sábado, 28 de novembro de 2020

Sobre aqueles que não mencionamos

Li recentemente um livro em formato digital que tem causado certo desconforto em nosso meio. A obra representa o último capítulo da saga pessoal de seu autor, que culminou com a sua dispensa do ministério.

Embora eu discorde de algumas questões abordadas no livro, particularmente as do capítulo quinze, se alguém me pedisse para resumi-lo em uma única sentença, eu o faria mencionando as palavras de nosso Senhor Jesus em Marcos 4:22: "Pois nada está oculto, senão para ser manifesto; e nada se faz escondido, senão para ser revelado".

E isto é especialmente verdadeiro nestes tempos de internet, das redes sociais, que são como caixas de ressonância para nossas tragédias e escândalos. É "inevitável que venham escândalos", disse Jesus, "mas ai do homem pelo qual vem o escândalo!" (Mateus 18:7).

A referida obra trouxe a lume a discussão sobre a necessidade de uma reforma administrativa abrangente. O que penso sobre reformas é menos importante do que seu potencial latente de transformar tudo ao seu redor. Uma reforma pode ser boa ou ruim segundo o espírito que a motiva e as ideias que a sustentam.

Assim, quando consideramos esses dois fatores à luz do grande conflito, o tipo de reforma subentendido, por exemplo, no discurso ruidoso de um de nossos mais influentes historiadores e educadores sobre como uma administração deveria ser pode não resultar no melhor interesse da igreja.

Minha sincera expectativa é que o autor do polêmico livro não tenha sido influenciado pelas ideias daquele professor emérito da Andrews ao propor uma reforma administrativa.

Uma reforma é, sem dúvida, necessária, mas ela tem menos relação com a estrutura organizacional em si (a qual foi divinamente estabelecida) do que com a forma pela qual tem sido gerenciada (nem sempre por pessoas que Deus chamou).

O que me constrange a olhar para o verdadeiro problema que nos aflige: administradores tecnicamente capazes, mas que sofrem de uma forma específica de declínio espiritual, que Eric Voegelin, em Hitler e os Alemães, chamou de estupidez; a autodivinização que coloca a própria vontade no centro do universo e que leva inevitavelmente à regressão da racionalidade e à desumanização.

Voegelin desenvolve sua percepção sobre este tipo particular de estupidez citando Robert Musil, escritor austríaco, que distingue entre a estupidez honrada ou simples - relacionada a uma falta de entendimento, mas não necessariamente de honra - e a estupidez elevada ou inteligente - que consiste em um defeito do espírito, não da mente.

A estupidez elevada, diz Musil, "atreve-se a realizações que não tem direito", e aqui, observa Voegelin, vê-se o elemento de atrevimento, de arrogância espiritual.

Para caracterizar essa estupidez elevada, o filósofo alemão cita uma passagem de Musil, que aqui reproduzo abreviadamente:

Essa estupidez elevada é a verdadeira doença da cultura... e descrevê-la é uma tarefa quase infinita. Alcança a mais alta esfera intelectual... não há absolutamente nenhuma ideia significante que a estupidez não saiba como empregar; a estupidez é ativa em todas as direções e pode vestir-se com todas as roupas da verdade. A verdade, por outro lado, tem para todas as ocasiões apenas um vestido e um caminho, e está sempre em desvantagem. A estupidez a que isso se refere não é uma doença mental, mas é a mais letal; uma doença perigosa da razão que põe em perigo a própria vida.

Portanto, só a estupidez elevada podia conceber a desconcertante cena de um ministro do evangelho entrevistando uma jovem pela suposta virtude de sua fé ao guardar o sábado durante um reality show, sem considerar o fato de que a tal moça jamais deveria ter participado de um programa sexualmente apelativo.

Só da estupidez elevada podia nascer o despropósito de alcançar os romeiros de Aparecida utilizando uma estratégia que os estimula a continuar fazendo exatamente o que fazem, ou a insensatez de reunir multidões de adolescentes em uma arena e animá-los com iluminação, som e ondas de entusiasmo coletivo suficientes para inibir a atenção e a contemplação e esperar obter o efeito contrário.

E, finalmente, só da estupidez elevada podia nascer apologias tão desqualificadoras, que confundem drama real com drama teatral, música sacra com música popularesca, ou que chamam de santo aquilo que Deus declarou imundo.

Estes poucos exemplos demonstram o retrocesso espiritual de grande parte de nossa liderança, a "doença perigosa da razão que põe em perigo a própria vida" da igreja. Por isso mesmo, esperar que os líderes que sofrem desse mal ouçam o diagnóstico e mudem de atitude é um verdadeiro exercício de otimismo.

Como Voegelin observa em outra parte de Hitler e os Alemães:

O homem vive naquilo que imagina, e o que ele imagina toma o lugar da realidade, e desta realidade que ele imagina segue-se que ele está justificado de dizer coisas estúpidas acerca de questões religiosas. Então, se eu imagino coisas que são suficientemente estúpidas, estou assim justificado por tudo o que segue como resultado de minha estupidez.

A imaginação, neste caso, é a expressão de uma recusa sistemática de perceber a realidade. Essa recusa "não é pura ignorância, mas um desejo deliberado de não compreender".

Os que sofrem desta estupidez substituem a realidade e a experiência da realidade por uma falsa imagem da realidade, a qual, no entanto, dizem ser a realidade genuína, justificando suas ações a partir dessa percepção.

Isso explica, em parte, por que há em nossas fileiras líderes que, como os habitantes da antiga Nínive, "não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda" (Jonas 4:11).

Ora, para os que se encontram nessa condição, sem, contudo, admiti-la, a leitura atenta de Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, p. 259, parágrafos 1 e 2 e 260, parágrafo 1; p. 350, parágrafo 1; p. 402, parágrafos 2 e 3, e 403, parágrafo 1; e p. 417, parágrafo 3, e 418, parágrafo 1, será bastante instrutiva.

Estes textos dizem, em síntese, que o sujeito que não sabe fazer a distinção entre o santo e o comum não deve estar à frente da obra do Senhor, para que não exerça um efeito nocivo sobre os demais com sua vida não consagrada. A menos que reconsidere sua posição, poderá fazer qualquer outra coisa que desejar, exceto ser um ministro na vinha do Senhor.

Com efeito, a necessária reforma deve ser precedida de um urgente reavivamento da primitiva piedade entre nós sob o Espírito Santo, e esta obra precisa começar na liderança! Sem reavivamento espiritual, nenhuma reforma verdadeiramente benéfica será eficiente nem duradoura.

Em Mensagens Escolhidas, Vol. 1, p. 128.1, Ellen G. White escreveu:

Precisa haver um reavivamento e uma reforma, sob a ministração do Espírito Santo. Reavivamento e reforma são duas coisas diversas. Reavivamento significa renovamento da vida espiritual, um avivamento das faculdades da mente e do coração, uma ressurreição da morte espiritual. Reforma significa uma reorganização, uma mudança nas ideias e teorias, hábitos e práticas. A reforma não trará o bom fruto da justiça a menos que seja ligada com o reavivamento do Espírito. Reavivamento e reforma devem efetuar a obra que lhes é designada, e no realizá-la, precisam fundir-se.

O tempo presente é um tempo incomum, que exige de nós um senso de urgência e uma maior abnegação do que têm sido demonstrados até aqui.

É tempo de suspirar e gemer por causa de todas as abominações que se cometem no meio de "Jerusalém" (Ezequiel 9:4).

É tempo de "os sacerdotes, ministros do Senhor", chorarem "entre o pórtico e o altar", e orarem: "Poupa o teu povo, ó Senhor, e não entregues a tua herança ao opróbrio, para que as nações façam escárnio dele. Por que hão de dizer entre os povos: Onde está o seu Deus?" (Joel 2:17).

Para melhor compreender a importância do reavivamento e reforma neste tempo solene, recomendo a leitura do artigo "A maior e mais urgente necessidade".

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