberação e extraordinária unanimidade, tomaram para si o direito de gerir seus próprios assuntos políticos, imitando o exemplo dado pelo povo dos Estados Unidos. Mentes ponderadas foram inspiradas pela esperança de que conselhos moderados, sábios e conciliatórios prevaleceriam com o novo papa, independentemente de quem fosse.

A ocasião tornava necessário que se observasse a distinção entre a Igreja como organização cristã e o papado como um poder magistral sobre assuntos temporais; ou seja, que a capacidade da primeira para a utilidade cristã permaneceu intacta, enquanto o último fôra apenas concebido para fazer do papa um monarca absoluto sobre o povo italiano. Ninguém entendeu isso melhor do que Pio IX e, portanto, no ano anterior à sua morte, ele marcou a primeira exibição importante de sua autoridade infalível ao emitir um decreto que alterava a Confissão de Fé, prescrita por Pio IV quase trezentos anos antes, e uma "alocução", ou epístola autoritativa e ex-cathedra ao clero e à Igreja, sobre as relações existentes entre a Igreja e o governo da Itália. O primeiro diz respeito apenas àqueles cuja fé é por ela influenciada; a última diz se refere a todas as nações progressistas, e a nenhuma mais do que aos Estados Unidos.

Nesta alocução, ele acusou os invasores do seu "principado civil" – isto é, do seu poder temporal – de pisotearem todo direito, humano e divino, com a tentativa de minar "todas as instituições da Igreja", e caracterizou o ato de estabelecimento do reino italiano como um de "soberana iniquidade" – uma "invasão sacrílega". Ele se queixou de que os ministros da religião "foram privados do direito de desaprovar as leis do Estado que consideravam violadoras das leis da Igreja" – o que era equivalente a afirmar ser um princípio de fé que o papa e o clero deveriam ter permissão para desafiar qualquer lei de um Estado que eles considerassem violadora de seus direitos de prerrogativa. Ele destacou "o espetáculo vergonhoso e obsceno" a ser visto em Roma, nos "templos erguidos nestes últimos dias para o culto dissidente"; em "escolas de corrupção espalhadas por toda parte" e em "casas de perdição estabelecidas em todos os lugares" – pretendendo, sem dúvida, insinuar o seu significado quando disse em seu Sílabo, alguns anos antes, que a Igreja jamais poderia se reconciliar com o espírito de progresso prevalecente entre as nações progressistas. Ele insistiu que o papa não pode existir em Roma senão como "soberano ou prisioneiro" – o que foi refutado por todos os anos subsequentes de experiência real – e que não pode haver "paz, segurança ou tranquilidade para toda a Igreja Católica enquanto o exercício do supremo ministério eclesiástico estiver à mercê das paixões partidárias, do capricho dos governos, das vicissitudes das eleições políticas e dos projetos e ações de homens astutos" – significando com isso, em palavras claras, que o papa deve ser tão supremo onde quer que esteja o seu clero, a ponto de exigir que este execute os seus decretos, ainda que as leis dos governos estabeleçam expressamente o contrário. Ele expressa esta ideia com igual clareza ao dizer que o papa "não pode exercer plena liberdade no poder do seu ministério" espalhado pelo mundo, enquanto "continuar sujeito à vontade de outra parte"; ou seja, que ele deve estar livre para exigir que o seu clero, onde quer que esteja, lhe obedeça e não às leis de qualquer governo em conflito com a sua vontade. Congratula-se pelo fato de que "todo o povo católico", em toda parte, está unido a ele no apoio a todas essas proposições, e faz saber que espera que eles "tomem em mãos a causa e a defesa do pontificado romano"; isto é, a restauração do poder temporal e da realeza do papa. Ele expressa a crença de que o apego demonstrado a ele pelas multidões de peregrinos que visitam Roma "continuará a aumentar até o dia em que o pastor da Igreja universal for finalmente restaurado à posse de sua plena e genuína liberdade" – da qual ele não pode desfrutar sem a coroa da monarquia absoluta sobre sua cabeça. E com vistas à consecução disto, ele instrui todos os ministros da Igreja, em toda parte, a "exortar os fiéis que lhes foram confiados a fazer uso de todos os meios que as leis de seus países colocam ao seu alcance; a agir prontamente junto aos que governam; a induzir estes últimos a considerar mais atentamente a dolorosa situação imposta ao chefe da Igreja e a tomar medidas eficazes para dissipar os obstáculos que se interpõem à sua absoluta independência." [1]

Tudo isso é claro e enfático  não sendo suscetível de mal-entendido. Torna a restauração do poder temporal do papa a ponto de fazer dele rei da Itália contra a vontade positiva e expressa do povo daquele país, uma questão político-religiosa, e ordena aos fiéis em todas as partes do mundo a formarem um partido político-religioso para influenciar os governos de seus respectivos países a contribuírem para esse resultado. Este conselho é dado face ao fato conhecido mundialmente de que o poder temporal não pode ser restaurado sem guerra  sem encharcar as planícies da Itália com sangue, a fim de impor ao povo italiano um rei que eles repudiaram por seu mais elevado ato de soberania.

Esta alocução esteve entre os primeiros frutos da infalibilidade do papa e revela com clareza o método ditado por Pio IX para a reconstrução do papado. Na época de sua emissão, ele havia se defrontado com tantos constrangimentos sem a capacidade de resistir a eles com sucesso, que dificilmente poderia ter esperado que suas expectativas fossem realizadas durante seu pontificado. Ele era confrontado pela existência de um reino, ainda católico, mas não papal, dentro de cujos limites Roma estava incluída, e ninguém sabia melhor do que ele que o que procurava teria de esperar pela formação de um partido político-religioso além dos limites da Itália e entre os povos de outras nações, forte o suficiente para coagir os católicos italianos, à ponta da baioneta, à obediência ao papado que eles haviam repudiado. Portanto, esta alocução infalível pode ser propriamente considerada o seu último testamento pontifical, pelo qual ele legou todo o seu direito e título ao poder temporal para o seu sucessor; ou talvez fosse mais apropriado dizer, como fazem os políticos, que ela pretendia ser a plataforma principal da política papal. Veremos até que ponto isso se concretizou.

Quando, após a morte de Pio IX, os cardeais se reuniram em Conclave, em 17 de fevereiro de 1878, seu primeiro ato oficial foi especialmente significativo. Demonstrou um propósito firme de manter os hesitantes, se houvesse, na política de Pio IX com referência à restauração do poder temporal, e de fazer disso o teste de fidelidade à Igreja; em outras palavras, que seu sucessor deveria estar comprometido a levar a cabo essa política e ser eleito com essa visão expressa. Os cardeais, portanto, firmaram um acordo entre si para confirmar e manter todos os protestos feitos por Pio IX contra o governo Italiano. Este acordo estabelecia que eles "renovavam por este meio todos os protestos e reservas feitos pelo falecido soberano pontífice, seja contra a ocupação dos Estados da Igreja, seja contra as leis e decretos promulgados em detrimento da mesma Igreja e da Sé Apostólica"; e que estavam unanimemente "determinados a seguir o curso traçado pelo falecido pontífice, quaisquer que fossem as provações que lhes pudessem sobrevir pela força dos eventos". [2]

Pode-se supor, com razão, que o Cardeal Pecci foi o idealizador desse plano, visto que seu biógrafo afirma que ele "estava no lugar mais proeminente, à frente de seus irmãos". Em todo caso, ele, juntamente com os outros cardeais, estava comprometido com esse procedimento. Portanto, quando foi eleito papa – como o foi logo depois – e assumiu o nome de Leão XIII, ele aceitou o pontificado sob a obrigação solene de empregar todos os seus poderes e prerrogativas para recuperar o poder temporal que seu antecessor havia perdido, sob o fundamento claro de que a fidelidade às doutrinas e à fé da Igreja assim o exigia.

Em vista do resultado a ser assim alcançado, a eleição de Leão XIII foi inquestionavelmente sábia. Além de possuir as mais altas qualificações intelectuais – sendo, de fato, um dos homens mais proeminentes da época atual – seu caráter cristão é puro e sem mácula. Ele é sereno, calmo e ponderado ao considerar grandes questões, e não está propenso, como Pio IX, a ser enganado por conselheiros indiscretos ou a ser enredado por inimigos. Suas paixões pareciam bem controladas, e ele trouxe para os deveres de seu elevado cargo habilidades que excediam em muito as de qualquer um dos homens eminentes que compunham o Colégio de Cardeais. Não há um soberano na Europa do qual ele não seja igual, senão superior, em todas as qualidades que tornam um homem adequado para status, posição e autoridade. Na esfera justa e apropriada de seus deveres espirituais, ele é "sem medo e sem mácula" (sans peur et sans reproche). Mas quando ele se aventura a se afastar dessa esfera e a empregar a autoridade de seu elevado cargo para reabrir uma questão política já encerrada, para negar ao povo da Itália o direito de regular seus próprios assuntos temporais, como fizeram o povo dos Estados Unidos, e prescreve ou aprova um plano de organização da Igreja que mede o valor de uma vida cristã professada pela profundidade em que seu possuidor se afundará no lamaçal da controvérsia político-religiosa naqueles países onde Igreja e Estado foram separados, ele se apresenta ao mundo em um aspecto diferente. Se, imitando outros que almejaram coroas reais, ele julga apropriado deixar de lado as armas legítimas de seu ministério espiritual e armar a si e a seus seguidores com aquelas que pertencem à luta política, não pode haver justa causa de queixa contra aqueles cuja política de governo civil ele ataca, caso o levem e a seus seguidores ao tribunal da opinião pública e contestem seu direito de perturbar a paz, espalhando as sementes da discórdia entre eles.

O povo da Itália conquistou sua independência por meio de uma revolução e decidiu separar a Igreja e o Estado, e que não teriam o papa como seu rei; puseram fim ao monarquismo absoluto do papado e substituíram-no por uma monarquia constitucional, com as restrições e salvaguardas que consideravam necessárias para sua própria proteção. Ao fazer isso, exerceram o mesmo poder de soberania popular que o povo dos Estados Unidos, quando decidiu que nenhum rei jamais governaria sobre eles. Em ambos os casos, o ato pretendia ser final – não sujeito a anulação por qualquer poder terreno. Nenhum dos países, portanto, tem o direito de conspirar contra a tranquilidade e a paz do outro; nem as populações de nenhum deles têm o direito de fazê-lo. Tudo isso é proibido pelo direito dos povos e, se for tolerado conscientemente, seria, por essa lei, justa causa de guerra. Se um partido político-religioso fosse formado na Itália para mudar as nossas instituições reunificando Igreja e Estado e substituindo o povo por um rei na gestão dos assuntos públicos, isso incitaria o espírito de resistência em todo coração americano leal. E se a um partido político-religioso, formado sob qualquer pretexto que seja, for permitido se unir neste país com o objetivo declarado de reunificar a Igreja e o Estado na Itália e compelir o povo daquele país a aceitar o papa como soberano absoluto, diante do resultado que alcançaram com sua revolução, em que ponto escapamos da condenação pelo direito dos povos? A questão de saber se algum povo exercerá ou não o direito ao autogoverno é política, não religiosa. Isso foi decidido pelo povo dos Estados Unidos. Consequentemente, exigir deles que revertam esta decisão viola o espírito de suas instituições e zomba de sua autoridade.

Nenhuma pessoa liberal e de mente aberta questionou o direito de Pio IX de se declarar infalível, ou o de outros de lhe concederem isso, em assuntos puramente espirituais. Nem este mesmo direito é negado a Leão XIII. Mas quando ele estende sua infalibilidade a ponto de incluir autoridade sobre os princípios fundamentais do governo civil, buscando assim pôr em risco os destinos das nações progressistas modernas onde Igreja e Estado foram separados, não se deve esperar que aqueles que partilham desses destinos em comum sancionem sua presunção imperial por afirmação direta ou por aquiescência silenciosa. A era da "obediência passiva" passou e não é provável que seja revivida enquanto o período da Reforma continuar a produzir seus frutos ricos e abundantes, como os que brotam das instituições populares dos Estados Unidos. O princípio fundamental sobre o qual todas essas instituições se apoiam é a separação entre Igreja e Estado; pois sem ela não pode haver liberdade de crença religiosa e nem tal desenvolvimento das faculdades intelectuais que prepare a sociedade para o autogoverno. Todo ataque a este grande princípio fundamental deve ser resistido, não importa sob que pretexto seja feito ou de que parte venha. Quando foi atacado e condenado pelo vacilante e irascível Pio IX, estava em muito menos perigo do que agora, quando o calmo e sagaz Leão XIII se tornou o general-em-chefe das forças agressivas. O primeiro não era nem mestre de si mesmo – o último é mestre de vastas multidões de homens.

A eleição de Leão XIII causou satisfação geral fora do círculo de influência da Igreja. Ele era visto como um representante da mais alta iluminação, e isso deu origem à esperança de que ele se reconciliaria com a condição existente dos assuntos na Itália, a fim de pacificar aqueles membros da Igreja que haviam arrancado de seu predecessor imediato o cetro da soberania temporal. Uma oportunidade mais favorável para a pacificação não poderia ter existido; e se tivesse sido aceita com um espírito conciliatório, o júbilo não teria se limitado apenas aos italianos, mas teria sido quase universal. Contudo, pouco tempo se passou antes que surgissem sinais indicando que, em vez de lançar azeite sobre as águas agitadas, Leão XIII preferia que elas permanecessem em agitação. Dois fatos agora se combinam para explicar isso: Primeiro, o acordo firmado pelo Colégio de Cardeais para adotar os princípios e aderir à política de Pio IX; e, segundo, sua educação e formação jesuítica. Ambos os fatos são relatados por seu biógrafo, e o último com tal particularidade que demonstra que, quando ele tinha apenas oito anos de idade, foi separado de sua família e colocado sob os cuidados jesuítas, e que sua educação foi obtida nos colégios dessa sociedade em Viterbo e em Roma. [3] Se o mundo soubesse, no início de seu pontificado, quão solenemente ele havia se comprometido com seus irmãos cardeais antes de sua eleição, e como sua mente juvenil havia sido educada e moldada pelos jesuítas, não é provável que algo tivesse sido antecipado, ou mesmo esperado, além do que aconteceu; pois a habilidade dos jesuítas é exibida de forma mais eficaz nas impressões indeléveis que eles tão bem entendem como fazer em mentes jovens e em desenvolvimento. Embora a questão a ser decidida parecesse bastante simples para o público em geral, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, para os jesuítas era de suma importância; pois com a Igreja e o Estado separados na Itália, e com Roma como capital permanente de um reino independente do papa e submisso à vontade popular, sua sociedade seria esmagada pelo peso do ódio público que repousava sobre eles. Durante o progresso da controvérsia e antes da abolição do poder temporal, Pio IX havia sido compelido a expulsá-los dos Estados da Igreja em virtude desse ódio existente na Itália; mas eles se reagruparam, com sua energia inabalável, depois que seu sucessor foi escolhido, percebendo, sem dúvida, quão prontamente uma mente treinada e disciplinada sob seu sistema de educação cederia às suas exigências. Por um tempo, Leão XIII pareceu hesitar, como se na disputa entre o liberalismo e o retrocesso houvesse algum meio-termo. Mas a Igreja e o mundo não tiveram que esperar muito antes da emissão de sua primeira carta encíclica oficial, que pôs fim a todas as esperanças de reconciliação ou compromisso. Neste célebre documento, a guerra contra o liberalismo e o progresso, tal como reconhecidos pelas nações modernas, foi retomada com violência maior e jesuítica – "guerra até a faca, e a faca até o cabo". Não havia mais hesitação ou vacilação, mas a declaração clara do propósito de reviver o papado, pela restauração do poder temporal, e de levar o conflito adiante até que o mundo se afastasse de toda a civilização moderna e voltasse à Idade Média. Seu biógrafo tem um cuidado especial em tornar isso evidente, para que a encíclica possa ser interpretada de acordo com a intenção do papa. Depois de afirmar que havia aqueles que esperavam que Leão XIII "elaborasse um modus vivendi com os senhores de Roma e da Itália" e reconciliasse a Igreja e o papado com a "sociedade moderna e suas exigências", ele proclama com arrogância que a encíclica "decepcionou lamentavelmente todos os que imaginavam ou esperavam que um papa pudesse reconciliar a verdade revelada da qual ele é o guardião divinamente designado, a retidão, a justiça e a moralidade divina que fluem da lei revelada da vida, com os erros terríveis, a licenciosidade desenfreada de pensamento, palavra e ação, a iniquidade e a imoralidade que são encobertas por sua pretensa civilização". [4] Este erudito biógrafo não pretende que a encíclica do papa seja mal interpretada; e quando ele indica assim os "erros terríveis", a "licenciosidade desenfreada", "a iniquidade e a imoralidade", que foram espalhados pelo mundo pelo progresso e pela civilização moderna – que caracteriza como "pretensa" e não real – ele manifestamente compreendeu a mente e os motivos do papa, como também compreendeu a disputa que o papado estabeleceu com todos os povos mais esclarecidos do mundo e, mais especialmente, com o sentimento popular predominante nos Estados Unidos. Devemos, assim, aceitar esta acusação à nossa forma de civilização como intencional e deliberada. E para mostrar que entendia esta disputa como não confinada apenas à Itália, mas como de caráter universal, o biógrafo procede imediatamente a revelar que o papa "fala com autoridade a toda a humanidade; a luz transmitida por seu ensino ilumina ambos os hemisférios".

Mas esta encíclica em si não deixa margem para dúvidas quanto à universalidade da jurisdição e autoridade reivindicada pelo papa. Quase no início, anuncia que ele se considera chamado, em virtude de sua soberania espiritual, a decidir sobre assuntos de importância geral, e não meramente aqueles que se entendem pertencer à Igreja de Roma ou ao povo da Itália. Considerando-se possuidor desta jurisdição ilimitada por ocupar "o lugar do Príncipe dos Pastores, Jesus Cristo", ele afirma a autoridade pontifical sobre o mundo inteiro, nestas palavras: "Desde o início de nosso pontificado, tivemos diante de nossos olhos o triste espetáculo dos males que assolam a humanidade por todos os lados." E, de acordo com isso, ele expõe os seus propósitos, traçando um quadro triste da sociedade moderna, "impaciente com todo poder legítimo" e ameaçada, em consequência, de anarquia e dissolução, por causa de seu "desprezo pelas leis da moralidade e da justiça". Tudo isso, em sua mente, surgiu do espírito anárquico de revolução que os povos modernos invocaram para se libertarem do peso esmagador do monarquismo imperial e absoluto, que ele propõe reviver na Itália pelo restabelecimento do poder temporal que o povo daquele país arrancou das mãos de seu predecessor imediato por meio da revolução. O que nós, de forma um tanto triunfante, chamamos de patriotismo, liberdade e direito natural, o papa denuncia como "um vírus pestilento que se infiltra nos órgãos vitais e nos membros da sociedade humana, que não lhes permite descanso e que prenuncia para a ordem social novas revoluções que terminam em resultados calamitosos".

Contra estas calamidades ameaçadoras, ele se sentiu constrangido, em virtude da universalidade de seu domínio espiritual, a advertir o mundo, especialmente aquela parte que voluntariamente trouxe sobre si o que ele considera aflição, ao separar Igreja e Estado e estabelecer a liberdade de crença religiosa, a liberdade de expressão, uma imprensa livre e um governo popular livre. Ele parece ter permitido perturbar-se e agitar-se por esta condição sombria dos assuntos, porque foi produzida pela rejeição do direito divino do papa de regular quaisquer sentimentos e opiniões que ele considere pertencentes ao círculo de sua jurisdição espiritual. "A causa de todos estes males", ele diz, "reside principalmente nisto: que os homens desprezaram e rejeitaram a santa e augusta autoridade da Igreja, que, em nome de Deus, é colocada sobre a raça humana, e é a vingadora e protetora de toda autoridade legítima"; isto é, que nenhuma autoridade de qualquer espécie, seja de governos, povos ou indivíduos, pode ser estabelecida contra a Igreja como justa ou legítima. Então, olhando de cima deste alto pináculo para os elementos perturbados e em fúria abaixo, e lamentando porque seu domínio temporal foi perdido, ele enumera algumas das principais causas que, em sua opinião, ameaçam arruinar a felicidade e o bem-estar da sociedade. Entre estas, ele destaca de forma conspícua a seguinte: A derrubada da constituição da Igreja por leis em vigor "na maioria dos países"; obstáculos ao "livre exercício do ministério eclesiástico", que essas leis criaram; "a liberdade desenfreada de ensinar e publicar todo tipo de mal"; privar a Igreja do "direito", que ele considera irrefutável, de "treinar e educar os jovens"; e, longe de ser o menor em magnitude ou importância, a violação sacrílega da lei Divina pela abolição do poder temporal do papa e da soberania imperial sobre o povo italiano. Esta enumeração foi manifestamente feita, como pode ser inferido da linguagem de seu biógrafo, para capacitá-lo a apontar mais claramente à "hierarquia católica" em todas as partes do mundo "para qual propósito seu zelo comum deve ser dirigido principalmente"; ou seja, o que o papa espera que eles contribuam para desviar o mundo dessas inovações modernas na política papal, para que ele possa reaver sua condição durante a Idade Média, quando a supremacia papal era mantida pelo terrível tribunal da Inquisição. Que ele prefere aquele período, com sua ignorância e superstição, ao presente, com seu avançado esclarecimento e prosperidade, é clara e enfaticamente declarado nestas palavras: "Se qualquer homem sensato em nossos dias comparar a era em que vivemos, tão amargamente hostil à religião e à Igreja de Cristo, com aquelas eras abençoadas em que a Igreja era honrada como mãe das nações, ele certamente descobrirá que a sociedade de nossos dias, tão convulsionada por revoluções e agitações destrutivas, está se movendo direta e rapidamente em direção à sua ruína; enquanto a sociedade das eras anteriores, quando mais dócil ao governo da Igreja e mais obediente às suas leis, era adornada com as instituições mais nobres e desfrutava de tranquilidade, riquezas e prosperidade". [5]

Isto é um estranho fanatismo a ser cultivado durante o século XIX, quando a energia humana é levada ao máximo para dar maior velocidade ao carro do progresso e para superar todas as eras anteriores na colocação de restrições e salvaguardas contra a ambição de monarcas temporais. Requer pouca pesquisa para descobrir que as "eras abençoadas" às quais Leão XIII se refere e às quais dá tamanha preferência sobre o período atual foram especialmente distinguidas pela ignorância e superstição da multidão. A História está repleta de evidências disso. Maitland – que é muito apreciado e frequentemente citado por escritores papais devido às suas críticas a Robertson, o historiador – afirma que "os eclesiásticos eram os homens que liam e os homens que escreviam"; [6] mas não finge que tal era o caso dos camponeses ou do povo comum, como era chamada a maior parte das populações. Não há nada melhor estabelecido do que o fato de que não lhes eram oferecidas facilidades para o aprendizado e que eram mantidos em um nível comum de ignorância, de modo a reconciliá-los mais facilmente com a submissão e a obediência. Isso é demonstrado pelo quadro da sociedade traçado por todos os cronistas primitivos, especialmente por Froissart e Monstrelet, bem como pelos historiadores mais modernos, Hallam, Robertson e Berington. Os homens de saber e letras pertenciam às "classes superiores", para as quais apenas colégios e escolas eram providos. O povo, como tal, era deixado sem instrução, a fim de torná-lo passivamente obediente à autoridade da Igreja e do Estado, que estavam unidos por laços que eles eram impotentes para quebrar. Foram forçados – com pouca menos severidade do que a mostrada aos cativos dos Faraós que construíram as pirâmides, o templo de Karnak e outros monumentos egípcios – a servir como feitores na ereção de palácios, catedrais e igrejas magníficas, projetadas para exibição por aqueles cuja vaidade e orgulho os tornavam alheios ao fato de que eram o produto de trabalho não recompensado e não continham uma pedra ou bloco de mármore não manchado pelas lágrimas, pelo suor e pelo sangue de inúmeras vítimas humilhadas. Mas todas essas vítimas não recompensadas eram ignorantes e, portanto, obedientes – obedientes e, portanto, felizes! Mas Leão XIII, exultando com esta reflexão, instrui as nações modernas de que a maldição de Deus está sobre o seu avanço progressivo e que ele, em nome e lugar de Cristo, possui o poder divino para fazê-las retornar àquelas "eras abençoadas", pois, caso contrário, "elas, ao corromperem tanto as mentes quanto os corações, arrastarão, com seu próprio peso, as nações para todos os crimes, arruinarão toda a ordem e, por fim, levarão a condição e a paz de uma comunidade à destruição extrema e certa".

Para escapar destas consequências terríveis e salvar a sociedade moderna de manter abertas as feridas que infligiu a si mesma, o papa torna conhecido o seu propósito pontifical nestas palavras: "Declaramos que jamais cessaremos de lutar pela plena obediência à nossa autoridade, pela remoção de todos os obstáculos colocados no caminho do exercício pleno e livre do nosso ministério e poder, e pela nossa restauração àquela condição de coisas em que o desígnio providente da Divina Sabedoria outrora colocou o pontífice romano." Tendo assim instruído todos os fiéis de que o que quer que o proíba de adquirir todo o poder e autoridade "antigamente" possuídos pelos papas, deve ser resistido e afastado, sejam constituições, leis ou costumes, declara a eles, como forma de encorajamento, que o mundo não terá descanso até que isso seja realizado; "não só porque a soberania civil é necessária para a proteção e preservação da plena liberdade do poder espiritual, mas porque, além disso – algo em si evidente – sempre que se trata do principado temporal da Santa Sé, estão então envolvidos os interesses do bem público e a salvação de toda a sociedade humana." Seu entusiasmo é sempre intensificado e sua eloquência de estilo se torna cativante quando sua mente exibe seu poder na contemplação daquela "soberania temporal" pela qual espera que ele e seus sucessores tragam toda a humanidade para dentro dos limites da jurisdição pontifical, de modo que eles não tenham cuidado por esta vida ou por uma vida superior além do que está envolvido no dever de obediência passiva e inquestionável. É quando este entusiasmo o possui totalmente que ele aproveita a ocasião para dar a palavra de comando ao seu exército eclesiástico em todas as partes do mundo; como quando lhes diz que devem demonstrar seu "zelo sacerdotal e vigilância pastoral, acendendo nas almas do seu povo o amor à nossa santa religião, para que assim se tornem mais estreita e sinceramente apegados a esta cátedra da verdade e da justiça, aceitem todos os seus ensinamentos com o mais profundo consentimento da mente e da vontade, e rejeitem sem hesitação todas as opiniões, mesmo as mais difundidas, que eles sabem estar em oposição às doutrinas da Igreja." Esta instrução é suficientemente abrangente para incluir todos, tanto sacerdotes quanto leigos. Ela tem o mérito da simplicidade, exigindo apenas obediência ao papa, o pleno "consentimento da mente e da vontade" a todas as doutrinas que ele anunciar, e a rejeição de "todas as opiniões" em oposição a elas; não importando se a sua submissão envolver desobediência às constituições e leis sob as quais possam viver. Ele também aborda detalhes e prescreve um curso de conduta para todos os seus subordinados – como um general comandante estabelecendo o plano de uma campanha militar. Eles devem obter o controle da educação, de modo a "espalhar amplamente as sementes das doutrinas celestes", a fim de salvar "especialmente os jovens" das influências mortais das escolas estatais e públicas, onde, de acordo com o seu ensino, o método de educação "nubla o seu intelecto e corrompe a sua moral". Eles são obrigados a instruir seus alunos "em conformidade com a fé católica, especialmente no que diz respeito à filosofia mental", tal como ensinada por Tomás de Aquino e "os outros mestres da sabedoria cristã". Eles devem fazer guerra de extermínio contra as "leis ímpias" que permitem casamentos civis, porque aqueles assim unidos, "profanando a santa dignidade do matrimônio, viveram em concubinato legal em vez de matrimônio cristão". E, por último, e não menos imperativamente, todos devem ser instruídos na obrigação indispensável de "obedecer aos seus superiores". [7]

Mas Leão XIII não se contentou com estas declarações claras de suas opiniões e propósitos pontificais. Ele optou por dar a elas ênfase por meio de outros métodos oficiais. Após a morte do Cardeal Franchi, seu Secretário de Estado, ele nomeou o Cardeal Nina para aquele posto. Não há meios de decidir se ele considerou este último não suficientemente instruído em relação às suas opiniões, ou se aproveitou a ocasião para expressar novamente e mais explicitamente os princípios de sua política pontifical; mas, seja uma coisa ou outra, ele lhe dirigiu uma comunicação oficial, na qual estes princípios foram expostos com perfeita clareza. Ainda contemplando "o perigo gravíssimo da sociedade devido às desordens sempre crescentes que nos confrontam por todos os lados" e "a decadência intelectual e moral que adoece a sociedade", em consequência de esta ter rompido sua lealdade ao poder temporal do papa, ele acusa como proeminente entre os males existentes a separação entre Igreja e Estado – precisamente aquela condição de coisas que existe nos Estados Unidos de forma mais distintiva do que em qualquer outro lugar do mundo civilizado. Sobre este assunto – que envolve tanto do que é absolutamente fundamental no governo popular livre – ele diz: "A principal razão dessa grande ruína moral foi a separação abertamente proclamada e a tentativa de apostasia da sociedade de nossos dias em relação a Cristo e à sua Igreja, que é a única que tem todo o poder para reparar todos os males da sociedade." E referindo-se à maneira como o papa havia sido "despojado" de seu poder temporal, ele o admoestou "a considerar que os católicos nos diferentes Estados jamais poderão se sentir seguros até que seu sumo pontífice, o mestre superior de sua fé, o moderador de suas consciências, desfrute do pleno gozo de uma verdadeira liberdade e uma real independência"; isto é, que se espera que os católicos em toda parte contribuam com ajuda imediata e ativa para a restauração do poder temporal, para que "o progresso feito pela heresia" possa ser interrompido e "templos e escolas heterodoxas" sejam destruídos. [8]

Não há nada em tudo isto, ou em qualquer coisa feita oficialmente por Leão XIII – por mais veementemente que possa ser rejeitado por mentes liberais – que deva de alguma forma depreciar a estima que ele merece por todos aqueles que apreciam a conduta íntegra e a consistente observância da virtude cristã. Por estas razões, sua vida tem sido eminentemente distinguida, e quando seu fim chegar – cujos receios são expressos no momento em que estas palavras estão sendo escritas – ele merecerá um nicho elevado no mausoléu papal entre os maiores e melhores dos pontífices. Se suas opiniões e pronunciamentos fossem avaliados apenas por sua integridade pessoal e virtudes privadas, a força de qualquer crítica a eles seria materialmente diminuída. Mas eles pertencem e são uma parte essencial do sistema papal que ele representa e é obrigado, pelas necessidades de sua posição, a manter contra tudo o que estiver em conflito com ele. O que o papa disse, e tão frequentemente repetiu, é ecoado dos túmulos daqueles seus predecessores que travaram suas batalhas com o liberalismo e o progresso quando as forças que os defendiam eram fracas e o papado era forte. Ele não poderia quebrar um único fio na rede que o envolve, por mais ansiosamente que o desejasse, e, consequentemente, é forçado a continuar a batalha travada por seus predecessores até que a vitória final seja alcançada ou o estandarte do poder temporal afunde para sempre fora de vista. Sua tarefa se torna mais e mais difícil a cada dia; pois agora as forças progressistas estão crescendo em força, enquanto os poderes do papado, diminuídos pela perda da soberania temporal, estão constantemente a minguar. Ele está lutando contra os sentimentos patrióticos da humanidade, como um homem forte batalhando contra as ondas de um mar tempestuoso. Embora a luz do progresso moderno não seja permitida penetrar as paredes do Vaticano, e ele esteja confinado atrás de barreiras impenetráveis especialmente para mantê-la fora, o papa deveria, no entanto, saber que aqueles para cuja prosperidade e avanço ela contribuiu não estão dispostos a aquiescer em sua extinção, ou a ficar sentados em silêncio quando ameaçada. Embora sua acusação às instituições civis que cresceram dentro do círculo desta luz possa ser bem atribuída ao sistema papal que ele representa oficialmente, Leão XIII expressou seu desejo por sua derrubada em termos de censura e repreensão que excitam a suspeita de que ele é movido por um espírito intransigente e não conciliador. Tudo o que ele demonstrou disto pode ser justamente atribuído à sua formação e educação jesuítica. Tendo sido colocado sob os cuidados daquela sociedade ardilosa e insinuante antes que suas opiniões estivessem amadurecidas e enquanto sua mente juvenil era incapaz de detectar seu sofisma ou sua astúcia, eles foram capazes de moldá-lo aos seus propósitos, como a cera amolecida é marcada por qualquer selo. Qualquer investigação inteligente de sua política pontifical, no que diz respeito às relações do papado com os governos civis existentes, demonstrará isso a todos cujas faculdades não foram atrofiadas pelo mesmo sistema de educação e tutela. Vemos todos os dias, no mundo natural, a prova conclusiva de que "a árvore se inclina conforme o galho é dobrado".

Notas

1. Appleton's American Cyclopedia. 1877. Páginas 677 a 681.

2. Life of Leo XIII. Por O'Reilly. Página 299.

3. O'Reilly, pp. 52-53.

4. O'Reilly, p. 328.

5. O'Reilly, p. 333.

6. The Dark Ages. Por Maitland. Página 461.

7. O'Reilly, pp. 329 a 341.

8. O'Reilly, pp. 344 a 350.


Capítulo 19

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