"Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus." (Ap 14:12)

sábado, 4 de novembro de 2017

"Por que te admiraste?"

As perseguições do paganismo que afligiam a igreja cristã e que o apóstolo João também sofria (Apocalipse 1:9), não eram para ele motivo de admiração. O mundo odeia especialmente aqueles cujos valores e interesses se distinguem dos seus, e cuja vida lhe é uma constante reprovação.

"Se o mundo vos odeia", disse Jesus, "sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia." (João 15:18-19. Ver também 3:19-20).


Sim, o mundo ama os que lhe pertencem. Os verdadeiros discípulos de Jesus não são do mundo, por isso o mundo os odeia. Para o vidente de Patmos, que certamente lembrou-se das palavras do Mestre em sua tribulação, não havia por que admirar-se de que tal coisa sucedesse.

Mas, depois de ter visto em visão anterior uma mulher pura, símbolo da santa igreja de Cristo, tão cruel e obstinadamente perseguida pelo dragão, e sendo-lhe agora revelado que uma igreja nominalmente cristã, simbolizada por uma meretriz e imbuída do mesmo espírito, perseguiria os verdadeiros seguidores de Jesus, isto foi para ele motivo de grande espanto (Apocalipse 17:6).

À admiração de João ante um fato que parecia então improvável, isto é, que uma igreja pudesse perseguir os santos como o dragão havia feito em relação a Cristo e à igreja primitiva (Apocalipse 12:1-6, 9, 13), o anjo, pronto a dar-lhe ainda mais luz a respeito do assunto, respondeu-lhe:

Por que te admiras? Eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a traz, a qual tem sete cabeças e dez chifres. (Apocalipse 17:7, Almeida Corrigida e Revisada Fiel).

Vede que a própria sentença do anjo traz consigo parte da explicação que se segue.

Pois a declaração do anjo - "eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a traz" - indica claramente que o "mistério" não se restringe à identidade da mulher, mas inclui também a da besta! Ambas pertencem ao mesmo mistério, e, portanto, uma não pode ser compreendida sem a outra!

Nós já havíamos advertido o leitor sobre o fato singular de que, na visão (versos 3-6), a atenção de João é voltada quase que exclusivamente à mulher, ao passo que na explicação da visão (versos 7-18) sua atenção é dirigida principalmente à besta. Isto sugere que os dois personagens da profecia devem ser entendidos com base em suas relações, e não isoladamente.

Que uma igreja devesse ser tão distinta do mundo a ponto de despertar-lhe o ódio e oposição é algo manifesto na visão de João em Apocalipse 12. Aqui, a mulher e o dragão de sete cabeças e dez chifres são tão opostos como o céu e a terra.

Em Apocalipse 17, no entanto, a mulher e a besta, que também tem sete cabeças e dez chifres e, portanto, possui caráter semelhante ao do dragão, estão unidas de tal forma, em contraste com o quadro que se apresenta no capítulo 12, que dessa concórdia só poderia resultar o espírito de figadal ódio e perseguição.

Eis por que o profeta, ou qualquer um de nós, não deveria espantar-se diante desse cenário calamitoso.

É coisa tremenda, todavia, que a nau da igreja, unida às ondas que a cercam, mas distintas delas, e operando laboriosamente no mundo pela guia e poder do Espírito Santo, possa, com o tempo, tornar-se indistinguível das forças que lhe são contrárias e, ainda, sem mãos firmes sobre o leme, errar o rumo que deve percorrer.

Quão astuto e sagaz é o inimigo que temos de enfrentar! Seu maior objetivo é afastar a igreja de Deus de maneira que ela esteja próxima o bastante do mundo para contaminar-se por ele, mas suficientemente distante para acreditar que ainda é diferente!

Trata-se de um esquema tão bem arquitetado e ardiloso que está além da capacidade humana de descrição.

Daí a suprema importância da Palavra "viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes" (Hebreus 4:12), sem a qual nos é impossível desvendar os engenhosos estratagemas da iniquidade e a eles resistir pelas armas procedentes dos arsenais do Céu (II Coríntios 10:4-6).

Se a apostasia institucional a que se referiu Paulo em II Tessalonicenses 2:3-4 (e que a João foi permitido, em visão, contemplar o cumprimento) é um fenômeno decorrente da perda do "primeiro amor" (Apocalipse 2:4), podemos inferir então que o diabo empregará todos os expedientes de que dispõe para suprimir da mente dos crentes cristãos esta primeira impressão do Espírito e, assim, neutralizar o poder da igreja.

Não sejamos ingênuos. Satanás tem muitas redes finamente tecidas, bem trabalhadas, insuspeitas e até inocentes na aparência, mas mediante as quais ele é capaz de atrair e enlaçar a igreja, de forma a substituir seu amor a Cristo pelo amor ao mundo.

E uma vez que sejamos cegados por Satanás no que tange à nossa própria condição espiritual, e que os muitos testemunhos e advertências da Palavra de Deus sejam silenciados ou considerados superficialmente, estarão abertas as portas para a frieza, espírito mundano, escuridão espiritual e, finalmente, apostasia.

Se a igreja decididamente ama o mundo e as coisas que no mundo há; se a ele se une, mesmo em nome dos mais nobres e virtuosos ideais, o amor de Deus não encontrará guarida em seu seio.

Dificilmente terá um senso elevado de que faz parte de uma importante e solene obra, e, certamente, rebaixará os sublimes princípios da verdadeira religião, a fim de ajustá-los à sua natureza não santificada e obter o louvor dos descrentes.

Quão grande será, então, a influência funesta que exercerá sobre o mundo, em virtude de seu estado de insensibilidade e cegueira!

Nenhuma igreja que se autodenomine a única e verdadeira igreja de Cristo pode produzir preciosos frutos que testifiquem de sua ligação com o Mestre, se o lugar que pertence unicamente a Ele por direito é ocupado pelos homens.

E o clímax da apostasia é que homens ocupem o lugar de Cristo nas atribuições que Lhe dizem respeito.

Nesta condição, é possível ser religioso, e, contudo, não verdadeiramente cristão; ser sacerdote, mas no altar de um culto degenerado; ter o poder de ligar e desligar, porém não de acordo com o Céu; considerar-se mãe das virtudes, e, no entanto, ser mãe das meretrizes e das abominações.

Completamente cegada pela ambição de assumir o controle das consciências, de ocupar na Terra um lugar que Deus nunca, jamais ordenou, a Igreja apóstata se converteu em agente das trevas e não da luz.

E todas as Igrejas que a ela estão ligadas por laços de tradição ou amizade tornam-se igualmente culpadas perante Deus, à medida que seguem o exemplo de sua mãe, até ao ponto de manifestarem o mesmo espírito contra aqueles que vierem a discernir os sinais dos tempos e separar-se do mundo e das coisas que enganam, seduzem e enredam para a perdição.

A estes, nosso amado Redentor tem estendido Seu último e decisivo apelo:

Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos. (Apocalipse 18:4)

Que possam hoje ouvir a Sua voz e atender ao Seu solene chamado!

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