sábado, 16 de janeiro de 2021

Discernimento em tempos líquidos

É lícito recorrer a todos os meios disponíveis para testificar do evangelho, ou os meios devem ser tão santificados quanto os fins?

A resposta depende do conceito que temos do caráter de Deus, de Sua vontade e da obra que Ele nos confiou. Portanto, você já sabe qual a tarefa de casa!

Antes de prosseguir, preciso explicar aos meus leitores regulares (caso ainda não esteja claro) que o propósito deste site não é focar nos problemas que afligem a igreja de Deus.

Tampouco simpatizo com os que se tem em alta conta pelo mero fato de fazer oposição e que mal disfarçam sua negatividade crítica e impertinente.

No entanto, como a maldade nunca é estática e a estupidez é sempre ativa em todas as direções, eventualmente sinto-me constrangido a abordar alguns desses problemas, na medida em que afetam nossa identidade e senso de missão.

E o problema de hoje está relacionado à pergunta que abriu a presente postagem.

Em um artigo anterior, mencionei a tese de Marshall McLuhan - "O meio é a mensagem" - como uma parte importante da explicação do porquê devemos ser prudentes na escolha dos meios, canais ou tecnologias em que a comunicação se estabelece, cujos efeitos sociais e psicológicos ignoramos.

Segundo  McLuhan, os meios possuem um "conteúdo" próprio, que se distingue do conteúdo do que é transmitido e, por isso, têm um efeito subliminar, ou seja, atuam à margem da atenção consciente, afetando de modo inesperado o campo total dos sentidos.

Assim, à título de exemplo, e mais diretamente relacionado à nossa discussão, o "conteúdo" da música secular é música secular, por mais cristã que seja a letra, da mesma forma que o "conteúdo" da novela é novela, mesmo que o enredo seja inspirado em histórias da Bíblia.

Nesse caso, o efeito apelativo, envolvente, cativante da teledramaturgia, reforçado pelo uso de uma variedade de técnicas, ao estimular as faculdades inferiores da mente e inibir as superiores (estas últimas indispensáveis para fazer escolhas sensatas), representa o "conteúdo" efetivo, que se sobrepõe subliminarmente à mensagem ou, conforme o caso, a reforça, impactando os sentidos e, por conseguinte, a qualidade das decisões.

Só esta constatação bastaria para fazer disparar o sinal de alerta. Além disso, pelas evidentes implicações na experiência cristã, ela nos lembra que nem toda profissão ou prestação de serviço convém a um cristão minimamente consciencioso.

Os que argumentam que produções baseadas em temas bíblicos dão maior visibilidade à igreja e agregam valor à pregação do evangelho precisam pesar essas questões. Devem avaliar se as supostas vantagens justificam os elevadíssimos custos.

O que Deus pensa a respeito

"O Senhor conhece os que lhe pertencem" (II Timóteo 2:19), e, para alcançá-los, Ele pode converter maldição em bênção. Esta, porém, é uma prerrogativa divina. Para os Seus servos, Deus deixou instruções e princípios claros sobre como agir e quais meios utilizar.

Por amor à brevidade, mencionarei apenas dois exemplos, um no Antigo Testamento e outro no Novo Testamento.

Em Deuteronômio 17:16, Deus deu uma ordem expressa a Israel a respeito de seu rei, dizendo: "Porém este não multiplicará para si cavalos, nem fará voltar o povo ao Egito, para multiplicar cavalos; pois o Senhor vos disse: Nunca mais voltareis por este caminho".

Embora carros e cavalos fossem meios vantajosos em um ambiente altamente belicoso como o que Israel vivia, Deus ordenara a Seu povo que não recorresse a eles, pois: (1) carros e cavalos eram usados pelas demais nações para fins militares; (2) adotá-los significava tornar-se um povo militar, dependente de recursos militares, e não de Deus; (3) seriam tentados, portanto, a conquistas meramente humanas, perdendo de vista sua vocação espiritual; e (4), manter uma cavalaria implicava fazer alianças com nações vizinhas, algo que Deus também proibira (Êxodo 23:31-33; 34:12; Deuteronômio 7:1-6).

A ordem de Deus a Israel nos lembra que, para cumprir o seu chamado, a igreja não deve recorrer a todos os meios, indiscriminadamente. Ou seja, não deve depender de meios que Deus não aprovaria, em virtude das implicações mencionadas acima.

Quais são os "carros" e "cavalos" de nosso tempo? Quais são os meios cujo uso ou relação pode nos expor às mesmas tentações de Israel e aos mesmos resultados?

Decerto, a teledramaturgia é um deles, pois: (1) a teledramaturgia é um recurso secular, usada por uma sociedade secular para fins seculares; (2) adotá-la ou encorajá-la significa correr o risco de tornar a igreja secular, dependente de recursos seculares, e não de Deus; (3) seríamos tentados, portanto, a conquistas meramente humanas, perdendo de vista nossa vocação espiritual; e (4) manter ou relacionar-se com a teledramaturgia implica fazer aliança com os incrédulos, algo que Deus proibiu (II Coríntios 6:14-18; Tiago 4:4; I João 2:15-16).

Em João 14:16, nosso Senhor Jesus Se referiu ao Espírito Santo como "outro Consolador" e, mais adiante, Ele descreveu o papel ativo e abrangente da Terceira Pessoa da Trindade em nossa salvação.

O Espírito Santo: (1) Ensinará e fará lembrar (João 14:26); (2) dará testemunho de Cristo (15:26); (3) convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo (16:8); (4) guiará a toda a verdade e anunciará as coisas que hão de vir (16:13); e (5) glorificará a Cristo e receberá dEle para comunicar aos discípulos (16:14).

Os destaques em itálico são para nos ajudar a perceber que os múltiplos papéis do Espírito Santo na obra de redenção visam o intelecto, não os sentidos. Apelar por vias escusas, pela estimulação sensorial, não faz parte de Sua obra.

Em contraste, Babilônia recorre à sedução, ao encanto, ao fascínio, mediante estímulo sensorial (Apocalipse 13:13-14), embriaguez espiritual (14:8) e feitiçaria (18:23), meios que, evidentemente, são incompatíveis com a natureza e o modo de agir de Deus.

Como o Antigo Testamento, o Novo Testamento ensina que devemos ser criteriosos na escolha dos meios que utilizamos ou com os quais nos envolvemos.

Nem todos os meios ou recursos são benéficos em termos de formação do caráter nem são compatíveis com a elevada natureza e propósito da obra que nos foi confiada pelo Senhor.

Como Deus considera a Sua mensagem

Se, de fato, buscamos, em primeiro lugar, o reino de Deus e Sua justiça (Mateus 6:33), o caráter exaltado da mensagem que nos foi confiada e o poder e glória que devem acompanhar sua proclamação farão parte de nossos parâmetros ao decidir adotar um recurso ou nos envolver em um projeto.

Na visão de João em Apocalipse 10, nosso Senhor Jesus assume a forma de um mensageiro celestial para comunicar à igreja, na pessoa de Seu servo, a comissão evangélica para o tempo do fim. Trata-se do evangelho como ele sempre tem sido, mas aqui o Anjo forte enfatiza sua aplicação especial para essa geração.

O fato de nosso amado Salvador não enviar um anjo, mas Ele mesmo apresentar-Se como mensageiro celestial para comunicar pessoalmente à igreja do tempo do fim uma nova comissão revela a natureza exaltada de Sua mensagem.

Em outras palavras, na visão, é o próprio Senhor Quem entrega a mensagem! Isso deveria nos fazer refletir sobre a santidade, a sublimidade e a magnificência da obra que Ele está confiando ao remanescente do tempo do fim!

E a própria mensagem é representada pela figura de anjos celestiais, testificando da pureza, glória e poder que a cercam (Apocalipse 14:6-12)! Por sua incomparável natureza, esta mensagem única, singular e toda-suficiente deve encher a terra com a glória que procede do trono de Deus (18:1)!

Comentando sobre a mensagem do primeiro anjo, Ellen G. White observou em O Grande Conflito, p. 355.2:

É significativo o fato de afirmar-se ser um anjo o arauto desta advertência. Pela pureza, glória e poder do mensageiro celestial, a sabedoria divina foi servida de representar o caráter exaltado da obra a cumprir-se pela mensagem, e o poder e glória que a deveriam acompanhar. E o voo do anjo "pelo meio do céu", "a grande voz" com que é proferida a advertência, e sua proclamação a todos os "que habitam sobre a Terra", "a toda a nação, e tribo, e língua, e povo", evidenciam a rapidez e extensão mundial do movimento.

Em II Coríntios 10:4-6, o apóstolo Paulo escreveu:

Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão.

Os meios não são menos importantes do que os fins, especialmente tendo em vista a natureza de nosso chamado e o caráter de nossa mensagem.

Como a história de Israel demonstra, desviar-se em um único ponto das condições da aliança de Deus pode determinar nossa ruína.

Multiplicar respostas não verdadeiras para justificar escolhas precipitadas apenas nos faz sentir mais seguros em nossos erros. Urge evoluir a mente em direção ao padrão mais elevado, em lugar de reduzi-lo para adequá-lo à mente (Romanos 12:1-2).

Conclusão

Robert Gore escreveu: "O compromisso entre o bem e o mal significa morte para o bem".

Não há nas Escrituras exortação mais enfática do que sobre a necessária distinção que deve existir entre o povo de Deus e o mundo. Essa distinção foi estabelecida pelo Senhor em Gênesis 3:15 e constitui a fundamento de todas as exortações bíblicas nesse sentido.

Significa que não pode haver nenhum acordo, nenhum arranjo entre Cristo e Satanás, entre os servos de Deus e seus métodos e as forças satânicas e seus métodos, visto que o conflito iniciado no Céu e que se estendeu à terra procede dessa inimizade.

Em sua rebelião contra o Filho de Deus, a "antiga serpente" não pôde tocar-Lhe a cabeça, mas está determinada a tocar a mente dos seguidores de Jesus, de modo a estimular a inimizade que há no coração humano caído para resistir à salvação proporcionada a tão elevado custo.

Somente o Autor da promessa feita no Éden pode implantar no coração a inimizade contra Satanás e o pecado e despertar na alma o desejo de viver segundo o coração de Deus (Ezequiel 36:26-27).

Que cumpramos as condições estipuladas pelo Senhor em Sua promessa para conceder-nos Sua bênção!

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4 comentários:

  1. Querido irmão, gostaria de sugerir que coloque a sua biografia no blog. Acabei de ler o seu artigo. Achei bem fundamentado, mas gostaria de saber também a sua formação.

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    1. Olá, irmã Amanda! Obrigado por seu comentário e pela sugestão! Vou atualizar o meu perfil. Sou licenciado em História pela Unisa, com pós-graduação em História das Religiões pela Unicsul. Um abraço fraterno!

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  2. Querido irmão, gostaria de sugerir que deixe a sua biografia no blog. Acabei de ler este artigo. Achei muito bem fundamentado, mas gostaria de saber a sua formação.

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  3. Bom dia irmãos gostei muito desse testo vou estudar todos

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