Blog dedicado ao estudo de Apocalipse 14:6 a 12.

sábado, 18 de junho de 2016

É tempo de despertar

Antes que as três mensagens angélicas sejam proclamadas ao mundo (Apocalipse 14:6), elas devem primeiro exercer sua influência reavivadora e santificadora entre o professo povo de Deus. Neste sentido, o último apelo divino na voz dos três anjos se une à exortação da Testemunha Fiel e Verdadeira na obra de despertar a última geração de crentes, representada por Laodiceia (Apocalipse 3:14-22), e prepará-la para ser um povo "exclusivamente seu, zeloso de boas obras", remido de suas iniquidades e purificado de seus pecados (Tito 2:14).


A relação entre a mensagem que tira as pessoas de Babilônia e as conduz a Cristo e Sua igreja e a mensagem que tira a Babilônia do meio do povo de Deus é evidente em virtude do anúncio do juízo. O anjo portador do evangelho eterno é o mesmo anjo que anuncia o juízo (Apocalipse 14:7), no grego, krisis, significando o "ato de julgar", e não a sentença resultante do processo de julgamento, neste caso, krima, como em Apocalipse 17:1.

O apóstolo João se refere, portanto, a um juízo de natureza investigativa que necessariamente deve preceder a sentença ou veredicto final por ocasião da vinda de nosso Salvador, quando então Ele retribuirá a cada um segundo as suas obras (II Coríntios 5:10; Apocalipse 22:12). Este juízo pré-advento teve início quando Cristo acrescentou à Sua obra de intercessão no santuário celestial uma obra de julgamento, ao passar do Lugar Santo para o Santíssimo em 1844 (sobre isso, clique aqui). Esta obra começa com o povo de Deus (Ezequiel 9:6; I Pedro 4:17) e se relaciona especialmente com a última igreja de Cristo, a moderna Laodiceia, cujo nome significa "um povo julgado".

Revisitando Laodiceia

Em uma postagem anterior, consideramos de forma genérica a mensagem de Cristo à Laodiceia, mas hoje gostaria de compartilhar com o leitor algumas impressões sobre certos aspectos particularmente perturbadores relacionados à opulência e autonomia que caracterizam esta igreja, e diante dos quais a exortação da Testemunha Fiel se torna ainda mais urgente.

Os laodiceanos modernos têm uma autopercepção supervalorizada de si mesmos; consideram-se ricos (tanto do ponto de vista material como espiritual) e, além disso, abastados, como se a riqueza da qual desfrutam tivesse sido adquirida unicamente com base em seus próprios esforços. Em tom arrogante, eles declaram não precisar de coisa alguma, que não há mais nada que possa melhorar sua atual condição (Apocalipse 3:17). Diante desse quadro, parece quase impossível que a obra regeneradora do Espírito Santo se faça sentir na igreja, porque seus membros não possuem qualquer senso de sua real necessidade (verso 18).

Em seu livro A Ética Protestante e o "Espírito" do Capitalismo, Max Weber escreve:

Temo que onde quer que a riqueza tenha aumentado, na mesma medida haja decrescido a essência da religião. Por isso não vejo como seja possível, pela natureza das coisas, que qualquer reavivamento da verdadeira religião possa ser de longa duração... Se aumenta a riqueza, aumentam também orgulho, ira e amor ao mundo em todas as suas formas. (1)

Nada pode ser mais verdadeiro no que se refere à geração de crentes representada por Laodiceia. Muita prosperidade resulta inevitavelmente em soberba da vida, complacência própria e amor às coisas do mundo, e dificilmente pode favorecer um verdadeiro reavivamento da primitiva piedade. Mas riqueza aqui é, antes de tudo, um reflexo do espírito da época. Ela não diz respeito somente ao produto da diligência pessoal de cada membro; trata-se, porém, de uma riqueza que traduz uma disposição muito especifica.

Laodiceia e o espírito do tempo

O leitor deve se lembrar de que a Laodiceia original era uma cidade de mercadores e banqueiros bem sucedida e versátil, capaz de adaptar-se às necessidades e desejos de outros e, portanto, sempre flexível e conciliadora, repleta do espírito de comprometimento. (2) Se a democracia fosse medida exclusivamente pela mentalidade de mercado, a antiga Laodiceia estaria entre as cidades mais democráticas de seu tempo, desde que seus frequentadores dispusessem de capital suficiente para desfrutar das vantagens oferecidas. Pode-se imaginar a partir da repreensão do Senhor o quanto a igreja em Laodiceia foi influenciada pelo espírito de seus habitantes.

Os laodiceanos de hoje sofrem influência semelhante, tendo em vista que também estão inseridos numa sociedade de mercado (mais complexa, evidentemente) cuja característica mais marcante é a sua capacidade de se acomodar às mais diferentes demandas e desejos. Em outras palavras, a sociedade de mercado aceita tudo, adapta-se a tudo e não contradiz ninguém!

Luiz Felipe Pondé, em uma palestra proferida durante o VI Congresso Brasileiro de Filosofia da Religião e intitulada "Religião e Mídia: Espiritualidade como Commodity" (3), referiu-se a uma espiritualidade de consumo como reflexo de uma sociedade de mercado focada no indivíduo autônomo, secularizado e acostumado a escolher coisas. A espiritualidade de consumo é uma espiritualidade cada vez mais dissociada de religiões institucionais, aberta a variadas fontes religiosas e aos elementos que ela vai buscar para servir ao seu consumidor.

Essa espiritualidade de commodity não aceita o contraditório. Tudo o que ela não quer é o contraditório. O mais importante é a convivência e o respeito mútuo, pois sempre é possível concordar em algum ponto mediante o diálogo. Por esta razão, segundo Pondé, o diálogo inter-religioso tem tudo a ver com a sociedade de mercado, são irmãos gêmeos [esse fenômeno abre caminho para o compartilhamento indiscriminado de diferentes conceitos de adoração e espiritualidade, especialmente os de origem oriental].

Uma vez que o sujeito individualizado é uma pessoa que vive a partir de suas escolhas, que não lida muito bem com instituições religiosas que apresentam uma carta de princípios, e que busca uma espiritualidade que lhe proporcione segurança, as igrejas se veem diante da necessidade de se redefinir como modo de atrair pessoas, a fim de sobreviverem à competição da secularização [neste caso, chamar o pecado pelo nome, por exemplo, não agrega valor]. A espiritualidade de consumo se vê obrigada a ceder às muitas variáveis, e, assim, a igreja que quer ter sucesso numa cidade grande deve agregar serviços que não são tradicionalmente encontrados em uma igreja convencional [academia de ginástica, espaços de entretenimento, etc.], de modo a suprir demandas espirituais e afetivas específicas, especialmente entre os jovens.


Bill Hybels, pastor da Comunidade de Willow Creek e um dos grandes nomes do movimento de crescimento de igrejas. De onde vêm nossas atuais estratégias de evangelização?


É o avanço da modernização, o processo de avanço da sociedade de mercado, a causa da destruição paulatina das normas religiosas. Esse processo lento e gradual da diminuição da pressão da doutrina sobre os indivíduos começou na década de 1960 e provocou uma mudança no modo como as igrejas alcançam pessoas secularizadas. Desde que as escolhas do indivíduo autônomo estão mais centradas em suas necessidades, sua espiritualidade não deve representar um obstáculo a suas escolhas; deve, na verdade, facilitá-las.

A espiritualidade secularizada requer, portanto, uma religião commoditizada, em resposta às demandas de uma sociedade que evoluiu para indivíduos que escolhem. Neste cenário, as religiões também evoluem no sentido de serem identificadas como marcas, agirem como marcas e usarem ferramentas de marketing para conseguirem sobreviver no mercado. Afinal, os indivíduos têm agora o poder de escolherem os que eles querem, incluindo identidade religiosa, prática e crença. Como a sociedade contemporânea tende ao raso, ao superficial, o consumidor de espiritualidade é alguém que quer a resposta mais rápida, mais agradável e menos contraditória. É precisamente essa nova espiritualidade, desprovida de substância, que veio substituir a New Age.

Estratégias erradas em nome do que é certo

Este fenômeno laodiceano e quase onipresente que é a nova espiritualidade também tem cobrado o seu preço entre nosso povo, os adventistas do sétimo dia. Mencionarei apenas um exemplo.

Em um artigo publicado na revista Ministry, em seu número de novembro de 2008, intitulado "Reaching the secular world" (Alcançando o mundo secular), há o seguinte comentário:

A questão é, portanto, o que a igreja deve fazer em termos de estender sua missão e evangelismo de modo a alcançar essas pessoas? Tim Wright sugeriu que, ao tentar alcançar as pessoas sem igreja, as congregações fariam bem em encontrar formas experimentais, pertinentes para compartilhar a verdade do evangelho. As pessoas não só querem saber sobre Deus; elas querem experimentar Deus. A questão não é apenas a verdade, mas a relevância. Será que o evangelho faz sentido? Será que tem algo a dizer sobre a minha vida? Ele pode fazer a diferença? (4)

Um parágrafo adiante, o articulista acrescenta:

À medida que envolvemos o mundo e nossa cultura com as reivindicações do evangelho, nós devemos entender que, na maioria das vezes, eles não são mais influenciados por formas tradicionais de evangelização e métodos de divulgação. Consequentemente, a igreja deve ser intencional e culturalmente relevante no ministério, adoração e evangelismo.

Expressões como "formas experimentais e pertinentes", "experimentar Deus", "relevância", "igreja intencional e culturalmente relevante" refletem claramente como o fenômeno generalizado da espiritualidade de consumo tem afetado o modo como nos identificamos tradicionalmente como igreja e nosso papel no mundo. Elas evocam mudanças significativas na forma como nos relacionamos com Deus e com Sua Palavra e na maneira como alcançamos os pós-modernos com a mensagem da salvação. Essa mudança na identidade e missão da igreja se impõe em face das demandas espirituais contemporâneas, focadas nas necessidades percebidas do indivíduo que escolhe, e que induzem seus membros a se redefinirem para satisfazer a essa procura. O referido artigo prossegue, dizendo:

O nosso sucesso ou fracasso nesse momento, como adventistas do sétimo dia, dependerá de nossa atitude e vontade de romper com a tradição e os métodos ineficazes. Um tempo de mudança chegou, e uma nova visão que conduzirá ao ministério intencional todos os níveis de nossas estratégias de crescimento da igreja.

Certamente, estas estratégias de crescimento não são nem baseadas na Palavra de Deus nem dirigidas pelo Espírito Santo, embora tenham um verniz cristão e produzam resultados imediatos. Na verdade, elas são inspiradas mais em técnicas de gestão empresarial e nas ciências do comportamento do que num claro e indefectível "Assim diz o Senhor", e sua meta é obter resultados rápidos, descomplicados e tangíveis, de modo a atender as expectativas do consumidor. Este precisa tão somente experimentar Deus, e não ser confrontado com uma verdade que desafia o pecador a compreender sua aflitiva condição e buscar em Cristo perdão e santificação.

O autor, citando textualmente as palavras de Alfred McClure, ex-presidente da Divisão Norte-Americana dos Adventistas do Sétimo Dia, escreve:

Não devemos esperar que os que estão fora da igreja venham até nós dentro de nossos termos e se ajustem a nossa cultura singular... É imperativo que nós estejamos dispostos a elaborar odres novos para servirem como veículos para a Água da Vida... Devemos ser intencionais sobre como alcançar aqueles que falam outra língua - étnica ou culturalmente - mesmo que isso signifique o plantio de um novo e diferente tipo de igreja.

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz

Sempre acreditei que "nossos termos" e "nossa cultura singular" derivassem de nossa compreensão profética a respeito da origem e propósito da igreja remanescente no mundo. Negar essa herança e responsabilidade concedidas por Deus a Seu povo em nome de uma espiritualidade commoditizada, alheia e até mesmo refratária à espada do Espírito, significa comprometer nossa identidade e, consequentemente, nossa vocação num momento da história em que elas mais precisam ser reafirmadas mediante a influência e o poder Cristo, nosso Senhor.

Mas a adoção desta visão enviesada de igreja e missão, dessa estratégia maquiavelista, de permissividade pragmática e politicamente correta que pretende satisfazer as demandas de um consumidor ávido por experiências existencialistas com Deus e que busca resultados tangíveis, imediatos e, de preferência, não contraditórios é a prova definitiva do quanto nós, modernos laodiceanos, somos miseráveis, pobres, cegos e nus, absolutamente carentes da presença da justiça e do poder de Cristo.

Não obstante, há aqueles que sustentam, em favor da mudança, os muitos frutos que dela poderiam advir e o quanto a igreja de Cristo seria beneficiada, tornando-se relevante no mundo pós-moderno (deveríamos considerar, contudo, a qualidade destas conversões, e não sua quantidade). E de fato, a estratégia pragmática, adaptada ao gosto do consumidor, funciona, e, por isso, é utilizada. Porém, como lembra Richard Wurmbrand, o sucesso confirma tanto o erro como a verdade. Os feiticeiros também são bem sucedidos, muitas vezes. No final das contas, o sucesso não prova coisa alguma. (5)

Ellen G. White escreve:

Encontramo-nos em constante perigo de colocar-nos acima da simplicidade do evangelho. Há intenso desejo da parte de muitos, de causar sensação ao mundo com alguma coisa original, que exalte o povo a um estado de êxtase espiritual, e mude a presente ordem de conhecimento pessoal. Há, certamente, grande necessidade de uma mudança na presente ordem de experiência; pois a santidade da verdade presente não é apreciada como devia ser, mas a mudança de que necessitamos é uma mudança de coração, e só pode ser obtida buscando individualmente a Deus em procura de Sua bênção, pleiteando com Ele por Seu poder, orando fervorosamente para que Sua graça venha sobre nós, e para que nosso caráter seja transformado. Esta é a mudança de que necessitamos hoje, e para cuja realização devemos exercer perseverante energia e manifestar sincera resolução. (6)

O apóstolo Paulo diz:

Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão. (II Coríntios 10:4-6)

Em seu precioso conselho à igreja de Laodiceia, nosso Salvador oferece a todos os que derem ouvidos à Sua repreensão e exortação os inestimáveis recursos provenientes dos arsenais do Céu: "ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas" (Apocalipse 3:18).

O ouro representa o amor e a fé não misturados com nenhuma coisa impura (Gálatas 5:6; I Timóteo 6:18; Tiago 1:2-5; 2:5); as vestes nupciais, a justiça de Cristo, as quais homem algum pode comprar, emprestar ou confeccionar para si mesmo (Mateus 22:11; Gálatas 3:27; Apocalipse 19:8); e o colírio, o verdadeiro e necessário discernimento espiritual, obra do Espírito Santo (João 16:8-11).

Atenderá a igreja de Deus à Sua repreensão e conselho? Abrirá as portas do coração em sincera humilhação e arrependimento em resposta à Graça que perdoa, santifica e transforma para a vida eterna?

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz à igreja.


Notas e referências

1. Max Weber. A Ética Protestante e o "Espírito" do Capitalismo. Edição de Antônio Flávio Pierucci. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 159.

2. Roy A. Anderson. Revelações do Apocalipse. Segunda Edição. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988, p. 53.

3. Luiz Felipe Pondé, "Religião e Mídia: Espiritualidade como Commodity". Palestra apresentada durante o VI Congresso Brasileiro de Filosofia da Religião, de 27 a 30 de outubro de 2015, na Universidade de Brasília - UnB - Brasília, DF. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KG01Eg9ZgEk

4. Ernan Norman, "Reaching the secular world". Ministry: International Journal for Pastors, novembro de 2008.

5. Richard Wurmbrand. Marx and Satan. Westchester, ILL: Crossway Books, 1990, p. 10.

6. Ellen G. White. Mensagens Escolhidas, vol. 2. Terceira Edição. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988, p. 23.

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