sábado, 4 de novembro de 2017

"Por que te admiraste?"


As perseguições do paganismo que afligiam a igreja cristã e que o apóstolo João também sofria (Apocalipse 1:9), não eram para ele motivo de admiração. O mundo odeia especialmente aqueles cujos valores e interesses se distinguem dos seus, e cuja vida lhe é uma constante reprovação.

"Se o mundo vos odeia", disse Jesus, "sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia." (João 15:18-19. Ver também 3:19-20).

Sim, o mundo ama os que lhe pertencem. Os verdadeiros discípulos de Jesus não são do mundo, por isso o mundo os odeia. Para o vidente de Patmos, que certamente lembrou-se das palavras do Mestre em sua tribulação, não havia razão para espanto.

Mas depois de ter visto em visão anterior uma mulher pura, símbolo da santa igreja de Cristo, sendo cruelmente perseguida pelo dragão, e sendo-lhe agora revelado que uma igreja nominalmente cristã, simbolizada por uma meretriz e imbuída do mesmo espírito, perseguiria os verdadeiros seguidores de Jesus, João admirou-se com grande espanto (Apocalipse 17:6).

Em resposta à admiração do profeta face a algo que lhe parecia então inacreditável, isto é, que uma igreja pudesse perseguir os santos como o dragão havia feito a Cristo e à igreja primitiva (Apocalipse 12:1-6, 9, 13), o anjo, pronto a dar-lhe ainda mais luz a respeito do assunto, declarou:

Por que te admiras? Eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a traz, a qual tem sete cabeças e dez chifres. (Apocalipse 17:7, Almeida Corrigida e Revisada Fiel).

Vede que a própria sentença do anjo traz consigo parte da explicação que se segue.

Pois a declaração do anjo - "eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a traz" - indica claramente que o "mistério" não se restringe à identidade da mulher, mas inclui também a da besta! Ambas pertencem ao mesmo mistério, e, portanto, não podem ser entendidas separadamente!

Nós já havíamos advertido o leitor sobre o fato singular de que, na visão (versos 3-6), a atenção de João é voltada quase que exclusivamente à mulher, ao passo que na explicação da visão (versos 7-18) sua atenção é dirigida principalmente à besta. Isso sugere que os dois personagens da profecia devem ser entendidos com base em suas relações, e não isoladamente.

Que uma igreja devesse ser tão distinta do mundo a ponto de despertar-lhe o ódio e oposição é algo manifesto na visão de João em Apocalipse 12. Aqui, a mulher e o dragão de sete cabeças e dez chifres são tão opostos como o céu e a terra.

Em Apocalipse 17, no entanto, a mulher e a besta (que, aliás, também tem sete cabeças e dez chifres e, portanto, possui caráter semelhante ao do dragão) estão unidas de tal forma, em contraste com o quadro que se apresenta no capítulo 12, que dessa concórdia só poderia resultar o espírito de figadal ódio e perseguição.

Eis por que o profeta, ou qualquer um de nós, não deveria espantar-se diante desse cenário calamitoso.

É coisa tremenda, todavia, que a nau da igreja, unida às ondas que a cercam, mas distintas delas, e operando beneficamente no mundo pela guia e poder do Espírito Santo, possa, com o tempo, tornar-se indistinguível das forças que lhe são contrárias e, ainda, sem mãos firmes sobre o leme, errar o rumo que deve percorrer.

Quão astuto e sagaz é o inimigo que temos de enfrentar! Seu maior objetivo é afastar de Deus a igreja, a fim de que ela esteja próxima o bastante do mundo para ser contaminada por ele, mas suficientemente distante para acreditar que ainda é diferente!

Trata-se de um esquema tão bem arquitetado e ardiloso que está além da capacidade humana de descrição.

Daí a suprema importância da Palavra "viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes" (Hebreus 4:12), sem a qual nos é impossível desvendar os engenhosos estratagemas da iniquidade e a eles resistir pelas armas procedentes dos arsenais do Céu (II Coríntios 10:4-6).

Se a apostasia institucional a que se referiu Paulo em II Tessalonicenses 2:3-4 (e que a João foi permitido, em visão, contemplar o cumprimento) é um fenômeno decorrente da perda do "primeiro amor" (Apocalipse 2:4), podemos, então, inferir que o diabo empregará todos os expedientes de que dispõe para suprimir da mente dos crentes cristãos essa primeira impressão do Espírito e, assim, neutralizar o poder da igreja.

Não sejamos ingênuos. Satanás tem muitas redes finamente tecidas, bem trabalhadas, insuspeitas e até inocentes na aparência, mas através das quais ele pode atrair e enlaçar a igreja, de forma a substituir seu amor a Cristo pelo amor ao mundo.

E uma vez que sejamos cegados por Satanás no que tange à nossa própria condição espiritual e que os muitos testemunhos e advertências da Palavra de Deus sejam silenciados ou considerados superficialmente, estarão abertas as portas para a frieza, espírito mundano, escuridão espiritual e, finalmente, apostasia.

Se a igreja decididamente ama o mundo e as coisas que no mundo há; se a ele se une, mesmo em nome dos mais nobres e virtuosos ideais, o amor de Deus não encontrará guarida em seu seio.

Dificilmente ela terá um senso elevado de que faz parte de uma importante e solene obra, e, certamente, rebaixará os sublimes princípios da verdadeira religião, a fim de ajustá-los à sua natureza não santificada e, assim, obter o louvor dos descrentes.

Quão grande será, então, a influência funesta que exercerá sobre o mundo, em virtude de seu estado de insensibilidade e cegueira!

Nenhuma igreja que se autodenomine a única e verdadeira igreja de Cristo pode produzir preciosos frutos que testifiquem de sua ligação com o Mestre, se o lugar que pertence unicamente a Ele por direito é ocupado pelos homens.

E o clímax da apostasia é que homens ocupem o lugar de Cristo nas atribuições que Lhe dizem respeito.

Nessa condição, é possível ser religioso, e, contudo, não verdadeiramente cristão; ser sacerdote, mas no altar de um culto degenerado; ter o poder de ligar e desligar, porém não de acordo com o Céu; considerar-se mãe das virtudes, e, no entanto, ser mãe das meretrizes e das abominações.

Completamente cegada pela ambição de assumir o controle das consciências, de ocupar na Terra um lugar que Deus nunca, jamais ordenou, a Igreja apóstata se converteu em agente das trevas e não da luz.

E todas as Igrejas que a ela estão ligadas por laços de tradição ou amizade tornam-se igualmente culpadas perante Deus, na medida em que seguem o exemplo de sua mãe, até o ponto de manifestarem o mesmo espírito contra aqueles que vierem a discernir os sinais dos tempos e decidir separar-se do mundo e das coisas que enganam, seduzem e enredam para a perdição.

A estes, nosso amado Redentor tem estendido Seu último e decisivo apelo:

Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos. (Apocalipse 18:4)

Que possam hoje ouvir a Sua voz e atender ao Seu solene chamado!


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