As pegadas dos jesuítas – 21. A Igreja suprema

Em todas as cartas encíclicas emitidas por Leão XIII, ele demonstrou uma inquietação que pode, com justiça, ser atribuída ao desconforto de constatar que as dificuldades para restaurar o poder temporal aumentam, em vez de diminuir. Isso não surpreende de modo algum, visto que todas as suas faculdades mentais estão absortas na contemplação dos meios para produzir tal resultado, não sendo sua influência pontifícia necessária para impor o reconhecimento de qualquer outro princípio de fé. Ele é inteligente demais para não perceber que existe uma forte tendência entre os leigos da Igreja em direção ao "catolicismo liberal" – especialmente entre aqueles que desfrutam das vantagens de um governo livre e popular, como os dos Estados Unidos – e que, se essa tendência não for contida por alguma repreensão oficial, a era atual poderá destruir qualquer esperança de reconverter o papa em um rei coroado, deixando-o para sempre, doravante, na posse apenas do poder espiritual.

Incapaz de persuadir-se de que isso deva ser aceito, ele persiste firmemente em tentar trazer todos os povos e nações para o círculo de sua jurisdição pontifícia no que concerne a questões envolvendo fé, moral e disciplina  conforme ele as defina. Assim, nós o encontramos frequentemente anunciando os princípios pelos quais todos os católicos ao redor do mundo devem ser governados em suas relações com as instituições civis. E, a fim de mostrar que não está disposto a reduzir nenhuma de suas próprias reivindicações à realeza oficial, ele invariavelmente assume a atitude de um guardião universal e, consequentemente, emprega a linguagem da autoridade. Ele, manifestamente, continua a falar agora com o mesmo espírito que outrora o levou a afirmar "que a falsa sabedoria ou filosofia que os últimos três séculos seguiram deve ser deixada de lado, e a sabedoria e filosofia cristãs tornadas a luz da educação... A religião, o cristianismo, o catolicismo, devem agora vir com a lâmpada constante e infalível de sua filosofia divina, libertar a ordem social de seu perigo mortal e conduzi-la de volta aos velhos caminhos". [1]

Para ele, o remédio é evidentemente claro e simples – apenas isto, e nada mais – que o mundo moderno retorne "à obediência à Igreja" pela "aceitação dócil dos ensinamentos da única autoridade divinamente designada na terra" – que é agora ele mesmo e, depois dele, serão seus sucessores. Que estranha obsessão deve ser, para alguém tão indubitavelmente esclarecido como Leão XIII, supor que ele pode exercer o cetro de sua autoridade espiritual sobre as nações a ponto de levá-las a "deixar de lado" seu progresso e prosperidade atuais e serem conduzidas "de volta aos velhos caminhos!".

Ele não perde oportunidade de renovar sua reivindicação de autoridade espiritual sobre "a vida, a moral e as instituições das nações"  isto é, sobre suas constituições e leis  a ponto de exigir que se conformem aos "preceitos da sabedoria cristã", conforme promulgados do trono papal. Ele reconhece como tendo direito à existência permanente apenas as nações que agem assim; as que não o fazem, exercem apenas um poder ilegítimo obtido por usurpação. "Deixar de lado" estas últimas  especialmente quando desprezam a "sabedoria e filosofia cristãs" a ponto de separar a Igreja do Estado  ele evidentemente considera um dever, incumbido não apenas a si mesmo, mas a todos os que aceitam seus ensinamentos como infalivelmente verdadeiros.

Para impor essa obrigação, portanto, de fazer do papa, e não do povo, a fonte soberana do poder civil em tudo o que pertence à fé  tal como a restauração do poder temporal o faz  ele sustenta a proposição de que a lealdade à Igreja é o primeiro dever dos católicos em toda parte e, depois disso, lealdade ao Estado; ou seja, não estão obrigados a obedecer a qualquer lei de um Estado que exija que façam algo prejudicial à Igreja. Consequentemente, seus ensinamentos pontifícios concentram-se nisto: que quando ele declarar oficialmente que qualquer lei de um Estado conflita com a lei divina, o dever primário dos católicos é obedecê-lo, embora, ao fazê-lo, violem a lei do Estado. E, para garantir isso, ele exige que obedeçam aos seus bispos, e que os bispos obedeçam a ele.

Embora reconheça o direito dos Estados de regular assuntos meramente seculares que dizem respeito aos interesses comuns e ordinários da sociedade, a autoridade espiritual que Leão XIII reivindica sobre eles é suficiente para permitir-lhe interferir e regular, a seu próprio critério, as matérias que estão dentro de sua jurisdição espiritual, conforme ele a defina, porque "a Igreja é a senhora de todas as nações". Desta soberania – que ultrapassa as fronteiras geográficas das nações, como se nenhuma existisse – ele deriva o direito da Igreja de "interessar-se pelas leis formuladas no Estado"; ou seja, de interferir em questões políticas que envolvam os interesses da Igreja. E essa interferência é justificada com base não apenas na promoção do bem-estar do Estado, mas porque, na ausência dela, os Estados às vezes transcendem seus justos poderes ao invadir os direitos da Igreja – como o fazem ao separar a Igreja do Estado e prescrever uma esfera independente para cada um. Esta última ofensa é, para ele, imperdoável, porque aqueles que a cometem – como o povo dos Estados Unidos – "dilaceram a política civil e a sagrada, unidas que estão em sua própria essência".

Essas doutrinas religiosas não são apenas os pronunciamentos oficiais de Leão XIII. São inerentes tanto ao sistema papal quanto ao jesuítico, nenhum dos quais pode existir sem elas. A teoria jesuíta é que nenhum direito legítimo pode ser adquirido sob qualquer constituição ou lei que viole a lei divina conforme o papa a interprete; e que a violação de tal constituição ou lei não é traição nem rebelião, porque, sendo nulas e sem efeito, não podem impor nenhuma obrigação justa de obediência. A declaração autoritária dessas doutrinas agora, e a exigência de obediência a elas, constituem um fato grave e sério, que deveria prender a atenção universal.

Por razões óbvias, elas exigem essa atenção do povo dos Estados Unidos mais do que de quaisquer outros povos, porque a liberdade e a tolerância do nosso governo permitem a sua promulgação, não obstante a sua tendência manifesta e direta de encorajar conspirações traidoras contra as nossas instituições populares. Olhando apenas para o nosso tempo – os pontificados de Pio IX e Leão XIII, para não mencionar papas como Gregório VII, Inocêncio III e Bonifácio VIII – encontramos a política papal bem definida de condenar como violadores da lei divina estes princípios fundamentais de nossas instituições: a separação entre Igreja e Estado; a liberdade de consciência e de crença religiosa; a liberdade de expressão e de imprensa; a sujeição dos eclesiásticos à obediência às leis como os outros cidadãos; o povo como depositário exclusivo do poder político; a recusa em conceder ao papa o poder potencial de conferir aos bispos e ao clero a prerrogativa de administrar a propriedade da igreja em contravenção às leis; e por último, mas longe de ser o menos importante, nosso sistema de escolas públicas como prevalece em toda parte do país.

Um homem, portanto, deve ser estúpido se não puder, e obstinado se não quiser ver que, de acordo com as doutrinas religiosas anunciadas por Pio IX e Leão XIII – omitindo outros papas – todos esses grandes princípios fundamentais do nosso governo e todas as leis promulgadas para preservá-los são tidos como ímpios e tão violadores da lei divina que podem ser legitimamente resistidos sempre que o papa achar conveniente assim ordenar. Que questão de maior magnitude e importância poderia comandar a atenção tanto dos cidadãos protestantes quanto dos católicos dos Estados Unidos? É um golpe direto desferido por um poder estrangeiro e alheio à própria fundação de nossas instituições civis.

Se isso foi incitado pela indiferença dos protestantes, eles, sendo informados disso, estão obrigados pelo dever de patriotismo a repreendê-lo. Se o papa agiu apenas com base na teoria jesuíta de que os leigos da Igreja são apenas animais, aptos apenas para a obediência passiva aos seus superiores, os quais presumem ser seus senhores, eles provarão ser indignos da cidadania americana se não afirmarem sua hombridade o suficiente para ensinar ao papa que seria uma ofensa maior contra a justiça divina conspirar contra um governo que juraram apoiar e defender, do que desobedecer a alguém de cuja cabeça seus próprios irmãos religiosos arrancaram uma coroa temporal e que agora está procurando incitá-los a uma guerra contra esses mesmos irmãos, a fim de que sua coroa perdida possa ser restaurada.

Aqueles que pedem isso, e todos os seus ajudantes e cúmplices, foram indubitavelmente encorajados pelo conhecimento da tolerância americana e protestante, bem como pelo desejo de reduzir nossa população católica à condição humilhante de professar lealdade ao governo, enquanto, ao mesmo tempo, nutrem a esperança de sua derrocada final por alguma providência misteriosa ainda não revelada. Para indicar o fundamento em que essa esperança pode repousar, o país é de tempos em tempos lembrado do número estimado de católicos que contém – variando de 8.000.000 a 12.000.000 – como se todos estes pudessem ser legitimamente contados do lado papal em uma guerra contra os princípios mais queridos do governo, tal como os escravos das plantações eram antigamente contados antes de serem postos a trabalhar nos campos.

Resta saber até que ponto estão destinados à desilusão. Mas acredita-se com confiança  com uma certeza, de fato, que excede a crença  que eles foram induzidos ao erro pela esperança falsa e ilusória de converter a multidão de católicos neste país em meras máquinas irrefletidas, sujeitas, como se fossem todos jesuítas, à obediência passiva e inquestionável a uma autoridade estrangeira que assume o direito espiritual e a prerrogativa de voltar "aos velhos caminhos" todas as nações modernas progressistas, como se Deus tivesse delegado somente à ela este poder extraordinário e plenário sobre os interesses e a felicidade de toda a família humana.

Enquanto esperamos pacientemente o que o futuro revelará com referência a essas questões, os protestantes dos Estados Unidos não podem ser dispensados da obrigação de se prepararem para qualquer exigência que o futuro apresente. Cada via de acesso à cidadela que até agora protegeu seus direitos constitucionais e populares deve ser cuidadosamente guardada. Eles não devem ser indiferentes aos métodos lentos e insidiosos de aproximação contra essa cidadela que a engenhosidade jesuíta planejou e ainda está planejando. Tampouco o olhar popular deve desviar-se muito de Leão XIII; pois se ele também não tem nenhum objetivo sinistro em vista com relação aos nossos estimados princípios nacionais, por que, "em nome de todos os deuses", ele não deixa os Estados Unidos e as outras nações modernas conduzirem seus próprios assuntos sem sua perpétua interferência? Por que ele e seus representantes eclesiásticos trovejam tão incessantemente em nossos ouvidos as terríveis penalidades que nos aguardam pela infidelidade do protestantismo, pela separação entre Igreja e Estado, pela tolerância às diversidades de crença religiosa e pelas nossas escolas públicas "sem Deus"?

Não requer muita inteligência para ver que somente os jesuítas – e não a Igreja – ganhariam se os princípios e a política de Leão XIII se estabelecessem. Eles veriam em tal resultado motivo de regozijo em virtude do trabalho de sua sociedade ter sido tão bem feito quando a mente jovem e plástica de Joachim Pecci teve suas doutrinas tão indelevelmente estampadas nela que agora, tendo se tornado papa em sua velhice, ele parece manter-se vivo pela esperança estimulante de empregá-las com sucesso para deter o progresso moderno e a civilização e fazer as nações voltarem "aos velhos caminhos".

Os jesuítas já exibem sinais de exultação, decorrentes, evidentemente, da crença de que o favor e o patrocínio pontifícios que receberam fizeram o mundo esquecer sua história; sobre como foram diligentes em lançar descrédito sobre a Igreja por sua conduta na Índia, China, Paraguai e em outros lugares; como desobedeceram aos comandos peremptórios de alguns papas e se esforçaram para degradar e humilhar outros; como foram compelidos à obediência apenas pelos métodos mais severos de repreensão; como foram expulsos de todos os países católicos da Europa e de Roma por Pio IX, durante os últimos anos de seu pontificado; como foram suprimidos e abolidos por um dos melhores papas por crimes que não podiam ser perdoados; como abusaram e vilipendiaram seu nome e memória para justificar sua recusa em obedecer aos comandos autoritários da Igreja; e como seu renascimento foi desculpado apenas com base no fundamento de que eram mais aptos do que qualquer outro corpo de homens no mundo, por hábito, educação e treinamento, para se tornarem guerreiros na causa do absolutismo político.

Mas uma causa ainda mais lisonjeira de satisfação jesuítica encontra-se, sem dúvida, no fato de que Leão XIII – fiel às suas primeiras impressões – atribuiu aos membros dessa sociedade o dever especial de se tornarem os educadores da juventude, e os está enviando a todos os países do mundo, especialmente àqueles onde o protestantismo prevalece, para esse propósito particular, bem instruídos, de antemão, na obrigação de manter tal sistema de educação como ele estabeleceu em Perúgia, para que toda mente seduzida por sua influência possa ser levada à crença religiosa de que Igreja e Estado devem ser tão unidos que o Estado seja subordinado à Igreja; que existe apenas uma forma de religião verdadeira no mundo, e tudo o mais é heresia; e que nenhum governo pode ter a aprovação divina se não reconhecer o papa como portador do poder soberano para ditar sua política na medida em que todas as questões concernentes à fé, moral e disciplina estejam envolvidas.

Evidências desse propósito firme estão constantemente nos assediando. Dificilmente passa um dia sem algum novo ataque ao nosso sistema de escolas públicas – um método de educação que tem a aprovação popular em um grau muito maior do que qualquer outra parte de nossa política pública. Estas são chamadas de escolas "sem Deus" porque não lhes é permitido por lei ensinar que a religião católica é absolutamente verdadeira e todas as outras formas de crença religiosa são falsas e heréticas. Alega-se que são viveiros de vício e imoralidade e que enviam jovens homens e mulheres ao mundo para propagar o erro e a libertinagem e espalhar a semente da decadência moral e social. De tempos em tempos, algum padre fanático – incapaz de manter suas paixões dentro de limites razoáveis – ameaça os membros de sua congregação com a excomunhão por enviarem seus filhos às escolas públicas e permitirem que sejam contaminados por falsos ensinamentos e pela associação com crianças protestantes.

O povo americano, consequentemente, é obrigado a decidir se seu sistema de escolas públicas deve viver ou morrer, se o competente e distinto corpo de professores americanos deve ser expulso e as portas de nossas escolas serem escancaradas aos jesuítas. Por que a parte protestante de nossa população deveria permanecer indiferente quando esses insultos são tão impudentemente lançados em seus rostos? Eles julgaram sábio e melhor para si mesmos, e por gentil deferência aos seus agressores, proibir o ensino de qualquer sistema de crença religiosa em suas escolas públicas, ou a cobrança de qualquer imposto para esse objetivo; e, para que Igreja e Estado permaneçam perpetuamente separados, previram essa proibição por meio de disposições constitucionais – tanto nacionais quanto estaduais. Para o jesuíta, portanto, tudo isso é "sem Deus", e o governo é "sem Deus" por separar Igreja e Estado, e o povo protestante é "sem Deus", caminhando rapidamente para a ruína inevitável nesta vida e para punições terríveis no além!.

Deve chegar um momento em que essa controvérsia, forçada ao povo contra a sua vontade, cessará. Nossas escolas públicas são projetadas para formar e educar cidadãos americanos – aqueles que perpetuarão nossas instituições quando as gerações existentes tiverem passado – e não é de se admirar especialmente que aqueles que não alcançam a medida completa da cidadania americana, e desejam que outros também não o façam, estejam procurando destruí-las. Não obstante estarem totalmente protegidos no direito de manter e conduzir suas próprias escolas privadas à sua própria maneira, sem a menor interferência de qualquer parte, eles presumivelmente, se não insolentemente, inauguraram uma guerra implacável contra todo o nosso sistema de educação pública, porque nossas escolas comuns são viveiros de patriotismo e mantêm viva na mente de nossas crianças a obrigação de obediência à constituição e ao governo como eles são.

Se o sistema que tanto prezamos fosse enfraquecido materialmente por essa guerra maligna, seria justa causa de sério alarme. Mas tudo o que ocorre cria uma crença contrária, dando a segurança de que ele continua a disseminar influências que atingem rapidamente os lugares mais remotos e obscuros do país, fazendo o coração popular regozijar-se com as vitórias que já conquistou sobre a ignorância e o vício e manifestando que possui poder estabelecido suficiente para garantir crescimento contínuo e triunfo completo. No entanto, é bom e importante para todos nós saber que atitude Leão XIII ocupa em relação às nossas escolas públicas e que tipo de educação ele propõe estabelecer aqui em preferência àquela que temos prezado tão grandemente.

Desta forma, ver-se-á claramente que seu primeiro e maior objetivo é o extermínio do protestantismo, retirando daqueles que lhe obedecem implicitamente o poder de se tornarem cidadãos americanos no sentido e significado da Constituição dos Estados Unidos. Ele nada sabe sobre a natureza desta cidadania ou das obrigações que ela impõe. Como estrangeiro e alheio, ignorante de nossa língua, Constituição e necessidades, seu objetivo principal é criar aqui um partido político-religioso, mantido em unidade pelo desejo de restaurar-lhe a coroa perdida como um dever religioso, para que, quando tiver sucesso nisso, possa trazer-nos a todos para dentro de sua jurisdição espiritual e lidar conosco de acordo. Cumprido isso, a história do papado por mais de mil anos prova que o próximo passo seria tratar nossa nacionalidade como uma ficção e nossas fronteiras como meramente imaginárias, de modo que, em vez de nossa independência atual, seríamos reduzidos a um departamento inferior e submisso em um vasto e universal "Sacro Império", com sua coroa repousando sobre sua própria cabeça e, depois dele, sobre as cabeças de seus sucessores.

Não faz muito tempo, Leão XIII enviou aos Estados Unidos um representante oficial na pessoa do Monsenhor Satolli, nominalmente Arcebispo de Lepanto, na Grécia. Ele é chamado de "delegado", mas, em vista do fato de que representa plenamente o papa, como seu outro eu, e que seus poderes são tão completos e plenos que nenhum recurso pode ser interposto contra suas decisões, é mais apropriado chamá-lo de vice-papa. Diz-se que ele é um homem culto e discreto, e é indubitavelmente verdade que merece todos os elogios que lhe são conferidos. Ele não estava, contudo, há muito tempo neste país antes de descobrir que havia divisões de sentimento entre os católicos com referência às nossas escolas públicas, alguns enviando seus filhos a elas, não obstante as instruções de seus padres para não o fazerem, e outros recusando porque as consideravam "sem Deus"; isto é, infiéis. Isso devolveu a ele o dever e a necessidade de decidir uma questão que até então havia confundido as mentes mais engenhosas – uma questão dificultada ainda mais pelo fato de que envolvia a aprovação ou desaprovação de medidas de política pública bem estabelecidas e populares. Sua decisão merece consideração e deve ser examinada de perto, visto que se reivindica para ela ser a solução final de um grande e intrigante problema. A declaração que se segue é extraída substancialmente daquela feita pelo próprio Monsenhor Satolli aos arcebispos em uma reunião realizada por eles em Nova York.

Ele reivindica para "a Igreja Católica" tanto "o dever e o direito divino" de ensinar religião a "todas as nações" quanto de "instruir os jovens"; ou seja, "ela detém para si o direito de ensinar as verdades da fé e a lei moral a fim de criar a juventude nos hábitos da vida cristã". No entanto, "não há repugnância em que aprendam os primeiros elementos e os ramos superiores das artes e ciências naturais em escolas públicas controladas pelo Estado", que os protege em suas pessoas e propriedades. "Mas", ele continua, "a Igreja Católica recua diante daquelas características das escolas públicas que são opostas à verdade do Cristianismo e à moralidade"; razão pela qual ele insiste que todo esforço deve ser feito, tanto pelos bispos quanto por outros, para remover essas "características censuráveis". E ele recomenda que os bispos e as autoridades civis concordem "em conduzir as escolas com atenção mútua e a devida consideração pelos seus respectivos direitos"; isto é, que as escolas fiquem sob seu controle conjunto, de modo que os professores "para os ramos seculares" sejam "inibidos de ofender a religião e a moralidade católicas", e à Igreja seja permitido derramar sua "luz" "ensinando às crianças o catecismo, a fim de remover o perigo para sua fé e moral de qualquer parte que seja".

Isso foi astuto, mas não satisfatório. Embora se entendesse que as decisões do Monsenhor Satolli seriam finais, isso criou tal descontentamento que se achou necessário submeter o assunto ao papa, contra cuja opinião, quando oficialmente promulgada, não poderia haver protesto. Leão XIII deliberou sobre o assunto por algum tempo e recebeu dos prelados americanos argumentos de ambos os lados. Ele, no entanto, chegou a uma conclusão que comunicou ao Cardeal Gibbons em uma encíclica datada de 31 de maio de 1893, que constitui um dos mais recentes pronunciamentos papais. Além de suas numerosas considerações, algumas das quais não incidem diretamente sobre o assunto, ele aprova distintamente a decisão do Monsenhor Satolli, porque esta havia sido aprovada e recomendada a ele pelos arcebispos em sua reunião em Nova York. Ele expressa grande admiração pelo povo dos Estados Unidos – especialmente a parte católica – e diz que enviou o Monsenhor Satolli aqui para que sua "presença pudesse tornar-se, por assim dizer, perpétua entre os fiéis pelo estabelecimento permanente de uma delegação apostólica em Washington". Provavelmente considera isso uma medida de precaução; pois, como o Monsenhor Satolli não pode ter relações oficiais com nosso governo – sendo a Itália representada por um ministro nomeado pelo rei – ele pode permanecer como um "estabelecimento permanente" na Capital da nação, para que possa não apenas observar o curso dos eventos, mas estar pronto para se tornar um ministro plenipotenciário apostólico sempre que, com a ajuda dos fiéis fora da Itália, for capaz de arrancar a coroa da cabeça sobre a qual o povo italiano a colocou, e colocá-la na sua própria!

A aprovação da decisão do Monsenhor Satolli, no entanto, tem esta importante condição anexada a ela por Leão XIII: "Que as escolas católicas devem ser promovidas com a maior diligência, e que deve ser deixado ao julgamento e consciência do ordinário decidir, de acordo com as circunstâncias, quando é lícito e quando é ilícito frequentar escolas públicas". Esta é uma condição muito significativa. Em primeiro lugar, retira dos pais o direito de dirigir a educação de seus filhos e o coloca nas mãos do ordinário, que representa oficialmente o poder papal. Em segundo lugar, deixa a condenação e censura papais ainda repousando sobre nosso sistema de escolas públicas, e apenas a remove, aqui e ali, de escolas locais e particulares que os ordinários da Igreja acharem aceitáveis. E, em terceiro lugar, é uma afirmação positiva e incondicional do que multidões de padres disseram que nossas escolas são "sem Deus", e que, para neutralizar suas influências irreligiosas, "as escolas católicas devem ser promovidas com a maior diligência".

Mas há outra condição anexada por Leão XIII que é igualmente significativa àquela recém-nomeada. É devido a ele que isso seja declarado em suas próprias palavras: "Como já declaramos em nossa carta de 23 de maio do ano passado aos nossos veneráveis irmãos, o arcebispo e bispo da província de Nova York, assim declaramos novamente, tanto quanto necessário, que os decretos que os Concílios de Baltimore, de acordo com as instruções da Santa Sé, promulgaram concernentes às escolas paroquiais, e tudo o mais que foi prescrito pelos pontífices romanos, seja diretamente ou por meio das sagradas congregações, concernente ao mesmo assunto, devem ser observados firmemente".

Quaisquer que sejam os poderes que o papa tenha pretendido conferir ao Monsenhor Satolli – fossem os de um vice-papa ou de um mero legado – é certo que ele não pretendia diminuir os seus próprios. Estes são plenos e, portanto, suas decisões pontifícias são absolutamente vinculantes, porque ele é infalível!. A fim de, portanto, determinar doravante a relação dos católicos dos Estados Unidos com o nosso sistema de escolas públicas, somos obrigados a olhar para a decisão do Monsenhor Satolli tal como qualificada pelas condições anexadas a ela por Leão XIII.

Tomando o todo em conjunto, resume-se a isto: Que Deus designou especialmente a Igreja Católica como educadora da juventude; que onde outro sistema de educação é estabelecido contra aquele prescrito pela Igreja, é necessariamente pecaminoso e herético, e pode ser legitimamente derrubado e destruído; que o sistema de educação da Igreja exige que os alunos aprendam religião e, primeiramente e sempre, que não há outra religião verdadeira além daquela que a Igreja Católica ensina; que, não obstante isso, uma criança católica pode, por uma questão de necessidade ou conveniência, ser enviada às escolas públicas dos Estados, apenas para aprender "os primeiros elementos", leitura, escrita e cálculo, e "os ramos superiores das artes e ciências naturais", matemática, química, engenharia, etc.; que a Igreja Católica recua diante da ideia de que os ramos intermediários devam ser ensinados às crianças, por medo de que descubram que as nações protestantes são mais prósperas e felizes do que as católicas; que quando crianças católicas são enviadas às escolas públicas, esforços devem ser feitos para obter a nomeação de professores católicos para instruí-las em suas obrigações e deveres religiosos e, especialmente, no sentido de que o protestantismo é heresia e as diversidades de crença religiosa ofensivas a Deus e, consequentemente, têm sua maldição sobre eles; que as "características censuráveis" do nosso sistema escolar devem ser removidas por conspirações dentro das escolas necessárias para esse fim, de modo que, em vez de serem livres, sejam transformadas em escolas da Igreja; que, enquanto as crianças não aprenderem o "catecismo", permanecerão "sem Deus" e heréticas; e que se em qualquer uma das escolas for ensinado às crianças que o Estado deve continuar separado da Igreja, ou que diferenças de crença religiosa devem ser toleradas, ou que nossas instituições protestantes devem ser preservadas como são – todas ou qualquer uma dessas coisas devem ser consideradas como "ofensivas à religião e à moralidade católicas".

Até aqui, Monsenhor Satolli; mas o papa acrescenta a injunção peremptória de que as escolas católicas devem ser "promovidas com a maior diligência"; isto é, devem ser erguidas em rivalidade ao nosso sistema de escolas públicas, para que o antídoto possa desenraizar o veneno; que o ordinário, e não os pais, decidirá quais crianças terão permissão para entrar nas escolas; e que, ao interpretar a decisão do Monsenhor Satolli, isso deve ser feito de acordo com os decretos dos Concílios de Baltimore e as regras "prescritas pelos pontífices romanos".

Isso não resolve nada e deixa toda a questão ambígua. É jesuítico, porque "nos engana com um sentido duplo", mantendo "a palavra de promessa ao nosso ouvido", enquanto a quebra "para a nossa esperança". Ao se referirem aos Concílios de Baltimore como seu guia, os fiéis se veem instruídos a não omitir nada ao seu alcance para derrubar as escolas públicas e construir escolas da Igreja em seus lugares, pela razão de que as primeiras são irreligiosas e somente as últimas têm a aprovação divina. E descobrem também que são instruídos pelo segundo Concílio de Baltimore que seus filhos devem aprender, como parte essencial de sua religião, que o Estado não é independente da Igreja e que "todo poder vem de Deus", de modo que tudo o que o Estado prescreve que não seja obediente à lei de Deus não é vinculante para o cidadão, e que o católico tem tal "guia na Igreja"; que, se o Estado exigir algo que a Igreja proíbe, ele deve obedecer a esta, e não àquele. [2] Mas, independentemente disso, o papa ordena que esses mesmos fiéis interpretem a decisão do Monsenhor Satolli à luz de "tudo o mais que foi prescrito pelos pontífices romanos".

Isso é indefinido. Houve mais de duzentos e cinquenta papas. Muitos deles foram bons, alguns maus, mas estes últimos não perdem nada de sua autoridade eclesiástica infalível por serem maus. A quem, entre todos estes, o inquiridor deve deferir, quando investiga o que ordenaram com referência à educação?. Muitos deles afirmaram, ex cathedra, que o direito exclusivo de educar a juventude foi conferido divinamente à Igreja Católica, e Leão XIII, em sua recente carta ao Cardeal americano, faz essa afirmação inequivocamente. Não se acredita que qualquer papa jamais tenha afirmado o contrário. Portanto, essa qualificação geral e abrangente da decisão do Monsenhor Satolli ou destrói seu efeito absolutamente ou a deixa sujeita a regras incertas de interpretação. Assim vista, deixa a questão escolar exatamente como estava antes da vinda do Monsenhor Satolli a este país.

Mas o próprio Monsenhor Satolli prevê dois sistemas escolares, que, como ele os vê, são rivais entre si, porque ele, assim como Leão XIII, considera a Igreja Católica como tendo recebido divinamente o direito de educar e formar a juventude. Mas Leão XIII dá mais destaque a essa ideia quando ordena "que as escolas católicas devem ser promovidas com a maior diligência". Tudo isso, portanto, resume-se a isto: que onde quer que haja um católico que não possa evitar, ele pode enviar seus filhos às escolas públicas com o único propósito de que lhes sejam ensinados "os primeiros elementos e os ramos superiores das artes e ciências naturais"; mas em todos os departamentos intermediários da educação, eles devem estar sob o encargo exclusivo daqueles designados pela Igreja como seus instrutores na religião. Daí, não apenas haverá uma rivalidade contínua entre as escolas, mas também entre os sistemas.

Nas escolas públicas, os alunos aprendem que nossa forma popular de governo foi concebida para promover e preservar o bem-estar geral; que nossos pais agiram com sabedoria e acerto quando separaram o Estado da Igreja; que as leis que exigem conformidade universal a qualquer forma particular de fé religiosa são não apenas imprudentes, mas violadoras do direito natural; que os povos que se governam por leis de sua própria criação são mais felizes e prósperos do que aqueles que se permitem ser governados por monarcas e príncipes; e que a regulação dos assuntos públicos por governos constitucionais é melhor para a sociedade do que quando são regulados pela vontade de um único homem.

Nas escolas papais – talvez a um passo das escolas públicas – os alunos aprendem que cada uma dessas proposições é herética, e que tanto aqueles que ensinam quanto aqueles que as aceitam como verdadeiras estão sob condenação Divina. Nas escolas públicas, o professor reforça o que diz com o exemplo dos Estados Unidos, dá instrução sobre nossa história Revolucionária, explica as disposições de nossas constituições nacionais e estaduais que fazem do povo a única fonte da lei pública, e estimula o patriotismo de seus alunos instando-os sobre a necessidade de perpetuar nossas instituições em sua forma atual para o benefício de sua posteridade.

Nas escolas papais, o professor é obrigado, quando denuncia todas essas disposições de nossas instituições como heresia, a reforçar o que diz instruindo seus alunos que inumeráveis papas infalíveis assim declararam, e que ofenderão a Deus se não aceitarem o que anunciaram como absolutamente verdadeiro; e para que não sejam suspeitos de erro por seus jovens alunos, não precisam ir além de Pio IX e seu "Sílabo" de 1864, onde, após apontar setenta e nove erros modernos que condenou – incluindo "escolas públicas" onde o ensino é "liberto de toda autoridade eclesiástica" – ele acrescenta ainda outro ao declarar que é impossível que "o pontífice romano possa e deva reconciliar-se e concordar com o progresso, o liberalismo e a civilização como introduzidos recentemente".

Ou, se for considerado necessário ir além de Pio IX, ele precisa apenas se referir à célebre encíclica de seu predecessor imediato, Gregório XVI, emitida em 15 de julho de 1832, na qual declarou que aqueles que sustentavam que Deus poderia ser corretamente servido por homens de diferentes fés religiosas, "perecerão eternamente sem qualquer dúvida", se não se arrependerem e "se mantiverem na fé católica"; que é "falso e absurdo" pretender "que a liberdade de consciência deva ser estabelecida e garantida a cada homem"; que "a liberdade de imprensa" é "a liberdade mais fatal, uma liberdade execrável, pela qual nunca poderá haver horror suficiente"; que escritos que são "destrutivos da fidelidade e submissão devidas aos príncipes" devem ser condenados, porque acendem "os tições da sedição"; que "os direitos divinos e humanos então se levantam em condenação contra aqueles que, pelas mais negras maquinações de revolta e sedição, estão determinados a destruir a fidelidade devida aos príncipes e derrubá-los de seus tronos"; que a "submissão constante aos príncipes" necessariamente tem sua fonte "nos princípios mais sagrados da religião cristã"; que são criminosos aos olhos de Deus aqueles que "exigem a separação entre Igreja e Estado e a ruptura da concórdia entre o sacerdócio e o império", isto é, o Estado; e que a união entre Igreja e Estado é temida e combatida pelos defensores da liberdade, porque "sempre foi tão salutar e tão feliz para a Igreja e o Estado". [3]

Se, no entanto, os alunos nessas escolas papais indicarem a suspeita de que essas proclamações oficiais de doutrina por Pio IX e Leão XIII não tiveram a sanção de papas anteriores, seus professores, especialmente se forem jesuítas, terão prazer em instruí-los que esses dois últimos papas, no fim da lista, estão seguindo estritamente os passos de alguns dos mais conspícuos de seus antecessores. E então discorrerão eloquentemente sobre os magníficos pontificados de Gregório VII, Alexandre III, Inocêncio III, Bonifácio VIII e outros igualmente ambiciosos, mas de menor força de vontade. Será fácil explicar a história desses grandes papas e os princípios político-religiosos que eles conseguiram incorporar aos dogmas da Igreja. Eles instruirão como Gregório VII arrancou coroas das cabeças de reis desobedientes, liberou seus súditos da lealdade que lhes era devida e os substituiu por reis obedientes; como ele reivindicou o direito, como papa, de dispor de reinos, porque "o espiritual está acima do poder temporal" a tal ponto que todas as pessoas "devem assassinar seus príncipes, pais e filhos se ele ordenar"; e como fez monarcas, príncipes e povos tremerem diante dele, como se ele, apenas por virtude de seu poder pontifício, fosse mestre do mundo. E mostrarão como Alexandre III libertou o povo alemão de sua lealdade a Frederico Barbarossa e obrigou aquele orgulhoso imperador a beijar seu pé, conduzir seu cavalo pela rédea e submeter-se a ter o calcanhar papal plantado em seu pescoço; e como Inocêncio III declarou, por solene decreto pontifício, que a Magna Carta inglesa era nula e sem efeito, porque lançava a fundação da liberdade popular, e excomungou todos os que estavam envolvidos na obra patriótico de obtê-la; e como Bonifácio VIII decretou, em sua bula "Clericis laicos", que governos leigos "não têm poder sobre as pessoas ou a propriedade dos eclesiásticos", e que aqueles que impuserem dízimos, impostos e encargos sobre eles, sem a autoridade do papa, "incorrerão em excomunhão"; e como ele também decretou, por sua bula "Unam Sanctam", que a Igreja – isto é, o papa – segura em suas mãos tanto a espada espiritual quanto a temporal, com o poder de compelir a última a ser usada para e no interesse da primeira; que a espada temporal está, portanto, "sujeita ao poder espiritual", e que é "um artigo de fé necessária" que "todo ser humano deva estar sujeito ao pontífice romano".

Não é preciso muita inteligência para perceber a diferença entre esses dois sistemas de educação – um expandindo, o outro atrofiando o intelecto. Se, no entanto, cada um desenvolvesse o intelecto da mesma forma, as escolas públicas teriam direito à preferência pela razão de que instilam nas mentes dos alunos os grandes princípios fundamentais sobre os quais nosso governo está alicerçado; enquanto aqueles que frequentam as escolas papais são instruídos de que os mais essenciais desses princípios são a fonte frutífera de heresias e, consequentemente, de males para a família humana. Os dois sistemas, portanto, permanecem em conflito – tal como estiveram até agora – e a maior questão que a geração atual é chamada a decidir é: Qual triunfará?

Para aqueles de nós que desejam manter nossa forma popular de governo, essa questão não envolve fé religiosa. Mas para os defensores do papado e seguidores do papa, envolve. E, consequentemente, aqueles que estão dispostos a formar um partido político-religioso, comprometido em restaurar o poder temporal ao papa, mesmo com o possível risco de uma guerra com a Itália e alianças comprometedoras com outras potências europeias, têm a promessa de uma coroa de glória eterna; enquanto aqueles que buscam manter nossas instituições como nossos pais as moldaram são anatematizados pelo pecado de rebelião contra a autoridade papal.

Notas

1. Life of Leo XIII. Por O'Reilly. Páginas 482-483.

2. A carta pastoral deste Concílio pode ser encontrada na Appleton's Annual Cyclopedia de 1866, p. 677. Seu significado é claro – que a Igreja é superior ao Estado, e deve ser obedecida pelo Estado, em todas as questões que a Igreja considere dentro de sua jurisdição.

3. The Lives and Times of the Roman Pontiffs. Por De Montor. Vol. II, pp. 783-793, onde esta encíclica é apresentada na íntegra. Esta obra tem a aprovação especial do Arcebispo de Nova York.


Capítulo 22

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