Uma resposta verdadeira que desvia a atenção de uma questão crucial tem o mesmo efeito que uma mentira.
E nada ilustra melhor isso do que a entrevista de 2014 de Wasthí Lauers de Castro ao pastor Odailson Fonseca no programa Anjos da Esperança da TV Novo Tempo.
Wasthí, então com 25 anos, ganhou notoriedade nacional ao se recusar a participar de uma prova de eliminação agendada para um sábado durante um reality show.
Odailson destacou a repercussão da escolha de Wasthí como um exemplo de integridade e coragem para outros jovens adventistas que enfrentam desafios envolvendo o sábado.
Porém, a despeito da experiência da moça e da atmosfera emocionalmente envolvente da entrevista, havia uma questão da qual ninguém com bom senso podia se esquivar: o reality show era, como a maioria das produções desse gênero, sexualmente apelativo.
Wasthí tem a seu favor o benefício da dúvida. Afinal, o que para mim continua sendo realidade óbvia, para uma jovem com desejos e sonhos talvez fosse inofensivo ou então inimaginável.
Mas Odailson, em virtude da posição que ocupa, não tem esse benefício.
E é justamente esse detalhe que torna a história ainda mais bizarra; um ministro do evangelho elogiando a suposta virtude de uma jovem que, para começo de conversa, nunca deveria ter participado de um programa moralmente duvidoso!
O "X" da questão
Como pode ser isso? E por qual razão, diante de tais fatos, nenhum dos colegas mais próximos de Odailson, entre eles homens de erudição e experiência, manifestou-se contra o erro antes que fosse transformado em virtude?
A resposta deve ser procurada não na falta de cultura, inteligência técnica ou brilhantismo intelectual, mas na incapacidade de distinguir entre o santo e o comum, uma deficiência que, à luz da Bíblia e em diálogo com Dietrich Bonhoeffer, Robert Musil, Eric Voegelin e Carlo M. Cipolla (nomes que já mencionei em outros artigos), corresponde à uma forma específica de estupidez.
Na linguagem bíblica, o termo que expressa mais precisamente esse conceito é "insensatez", "falta de discernimento" ou "corrupção do juízo".Em Ezequiel 22:26, Deus denuncia exatamente essa corrupção da razão:
Os seus sacerdotes transgridem a minha lei e profanam as minhas coisas santas; entre o santo e o profano, não fazem diferença, nem discernem o imundo do limpo...
E no capítulo 44:23, o Senhor reafirma a qualidade essencial que se espera de um líder no exercício de suas funções:
A meu povo ensinarão a distinguir entre o santo e o profano e o farão discernir entre o imundo e o limpo.
Observe que a faculdade a que Deus se refere por intermédio de Seu profeta não é simplesmente uma questão de conhecimento religioso. O sacerdote (ou o ministro) precisa possuir discernimento, ou seja, capacidade de estabelecer distinções corretas com base na Palavra de Deus.
E não somente deve saber distinguir, como também ensinar o povo a fazer essa distinção.
O ministro tem diante de si uma dupla responsabilidade: deve discernir corretamente e ensinar corretamente!
Ele pode possuir enorme competência exegética, homilética, administrativa, acadêmica ou institucional, mas se carece de discernimento, fracassa exatamente no ponto que Deus considera essencial.
Deixe-me ilustrar esse ponto.
Imagine um ministro que domina as línguas originais da Bíblia, possui doutorado, conhece teologia, sabe construir sermões inspiradores, domina as técnicas de comunicação, administra uma instituição com eficiência, conhece profundamente a psicologia de seu público, mas não consegue perceber a diferença entre aquilo que é apropriado à adoração e aquilo que pertence à lógica ordinária do entretenimento, do espetáculo, da propaganda ou do mercado.
Ele não sofre necessariamente de um déficit intelectual. No entanto, ele se enquadra naquilo que Musil chamaria de uma espécie de inteligência funcionando dentro de categorias inadequadas.
Ele sabe como fazer as coisas funcionarem. Mas é incapaz de responder adequadamente se aquilo que funciona é apropriado para o contexto. Essa é a pergunta que o discernimento faz.
Há, portanto, uma diferença crucial entre não saber o que é santo e não saber distinguir o santo do comum.
O primeiro pode ser corrigido com instrução. O segundo envolve um defeito no próprio processo de julgamento (Jó 11:12; Provérbios 12:1)
É justamente por isso que Deus coloca a faculdade de discernir no centro da função ministerial.
O conhecimento é importante na medida em que fornece informações (Oséias 4:6). O discernimento vai além. Ele estabelece distinções que serão a base do julgamento sobre o que deve ser feito (Levítico 10:10). A prática, por fim, manifestará o resultado (Mateus 7:16-20; Tiago 3:12).
Um ministro pode possuir o primeiro e falhar em todos os demais.
Quando um ministro perde a capacidade de distinguir
Um pastor pode carecer de discernimento por ignorância, mas também por conformidade.
Suponhamos, por exemplo, que determinada forma cultural tenha se tornado extremamente popular. O ministro observa que ela atrai pessoas, gera entusiasmo, aumenta a participação, recebe aprovação, produz visibilidade e funciona muito bem como comunicação. Então conclui que, se funciona, deve ser apropriado.
Ele não percebe, no entanto, que essa conclusão contém uma mudança silenciosa de critério. A pergunta deixou de ser bíblica – "É santo?" – para tornar-se puramente pragmática – "Funciona?" O ministro passa a julgar segundo categorias fornecidas pelo ambiente cultural, em vez de exercer autonomia de julgamento fornecida pela Palavra de Deus.
Assim, ele não pensa propriamente; é pensado por alguma coisa! Ele pode ser intelectualmente capaz, mas intelectualmente heterônomo, ou seja, definido pela submissão da vontade individual a normas de conduta estabelecidas por terceiros.
A mudança de critério é a "sementinha" que o diabo usa para infestar com joio a seara do Senhor.
O "fertilizante" é a realidade parcial tratada como se fosse a realidade inteira, isto é, quando eficiência, comunicação, emoção, estética e participação se tornam, cada uma, a própria realidade.
Nenhuma delas é o critério supremo para determinar o que é apropriado à adoração. Mas quando qualquer uma delas (ou todas em conjunto) se torna o princípio organizador absoluto, ocorre uma espécie de redução da realidade; a santidade desaparece como categoria decisiva e o pastor passa a enxergar o ministério evangélico como mera gestão.
Ele pode não negar verbalmente o sagrado, mas sua estrutura de julgamento já não o considera do ponto de vista operacional. A inteligência deixou de ser instrumento da verdade para tornar-se instrumento de autolegitimação.
De maneira que um líder pode possuir grande conhecimento e ser profundamente estúpido. Como a inteligência foi recrutada pela estupidez, ele passa a raciocinar a serviço de uma conclusão previamente estabelecida. É o que Voegelin chamaria de "o fenômeno da segunda realidade":
O homem vive naquilo que imagina, e o que ele imagina toma o lugar da realidade, e desta realidade que ele imagina segue-se que ele está justificado de dizer coisas estúpidas acerca de questões religiosas. Então, se eu imagino coisas que são suficientemente estúpidas, estou assim justificado por tudo o que segue como resultado de minha estupidez.
Uma vez perdido o contato adequado com a realidade, o pastor já não consegue orientar corretamente sua ação no mundo em que vive e, tampouco, a ação das pessoas sob sua responsabilidade. Ele perdeu os instrumentos espirituais e intelectuais necessários para perceber que não sabe.
Esta é a forma verdadeiramente perigosa da estupidez, e que o contato excessivamente cavalheiresco com pessoas estúpidas não permite divisar.
Porque quando pastores deixam de distinguir entre o santo e o comum, eles não ficam simplesmente confusos; eles profanam o sagrado e ensinam o povo a viver dentro dessa confusão.
Veja, "comum" não significa necessariamente mau, e sim aquilo que não é separado para uso sagrado, enquanto "santo" diz respeito ao que é separado, consagrado, pertencente à uma esfera distinta de tudo o que é comum.
Definições são importantes. Termos mal definidos só confundem as coisas.
Portanto, o problema do pastor não é simplesmente introduzir "coisas ruins" no culto ou no evangelismo. Ele pode introduzir coisas boas, legítimas ou culturalmente valiosas em um contexto no qual elas não exercem a função correspondente!
Uma atividade pode ser perfeitamente legítima na esfera comum e, ainda assim, ser inadequada como elemento litúrgico.
Por isso os métodos do sistema missionário jesuíta, elaborados com o propósito principal de adquirir domínio com pouca consideração pelos meios empregados, não podem servir de modelo para a igreja de Deus. Os meios precisam ser tão santificados quanto os fins, se quisermos ser biblicamente consistentes.
A estupidez como uma forma de desordem
Um ministro ignorante, que não sabe discernir entre o santo e o comum por deficiência de conhecimento, necessita de instrução, ao passo que um ministro intelectualmente sofisticado, mas sem discernimento, precisa investir urgentemente na formação do juízo.
Mas para um ministro que sabe distinguir, e deliberadamente não o faz – seja por conveniência, popularidade, pragmatismo, pressão institucional, interesses financeiros, prestígio, preferência pessoal ou conformidade cultural –, há pouca esperança, pois demonstra uma forma de estupidez que resulta da incapacidade – ou da recusa – de submeter inteligência, conhecimento e julgamento à realidade própria do sagrado.
Isso explica por que formação técnica não é garantia de competência ministerial.
Um pastor pode saber como fazer algo sem saber se deve fazê-lo; pode saber como comunicar sem saber o que está comunicando; pode saber como atrair sem saber para onde está atraindo; pode saber como produzir emoção sem saber se a emoção produzida corresponde à natureza da adoração; e pode saber como obter resultados sem saber se os resultados são espiritualmente desejáveis.
Foi a isso que me referi quando afirmei que Michelson Borges (assim como Odailson Fonseca, Eleazar Domini e muitos outros) não tem competência para o ministério. A educação intelectual, por si só, não imuniza um pastor contra a estupidez.
Alguém com competência técnica, mas sem discernimento e sabedoria, não está mais qualificado para exercer o ministério evangélico do que um leigo com pouca instrução, visto que opera dentro de categorias inadequadas. Ele pensa apenas em termos do que é permitido, e nunca sobre o objeto em si, que significado possui e se é apropriado no contexto da adoração.
Este é o motivo pelo qual a Bíblia insiste tanto na faculdade de discernir, e não simplesmente em acumular conhecimento. Em Romanos 12:2, Paulo diz:
Para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
E Hebreus 5:14 fala daqueles que, pela prática, têm as faculdades exercitadas
para discernir não somente o bem, mas também o mal.
Na perspectiva das Escrituras, o pastor não é primariamente um especialista em religião. Ele é um guardião de distinções que a Palavra de Deus considera imprescindíveis para o bom exercício de um ministério autêntico.
Ele deve saber distinguir entre o santo e o comum, entre o puro e o impuro, entre a verdade e o erro, entre a sabedoria e a insensatez, entre a adoração e o entretenimento, entre o sacrifício e o espetáculo, entre a transcendência e a banalização.
E sua responsabilidade não termina em fazer essas distinções para si. Ele deve ensiná-las ao povo (Ezequiel 44:23). Se um pastor falha nesse sentido, comete o mais grave dos erros: institucionaliza a confusão da qual ele mesmo é vítima.
É nesse ponto que a estupidez se torna especialmente perigosa; quando deixa de ser uma deficiência individual e passa a ser transmitida como conhecimento, legitimada como sabedoria e incorporada às instituições.
Quando os líderes passam a interpretar o mundo não a partir da experiência com a Palavra de Deus, mas a partir de um sistema fechado de símbolos e conceitos, eles estão oferecendo aos membros uma realidade artificial. E quanto mais a realidade efetiva contradiz o sistema, mais o sistema precisa ser protegido contra a realidade.
Essa reação não necessariamente se traduz em censura eclesiástica. O sistema adota algo mais duradouro do ponto de vista operacional: a implantação institucional de uma categoria semântica capaz de neutralizar quem questiona sem tocar na questão em si ("tradicionalista", "legalista", "dissidente", etc.)
Isso explica por que a estupidez coletiva pode ser muito mais letal que a estupidez individual.
Um indivíduo estúpido pode fazer uma coisa estúpida. Uma Igreja pode transformar a estupidez em política, procedimento e instituição. E quanto mais inteligente for o sistema assim concebido, maior será sua capacidade de racionalizar a própria estupidez.
Nessa condição, a Igreja não simplesmente faz o mal. Faz algo muito pior. Ela altera as categorias pelas quais o mal é reconhecido: aquilo que deveria produzir vergonha passa a produzir orgulho, e aquilo que deveria ser considerado virtude passa a ser tratado como defeito (Isaías 5:20).
Essa inversão cognitiva e moral é a consequência última da estupidez. Embora as distinções da Palavra de Deus permaneçam válidas, a consciência de um indivíduo estúpido constrói uma linguagem que não permite reconhecê-las.
Isso mostra que inteligência, conhecimento e sofisticação podem coexistir com a perda do discernimento espiritual – uma das formas mais perigosas de estupidez religiosa.
Para concluir
Na linguagem bíblica, a estupidez é uma forma de desordem; ministros e leigos deixam de reconhecer a realidade como ela é, recusam a correção que poderia restaurar seu juízo e passam a organizar suas escolhas segundo desejos, preconceitos, pressões coletivas ou falsas premissas.
Provérbios 14:12 resume a questão em uma única frase (ênfase minha):
Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte.
A palavra-chave é "parece". A estupidez bíblica não é simplesmente fazer algo errado. É estar profundamente convencido de que o caminho errado é o caminho certo.
É nesse ponto que o conceito bíblico de estupidez se encontra com o pensamento de Bonhoeffer. Para ele, o estúpido, ao contrário da pessoa má, sente-se completamente satisfeito consigo mesmo. Por isso, "nunca se há de convencer o estúpido pela razão – é inútil e perigoso".Essa é a condição de Laodiceia (Apocalipse 3:17):
Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma...
Ao que Cristo responde:
e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.
Aqui temos o confronto entre a realidade – "tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu" – e a segunda realidade substituta concebida pela estupidez – "Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma".
Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.
Queira Deus que, em obediência ao Seu conselho, possamos distinguir, em nós mesmos, entre convicção legítima e estupidez autoconsciente.
Se você quiser ajudar a fortalecer o nosso trabalho, por favor, considere contribuir com qualquer valor:


0 Comentários