sábado, 24 de junho de 2017

A origem da meretriz como metáfora


Com base no contraste entre as mulheres simbólicas de Apocalipse 12 e 17 e na constatação de que a mulher pura do capítulo 12 representa o povo fiel da nova aliança, devemos concluir que a meretriz de Apocalipse 17 simboliza a igreja infiel, cujas relações impróprias com "os reis da terra" (verso 2) expõem sua vergonhosa condição, bem como sua animosidade contra todos os que ameaçarem a estrutura de suas pretensões.

Por isso, embora a meretriz, "com quem se prostituíram os reis da terra", embriague seus habitantes "com o vinho de sua devassidão", ela mesma se acha "embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus" (Apocalipse 17:1-2, 6).

Ela efetivamente não é a igreja perseguida, representada pela mulher pura que deu à luz o Messias prometido em meio a grandes dificuldades, foi posteriormente perseguida e fugiu para o deserto, onde ficou fora da vista de seus algozes por 1.260 anos (Apocalipse 12:1-6, 14), mas a igreja perseguidora, que durante esse período puniu com o apoio dos poderes seculares aqueles que ela considerava hereges.

Diante desse quadro quase surreal, em que professos seguidores de Cristo assumem a imagem vergonhosa de uma extravagante meretriz sedenta de sangue, o apóstolo João não poderia ter reagido de outra forma, a não ser admirar-se "com grande espanto".

E, na verdade, tal quadro é tão espantoso que requer a confirmação de que a grande meretriz simboliza de fato a igreja apóstata.

Com este fim, devemos regressar ao Antigo Testamento, à história do povo de Israel, tendo em vista que as expressões e imagens que descrevem a prostituta simbólica de Apocalipse 17 são diretamente extraídas do fracasso de Israel como esposa fiel de Deus.

Antecedentes bíblicos da grande meretriz

Os profetas do Antigo Testamento frequentemente representavam o Israel de Deus por meio da figura de uma mulher virtuosa, "formosa e delicada, a filha de Sião" (Jeremias 6:2).

A respeito de Seu povo, o Senhor declarou: "Desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-ei comigo em justiça, e em juízo, e em benignidade, e em misericórdias; desposar-te-ei comigo em fidelidade, e conhecerás ao SENHOR" (Oseias 2:19-20).

E, de fato, não obstante a inconstância de Seu povo, o Criador identificou-se com a "filha de Sião", então estéril e desamparada, abatida e repudiada, como "o teu marido" e "o teu Redentor" (Isaías 54:1, 5-6)!

O Senhor Deus a vestiu com as melhores roupas, adornou-a com os mais belos enfeites, nutriu-a com as mais finas iguarias e a escolheu para ser Sua noiva (Ezequiel 16:8-14)!

No entanto, por confiar em sua formosura e orgulhar-se de si mesma, a filha de Sião esqueceu-se de seu marido, entregou-se à lascívia, e ofereceu-se "a todo o que passava, para seres dele" (Ezequiel 16:15).

Jeremias recorreu à mesma linguagem ao se referir à infidelidade do povo de Deus: "Ora, tu te prostituíste com muitos amantes" (Jeremias 3:1), e Isaías, descrevendo idêntica cena, exclamou: "Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela, que estava cheia de justiça! Nela, habitava a retidão, mas, agora, homicidas" (Isaías 1:21).

Profetizando acerca do reino do Norte, o reino de Israel, Oseias declarou: "O seu proceder não lhes permite voltar para o seu Deus, porque um espírito de prostituição está no meio deles, e não conhecem ao SENHOR" (Oseias 5:4).

E o profeta associa a prostituição à idolatria: "O meu povo consulta o seu pedaço de madeira, e a sua vara lhe dá resposta; porque um espírito de prostituição os enganou, eles, prostituindo-se, abandonaram o seu Deus" (Oseias 4:12).

Ezequiel é o profeta que descreve em tons mais fortes e vívidas metáforas a apostasia do povo de Deus nesse tempo.

No capítulo 16, ele compara Judá ou Jerusalém a uma mulher impura, devassa, que se prostituiu com as nações pagãs, aderiu à sua aviltante idolatria e sacrificou até mesmo os próprios filhos em honra aos seus deuses, tudo para ser "como as nações, como as outras gerações da terra, servindo às árvores e às pedras" (Ezequiel 20:32).

Em Ezequiel 23, o servo de Deus se refere à Samaria e Jerusalém (respectivamente, as capitais do reino do Norte e do Sul) como duas meretrizes, que, inflamando-se pelos seus amantes - as nações estrangeiras com as quais fizeram alianças ilícitas -, com eles se prostituíram.

Essas expressões e imagens chocantes que descrevem a condição espiritual e moral de Israel e Judá revelam a que ponto pode chegar o professo povo de Deus quando este abandona Seus caminhos e despreza Sua aliança. Os profetas comparam essa infidelidade à prostituição ou adultério.

Vamos refletir um instante sobre isso.

A natureza da primeira promessa divina

O próprio Senhor escolhera Eva como figura da linhagem do povo eleito de Deus, pondo-a em inimizade com a serpente, Satanás, e seus descendentes. Porém não por qualquer virtude que Eva possuísse (e, na verdade, devido à sua queda, não havia nenhuma), mas por causa do "descendente" prometido, o Messias vindouro, Jesus Cristo (Gênesis 3:15; Gálatas 3:16)!

Satanás presumira que, enganando a Adão e Eva, teria então arrastado para sua causa toda humanidade, colocando-a contra Deus. Não contara, porém, com a providência divina em favor do homem, que o colocaria em posição vantajosa. Tudo que ele havia perdido, rendendo-se a Satanás, poderia ser recuperado por meio de Cristo! (1)

A sentença de Deus contra a "antiga serpente" representou para nossos primeiros pais uma preciosa promessa. Ao predizer o dramático conflito entre o homem e Satanás, antecipava ao mesmo tempo o triunfo final do Messias sobre o grande adversário:

Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar. (Gênesis 3:15)

Jamais foi tão claramente evidenciada a inimizade entre Satanás e o Príncipe da vida como quando Cristo Se manifestou entre os homens.

Nunca houve alguém que odiasse mais o pecado como Cristo e que definisse tão perfeitamente a diferença entre a luz e as trevas como Ele o fez. Sua santidade, pureza e imaculada justiça são uma constante reprovação ao mal e ao pecado.

A inimizade, com efeito, devia estender-se a toda a humanidade contra Satanás e seus anjos, e a distinção, entre os que aceitassem as provisões da divina graça e os que as recusassem.

Por isso, ao contrário da reconciliação efetuada por Cristo na cruz, em que a condição de inimizade entre o homem e Deus por causa do pecado do homem é revertida para uma condição de amizade e comunhão plenas (Romanos 5:11; Efésios 2:12-16), a inimizade a que se refere a sentença de Gênesis 3:15 é irreversível.

Não é possível nenhum acordo, nenhuma acomodação entre Cristo e Satanás, entre os legítimos representantes de Jesus e as forças satânicas, visto que a grande controvérsia iniciada no Céu e que envolve o reino de Deus e o reino de Satanás entre os homens decorre dessa inimizade.

A inimizade tem estimulado não só os ataques contínuos ao povo de Deus da parte daqueles que servem aos interesses de Satanás (II Timóteo 3:12-13), mas também e, sobretudo, o conflito íntimo, pessoal, em que o crente se vê em permanente luta com sua disposição natural para o pecado (Romanos 7:18-25; 8:7-8; I Coríntios 9:27).

Em sua decidida inimizade e rebelião contra o Filho de Deus, a "antiga serpente" não pôde tocar-lhe a cabeça. No entanto, ele está determinado a tocar a mente dos seguidores de Jesus, de modo a estimular a inimizade que há no coração humano caído para resistir à salvação proporcionada a um custo imensurável.

Somente o Autor da promessa feita no Éden pode implantar no coração a inimizade contra Satanás e o pecado, despertando na alma a firme convicção de sua própria pecaminosidade e o resoluto propósito de viver segundo a vontade de Deus (Ezequiel 36:26-27)!

A aliança de Deus com Seu povo

A inimizade entre a serpente e a mulher, sentenciada por Deus em virtude do plano divino de redenção, constitui a primeira e mais fundamental linha divisória entre o erro e a verdade, entre os representantes de Satanás e os representantes de Cristo, e da qual são derivadas todas as demais alianças, promessas e condenações do Antigo e do Novo Testamento.

Não é por acaso, portanto, que a exortação mais frequente em toda a Escritura se refira à necessária distinção que deve existir entre os que professam o nome do Senhor e os que O negam.

Isso não é consequência de um mero capricho. É a inimizade a que se refere Deus em Sua promessa no Éden que exige tal distinção ou separação, e que tem existido desde a queda de Satanás.

Ignorá-la ou simplesmente rejeitá-la por meio de qualquer outro acordo ou ajuste estranho ao concerto original que Deus firmou com Sua igreja é considerado por Ele um ato de traição comparável à infidelidade conjugal!

Assim, Deus declarou a respeito de Israel (note as palavras):

Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. (Êxodo 19:5-6)

As expressões "propriedade peculiar" e "reino de sacerdotes" referem-se à santidade do chamado e da missão, isto é, que Israel deveria ser um povo santo (Deuteronômio 7:6; 14:2; 26:18-19) e nação sacerdotal e santa, "ministros de nosso Deus" (Isaías 61:6).

O apóstolo Pedro aplicou os mesmos conceitos à igreja cristã, o novo Israel do Senhor (I Pedro 2:9)!

Portanto, em virtude do concerto divino com os filhos de Israel, Deus advertiu-os expressamente a absterem-se "de fazer aliança com os moradores da terra para onde vais", e "não suceda que, em se prostituindo eles com os deuses e lhes sacrificando, alguém te convide, e comas dos seus sacrifícios" (Êxodo 34:12-16).

O Senhor instruiu os sacerdotes do povo sobre sua conduta, "para fazerdes diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e o limpo" (Levítico 10:10), e recordou-lhes mais tarde sua principal tarefa: "A meu povo ensinarão a distinguir entre o santo e o profano e o farão discernir entre o imundo e o limpo" (Ezequiel 44:23).

No contexto da igreja cristã, repete-se substancialmente o mesmo conceito de distinção ou separação.

O próprio Senhor Jesus advertiu: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro" (Mateus 6:24).

Paulo, o apóstolo dos gentios, declarou: "Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que comunhão, da luz com as trevas? Que harmonia, entre Cristo e o Maligno? Ou que união, do crente com o incrédulo? Que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos?" (II Coríntios 6:14-18).

E, em tom vigoroso, Tiago também escreveu: "Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus" (Tiago 4:4).

Assim como Cristo e o mundo não constituem sociedade, não pode haver da parte de Sua igreja nenhum compromisso com os poderes das trevas, nenhuma amizade ou comunhão (João 17:14-16).

A infidelidade do povo de Deus

E é precisamente esse ponto que devemos absorver em nossa investigação sobre a terrível condição da igreja simbolizada pela prostituta de Apocalipse 17.

Voltemos novamente à história do antigo Israel.

Os profetas de Deus usam a figura da meretriz para acusar a infiel companheira da aliança do Senhor da mais vil e degradante depravação sexual, que consiste na amizade indecorosa que ela mantém com as nações estrangeiras e sua idolatria, resultando nos piores males, como opressão, injustiça e até mesmo o assassinato dos próprios filhos.

Ora vede, a meretriz do tempo do fim é acusada da mesma infidelidade e idolatria e dos mesmos crimes hediondos (Apocalipse 17:1-2, 4, 6), razão por que João recorre à história do Israel apóstata para descrever a condição semelhante da igreja cristã. (2)

Para usar as palavras de Hans K. LaRondelle, assim como a antiga Jerusalém se tornou inimiga de Jeová, a igreja institucional seria infiel a Cristo, apóstata em seu culto de adoração, e sedenta de sangue com todos os que se recusassem prostrar-se perante ela e sua "marca" de adoração.

É possível, contudo, identificar bíblica e historicamente a origem dessa infidelidade e apostasia da igreja cristã, cujas características apresentam notável paralelo com a situação espiritual e moral do antigo Israel?

Certamente que sim, e as descobertas que faremos exigirão de nós a humildade, diligência e coragem demonstradas até aqui no temor de Deus.

Notas e referências

1. Ellen G. White. Educação, p. 27.

2. Em As Profecias do Tempo do Fim, Hans K. LaRondelle faz uma análise bastante instrutiva sobre a maneira como João usa a meretriz de Apocalipse 17 como um antítipo da infidelidade de Israel como povo de Deus. Confira no capítulo XXX - A Sétima Praga: A Retribuição de Babilônia - Apocalipse 17.

[Este artigo foi revisado em 2 de fevereiro de 2021]


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