Até breve, pai


Meu pai era sargento da reserva da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), com 25 anos de serviço.

Ele ingressou na corporação em 1968, quando ela ainda se chamava Força Pública, depois de ser aprovado nas duas fases do processo de seleção, uma realizada na companhia de guarda Tiradentes, e a outra no 12º batalhão da Vergueiro.

Quatro anos antes, o Hino da Força Pública – com letra do poeta Guilherme de Almeida e música do Major Maestro Jacomo Degobbi – foi cantado pela primeira vez na Academia do Barro Branco, a instituição de ensino superior da PMESP, que forma os oficiais da corporação.

Menciono esse detalhe porque meu pai costumava cantar as duas primeiras estrofes do Hino quando compartilhava conosco algumas de suas muitas histórias:


"Sentido! Frente, ordinário marcha!
"Feijó conclama, Tobias manda..."


Daquela turma de formandos de 1968, meu pai foi o único que sobreviveu. Todos os outros morreram, nenhum de causas naturais. Alguns tombaram em serviço, outros durante o "bico" – um trabalho "por fora" para complementar a renda –, outros porque tiraram a própria vida.

O cidadão comum não faz ideia do que é ser um policial.

Além de suportar o peso da hierarquia militar, oficiais e colegas corruptos, assédio moral, política e justiça enviesadas, falta de apoio da sociedade, salários ruins, condições de trabalho inadequadas e risco constante de vida, tem de conviver com as muitas faces do mal diariamente.

Acredite em mim, não é para qualquer um. E mesmo os mais resilientes, que conseguem se manter incorruptíveis e vivos, ficam com sequelas físicas e, sobretudo, emocionais – estas mais difíceis de cicatrizar.

Meu pai carregou consigo uma dessas feridas.

No início dos anos 1980, o filhinho de um colega de farda, de apenas 3 anos, foi sequestrado e cruelmente morto em um ritual de magia negra por elementos que o jornal Folha da Tarde chamou de "facínoras", "matadores" e "delinquentes" (sim, naquela época a imprensa ainda cumpria seu papel social).

O crime, bárbaro demais para ser relatado aqui, foi motivado por vingança. Um dos elementos, que conhecia o policial e era seu vizinho, possuía passagem pela Polícia por tráfico e porte de entorpecentes.

A guarnição do meu pai foi a primeira a chegar ao local. O que ele viu o marcou por toda a vida.

Apesar de tudo que vivenciou, o soldado Luz, como era chamado pelos colegas, manteve uma carreira ilibada. Salvou muitas vidas, fez inúmeros partos e até "puxou cana" no Romão Gomes por desafiar oficiais que não honravam a farda.

Na sua ficha constava "excepcional", uma avaliação que era motivo de orgulho para ele e para a família!

Mas nenhuma de suas realizações se compara à experiência que ele viveu nos 37 dias que permaneceu internado na UTI do Hospital de Clínicas de Itajubá.

Embora tenha sido um período de dor e sofrimento intenso que parecia interminável, foi ali, naquele leito hospitalar, que meu pai verdadeiramente encontrou Deus pela primeira vez e alcançou a paz que somente Ele pode dar – a paz que excede todo o entendimento (Filipenses 4:7)!

Minha mãe, meu irmão e eu fizemos reiterados apelos para que ele confessasse seus pecados, depositasse suas dúvidas e angústias nas mãos do Senhor e confiasse sua vida a Ele.

Na quarta-feira, 22 de julho, ele finalmente assentiu com a cabeça de que estava em dia com Deus.

Na sexta-feira, 24 de julho, após passar o dia anterior terrivelmente ofegante, ele respirava surpreendentemente bem, com um olhar e uma feição de paz e serenidade que nunca havíamos presenciado antes, como se o Senhor Jesus quisesse nos dizer a respeito de meu pai: "Eras indigno, mas escolhi-te; Não temas, pois! Eu muito te amei, Quem dos meus braços pode arrancar-te? Sempre seguro te guardarei." (Hino 386 do Hinário Adventista).

Na noite de 26 de julho de 2026, domingo, às 21:50, meu pai descansou no Senhor.

O termo "descansar" ou "dormir" não é um eufemismo para a morte. Jesus Cristo o usou para transmitir-nos a poderosa certeza de que a presente morte é transitória, de que o Senhor, por ocasião de Seu advento, despertará para a vida eterna todos os que creram Nele (João 11:11, 25-26; 6:39-40)!

Paulo, apóstolo de nosso Senhor, expressou a mesma certeza em sua primeira Carta aos Tessalonicenses, capítulo 4, versos 16 e 17:

Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.

Que bendita esperança!

Estou plenamente convencido de que o Senhor em breve voltará. Digo isso não só como uma expressão de fé, mas literalmente. Pegue sua Bíblia, abra em Mateus 24, em Marcos 13 e em Lucas 21:5 a 36 e veja por si mesmo. Os sinais estão por toda a parte. Eles não mentem.

Daqui a pouco verei meu pai com um corpo glorificado! Ele nunca mais sentirá fadiga, dor ou sofrimento! E viveremos para sempre com o Senhor!

E todos aqueles que, como nós, agora choram, mas creem em Cristo e aguardam com fremente desejo a gloriosa manhã da ressurreição, reencontrarão seus queridos para nunca mais se separarem! Então, se cumprirá a palavra que está escrita (1 Coríntios 15:54-55):

Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?

Amém!

"Porque, ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não tardará" (Hebreus 10:37).

Até breve, pai!

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1 Comentários

  1. Amém, Deus lhes dê o consolo, e afirme cada día, a bendita esperança da ressurreição em todos nós. Um forte abraço.

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