O povo americano absorveu, por associação, o espírito de suas instituições civis e está pronto a repelir qualquer ataque direto contra elas a qualquer momento. No entanto, muitos estão tão ativamente engajados em suas diversas ocupações que deixam de perceber a necessidade de investigar se o conflito entre os princípios opostos de governo que resultaram em nossa independência nacional terminou ou não – ou seja, se a vitória que os fundadores da República conquistaram sobre o monarquismo foi ou não definitiva.
Aqueles que conquistaram essa vitória pretendiam prevenir essa aparente falta de vigilância por meio de algum sistema de educação que assimilasse os princípios e opiniões do povo, servindo como um baluarte perpétuo contra a agressão. Isso teria sido realizado há muito tempo se os conselhos paternos dos Presidentes Washington e Madison tivessem sido atendidos como mereciam – de que deveríamos educar "nossa juventude na ciência do governo" [1] sob os auspícios e a proteção da autoridade nacional. Em vez disso, nos consideramos suficientemente protegidos por nosso sistema de educação pública, sob controle estadual, e contamos principalmente com ele para preparar nossos filhos para a cidadania e o autogoverno. Até agora, não fomos seriamente incomodados pela apreensão de que isso resultaria em fracasso e, por essa razão, foi mantido com grande unanimidade popular. Agora, contudo, ele é violentamente atacado e, manifestamente, com o propósito de destruí-lo por completo. Sendo assim, somos todos obrigados, por deveres que não podemos justamente evitar, a interromper o suficiente de nossas atividades diárias para descobrir, se possível, por que isso acontece – quais motivos impulsionam os agressores – e se desejam ou não substituir nossos princípios de governo por outros, fazendo-nos retroceder a um caminho que solenemente repudiamos.
Além de outras obras de caráter semelhante, mas de menor capacidade, há uma, amplamente divulgada neste país, escrita por um autor notável por sua erudição e habilidade. O autor afirma sem disfarces que o que ele chama de "Catolicidade" – isto é, o que os papas romanos ensinavam quando eram monarcas temporais – tem sido mais benéfico para o mundo e mais civilizador em suas influências sobre a humanidade do que o protestantismo, não só do ponto de vista social, mas também político, religioso e literário. Seu argumento procede do ponto de vista jesuíta e pode ser resumido em uma única frase: o protestantismo colocou a humanidade em uma condição muito pior do que aquela em que se encontrava quando era dominada por reis papais. [2]
Essa obra visava neutralizar o efeito produzido pelos escritos de Guizot, o grande historiador francês, que sustentava, com argumentação eloquente e inigualável, que a humanidade havia sido aprimorada, em todos os pontos de vista, pelas influências do protestantismo. Consequentemente, a obra foi traduzida do espanhol, idioma em que foi originalmente escrita, para o francês e o alemão, sendo amplamente divulgada na França e na Alemanha. Logo adquiriu a reputação, entre os jesuítas, de ser inquestionável e, por essa razão, foi considerada, no conflito entre progresso e retrocesso, como uma artilharia pesada em batalha – uma arma adequada para atacar o protestantismo e suas instituições no cerne de sua maior força. Por isso, foi traduzida para o inglês e impressa por duas editoras nos Estados Unidos, para circulação entre o povo americano. Um prefácio americano é anexado, no qual são afirmadas as seguintes proposições: Primeiro, que o protestantismo obriga seus devotos à infidelidade, devido às suas variações de crença; segundo, que a civilização não apenas começou, mas estava prosperando sob a "Catolicidade", quando foi retardada pelo protestantismo, que é desfavorável e prejudicial à ela; e, terceiro, que os princípios do protestantismo são incompatíveis com a felicidade da humanidade e "desfavoráveis à liberdade civil".
Este prefácio – que evidentemente carrega a marca jesuíta – tem a intenção de notificar os leitores americanos, de antemão, que as três proposições acima são defendidas no corpo da obra, e de preparar suas mentes para aceitá-las. Sua reimpressão e circulação nos Estados Unidos não poderiam ter outro objetivo senão o de incutir a crença de que as supostas vantagens que o povo deste país derivou das instituições protestantes são, na verdade, absolutamente prejudiciais a eles, e que sua condição seria melhorada pela recuperação daquelas que existiam durante a Idade Média, antes da Reforma.
Ao dar destaque a questões políticas e discuti-las do ponto de vista jesuíta, esse autor apresenta uma questão clara, distinta e prática entre o progresso e o retrocesso. Ele visa tornar tão evidente para a mente de seus leitores quanto parece ser para a sua própria, que os Governos construídos sob o plano monárquico conferem mais felicidade e prosperidade à sociedade do que aqueles sob o plano protestante de autogoverno. Evidentemente, foi com a esperança de disseminar essa crença que essa obra foi reimpressa e distribuída nos Estados Unidos tão extensivamente, a ponto de se acreditar que se tornou uma autoridade padrão entre os inimigos jesuítas do Protestantismo. Contudo, se não fizer mais nada, ela alerta nossa população protestante de que existe entre eles uma poderosa influência que é intransigentemente hostil aos princípios que fundamentam toda a estrutura de seu Governo. E, estando assim avisados, sua indiferença seria pouco menos que criminosa; porque seus astutos agressores a interpretariam como medo de possíveis consequências, ou a atribuiriam à sua incapacidade de combater com sucesso os argumentos fornecidos por essa obra, cujo autor é um monarquista reconhecido.
As diferenças entre governos populares e monárquicos são bem conhecidas e aparecem em todos os pontos de comparação que surgiram durante o curso dos eventos desde a Reforma do século XVI. Os primeiros alcançaram seus triunfos mais completos onde o Protestantismo prevalece, e em sua presença os últimos foram forçados a render completamente suas pretensões, ou a reduzir suas exigências de absolutismo. Até que a Reforma se tornasse um fato consumado, o monarquismo era mantido pela união da Igreja e do Estado, empregando sua autoridade conjunta para coagir a obediência da multidão. O domínio assim adquirido condenava o autogoverno pelo povo como heresia e traição, puníveis ao bel-prazer daqueles que detinham as rédeas da autoridade. Foram necessários muitos anos de conflito para mudar essa condição de coisas; e quando o povo dos Estados Unidos, no curso dos eventos, foi colocado em condições de escolher entre esse sistema coercitivo e aquele que era o resultado natural do Protestantismo, e de construir um Governo para si, sua sabedoria foi suficiente para lhes garantir que qualquer plano de governo que adotassem resultaria em fracasso, a menos que distinguissem entre sua política e sua religião, separando a Igreja do Estado, e formulando suas instituições civis de modo a reservar para si a soberania total sobre elas. Se qualquer um desses pré-requisitos essenciais tivesse sido omitido, todos os esforços para melhorar sua condição teriam resultado em fracasso, como todos os leitores de história sabem. Em vez de fracasso, no entanto, eles criaram um Governo que sobreviveu às vicissitudes de mais de cem anos, agora fornece proteção a mais de sessenta milhões de pessoas e alcançou uma posição de destaque entre as principais nações; se é que sua influência sobre a felicidade e prosperidade da humanidade não supera a de qualquer uma delas. Disto podemos ter certeza: que a medida de seu sucesso tem sido tal a ponto de incitar entre outros povos o desejo de imitar seu exemplo; e que os conflitos de opinião que agora agitam o mundo dão uma promessa razoável de que o direito popular ao autogoverno possa ser universalmente reconhecido em menos de outro século. Para esse fim, o povo americano é obrigado a contribuir, desviando todo golpe dirigido às suas instituições, seja por adversários domésticos ou estrangeiros, especialmente quando esses golpes visam, como alguns o fazem, os princípios fundamentais de seu governo.
A influência de nosso exemplo encontra uma ilustração impressionante na revolução na Itália em 1870, que aboliu o poder temporal, ou reinado, do papa, separou o Estado da Igreja e estabeleceu uma forma constitucional de governo no lugar do monarquismo absoluto que prevalecera, quase ininterruptamente, por muitos séculos. Os focos dessa revolução ardiam há muito tempo, acesos originalmente por opressões, que haviam sido tão ampliadas que o povo não podia mais suportá-las. Seu ponto culminante foi a aprovação do Decreto Conciliar, chamado de "Constituição Dogmática", pelo qual se declarou que o papa era infalível e não podia errar em questões pertinentes à fé ou à moral; ou seja, dentro das esferas de deveres e obrigações governamentais, sociais e individuais que o papa, no momento, decidisse incluir em sua jurisdição espiritual e pontifical. Esse ato foi considerado a consumação do "plano jesuíta", que havia irritado tanto o povo italiano pouco tempo antes, a ponto de o Papa Pio IX ter sido forçado a expulsar de Roma os membros daquela odiosa Sociedade. A consequência foi que os focos que a indignação popular havia acendido inflamaram-se ainda mais, e tornou-se impossível extingui-los, exceto assegurando o sucesso completo da revolução. Portanto, a tinta com a qual este decreto de infalibilidade papal foi escrito mal havia secado antes que o povo italiano, com extraordinária unanimidade, decidisse rejeitá-lo, não apenas porque era a introdução de um novo princípio de fé até então não reconhecido, mas porque podiam facilmente ver que isso colocaria eles, e seus filhos depois deles, sob o domínio e a ditadura jesuíta. Eles perceberam que sua aceitação os envolveria na obrigação de se submeter ao domínio temporal absoluto do papa, em cuja seleção não tinham voz, e àqueles que ele julgasse adequados para colocar sobre eles, fossem aptos ou não, e assim pôr fim a todas as exigências populares pelo direito ao autogoverno político. Não envolvia nenhuma questão de fé religiosa, tal como a fé lhes havia sido transmitida por seus pais; nada que envolvesse seu dever para com Deus, exceto na medida em que homens presunçosos, para atender aos seus próprios fins egoístas, estavam empenhados em converter o papa em um Deus na terra, e a si mesmos em seus plenipotenciários. Influenciados unicamente por essa convicção e estimulados pelo sucesso que o povo dos Estados Unidos havia conquistado, eles simplesmente aboliram o poder temporal do papa e criaram uma forma constitucional de governo civil, que estabelece limitações satisfatórias à autoridade de seu rei e estabelece instituições políticas representativas, que garantem que sua voz seja ouvida na promulgação de leis públicas. Nisso, eles deram um grande passo na direção de um governo "do povo, para o povo e pelo povo". Eles se livraram do absolutismo político – que os jesuítas nos recomendam como "Catolicidade" – e assumiram a posição e a dignidade de um povo independente. Eles converteram uma oligarquia dominada por padres em uma nação. Tão-somente por esse motivo, eles se tornaram alvos especiais da malevolência jesuíta, pela simples razão de que a sociedade monárquica dos jesuítas nunca, desde o seu início, cedeu em sua oposição vingativa a toda forma de governo civil que reconhece o povo como a fonte do poder político. Pelos princípios mais fundamentais de sua organização, ela é proibida de simpatizar com o sentimento de independência pessoal, ou de permitir que seus membros adquiram a dignidade de humanidade necessária para a participação nos assuntos do governo.
Diante do fato de que o povo italiano não alterou as convicções religiosas que manteve por centenas de anos com firme fidelidade, e também diante do sucesso universalmente reconhecido do Protestantismo, os jesuítas empregam o decreto extorquido da infalibilidade papal como base de um argumento para provar que o papa é divinamente dotado de tal soberania espiritual sobre nações e povos que o autoriza a prescrever, por sua própria vontade e arbítrio, leis e regulamentos, concernentes tanto à fé quanto à moral, que são necessários para o governo da sociedade e a conduta de indivíduos em todo o mundo. Dentro do círculo desta jurisdição extraordinária e ilimitada, eles não fazem distinção entre o espiritual e o temporal – nunca deixando de tornar o poder sobre o primeiro suficientemente abrangente para englobar o último, conforme o próprio papa decida. Consequentemente, inferem que esta jurisdição papal não está sujeita a outra limitação senão aquela que ele estabelecer, e que, portanto, pode ser legitimamente ampliada para exigir a submissão de todos e anular todos os requisitos que estejam em conflito com ela. E o resultado a que chegam – como decorrência lógica desta premissa – é que a recusa de obediência ao papa, dentro desta jurisdição abrangente, viola a lei de Deus e constitui heresia. Assim, como os jesuítas acreditam que a separação entre Igreja e Estado pelo povo italiano é heresia, eles também são obrigados a acreditar que todas as instituições civis que surgiram dessa separação – como as dos Estados Unidos – não apenas têm a maldição de Deus sobre elas, mas que eles são os mensageiros divinamente escolhidos do céu para trazê-las para dentro deste enorme círculo de domínio papal.
Ao atribuir esses poderes unicamente ao papa, eles ignoram completamente tudo o que está associado à organização original e primitiva da Igreja Cristã, e especialmente o fato importante de que foi somente no início do século VI que o bispo de Roma conseguiu adquirir o título distintivo de papa. [3] Antes disso, eles exerciam em Roma apenas os mesmos poderes que os bispos metropolitanos em outros lugares – sendo cada um deles chamado papa. Quando o bispo romano adquiriu por usurpação o título exclusivo de papa, os outros bispos metropolitanos foram reduzidos a uma condição de inferioridade e subordinação, e ele então precisou apenas do poder temporal para garantir o poder e a jurisdição que os jesuítas agora reivindicam para ele. Foram necessárias várias centenas de anos de conflito dentro das Igrejas e com os poderes civis para que isso fosse realizado, e só foi alcançado por fim subjugando reis impotentes e unindo o poder da Igreja com o do Estado de modo a manter populações ignorantes sob jugo. E agora que os italianos, depois de se submeterem a essa humilhação por mais de mil anos, e encontrando todas as fontes de sua prosperidade esgotadas, aboliram e destruíram este poder temporal ilícito e usurpado, e tomaram em suas próprias mãos a administração de seus próprios assuntos temporais – obedecendo ao exemplo dado pelo povo dos Estados Unidos – os jesuítas empregam todas as suas energias para reverter este veredito popular e mergulhá-los novamente no abismo sombrio do qual escaparam.
Os jesuítas são debatedores sutis. Quando falam sobre o papado se reconciliar com qualquer forma de governo, eles reservam para si o significado de que ele não interfere – seja em monarquias ou repúblicas – com assuntos locais e limitados que pertencem aos interesses comuns e ordinários da sociedade na gestão de condados, distritos, cidades e municipalidades. Estes podem ser conduzidos sem objeção, sob uma forma de governo tão bem quanto outra, e são considerados assuntos temporais que o papa pode excluir de sua jurisdição espiritual sem qualquer violação da lei divina. Mas quando as medidas de política pública transcendem essas esferas locais e limitadas, e envolvem assuntos que o papa decidir ter relação com a Igreja, com o papado, com a fé ou com a moral, sua jurisdição se anexa e, segundo os jesuítas, ele possui o direito divino de regulamentá-las e dirigi-las. De modo que, quando instituições civis são construídas – não importa em que forma – pelas quais a Igreja e o Estado são separados e a liberdade de crença religiosa é garantida, como são pela Constituição dos Estados Unidos, elas são trazidas para dentro desta jurisdição ilimitada do papa, e ele pode proferir tal sentença de condenação sobre elas que julgar necessária para manter sua própria infalibilidade, bem como seu poder espiritual e temporal. Se, na execução deste extraordinário poder espiritual, o papa e o geral jesuíta em Roma se unirem em um decreto de que todas essas instituições devem ser opostas, resistidas e derrubadas, a milícia jesuíta está sempre pronta para obedecer, porque é uma das máximas fundamentais de sua Sociedade que, quando assim é comandado, com referência a qualquer coisa concernente à Igreja, ao papado, à fé ou à moral, a desobediência é punida com o desagrado divino.
Antes de entrar em Roma com suas tropas vitoriosas, e na esperança de pacificar o papa, Vítor Emanuel, o libertador do povo italiano, dirigiu uma carta afetuosa ao Papa Pio IX, chamando-o de "o chefe da Catolicidade", e expressando a esperança e a intenção de que nada fosse feito em desacordo "com a inviolabilidade do soberano pontífice e de sua autoridade espiritual, e com a independência da Santa Sé." Mas este espírito amável não foi correspondido pelo papa irascível, que rejeitou a proposta de pacificação de forma exaltada. Em seguida, as tropas vitoriosas entraram na cidade de Roma e encerraram o domínio temporal do papa, que havia repousado sobre o povo italiano com um peso esmagador por quase catorze séculos. Então, o papa, tendo perdido sua coroa real – nada mais – e com o intuito de prescrevê-la como artigo de fé a ser recuperada, fez com que seu Cardeal Secretário de Estado notificasse Vítor Emanuel a esse respeito. Ele o fez da seguinte forma:
"Tenho a ordem de sua santidade para declarar, e o abaixo-assinado declara neste ato no augusto nome de sua santidade, que tal usurpação é desprovida de todo efeito, é nula e inválida, e que jamais poderá causar qualquer prejuízo aos direitos indisputáveis e legítimos de domínio e de posse, quer do próprio santo padre, quer de seus sucessores em perpetuidade; e, embora o exercício desses direitos possa ser impedido e obstruído pela força, sua santidade conhece seus direitos, tenciona conservá-los intactos e reentrar no momento oportuno em sua posse efetiva."
Estas são palavras expressivas, e todo jesuíta as interpreta no sentido de que, tendo a aprovação direta de um papa infalível, elas impõem a obrigação religiosa de obediência a todos os membros de sua Sociedade, e que será ofensivo a Deus se cessarem sua luta pela restauração do poder temporal antes que ela seja cumprida. Portanto, eles ampliam a jurisdição e a autoridade espiritual do papa de modo a tornar a questão da restauração de seu poder temporal uma questão internacional, para que ele tenha o direito divino de exigir que todos os cristãos professos o obedeçam em todas as matérias relacionadas a essa questão, não importa sob qual Governo, ou em que parte do mundo vivam. A recusa a essa obediência é considerada por eles como heresia. Consequentemente, quando o povo católico da Itália aboliu o poder temporal do papa, permanecendo em todos os outros aspectos fiel aos ensinamentos históricos e tradicionais da Igreja, os jesuítas fizeram um apelo organizado a todos os católicos do mundo, para que se unissem em um partido político-religioso, a fim de restaurar o poder temporal, e assim ensinar a seus irmãos cristãos na Itália que não têm o direito de se governar por leis próprias, e que, ao afirmar irreligiosamente esse direito, imitando o povo herético dos Estados Unidos, eles próprios se tornaram hereges. Na verdade, o apelo jesuíta é feito a populações inteiramente estrangeiras ao povo da Itália, convidando essas populações estrangeiras a subverter as instituições civis que estes últimos estabeleceram para si, substituindo à força um rei constitucional, cujos poderes foram colocados sob restrições satisfatórias, pelo papa como um monarca arbitrário e irresponsável, sem qualquer controle constitucional. O próprio papa, quando percebeu que estava prestes a perder sua coroa, falou sobre os duzentos milhões de católicos espalhados pelo mundo, que seriam incitados a este conflito com o povo italiano; e os jesuítas se consideram especialmente designados para a tarefa de concentrar as forças deste grande exército papal e dirigir seus movimentos. Nessa capacidade, e com esse propósito secreto, eles se distribuíram pelas partes populosas dos Estados Unidos, aglomerando-se em nossas cidades e empregando suas incansáveis energias no trabalho de educar uma porção considerável de nosso povo, tanto jovens quanto idosos, na crença religiosa de que é seu dever cristão arrancar a coroa da cabeça do rei constitucional da Itália, onde aqueles de sua própria fé religiosa a colocaram, e restaurá-la ao papa, de cuja cabeça eles a removeram empregando o mesmo poder soberano que o povo dos Estados Unidos invocou ao lançar os fundamentos de suas próprias instituições.
É algo sério, sério demais para ser desconsiderado, saber que, sob a proteção do liberalismo de nossas leis, há espalhados entre nosso povo aqueles que se esforçam para nos enredar em alianças que não podem ter outro fim senão perturbar a tranquilidade da nação e pôr em risco o bem-estar público. Os sacrifícios feitos pelo povo americano em nome do direito ao autogoverno dão-lhes o direito de serem deixados por si sós no gozo inalterado desse direito. Eles se mostraram sábios o suficiente para entender as causas que levaram à decadência de nações anteriores e discretos o bastante para evitá-las. Entre essas causas, a união entre Igreja e Estado sempre foi notoriamente proeminente; razão pela qual eles consideraram necessário pôr fim a essa união, deixando a Igreja independente na esfera espiritual e o Estado igualmente independente na esfera temporal. Esta separação constitui um grande e importante fato político, inteiramente distinto de qualquer uma das formas ou princípios de crença religiosa, e incorpora praticamente a ideia americana – perpetuada no Protestantismo – de que o direito à liberdade de consciência perfeita e sem entraves não é derivado de concessão de monarcas espirituais ou temporais, mas das leis inalienáveis da natureza. Em vista da experiência passada da humanidade, pareceu-lhes claro que a melhor forma de governo é aquela que garante esse direito natural a cada indivíduo, a ser desfrutado como um direito político, sem qualquer restrição. De nenhuma outra forma o governo popular livre pode se tornar possível. Eles também acreditavam que a humanidade havia sido mantida por tempo suficiente em inferioridade e escravidão pela influência combinada do despotismo da Igreja e do Estado, e que, visto que haviam sido providencialmente colocados na posse de um continente novo e não desenvolvido, era não apenas sábio, mas melhor para eles e sua posteridade que, ao estabelecerem seu Governo, tornassem impossível a união futura da Igreja e do Estado, a menos que algum poder estrangeiro fosse forte o bastante para derrubar suas instituições, ou que elas caíssem em decadência por meio das corrupções geradas por essa união fatal, como outros Governos caíram. Foi um experimento, até então malsucedido, e foi consequentemente observado por multidões em todo o mundo com intensa solicitude. Se houve quem considerasse o experimento imprudente e propenso ao fracasso, pouco tempo se passou antes que suas dúvidas fossem dissipadas pelos resultados alcançados – resultados que todos aqueles que têm direito legítimo à cidadania americana agora aceitam como uma herança preciosa dos fundadores da República. Nossas instituições não são mais um experimento; elas se tornaram realidade efetiva e consumada. E não é agora o momento de pensarmos em voltar à escravidão do monarquismo, como indicaríamos o desejo de fazer ao negar ao povo da Itália o direito de imitar nosso exemplo, separando a Igreja do Estado e governando-se por leis próprias. Aqueles que nos convidam a isso são conselheiros do mal.
Que os jesuítas não estão contentes com a separação entre Igreja e Estado é um fato muito evidente para ser contradito. Daí a prontidão com que se engajam na organização, neste país, de um partido político-religioso com o compromisso de restaurar o poder temporal do papa, apesar de tal partido ser condenado pelo espírito de nossas instituições e ser considerado pelo público em geral como impolítico, inadequado e perigoso; e, visto que eles escolheram impor esta questão sobre nós, não nos é permitido tornar-nos indiferentes a ela ou fugir de nossa responsabilidade como cidadãos sob um Governo que merece nossa lealdade patriótica. Tal questão não pode ser evitada e deve ser enfrentada com destemor e a devida franqueza. Se alguém for informado de que uma víbora venenosa está enrolada sob o travesseiro onde está prestes a deitar a cabeça, instintivamente buscará os meios necessários para escapar de suas presas. Assim, quando alertados de que adversários astutos e habilidosos, como os jesuítas, estão tramando contra princípios vitais e prezados de nossas instituições, a obrigação de nos familiarizarmos com seus princípios, política e história torna-se imperativa. Estando prevenidos, não teremos desculpa para não estarmos preparados.
Não devemos fazer nada, nem agora nem no futuro, que seja proibido por nosso caráter nacional ou pelo liberalismo que tanto valorizamos. Nossa Constituição protege amplamente os direitos de liberdade de expressão, de pensamento e de imprensa, todos os quais devem ser mantidos invioláveis; mas a violência é manifestamente cometida contra o espírito de patriotismo que garante essa proteção quando se exige de qualquer parte de nossa população que participe do trabalho de anular, em qualquer grau que seja, o que os fundadores do Governo consideraram fundamental. Somos proibidos de nos submeter a qualquer coisa que tenda, mesmo por possibilidade, a sujeitar o povo a qualquer soberania, seja espiritual ou temporal, superior a si mesmo, em assuntos que envolvam sua própria felicidade e bem-estar. Seria bom, consequentemente, para aqueles que procuram realizar isso, aprender que o mundo é grande o suficiente para eles e para nós; que existem outros campos onde melhores fundamentos de esperança são oferecidos para ressoldar os fragmentos de monarquias despedaçadas; e que, quando se valem da tolerância de nossas instituições para atacar seus fundamentos, tornam-se intrusos em um círculo pacífico e harmonioso, onde, se não fosse por eles, prevaleceriam a paz e a tranquilidade universais.
Em seu conflito com o povo italiano pela retomada do poder temporal, através da derrubada do Governo Constitucional que eles estabeleceram, o papa não poderia encontrar outro aliado tão formidável quanto os jesuítas, nem um com ódio tão implacável ao liberalismo e ao governo popular. Sua Sociedade é tão unida e compacta que suas fileiras não podem ser rompidas. Eles são os mesmos em toda parte, movidos por um impulso comum, sob a ditadura de seu geral em Roma. Eles são os inimigos mortais da liberdade civil e religiosa. Nada que se interponha em seu caminho se torna tão sagrado que escape de sua vingança. O protestantismo não produziu nenhum fruto com o qual eles tenham se reconciliado. Eles consideram que a Reforma que lhes deu origem foi uma resistência criminosa à única autoridade legítima na Terra – aquela que procede da união entre Igreja e Estado. Eles acreditam que a condição da humanidade durante a Idade Média, cambaleando sob o peso da opressão feudal, era preferível ao progresso e ao esclarecimento modernos; que a felicidade humana seria promovida pelo retorno àquele período; que o direito político de autogoverno pelo povo não pode ser estabelecido contra o direito superior do poder papal e monárquico; que o progresso das nações em avanço é ilusório e insubstancial; e que as instituições que garantem a liberdade civil e religiosa, se não forem detidas por algum poder coercitivo forte o suficiente para lhes pôr fim, levarão, por meio da heresia, à ruína e desolação sociais. Se, no período da Reforma, esta Sociedade não tivesse sido estabelecida com o propósito expresso de neutralizar sua influência, o conhecimento da diferença entre o Cristianismo primitivo e os dogmas prevalecentes poderia ter levado a reformas que teriam reconciliado os cristãos a viverem juntos em paz e concórdia. Mas, quando uma pomba deveria ter sido enviada portando o ramo de oliveira da caridade cristã, esta Sociedade brotou do cérebro de um aventureiro militar frustrado e imediatamente começou a espalhar as sementes da discórdia e da luta. Quase desde o início, tem sido uma perturbadora da paz das nações, sofrendo apenas aquelas que lhe concederam patrocínio escapar de suas maldições e suas tramas.
Os membros desta Sociedade são numerosos e poderosos nos Estados Unidos. Eles estão em constante crescimento, principalmente por acréscimos de seus companheiros formados e disciplinados na Europa, mas também por conversões de jovens incautos, seduzidos por suas pretensões vãs e soberbas como educadores. Eles são, como sempre foram, egoístas e vingativos – incansáveis sob oposição e não se comprometem com nada. Eles não têm país, nem lares, nem famílias, nem amizades além dos limites de sua ordem – nenhuma das afeições do coração que dão encanto à vida e à convivência social – sendo exigido que abandonem tudo isso e se preparem para a obediência indiscutível ao seu geral, cujos comandos, sejam certos ou errados, bons ou maus, eles solenemente prometeram executar, sem a menor consideração pelas consequências. Tendo se recusado persistentemente a se reconciliar com as formas e métodos da civilização cristã que prevalecem entre nossa população protestante, eles empregam todos os recursos que podem mobilizar para tentar detê-los. Eles insistem que a Igreja e o Estado devem ser unidos onde quer que estejam separados, e que a base de tal união seja a subordinação do Estado à Igreja. Consideram o autogoverno pelo povo uma violação da lei divina, e por essa razão pode ser legitimamente resistido como herético, quando sua derrubada puder ser assegurada. Eles não permitirão que existam direitos em Estados, povos ou indivíduos, contra o que consideram as prerrogativas de sua Sociedade, conforme definidas por seu geral, que, em sua estima, possui o direito divino de ampliá-las ou restringi-las a seu próprio prazer. Não deve haver limitação ao poder e à independência do papa, seja no domínio espiritual ou temporal, exceto onde os interesses de sua Sociedade determinarem o contrário; devem ser plenos, absolutos, inquestionáveis, na extensão definida por ele próprio. Sua liberdade deve ser tal que ele possa, a seu critério, restringir as liberdades de todos os outros. Sua soberania espiritual deve incluir o que quer que ele venha a abranger dentro dela. Nem a existência nem a extensão dessa soberania devem ser questionadas perante qualquer tribunal humano; mas ele sozinho a definirá, juntamente com o caráter da obediência que exigirá. E se, no curso da economia papal, ele precisar alguma vez segurar em uma das mãos emblemas de harmonia e paz, esta Sociedade inquieta e intransigente estará sempre pronta para colocar o chicote do castigo na outra.
O conflito de opiniões, portanto, no qual o povo protestante dos Estados Unidos se encontra engajado não é de seu próprio convite. Eles são partes relutantes nele. Teve sua origem no espírito de agressão que prevalece entre aqueles que têm maior simpatia por um poder estrangeiro do que pelo direito de autogoverno e, por causa de sua aptidão peculiar para o trabalho, envolverá toda língua e pena jesuíta no país. Por causa disso, um senso tanto de dever quanto de segurança exige que a história e o caráter deste adversário habilidoso e poderoso – estranho em nascimento, crescimento e sentimento – sejam compreendidos; assim como as causas que levaram à expulsão dos jesuítas de todos os países da Europa, o ódio público que pairou sobre eles por muitos anos, sua perturbação contínua da paz das nações e a supressão e abolição final de sua Sociedade por um dos melhores e mais esclarecidos papas. Em vista da obrigação de preservar nossas instituições civis como estão, não apenas para nós e nossos filhos, mas para as multidões que buscarão abrigo sob elas, não temos o direito de nos tornarmos indiferentes ou inativos na presença de tais agressores, que complacentemente nos desafiam e procuram impregnar a atmosfera livre e pura de nossas escolas e seminários de aprendizado com o veneno do monarquismo. "Contra as insidiosas artimanhas da influência estrangeira," disse Washington, "o ciúme de um povo livre deve estar constantemente desperto, visto que a história e a experiência provam que a influência estrangeira é um dos mais perniciosos inimigos do governo republicano."
Notas
1. Oitava Mensagem de Washington e Segunda Mensagem de Madison.
2. Protestantism and Catholicity Compared in their Effects on the Civilization of Europe, pelo Rev. I. Balmes.
3. Universal Church History. Por Alzog. Vol. I, p. 674. Essa reconhecida autoridade papal, a fim de ser o mais exata possível, fixa a data no ano 510.
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