Por L. H. Lehmann
Este artigo foi extraído da edição de 1944 da revista Converted Catholic Magazine, da qual o ex-padre Leo Herbert Lehmann (também conhecido como L. H. Lehmann) é o editor. O texto foi disponibilizado online originalmente em formato PDF pela LutheranLibrary.org.
O MAIOR ENIGMA entre todos os objetivos e atividades da Igreja Católica reside em sua atitude em relação à economia. A confusão gerada por essa postura tende, por um lado, a fazer com que os empresários americanos vejam a Igreja Católica como uma força "conservadora" e, por outro, a fomentar nos círculos trabalhistas a noção generalizada de que ela é uma amiga convicta – quase radical – da classe operária.
Naturalmente, a Igreja Católica não tem interesse em desfazer essa confusão, visto que ela atende aos seus próprios interesses ao impedir que os oponentes de ambos os lados da atual disputa econômica formem uma frente unida contra ela. A maior parte de sua literatura sobre assuntos econômicos, embora forneça indicações claras de seus reais objetivos, é escrita sob medida para o grupo específico a que se destina. As encíclicas papais sobre economia, por exemplo, são redigidas de forma tão astuta que superam todas as demais no uso do que tradicionalmente se conhece como "circunlóquios pontifícios". Semelhantes aos antigos Oráculos de Delfos, elas possuem uma resposta satisfatória para cada lado e deixam a impressão desejada de que a Igreja Católica é tudo para todos os homens.
Para descobrir quais são os verdadeiros objetivos da Igreja Católica no campo da economia, é necessário, primeiramente, examinar o seu contexto histórico e compará-lo com os seus ensinamentos atuais; em seguida, deve-se integrá-los ao seu conceito de uma "ordem perfeita" de governo.
Contexto histórico
A doutrina cristã primitiva não incentivava o acúmulo de riquezas por parte de indivíduos. No entanto, a maneira como a Igreja Católica Romana posteriormente incorporou essa doutrina ao seu pensamento é um exemplo de uma das reviravoltas mais estranhas de sua visão moral e social. Por meio de uma distinção conveniente e sutilmente autojustificável, a Igreja Católica rejeitou com horror o acúmulo de riquezas na forma de dinheiro e mercadorias, mas aprovou e apoiou a riqueza na forma de terras e escravos. Para a mente protestante, é impossível conceber como Jesus Cristo poderia algum dia ter aprovado tal distinção. Contudo, essa diferenciação excêntrica continua a dominar o pensamento econômico da Igreja Católica hoje.
Na época de Jesus, não havia a divisão entre a terra e outras formas de riqueza que ficou evidente no final da Idade Média. O Império Romano era altamente comercializado. A terra era comprada e vendida talvez com a mesma liberdade que atualmente nos países capitalistas. H. G. Wells (Outline of History, vol. 2, pp. 459-460) nos conta:
Nos séculos III e II a.C., essa liberação, esse desatrelamento da riqueza, começou a se fazer sentir na vida econômica geral do mundo romano e helenizado. As pessoas começaram a comprar terras e afins não para uso, mas para vender novamente com lucro; as pessoas pegavam empréstimos para comprar, a especulação se desenvolveu... Todos estavam expandindo propriedades. Os agricultores estavam abandonando os grãos e o gado, fazendo empréstimos, comprando escravos e iniciando o cultivo mais intensivo de óleo e vinho.
O princípio da Igreja Católica que concebia um barão feudal como moral e um homem de negócios como imoral não poderia, portanto, ter vindo dos ensinamentos de Jesus ou dos cristãos primitivos. Mas é bastante fácil perceber como a Igreja Católica adquiriu essa "dupla personalidade" na questão da riqueza. Isso ocorreu pela pressão de duas influências que atingiram o cerne dos dogmas morais da Igreja. A primeira foi o aumento gradual das próprias propriedades da Igreja. A segunda foi a erosão do antigo Império Romano, com o declínio do comércio e o início do período feudal, durante o qual as propriedades da Igreja adquiriram o caráter de feudos. É um fato histórico que o início da servidão e o poder da Igreja Católica ocorreram ambos sob o imperador Constantino, que, de acordo com H. G. Wells (op. cit., p. 551):
tentou criar uma casta de camponeses e pequenos cultivadores, e impedi-los de se mudarem de suas propriedades. Na verdade, ele buscou transformá-los em servos. A oferta de mão de obra escrava havia caído porque o império não era mais uma potência invasora, mas sim invadida; ele recorreu à servidão como remédio.
Um século depois, a Idade das Trevas desceu sobre a Europa. A perda do poder militar romano tornou toda a vida e a propriedade inseguras, e acelerou a formação do sistema feudal, sob o qual cada pessoa se tornava serva ou vassala de um "protetor" poderoso. Bispos tornaram-se senhores feudais; a Igreja casou-se indissoluvelmente com o status quo e, assim, a dicotomia se completou. Foi uma questão simples para os teólogos conceberem a riqueza fundiária e a servidão como algo moral, bom e nobre, mas as práticas comerciais e outras formas de riqueza – que haviam praticamente desaparecido do cenário europeu – como imorais, ignóbeis e destrutivas da ordem social. O preconceito cristão primitivo contra a riqueza em qualquer forma foi, assim, convenientemente diluído em uma condenação apenas das manifestações comerciais e externas da riqueza. À substância da riqueza – a posse de terras e o trabalho dos servos – foi concedida a aprovação da Igreja. Foi fácil encontrar provas metafísicas de que tal sistema econômico estava em harmonia com o que as encíclicas papais hoje constantemente chamam de "ordem da natureza".
Se alguém pensa que a Igreja Católica hoje abandonou seu objetivo de trazer o mundo de volta às condições feudais da Idade Média, ou foi enganado pela natureza oracular dos pronunciamentos pontifícios sobre economia, ou falhou em ler corretamente os escritos dos principais economistas da Igreja Católica na América. O falecido Monsenhor John A. Ryan, por exemplo, a quem alguns dos críticos mais severos da Igreja Católica consideram um dos maiores defensores do liberalismo católico, afirma o seguinte em seu livro-texto oficial, Catholic Principles of Politics (p. 167):
Afinal de contas, as visões econômicas liberais da Encíclica sobre o Trabalho do Papa Leão, o Programa de Reconstrução Social dos Bispos e a declaração dos Arcebispos e Bispos do Conselho Administrativo da N.C.W.C. são mais conservadoras do que as visões e políticas às quais se opõem, pois retornam, em espírito e essência, à Idade Média.
Além disso, não importa o quanto isso seja rejeitado ou negado, a colaboração do Vaticano com os ditadores do Eixo, a condenação aberta do capitalismo moderno por porta-vozes católicos que a acompanhou, a aprovação do Estado Corporativo na conhecida Encíclica Quadragesimo Anno do Papa Pio XI e a defesa desse mesmo Estado pela hierarquia católica da América em seu pronunciamento sobre "A Igreja e a Ordem Social" em 1940 – quando os ditadores do Eixo estavam conseguindo tudo o que queriam – eram todas partes do objetivo da Igreja Católica de ajudar a restaurar a "ordem da natureza" econômica que existia na Idade Média. Foi nessa época também, em abril de 1940, que a influente revista jesuíta America ecoou o chamado para "um retorno a uma ordem social integral, cujos princípios ainda estão preservados em nossa lânguida memória do grande experimento medieval". Toda a ideia de Hitler, segundo o padre Edmund A. Walsh, geopolítico jesuíta da Universidade de Georgetown, era também restaurar o Sacro Império Romano da Idade Média.
A virtude que a Igreja Católica via no programa do fascismo era a sua determinação em derrubar o sistema capitalista das "democracias plutocráticas", as quais os porta-vozes católicos sempre condenaram como filhas de Calvino e da Reforma Protestante.
A influente revista jesuíta America, de 17 de maio de 1941 (seis meses antes de Pearl Harbor), expressou a questão desta maneira:
Como nós, católicos, detestamos e desprezamos esta civilização de Lúcifer, esta criação nacionalista daqueles homenzinhos que se recusaram a dobrar o joelho ou curvar a cabeça em submissão a uma autoridade superior... Hoje, pede-se aos católicos americanos que derramem seu sangue por esse tipo específico de civilização secularista que eles têm repudiado heroicamente por quatro séculos. Esta civilização agora é chamada de democracia, e sugere-se que enviemos os ianques à Europa novamente para defendê-la... Todos os ianques da América não a salvarão da desintegração. A menos que ocorra um milagre, ela está condenada... final e irrevogavelmente condenada.
A visão católica da superioridade do século XIII sobre o nosso século XX é expressa de forma pungente pelo padre jesuíta Robert Gannon, presidente da Universidade Fordham, quando lhe perguntaram sua opinião sobre a bomba atômica:
Não se pode confiar isso à nossa geração selvagem. Tal poder de destruição teria sido um risco social até mesmo no civilizado século XIII.
Tomás de Aquino
O sistema econômico feudal estava em harmonia com o conceito hierárquico de autoridade da Igreja Católica. O rei encontrava-se no degrau mais alto da escala terrena e era o governante absoluto de todas as coisas materiais. Toda a terra pertencia a ele; os demais possuíam terras meramente em feudo concedido pelo rei. Na verdade, ninguém além do rei podia ser proprietário definitivo de terras. [1]
Em assuntos espirituais, o Papa era o chefe indiscutível, mas, como a ordem espiritual é considerada superior a qualquer elemento da ordem material, o Papa incluía o rei e todas as coisas materiais também sob o seu domínio.
O século XIII encontrou a Igreja Católica em pleno domínio do mundo ocidental, controlando um terço de todas as terras da Europa [2]. Até então, apesar de lutas intermináveis entre o Papado e os governantes temporais, a Europa estava completamente congelada do ponto de vista econômico no molde feudal. Tudo era estático. Havia pouco comércio ou atividade mercantil como os conhecemos hoje; nenhum progresso de qualquer espécie nas coisas materiais. Esse estado "estático" da sociedade adequava-se perfeitamente à ideologia da Igreja Católica, visto que mudanças revolucionárias de qualquer tipo trazem novas ideias na religião e no governo e, por conseguinte, são sempre temidas pelos governantes da Igreja.
Contudo, no século XIII, iniciou-se uma expansão do comércio e um aumento do uso do dinheiro – os primeiros impulsos daquilo que mais tarde ficaria conhecido como a revolução industrial. A Igreja enfrentou, então, a necessidade de se conciliar de alguma forma com a mudança e, ao mesmo tempo, de controlar essa nova força. O homem que efetuou essa conciliação e salvou temporariamente a estrutura da Igreja foi Tomás de Aquino, o maior teólogo da Igreja Católica. O que Aquino fez foi, por um lado, ajustar os princípios morais e éticos católicos sob os quais a compra e a venda seriam justificadas; por outro, controlar as possibilidades revolucionárias da nova ideia comercial, de modo que ela não alterasse substancialmente nada nos dogmas religiosos da Igreja ou em seu sistema hierárquico de autoridade. Na verdade, ele fixou em moldes ainda mais rígidos do que antes tanto os dogmas da Igreja quanto os princípios do governo civil. Esses conceitos ético-econômicos de Aquino, aplicados pela Igreja e pelos reis que agiam sob o seu domínio, controlaram a vida econômica e social da Europa até que a Reforma, no século XVI, varreu a maior parte deles como obstruções ao verdadeiro progresso espiritual e industrial.
A necessidade dessa mudança na perspectiva econômica da Igreja no século XIII é claramente explicada por John W. McConnell, em sua obra The Basic Teachings of the Great Economists (p. 176), da seguinte forma:
Mas no mesmo século em que Aquino viveu, o Décimo Terceiro, o comércio e a atividade mercantil, com suas demandas por dinheiro e crédito, aceleravam-se em um ritmo rápido. Apesar dos postos de pedágio, das leis contra o comércio, da oposição da Igreja e das restrições arbitrárias dos senhores feudais, o pequeno bando de comerciantes que se deslocava pela Europa durante a Idade Média transformou-se agora em uma poderosa multidão de mercadores.
Para atender a essa demanda, Aquino admitiu a necessidade de aceitar a ideia de riqueza e de propriedade privada, com a condição de que estas deveriam ser utilizadas para o "bem social". Ele propôs a ideia de um "preço justo", em oposição aos preços de mercado competitivos estipulados independentemente de pressões morais ou baseados, como antes, nos privilégios que concediam monopólios aos reis e aos seus favoritos na distribuição de mercadorias. Ele também admitiu algumas exceções à anterior condenação categórica da Igreja ao juro sobre dinheiro emprestado.
Embora a reformulação da doutrina econômica católica por Aquino não tenha sido capaz de conter a onda de progresso tecnológico e social e a revolta das massas, suas ideias ainda são utilizadas pela Igreja Católica até os dias de hoje. Elas foram transformadas em um fundamento filosófico sobre o qual a Igreja Católica espera reconstruir a ordem social após o colapso previsto da democracia e do capitalismo. É Aquino quem fala hoje através de cada livro ou panfleto católico que aborda questões econômicas.
A Igreja Católica e o capitalismo
A literatura católica está repleta de defesas da propriedade privada e de ataques ao socialismo e ao comunismo. No entanto, ela também contém denúncias tão violentas ao capitalismo que são igualadas apenas pelas dos radicais mais extremistas. A seguir estão alguns exemplos [3]:
Eis que um leproso veio para o meio de nós e tocou a nós e a nossos filhos com sua mão apodrecida... nossa Santa Mãe a Igreja, que desde o início, até agora, tentou proteger seus filhos do alcance dessa mão, está sendo agora acusada de ser a senhora desse mesmo mal – o Capitalismo.
A revista Columbia, órgão oficial dos Cavaleiros de Colombo, em sua edição de junho de 1945, afirma:
O capitalismo, que o reitor Inge e todos os outros analistas competentes não podem deixar de derivar do calvinismo, causou tamanha devastação, evocou tais tempestades e protestos, engendrou tais tensões que os resultados finais do drama não podem ser previstos.
Essa oposição da Igreja Católica ao capitalismo tem suas raízes na consciência católica do fato de que a hegemonia feudal da Igreja foi desmantelada pelo poder combinado do capitalismo e da Reforma Protestante. Há um reconhecimento adicional do fato de que as ideias socioeconômicas católicas são incompatíveis com uma sociedade progressista, competitiva e móvel. O Padre Benjamin L. Masse, S.J., proeminente expoente jesuíta da ideologia econômica católica, reconhece abertamente essa incompatibilidade. Identificando a hegemonia católica romana com a "lei natural" e a "lei de Cristo", ele enfatiza a contradição entre os dois sistemas da seguinte forma: [4]
Mas o Papa Leão não se contentou com generalidades edificantes. Com pouca consideração pelos capitães de indústria e pelos senhores das finanças... ele derrubou, em nome da lei natural e da lei de Cristo, três heresias básicas do credo liberal – a livre concorrência, a liberdade de contrato e a estultificação do Estado.
Será a Igreja Católica, então, a amiga intransigente do trabalhador?
A Igreja Católica e o trabalho
A estratégia da Igreja Católica para atrair as classes trabalhadoras para o seu lado está em harmonia com a de todos os movimentos "conservadores" e fascistas, claramente exemplificada neste exato momento no plano bem-sucedido do ditador da Argentina, Perón, para conquistar a classe operária. A maneira habilidosa como isso é executado dá a impressão de um movimento reformista, e não revolucionário. A Igreja Católica hoje tenta repetir o que Tomás de Aquino fez por ela no século XIII: conciliar-se, tanto quanto ousa, com as mudanças, mantendo-se dentro da estrutura de seus princípios hierárquicos e autoritários para o governo do mundo. Sua posição estratégica e tática é perfeitamente sintetizada por Harold E. Fey em uma série recente de oito artigos na revista The Christian Century, intitulada "Can Catholicism Win America?" ["O Catolicismo Pode Conquistar a América?"]. O trecho merece ser citado na íntegra:
O plano católico para mudar a ordem industrial tem três objetivos: segurança, propriedade e parceria. Não é por acaso que a estabilidade é o seu primeiro requisito. A propriedade para os trabalhadores dá a eles uma participação na sociedade, e a parceria, uma parcela no controle do processo industrial. Este plano é um composto criado a partir das encíclicas de Leão XIII, Pio XI e Pio XII, apoiado pelo 'Programa de Reconstrução Social' dos bispos americanos de 1919. Seu paralelo mais próximo na organização econômica moderna é o fornecido pelo plano adotado, mas nunca totalmente colocado em prática, por Benito Mussolini na Itália como o 'Estado Corporativo'. Os católicos negam que esse plano, conforme concebido pelos Papas e pela hierarquia americana, seja fascismo. Em vez disso, sustentam que ele estabelecerá, ao lado do mecanismo da democracia política, um método para alcançar a democracia econômica. O plano católico para uma sociedade industrial moderna não é frequentemente exposto de forma simples. A descrição mais sucinta que este escritor já ouviu foi apresentada em uma 'Conferência Católica sobre Problemas Industriais' realizada recentemente em Chicago. Lá, o Reverendíssimo Francis J. Haas, ex-chefe do Comitê de Práticas Justas de Emprego e, mais recentemente, Bispo de Grand Rapids, delineou-o com estas palavras:
'Sob este sistema, todos os empregadores, trabalhadores, profissionais liberais – todos seriam organizados. Eles elegeriam representantes de suas respectivas indústrias ou profissões para negociar por eles, e esses representantes, com representantes do governo orientando-os, mas não ditando ordens, operariam na prática a indústria ou profissão. Assim, a direção do sistema seria tripartite. Os representantes seriam escolhidos a partir de cada uma de três categorias – gestão, trabalhadores e governo.'
Os defeitos desta proposta não devem obscurecer os seus pontos fortes, entre os quais não é o menor o seu reconhecimento da necessidade de organização e a sua consequente força como um instrumento de propaganda para uso entre a classe trabalhadora americana.
Deve-se lembrar que a atitude da Igreja Católica na América em relação a muitas questões é frequentemente diferente de sua atitude e ensinamento sobre os mesmos assuntos na Europa, e às vezes parece até oposta a eles. O fato de ela parecer tomar o partido do trabalhador nos Estados Unidos não deve causar surpresa. A maior parte da população católica chegou aqui como imigrantes sem recursos, numa época em que os colonos protestantes já eram prósperos e estavam bem estabelecidos. A maior parte da riqueza da Igreja nos Estados Unidos provém das contribuições de pessoas bem-sucedidas da classe trabalhadora. Diz-se que a Catedral de São Patrício, em Nova York, foi construída com as contribuições de criadas irlandesas. Por outro lado, nos países europeus assolados pela pobreza, a Igreja deve tudo o que possui a vastas propriedades de terra e à sua aliança e apoio a ricos latifundiários e famílias aristocráticas. Lá, ela não demonstrou o menor desejo de mitigar as condições de pobreza abissal, miséria e ignorância que são o destino das massas do povo comum.
Que a atitude da Igreja Católica em relação à população trabalhadora na Europa está em consonância com os seus verdadeiros ensinamentos pode ser julgado a partir de seus pronunciamentos oficiais, conforme segue:
Sobre os Salários: O Papa Pio XI, em sua tão propalada encíclica Quadragesimo Anno, em apoio ao Estado Corporativo de Mussolini, coloca o trabalhador em seu devido lugar da seguinte forma:
Deixemos que o trabalhador e o empregador façam acordos livres e, em particular, que concordem livremente quanto aos salários; não obstante, subjaz um ditame de justiça natural mais imperioso e antigo do que qualquer barganha entre homem e homem, a saber: que os salários não devem ser insuficientes para sustentar um assalariado frugal e de bom comportamento.
Sem menosprezar a sinceridade das intenções do Papa, fica evidente que suas ambições para o homem trabalhador não são muito elevadas.
Sobre as Condições de Vida: O Papa Leão XIII, em sua encíclica Rerum Novarum, divulgada no mundo inteiro como a "Carta de Liberdade do Trabalho", enfatiza a desigualdade natural que deve sempre existir entre as classes, como segue:
Estabeleça-se, em primeiro lugar, que a humanidade deve permanecer como está... A desigualdade de fortuna é um resultado necessário da desigualdade de condição... Sofrer e suportar é, portanto, o destino da humanidade; por mais que os homens tentem, nenhuma força e nenhum artifício jamais conseguirão banir da vida humana os males que a cercam.
Sobre a Soberania Popular: O Papa Leão XIII condena os governos representativos do povo em sua encíclica Immortale Dei e deixa claro que as massas do povo comum não podem ser concebidas como cidadãos autogovernados e cumpridores da lei, mas apenas como perigosos perturbadores da paz.
Os verdadeiros objetivos econômicos da Igreja Católica
Apesar do que parece ser uma enxurrada de dubiedades nos pronunciamentos católicos oficiais – a favor da propriedade, contra o capital, a favor do trabalho, contra a liberdade, e assim por diante –, seria estrategicamente perigoso e injusto imputar uma falta de sinceridade por parte da Igreja Católica em seu esforço para mudar o mundo a fim de adequá-lo aos seus planos. Nunca é demais repetir que uma organização do tamanho e do poder da Igreja Católica Romana não pode se manter unida por uma teia consciente de mentiras. Tal poder e grandeza crescem apenas a partir da convicção dogmática de absoluta razão e justiça. Para compreender como essa convicção é formada, é necessário juntar as peças dos aspectos aparentemente contraditórios da filosofia católica até que o verdadeiro padrão e o seu objetivo final apareçam.
Nos dois artigos anteriores desta série, a estrutura política e social medieval do catolicismo foi delineada. Se isso for mantido claramente em vista, é fácil perceber que não há realmente nenhuma contradição entre a defesa da propriedade privada por parte da Igreja Católica e o seu antagonismo ao capitalismo.
Os formuladores de políticas da Igreja Católica percebem que uma duplicação exata das relações econômicas medievais não é possível sob as condições tecnológicas atuais. Eles sabem, por exemplo, que nos tempos medievais, embora o rei detivesse os títulos de todas as terras, o controle da Igreja Católica sobre as coisas não era por isso prejudicado – estava, na verdade, mais firmemente entrincheirado. Eles também sabem que hoje, quando governos socialistas assumem a "titularidade" da terra e da indústria, como na Rússia, eles também assumem o controle político completo e rejeitam toda a dominação jurídica da Igreja Católica. Além disso, observam a tendência de todos os poderosos movimentos coletivistas – comunistas, socialistas e outros à esquerda do centro – de se tornarem seculares e anticlericais. Isso acontece até mesmo nos países mais católicos. Na Polônia, por exemplo, o atual Governo Provisório, quase imediatamente após assumir o lugar do Governo Polonês no Exílio (apoiado pelos católicos), renunciou ao Tratado do Vaticano de Pilsudski e decretou que todos os casamentos fossem realizados por registradores civis (embora não proibisse as cerimônias religiosas). Esses decretos favoreceram a nacionalização de todas as indústrias básicas que empregavam mais de 50 pessoas por turno. Na Espanha católica, a mesma coisa teria acontecido se Franco não tivesse esmagado a República de 1931.
Portanto, embora a propriedade estatal não fosse teoricamente incompatível com a ideologia católica – desde que uma estrutura social hierárquica pudesse ser mantida dentro de tal sistema –, os porta-vozes católicos percebem que a tendência moderna ao coletivismo econômico ameaça toda a estrutura da organização de sua Igreja. É por essa razão que a Igreja Católica insiste na defesa da propriedade privada.
O capitalismo, por outro lado, é um perigo tão grande para a estrutura da Igreja quanto o coletivismo econômico. O provérbio americano "De mangas de camisa a mangas de camisa em três gerações" contradiz o tipo de sistema de castas sociais que a Igreja Católica exige para manter o domínio. A história dos países protestantes desde a Reforma prova que laços de controle da Igreja Católica sobre a classe trabalhadora se perdem quando seus membros inteligentes ascendem na escala econômica e social para se tornarem médicos, advogados, cientistas e homens de negócios bem-sucedidos. Tampouco pode ela, por outro lado, reter o antigo apoio das classes mais altas, muitos de cujos membros, como consequência da igualdade de oportunidades, decaem para os níveis mais baixos da sociedade. Todo o corpo político é, assim, transformado e torna-se incontrolável no esquema hierárquico católico. Esta é a principal razão pela qual os porta-vozes católicos condenam a nossa atual civilização na América como caótica, fragmentada, sem Deus e relutante em dobrar o joelho diante da autoridade constituída.
A fórmula
Contudo, os formuladores de políticas católicos não carecem de uma fórmula para enfrentar a situação perigosamente confusa que enxergam no mundo hoje. Como o comunismo ou o socialismo excluiriam inteiramente a hegemonia católica, eles recorrem a uma simples modernização do plano de Tomás de Aquino no século XIII, quando a Igreja enfrentou uma dificuldade semelhante. Essa fórmula para salvar os interesses católicos nesta era tecnológica em transformação consiste simplesmente em: defesa da propriedade privada sob a regulamentação de governos comprometidos em proteger a religião católica. O falecido Monsenhor John A. Ryan expressa isso de forma concisa em seu livro, Catholic Principles of Politics (p. 157):
Entre esses dois extremos, há uma ‘via media’ completamente consistente com a moralidade cristã e com princípios econômicos sólidos. É manifestamente impossível esperar uma boa ordem econômica se os salários, os preços, as condições de trabalho e o bem público forem deixados ao acaso ou aos métodos aleatórios da chamada livre iniciativa.
Trata-se de uma fórmula poderosa, pois coincide com as tendências econômicas naturais. É também uma fórmula perigosa, porque coincide, em grande medida, com o pensamento econômico de muitos liberais, razão pela qual confere à Igreja Católica prestígio em certos círculos liberais onde ela não deveria ter espaço algum. Foi essa fórmula que provocou uma aliança espúria entre dois inimigos naturais – a Igreja Católica e o liberalismo democrático –, com consequências quase desastrosas para este último. É também uma fórmula que deve conduzir inevitavelmente ao Estado Corporativo do fascismo.
Um exemplo desastroso dessa aliança espúria foi o apoio concedido a Franco durante a Guerra Civil Espanhola pela política externa do New Deal, a fim de obter o apoio da Igreja Católica à política interna de Roosevelt naquela época nos Estados Unidos. Os resultados diretos desse compromisso vergonhoso foram a derrubada da República Espanhola, o cerco da França pelo Eixo, o aumento do prestígio nazifascista em todo o mundo e a necessidade, ao final, da maior guerra da história para reparar o erro inicial.
Fica claro que não houve contradição nem hipocrisia no apoio da Igreja Católica às políticas econômicas internas do New Deal e em sua oposição às políticas externas de Roosevelt, com a única exceção da Guerra Civil Espanhola, na qual a nossa política foi ditada pela pressão católica.
O New Deal não apenas se conformava teoricamente aos interesses católicos objetivos. A população católica dos Estados Unidos concentra-se amplamente nas cidades, onde os efeitos do desemprego foram sentidos de forma mais profunda, e os projetos de assistência e trabalho foram de imenso benefício prático para a Igreja. Na política externa, exceto pelo incidente espanhol, a situação era o exato oposto. Nesse campo, a administração Roosevelt apoiava a Inglaterra protestante contra uma Europa que não só era dominada por católicos, mas que havia avançado muito na implementação, sob o fascismo, dos ideais socioeconômicos da Igreja, aproximando-se de sua "visão final".
Os fins últimos dessa fórmula que é mais ou menos comum ao catolicismo romano e ao liberalismo democrático são, por certo, diametralmente opostos. O que os liberais democráticos desejam é simplesmente a intervenção governamental com o propósito de garantir emprego e segurança social para todos. O que a Igreja Católica quer é o Estado Corporativo, do qual as ditaduras do Eixo foram exemplos experimentais. Em um Estado como esse, o monopólio é solidificado e cartelizado, os trabalhadores são arregimentados, as oportunidades econômicas tornam-se limitadas e, por fim, inexistentes, a liberdade para todas as religiões é negada e a Igreja Católica é transformada na religião do Estado, sendo a única protegida por ele. Pior do que tudo, não há mobilidade social, não há ascensão ou queda de indivíduos de uma classe para outra, como ficou evidente no início na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler e, mais tarde, tornou-se permanente por meio de decretos contra a alienação de propriedades rurais e decretos que restringiam o direito dos trabalhadores de mudar de emprego.
Tal Estado se conforma ao Estado integralista e orgânico, onde cada um, como uma célula em um corpo, está fixado em seu "lugar natural", conforme explicado no artigo anterior desta série.
Tampouco há qualquer contradição essencial entre as declarações da Igreja Católica de que o trabalhador deve permanecer pobre e submisso e as suas declarações de que o trabalhador não deve ser oprimido e deve receber um salário digno. A Igreja Católica não quer o pobre oprimido; ela simplesmente quer que o pobre permaneça pobre, isto é, que permaneça em sua própria classe. A Igreja Católica elevou, quase a um artigo de fé, um significado deturpado da frase de Jesus: "Sempre tereis os pobres convosco". Nenhum protestante interpreta essas palavras como algo além de uma declaração literal de um fato histórico e local; jamais como um mandato de Jesus Cristo de que uma classe de pobres deva ser sempre mantida. No entanto, o Papa Leão XIII, em sua chamada "Carta de Liberdade do Trabalho", começa por estabelecer isso como um princípio básico para todos os tempos: "que a humanidade deve permanecer como está".
Assim, a fórmula mágica da Igreja Católica se resume a defender não o tipo de segurança econômica que aboliria a pobreza, mas sim uma espécie de "segurança na pobreza", um tanto semelhante à condição de um servo em uma propriedade bem administrada. O trabalhador deve ser cuidado e, acima de tudo, receber todo o incentivo, inclusive bônus financeiros, para constituir uma família numerosa. Por mais altamente industrializado que fosse o Estado católico ideal, os benefícios, no que diz respeito ao trabalhador, seriam eventualmente anulados pela superpopulação fomentada como uma questão de princípio doutrinário pela Igreja Católica.
A visão final
O contraste entre o objetivo final do liberalismo democrático e o plano católico romano para o governo do mundo é evidenciado nos escritos de Monsenhor Robert Hugh Benson. Seu romance, The Lord of the World [O Senhor do Mundo], foi republicado neste país no ano passado, e os editores afirmam que "sua oportunidade torna o romance de interesse imediato para os cristãos e, particularmente, para os católicos, cuja liderança espiritual no mundo se tornou o principal antagonismo a esse novo modo de vida". A história projeta-se no futuro e retrata um mundo no qual o esclarecimento e o progresso social e científico, sob governos democráticos, eliminaram a maior parte dos males humanos e estabeleceram um alto padrão de vida – exceto em Roma, que está entregue à plena soberania do Papa. A vida sob a soberania papal é descrita na página 127 da seguinte forma:
Então ele começou a governar sua cidade: disse que, no geral, as descobertas recentes do homem tendiam a desviar as almas imortais da contemplação das verdades eternas... Assim, ele removeu os bondes, os volors [veículos voadores], os laboratórios, as manufaturas. Depois, dividiu a cidade em bairros nacionais... Os aluguéis começaram a subir instantaneamente, então ele legislou contra isso, reservando em cada bairro um número de ruas com preços fixos... O restante foi abandonado para os milionários. Em seguida, restaurou a pena de morte; e somou ao crime de homicídio os crimes de adultério, idolatria e apostasia.
Na página 139, o contraste entre a aristocracia e as classes mais baixas, que parece ser necessário onde quer que a Igreja governe, é descrito como segue:
Os verdadeiros romanos possuíam uma multidão de igrejas próprias, tinham permissão para se deliciar em ruas estreitas e escuras e realizar seus mercados... Os orientais assemelhavam-se aos latinos; suas ruas eram tão estreitas e escuras quanto as deles, seus cheiros tão avassaladores, suas igrejas tão sujas e acolhedoras.
Em seguida, na página 143, encontra-se a seguinte apoteose do Papa como o "Senhor do Mundo":
À frente... movia-se o dossel sob o qual se sentava o Senhor do Mundo e, entre ele e o sacerdote... desfilava a suntuosa procissão – Protonotários Apostólicos, Gerais de Ordens Religiosas e os demais – abrindo caminho entre as margens repletas de vida de ambos os lados, com um leque de tons de branco, dourado, escarlate e prateado…
Aqui se manifesta a visão católica da sociedade econômica que, assim como sua visão da sociedade como um todo, é feita de contrastes visíveis: bispos em seda escarlate, trabalhadores em tecido rústico; dama orgulhosa e criada humilde; reis no alto, súditos obedientes abaixo; senhores em castelos, camponeses em cabanas. Trata-se, na verdade, de uma concepção romantizada da vida medieval – a qual foi tudo menos romântica para o povo comum. Para essa visão, a igualdade social é um anátema; um trabalhador ou trabalhadora bem-vestido, algo antiético; e a igualdade social e política de todas as classes e credos, a própria anarquia.
A descrição de Benson sobre as condições mundiais ideais sob a soberania papal universal foi atualizada por um romance católico imaginativo recente intitulado John Smith Emperor. A obra descreve como o mundo é submetido ao controle do Papa por meio de uma arma secreta mantida no Vaticano. O Papa vai a Nova York para coroar o Imperador na presença dos reis das sete "confederações" em que o mundo está dividido – após todas as nações terem se submetido à Igreja Católica Romana:
A imprensa e o rádio anunciaram que a coroação do Primeiro-Ministro como Imperador ocorreria em Nova York, a futura capital do mundo. Os monarcas das sete confederações e os governadores e representantes de todas as nacionalidades foram oficialmente convidados. O programa consistiria em uma Missa Pontifical que seria celebrada pelo Cardeal-Arcebispo de New York. O Papa assistiria do seu trono, ungiria solenemente o novo Imperador e colocaria a coroa em sua cabeça.
Notas
1. Daí deriva a nossa palavra "imobiliário", de "reale" ou "real"; ou seja, nos países democráticos, o cidadão comum pode possuir terras em propriedade plena, o que antes não era possível, uma vez que todas as terras pertenciam ao rei.
2. Cambridge Modern History, I, 662.
3. Extraído de The Torch, publicação oficial dos Padres Dominicanos, maio de 1944.
4. Economic Liberalism and Free Enterprise, by Benjamin L. Masse, S. J., America.
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