"Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir".
A célebre frase de George Orwell aparece em um ensaio intitulado "A Liberdade de Imprensa", que ele originalmente planejara como prefácio de sua obra A Revolução dos Bichos, publicada pela primeira vez em 1945.
Com críticas diretas à autocensura da imprensa britânica e à sua submissão passiva ao discurso soviético, o prefácio foi omitido porque, como os russos e os americanos eram aliados estratégicos dos britânicos na Segunda Guerra Mundial, os editores temiam que fosse diplomaticamente prejudicial.
O texto acabou esquecido, até ser reencontrado nos arquivos pessoais do autor décadas mais tarde, sendo publicado pela primeira vez apenas em 1972 na revista The Times Literary Supplement.
A frase de Orwell guarda em si um duplo princípio: o da liberdade de expressar-se e o da capacidade de ouvir.
O primeiro perde grande parte de seu significado quando só é exercido para dizer aquilo que já é socialmente aceitável. Se somente opiniões aprovadas pelo grupo podem ser expressas, não há liberdade de fato.
O teste da liberdade surge com maior clareza quando uma opinião provoca desconforto, embora o mérito da liberdade não esteja no desconforto produzido pela fala, mas na possibilidade de submeter ideias, inclusive as desagradáveis, ao debate sem que sua impopularidade seja suficiente para silenciá-las.
É precisamente aqui que o segundo princípio entra. A liberdade não é apenas a capacidade de falar sem ser silenciado; é também a capacidade de ouvir sem transformar o próprio desconforto em argumento para silenciar o outro.
Este duplo princípio se aplica também à Igreja. E num sentido muito mais profundo.
Porque a verdade desconfortável dita por quem se importa, ao contrário da falsa suavidade da bajulação, produz sabedoria e correção de rumo em quem tem maturidade espiritual para ouvir (Provérbios 27:6; Hebreus 12:11).
E se você leu minhas duas postagens anteriores – "Quando a estupidez entra no santuário" e "Fique na Palavra, sempre" –, está emocionalmente preparado para prosseguir numa discussão que certamente requer um grau de maturidade acima da média.
Afinal, à semelhança do que ocorre na esfera social, uma igreja que suprime o contraditório sem avaliar seu mérito também se expõe ao grave risco de confundir consensos estabelecidos com a verdade.
Essa supressão, como observei, não necessariamente se traduz em disciplina eclesiástica.
Um sistema fechado e impermeável à realidade que constantemente o desafia deve proteger-se mediante um modelo sofisticado e silencioso de repressão da consciência, no qual o silenciamento é imposto pelo temor da pressão moral e pela preservação do status quo, mas sem parecer fazê-lo.
A Igreja não precisa responder às perguntas. Ela simplesmente cria argumentos e métodos para descredibilizar quem as faz.
Ela recorre a algo operacionalmente mais duradouro que a censura: o emprego institucional de um vocabulário específico capaz de neutralizar o questionador sem jamais tocar na questão.
Em lugar de testar a consistência escriturística e a validade moral de um argumento, a Igreja mira na reputação de quem levanta as questões, transformando a descredibilização em uma norma capaz de encerrar a conversa sem exigir qualquer avaliação de seu conteúdo.
Ao contrário de um filtro epistêmico legítimo, que avalia um argumento para, só então, atualizar sua apreciação do autor à luz dessa avaliação, este mecanismo explícito de descredibilização reputacional, carregado de conotações negativas e, amiúde, injuriosas, classifica primeiro o autor, e essa classificação anula a avaliação do argumento, pois não exige resposta alguma à questão subjacente.
O problema não é o fato de a Igreja possuir normas fixadas em seu Manual para interlocutores não confiáveis. O problema começa quando uma categoria é aplicada antes que a alegação seja avaliada – quando a classificação do autor substitui a avaliação do argumento em vez de ser uma consequência dela.
Daí que o abordar certos temas sensíveis pode posicionar o autor dentro de uma categoria que não exija nenhuma resposta!
O mecanismo não precisa proibir as perguntas. Só precisa retirar a legitimidade de quem as faz. Sob a perspectiva da Igreja, trata-se de garantir a "unidade". Sob a perspectiva de quem questiona, a pergunta foi feita, mas ninguém a ouviu. Visibilidade e influência foram separadas.
Quando isso acontece, quem questiona deixa de perguntar. Não por ter sido convencido, mas por ter aprendido o custo. À medida que o silêncio se torna autossustentável, a maioria das pessoas se adequa voluntariamente ao peso institucional.
Nada disso requer coordenação ou uma diretriz no topo da hierarquia. Cada nível atua segundo premissas institucionais compartilhadas sobre quais perguntas são aceitáveis e quais categorias de questionadores merecem amplificação.
A Igreja não precisa avaliar a qualidade epistêmica de uma pergunta para decidir se deve divulgá-la; só precisa avaliar qual o custo de fazê-lo.
Assim, quando Michelson Borges leu meu post – "O uso de dramatizações na Igreja Adventista: uma reflexão crítica" –, sua resposta foi uma confirmação dessa regra. Ignorando importantes questões suscitadas no artigo, ele observou, presunçosamente:
Em 200 anos de pesquisas, estudos e debates responsáveis, somente esse indivíduo, agora, descobriu a verdade. Poderia até abordar o assunto, mas de forma acadêmica, ponderada, responsável. Não colocando a igreja em xeque. Típico espírito divisionista e dissidente.
Apenas o leitor poderá avaliar se fui leviano e irresponsável ou se coloquei em xeque a minha igreja.
Quanto à última adjetivação, ela ilustra bem o meu ponto.
O ministro não respondeu às perguntas. Ele deu um nome a quem as fazia. Expressões que antes possuíam um peso descritivo – "divisionista", "dissidente", etc. – passaram a manifestar intenções subjetivas capazes de encerrar uma conversa sem exigir qualquer exame dos argumentos. Michelson não tratou das evidências. Tratou da pessoa que as apresentava.
Em outro caso, um pastor reagiu à um vídeo que publiquei nestes termos:
... percebi uma pitada de crítica à programação de um camporee de desbravadores … sempre que aparece a imagem do camporee a fala é de que esse meio não é santificado, carnal etc … se esse for o intuito seu ou de quem você representa, acho que é só mais um canal de perseguição, crítica destrutiva e fanatismo.
Respondi respeitosamente com um áudio, comprometendo-me a retirar o conteúdo e gravar uma retratação se o pastor pudesse provar pelas Escrituras e pelos Testemunhos que o evento não era carnal. Sua resposta foi a seguinte:
Muito bem então, seu Ricardo. Agora eu não entendi por que você usa uma foto de uma mulher, um perfil de uma mulher para mandar as mensagens, né? E na verdade é você quem manda, né? Então, cara, eu tenho uma ideia sobre isso, né? Muito clara. Eu vejo assim, quando você coloca a imagem de um evento da igreja, né, e colocando assim as mensagenzinhas ali, o áudio, né, que aparece relacionado, realmente demonstra teu posicionamento sobre isso. Mas tá bom, tu tem a tua opinião, mas eu acredito que você não quer pregar evangelho coisa nenhuma, cara. O que tu quer é atacar a liderança da igreja. Então isso fica bem claro ali, a gente consegue ler nas entrelinhas. A mim você não engana.
O ministro não forneceu nenhum argumento bíblico para rebater as alegações. Apenas concentrou-se em atacar a motivação, a competência e a confiabilidade da pessoa que as fez. Classificando primeiro o autor, ele anulou a possibilidade de avaliar objetivamente a questão.
Eu poderia citar outros exemplos. Todos eles demonstram que levantar as mesmas dúvidas pode posicioná-lo dentro de uma categoria semântica que neutraliza o questionador sem nunca tratar da questão. Perguntas sem interlocutores tendem a desaparecer do discurso credenciado.
O mecanismo não é novo. Pelo emprego de uma categoria semelhante, os escribas e fariseus tentaram repetidas vezes neutralizar a mensagem de Jesus descredibilizando o mensageiro.
Uma das estratégias mais frequentes era associar Seus milagres a forças malignas, de maneira a afastar o povo (Mateus 12:24; Marcos 3:22; João 8:48; 10:20). Em outras ocasiões, recorreram ao preconceito regional para questionar Sua autoridade teológica (Mateus 13:54-57; João 7:52; 1:46). Em outras, usaram as companhias de Jesus para minar Sua santidade (Lucas 15:1-2; Mateus 11:19).
Em cada caso, Jesus demonstrou uma habilidade argumentativa impressionante. Suas respostas desmontavam a lógica dos opositores, expunham a hipocrisia deles e, frequentemente, transformavam o insulto em uma oportunidade de ensino profundo!
"O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo, acima do seu senhor" (Mateus 10:24). Se descredibilizaram o dono da casa, quanto mais os seus domésticos!
Queira Deus que, mediante o Seu Espírito, imitemos o exemplo deixado por nosso Salvador, transformando cada insulto em uma oportunidade de salvação.
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