A verdadeira natureza e estrutura do catolicismo – O código moral do catolicismo

Por J. J. Murphy – um ex-padre

Este artigo foi extraído de um arquivo PDF do site LutheranLibrary.org. Foi publicado pela revista The Converted Catholic Magazine, editada pelo ex-padre Leo Herbert Lehmann.


UM ENTENDIMENTO PROFUNDO do catolicismo não é possível sem a compreensão da estrutura peculiar de seu sistema de teologia moral. Trata-se da chave para o seu poder político de alcance mundial. Esse sistema não apenas fornece um pretexto para invadir todas as fases da vida social e política, mas é também o meio pelo qual a Igreja mantém sob controle seus milhões de adeptos e domina seus objetivos e propósitos. É um sistema moral que precisa ser engenhoso. Por um lado, deve ostentar a bandeira da virtude abstrata e, por outro, manter para fins políticos o poderoso apoio tanto daqueles que ignoram a religião quanto daqueles que a condenam.

O sistema moral católico, tal como existe hoje, foi moldado pelos jesuítas na guerra contra o protestantismo, para a qual foram fundados. Ele possui dois objetivos diretos: primeiro, neutralizar a glorificação protestante da consciência individual por meio do estabelecimento de um sistema moral que submeta as consciências à orientação e aos ditames de uma autoridade eclesiástica suprema e altamente centralizada; segundo, conquistar e manter a fidelidade tanto das massas quanto de seus líderes políticos corruptos, sem castigar suas consciências nem dar aprovação aberta às suas imoralidades.

Esse sistema pode ser descrito em duas palavras: confissão e casuística [1]. A confissão é o meio de ditar ordens às consciências por parte de uma autoridade centralizada. A casuística é um sistema intrincado de minúcias teóricas voltado a extinguir a moralidade.

Para garantir um tratamento estritamente objetivo neste estudo sobre o desenvolvimento e a natureza do código moral da Igreja Católica, o autor não recorrerá às suas experiências pessoais como padre, mas invocará o testemunho de autoridades irrepreensíveis no campo da teologia moral.

O poder do confessionário

O poder sobre o coração humano e sobre as mais secretas emoções humanas significa o poder sobre a mente e a vontade do homem. Os jesuítas compreendem isso. Eles também sabem que é no confessionário, onde a alma expõe suas emoções mais íntimas, que o controle da consciência católica deve ser obtido. Sem esse controle moral, a centralização da Igreja e o domínio do Vaticano seriam inúteis.

O renomado teólogo e historiador Dr. William K. Rockwell, do Union Theological Seminary em Nova York, expressou na revista Harvard Theological Review a suma importância do emocionalismo no catolicismo e o fato de os jesuítas terem tirado proveito disso. Ao falar da extrema dificuldade do protestante em compreender o terror do emocionalismo católico, ele diz: [2]

O pensamento do inferno o fez estremecer, e a hóstia consagrada o fez vibrar? Aquele que não consegue imaginar realisticamente essas experiências não conhece o abecê do catolicismo, em cujo domínio reside o segredo mais profundo do poder dos jesuítas; pois a sua ascendência está enraizada em seu controle sobre os medos e as aspirações da piedade católica, conforme orientada no confessionário.

Como o confessionário abre caminho para uma passividade absoluta por parte do penitente e para o domínio completo por parte do confessor é bem exposto pela Enciclopédia Britânica (V, 486, 11ª ed.) em seu artigo sobre casuística:

A mente medieval era excessivamente propensa a encarar a moralidade como uma arte altamente técnica... O que restava aos homens comuns fazer senão apegar-se ao seu sacerdote com uma fé cega e implícita? O catolicismo presumia cada vez mais que o homem colocava sua alma em perigo ao pensar por si mesmo.

Os jesuítas raciocinaram, com razão, que a única maneira de obter o controle crucial sobre o uso dos confessionários em todos os lugares era transformando a prática da confissão em uma ciência teológica patrocinada e dominada por sua Ordem. Eles conseguiram isso, e a nova "ciência" ficou conhecida como casuística ou teologia moral. Após criarem a teologia moral e conseguirem monopolizar o seu ensino, eles também obtiveram sucesso na tarefa subsequente de impô-la a toda a Igreja e torná-la o guia exclusivo de todos os padres na audiência das confissões. O Conde Paul von Hoensbroech, ex-padre jesuíta e ilustre acadêmico alemão, enfatiza a extensão e o significado desse golpe de mestre jesuíta ao escrever:

Não há domínio no qual o jesuitismo tenha sido tão bem-sucedido em impor a sua dominação ao catolicismo quanto o da teologia moral... A dominação da vida privada e pública dos católicos por meio do confessionário... foi realizada principalmente pelos teólogos morais da Ordem Jesuíta. A moralidade católica dos dias de hoje está inteiramente penetrada pela moralidade jesuíta.

Não importaria particularmente quem controlasse o confessionário católico, não fosse o fato de que isso não apenas rebaixou a moralidade católica, mas foi estrategicamente utilizado para esse exato propósito. Esse mau uso formal do confessionário surgiu com os jesuítas. Um breve panorama histórico de como isso ocorreu é apresentado na Cambridge Modern History (V, 81):

Mas uma Igreja governada pelo espírito de eficiência provavelmente terminará em um utilitarismo franco, e, durante o século XVII, houve uma disputa continuamente latente entre os jesuítas e teólogos de uma escola menos mundana sobre até onde exatamente o utilitarismo deveria ir. A grande luta foi em torno do confessionário. Deveriam os padres fixar seus padrões em um nível alto ou baixo?
Os jesuítas argumentavam que a severidade afastava completamente a muitos – uma contingência tanto mais lamentável no caso dos ricos e influentes. Consequentemente, iniciaram uma campanha para forçar os confessores a serem tolerantes. A famosa doutrina do probabilismo – abordada pela primeira vez por volta do início do século XVII – transformava em pecado grave a recusa de absolvição por parte do padre se houvesse qualquer boa razão para concedê-la. E determinar o que era essa ‘boa razão’ coube ao jesuíta Escobar e aos casuístas. Esses escritores desenvolveram todo um sistema de recursos para proteger o penitente de um confessor zeloso demais. O tipo de pergunta que este poderia fazer passou a ser cuidadosamente definido. Ele não deve buscar informações gerais sobre a disposição do penitente, como faria um médico... Deve sempre inclinar-se para a interpretação mais ‘benigna’ da lei; e, para sua orientação, a casuística abriu brechas monumentais em decretos inconvenientes.

A ênfase no poder mágico da confissão e da absolvição cresceu na mesma proporção da crescente frouxidão dos penitentes. Se o penitente não possuía arrependimento real ou intenção de reformar sua vida, era natural que a magia da absolvição passasse a ser vista como a própria fonte de perdão e remissão. Essa influência desmoralizante é apontada pela Enciclopédia Britânica (V, 487) ao afirmar:

Quanto menos a Igreja podia esperar de seus penitentes, mais ela se via compelida a confiar na eficácia milagrosa da graça sacramental. Uma vez levado o pecador à confissão, todo o trabalho estava feito. Por pior que fosse sua disposição natural, as palavras mágicas da absolvição fariam dele um novo homem... A natureza humana raramente resiste aos encantos de um padrão fixo – menos ainda quando este é aplicado por um juiz vivo em um tribunal visível... Se o sacerdote se contenta com tão pouco, por que se dar ao trabalho de oferecer mais?

Origem e natureza da casuística

A casuística jesuíta, conhecida hoje simplesmente como teologia moral católica, é em grande parte uma criação de jesuítas espanhóis apaixonados, que ainda traziam o fogo da Inquisição em suas veias. O plano deles era encontrar um caminho que tornasse fácil e atraente ser e permanecer católico. Isso era extremamente necessário na Espanha, onde o catolicismo estava corrompido demais para gerar uma Reforma Evangélica.

Também era necessário, naquela época, encontrar uma saída para o antigo sistema de frouxidão católica e corrupção moral que prevalecia até a Reforma e, ao mesmo tempo, resistir à influência da Reforma iniciada por Martinho Lutero na Alemanha e em outros lugares. A tarefa consistia em encontrar uma fórmula de moralidade que fosse tão conveniente quanto a antiga, porém tão sutil e intrincada que a sua frouxidão não ficasse evidente. Toda essa estratégia por trás da invenção da casuística é bem explicada pela Enciclopédia Britânica (V, 486), conforme segue:

Mas os casuístas vinham, quase sem exceção, da Itália e da Espanha, os dois países menos despertos para o espírito da Reforma; e a maioria deles era de jesuítas, a Ordem que se propôs a ser nada do que o protestantismo era e tudo o que o protestantismo não era. Portanto, eles se opunham resolutamente a qualquer ideia de reforma.
Por outro lado, eles certamente perderiam o controle sobre os leigos a menos que algum tipo de mudança fosse feita; pois muitas das regras da Igreja estavam obsoletas, e outras eram severas demais para serem impostas na França de Montaigne ou mesmo na Espanha de Cervantes. Assim, apanhados entre dois fogos, os casuístas desenvolveram um método altamente engenhoso para esvaziar a substância de uma regra, enquanto deixavam sua sombra cuidadosamente intacta.
O passo seguinte foi forçar os confessores a aceitarem a sua interpretação tolerante da lei; e isso foi alcançado por sua famosa teoria do probabilismo, ensinada pela primeira vez na Espanha por volta de 1580. Isso tornava um pecado grave para um padre recusar a absolvição sempre que houvesse alguma boa razão para concedê-la, mesmo quando houvesse outras razões melhores para recusá-la.

Essa prática do "probabilismo" provou-se muito eficaz em permitir que o confessor perdoasse todo e qualquer pecado, independentemente das disposições do penitente, especialmente quando associada ao princípio "companheiro" dos jesuítas de que é permitido consentir com um mal para evitar outro maior. Operando com tais princípios, nunca era difícil para um confessor convencer-se de que precisava absolver o pecador obviamente impenitente por medo de que este deixasse o confessionário irado e cometesse o mal muito maior de romper inteiramente com a Igreja – o que, aos olhos católicos, é o maior de todos os pecados.

Um exemplo prático do uso desse princípio jesuíta do "probabilismo" na confissão pode ser lido no recente romance de propaganda católica, The World, the Flesh and Father Smith [O Mundo, a Carne e o Padre Smith], de Bruce Marshall, um best-seller e seleção do Book-of-the-Month Club. Nas páginas 16 a 22, o autor descreve como o Padre Smith perdoa os pecados de um marinheiro moribundo em um prostíbulo: "Ele começou a contar ao padre sobre todas as mulheres que conhecera em Buenos Aires e Hong Kong, e disse que gostara mais das mulheres de Hong Kong". Quando o padre o repreendeu por falar dessa maneira em seu leito de morte sobre as "Jezabeis vulgares de portos estrangeiros", o marinheiro moribundo retrucou e disse que "as mulheres não eram nada vulgares, especialmente as da China, que tinham ouro nas unhas e usavam chinelos de cetim preto com saltos altos vermelhos", e que, parando para pensar, não se arrependia de forma alguma de ter conhecido todas aquelas mulheres, "já que todas tinham sido tão bonitas, e que gostaria de conhecê-las novamente se tivesse oportunidade".

O velho marinheiro tinha apenas alguns minutos de vida, de modo que o autor descreve o padre aplicando o princípio jesuíta do "probabilismo" da seguinte forma:

Em desespero, o Padre Smith perguntou ao velho marinheiro se ele se arrependia de não se arrepender de ter conhecido todas aquelas mulheres, e o velho marinheiro disse que sim, que se arrependia de não se arrepender. Diante disso, o Padre Smith disse que achava que Deus compreenderia e absolveu o velho marinheiro de seus pecados, derramando os méritos da Paixão de Cristo sobre o esquecimento de Deus por parte do velho marinheiro e sobre aqueles vestidos de outrora que faziam sons tão adoráveis.

O brilhante historiador John Addington Symonds oferece uma análise arguta do processo sutil pelo qual os casuístas jesuítas são capazes, no confessionário, de dissolver pecados concretos e promover a frouxidão moral, enquanto, ao mesmo tempo, glorificam a virtude abstrata no púlpito. Ele explica isso com tanta clareza quanto qualquer jesuíta em um de seus volumes, que é considerado uma obra de referência clássica em todas as universidades: [3]

O objetivo da Ordem Jesuíta era controlar a consciência por meio da direção e da confissão, e especialmente as consciências de príncipes, mulheres e jovens em posições elevadas. Fazê-lo por meio de uma linguagem clara e de um agir honesto era evidentemente perigoso. O mundo já tivera o suficiente da austeridade dominicana. Certamente, deve-se dizer às pessoas que a complacência com a sensualidade, a falsidade, a fraude, a violência, a cobiça e a opressão tirânica é incondicionalmente errada.
Não faça demonstrações de compromisso com o mal em termos gerais; mas atenue o mal por meio de distinções, reservas e condições hipotéticas, até que ele desapareça. Explique como é difícil saber se um pecado é venial ou mortal, e quantas chances existem contra o fato de ele ser, em qualquer sentido estrito, um pecado de forma alguma. Não deixe as pessoas ao seu próprio senso rudimentar de certo e errado, mas faça-as admirar o corte mais fino do seu escalpelo, enquanto você retalha pedacinhos que elas mal conseguem ver. Um caminho fácil pode, assim, ser aberto para a satisfação de cada desejo humano sem incorrer em pecados teológicos.
As vantagens são manifestas. Você será capaz de absolver com a consciência limpa. Seu penitente transbordará de gratidão... e será mantido seguro... Foi assim que o labirinto jesuíta da casuística, com seus meandros, voltas, câmaras secretas, galerias de sussurros, becos sem saída e passagens de fuga, passou a existir.

A casuística nos dias de hoje

A principal disputa dentro da Igreja Católica entre os casuístas jesuítas e seus oponentes foi travada na França, o campo de batalha intelectual da Europa. Com o auxílio dos monarcas franceses e de elementos corruptos na Cúria Romana, os jesuítas, após muitos anos, conseguiram triunfar sobre seus inimigos e fazê-los ser condenados como "hereges". Esse amargo conflito interno da Igreja é conhecido como a controvérsia "jansenista".

Por algum tempo, os jesuítas tiveram de recuar em algumas de suas visões laxistas mais extremas, mesmo após a sua vitória política. Mas, em meados do século XVIII, surgiu um padre napolitano ingênuo e fanático chamado Afonso de Ligório, que assumiu um interesse psicopático pela casuística como uma fuga de suas próprias obsessões sexuais. Os jesuítas o incentivaram, fizeram com que ele fosse nomeado bispo e, após sua morte, o canonizaram como santo e Doutor da Igreja. Ao agirem assim, eles conquistaram a aprovação final e absoluta para o seu sistema de casuística moral. A partir de então, seu sistema de moral foi gradualmente incorporado à teologia católica como ensinamento oficial e infalível.

Os jesuítas da atualidade tentam esquivar-se das acusações feitas contra a sua Ordem nesses assuntos ao declararem que todos os seus ensinamentos imorais do passado foram descartados. Na realidade, contudo, o sistema inteiro é ensinado hoje substancialmente da mesma forma que no século XVII. Algumas opiniões grosseiras, como a aprovação aberta ao regicídio e a certas outras formas de homicídio, foram descartadas. Além disso, o nome "casuística" foi, em geral, alterado para "teologia moral". Quanto ao restante, o sistema permanece inalterado. Paul Bert, ilustre intelectual e funcionário público francês, em sua obra La Morale des Jésuites, provou claramente, citando capítulos e versículos, que os livros didáticos modernos de teologia moral repetem os mesmos princípios perniciosos que eram ensinados pelos casuístas do século XVII.

Se qualquer prova adicional fosse necessária, ela poderia ser encontrada na seguinte declaração do Dr. Adolf Harnack, da Universidade de Berlim, mundialmente famoso por seu conhecimento em história da Igreja. Ao falar da casuística jesuíta, ele afirma: [4]

Mas o método continuou inalterado e exerce hoje a sua influência ruinosa sobre a dogmática e a ética, sobre as consciências daqueles que recebem e daqueles que fazem a confissão, talvez em um grau pior do que em qualquer período.

Como ilustração da casuística jesuíta atual, o seguinte trecho foi extraído da obra do casuísta jesuíta Gury, publicada em Paris, em sua oitava edição, em 1892. Gury é a principal autoridade em casuística moderna e suas obras são citadas em quase todas as páginas das teologias morais de Noldin, Sabetti-Barrett e outros autores jesuítas, utilizadas hoje como livros didáticos nos seminários católicos americanos. Esse "caso" é apresentado em uma obra destinada a seminaristas para ensiná-los a resolver problemas morais. Há centenas de casos semelhantes apresentados na obra de Gury ou em outros volumes congêneres. Este foi extraído do Volume I, página 183, de seu Casus Conscientiae:

Anna havia cometido adultério; ela respondeu, em primeiro lugar, ao seu marido, que estava desconfiado e a questionou, que não havia rompido o vínculo matrimonial; na segunda vez, respondeu, após ter sido absolvida de seu pecado: 'Não sou culpada de tal crime'; finalmente, na terceira vez, porque seu marido a pressionou ainda mais, negou categoricamente o adultério e disse: 'Não o cometi', porque entendeu por isso 'um adultério tal que eu fosse obrigada a revelar' ou 'Não cometi um adultério que deva ser revelado a você'. Anna deve ser condenada?
Anna pode ser justificada de falsidade no tríplice caso que foi mencionado. Pois, no primeiro caso, ela pôde dizer que não havia rompido o vínculo matrimonial porque este ainda existia. No segundo caso, pôde dizer que era inocente de adultério, visto que sua consciência já não estava sobrecarregada com ele após a confissão e o recebimento da absolvição, porque tinha a certeza moral de que este havia sido perdoado. De fato, ela poderia fazer a afirmação sob juramento, de acordo com a opinião geral dos teólogos, somada à de Ligório, Lessius, os Salmanticenses e Suárez. No terceiro caso, ela poderia, na visão provável, ainda negar ter cometido adultério no sentido de que fosse obrigada a revelá-lo ao marido.

Degeneração moral por meio da casuística

A casuística é desmoralizante, não apenas para o leigo – que descobre receber a absolvição com facilidade, independentemente de seu estilo de vida –, mas também para o padre, que logo aprende a aplicar à sua própria consciência os métodos que utiliza com os outros. As consequências tornam-se ainda piores quando nos damos conta de que, ao lerem teologia moral, nas palavras de Symonds, "homens votados ao celibato sondam os mais sórdidos labirintos da impureza sexual".

Não surpreende constatar que a casuística tem sido denunciada nos termos mais veementes por aqueles que são capazes de ler os tratados de teologia moral escritos apenas em latim. Tanto católicos quanto protestantes unem-se nessa condenação. O virtuoso Bispo de Palafox foi um deles. O mesmo ocorreu com o grande intelectual e eclesiástico liberal Paolo Sarpi. Na França, o Abade de Rancé, fundador da Ordem Trapista, em suas Cartas (p. 358), afirma: [5]

A moralidade dos jesuítas é tão corrompida, seus princípios são tão opostos à santidade dos Evangelhos... que nada é mais doloroso para mim do que ver como meu nome é usado para conferir autoridade a opiniões que detesto com todo o meu coração.

Johann Adam Möhler, padre e célebre teólogo católico do século passado [século XIX], declarou: [6]

A casuística é o atomismo da moralidade cristã... e tem exercido um efeito venenoso no âmago da vida cristã. A profundidade religiosa, a moralidade austera e santa, bem como a estrita disciplina eclesiástica, foram minadas por ela. E era característico dos jesuítas transformar o ser interior em meras exterioridades, de modo que eles também concebiam a Igreja primariamente como um Estado.

Lord Acton, católico e idealizador da Cambridge Modern History, foi um dos maiores historiadores do século passado. Ao falar sobre a Ordem Jesuíta, ele diz: [7]

Não importa qual causa adotemos, desde que a defendamos bem – isso é o Probabilismo Jesuíta. Não importa que mal façamos por uma boa causa – essa, novamente, é a máxima de que os fins justificam os meios, a qual, assim como o Probabilismo, estava justamente em ascensão naquela época. Não importa se a causa pela qual pecamos é a religião ou a política – até mesmo isso encontra paralelo na maneira como os jesuítas franceses apoiaram Richelieu em sua aliança com os protestantes na Guerra dos Trinta Anos.

O distinto erudito Dr. Adolf Harnack, da Universidade de Berlim, na página 102 do volume citado anteriormente, verbera a casuística. A Encyclopaedia of Religion and Ethics (III, 240) considera suas palavras dignas de citação e as introduz com a seguinte observação: "Os termos decisivos com os quais uma autoridade tão grande quanto Harnack se compromete podem servir para mostrar por que a casuística desapareceu do mundo protestante e da ética científica". As palavras do próprio Harnack são as seguintes:

Com o auxílio do Probabilismo, a Ordem Jesuíta entendeu como, em casos específicos, transformar quase todos os pecados mortais em pecados veniais. Continuou a dar instruções sobre como chafurdar na imundície, confundir a consciência e, no confessionário, apagar o pecado com o pecado. Os abrangentes manuais éticos dos jesuítas são, em parte, monstruosidades de abominação e depósitos de pecados execráveis e hábitos imundos, cuja descrição e tratamento provocam um clamor de repulsa.
As coisas mais chocantes são tratadas aqui de forma desavergonhada por padres solteiros... com frequência suficiente para representar as coisas mais vergonhosas como perdoáveis e para mostrar aos transgressores mais endurecidos um caminho pelo qual eles ainda possam, sempre, obter a paz da Igreja...
Mas tanto maior parece a influência confusa do sistema religioso do qual eram servos, quando este se mostrou capaz de produzir sutilezas tão licenciosas e uma estimativa tão perversa dos princípios morais... E tudo isso, ademais, em nome de Cristo... pois um dos interesses subjacentes a esse sistema de imoralidade, ninguém pode negar, era manter e fortalecer o controle externo e o poder do eclesiasticismo.

É apenas a compreensão da casuística católica que nos permite perceber como é possível para os católicos permanecerem em excelente situação, sacramental e social, em sua igreja, enquanto desafiam habitualmente as "leis eclesiásticas" estabelecidas como obrigatórias sob pena de danação eterna. Um caso exemplar que se aplica à maioria dos católicos adultos na América são as leis da igreja sobre o controle de natalidade. De acordo com o ensinamento eclesiástico, a prática do controle de natalidade é um pecado mortal de tipo extremamente hediondo e antinatural. Quem quer que o pratique habitualmente não pode obter uma absolvição válida ou receber a comunhão. Essa é a teoria católica antes de a casuística entrar em ação. Na realidade, os dados das clínicas de controle de natalidade e outras estatísticas mostram que quase todos os católicos praticam o controle de natalidade. Apesar disso, continuam a receber a absolvição e a comunhão regularmente, desfrutando de uma excelente posição na igreja. Esse é o passe de mágica da moralidade católica... o que é condenado na teoria é vivenciado na prática. A igreja vira o rosto para o outro lado e finge não notar. Ela poderia reservar esse "pecado" ao bispo, como faz com o casamento diante de um pastor protestante, tornando embaraçoso confessá-lo e difícil de absolvê-lo. Mas não o faz. Sabe que metade dos católicos deixaria a igreja se aplicasse tal lei; portanto, a igreja anula suas leis na prática, cometendo um mal "para evitar um mal maior", de acordo com um dos princípios da casuística.

Conclusão

A imposição da moralidade jesuíta sobre toda a Igreja Católica perde muito de seu significado se for considerada como um fato isolado. Trata-se de apenas uma parte do plano mestre jesuíta para centralizar a Igreja Católica e, assim, obter – por meio da dominação da Cúria Papal – o controle absoluto sobre o dogma e a moral da Igreja, as nomeações e a política. A cavalgada jesuíta é descrita brevemente da seguinte forma no artigo do Dr. Rockwell citado anteriormente:

Certamente, a definição do dogma da Imaculada Conceição em 1854, o Sílabo em 1864, a definição da infalibilidade papal e da soberania absoluta em 1870, a condenação do Modernismo em 1907 e, neste exato momento, a codificação do direito canônico pela autoridade centralizada de uma autocracia papal baseada no direito divino – estes são monumentos ao princípio pelo qual os jesuítas lutaram em sua marcha rumo ao poder.

Isso ocorreu em 1912. Desde então, o poder dos jesuítas sobre a Igreja Católica Romana em todo o mundo tornou-se tão absoluto e incontestável que varreu o domínio italiano sobre o Colégio dos Cardeais, ciente de que possui agora, sobre cada país católico, a mesma dominância que nos séculos anteriores detinha apenas sobre a Itália.

Porém, de todas as corrupções que os jesuítas praticaram em sua marcha rumo ao poder, a da casuística foi a mais perversa e a mais desastrosa. Particularmente aplicáveis a eles são as palavras que o ilustre presidente dos Estados Unidos e erudito internacional, John Adams, escreveu a Thomas Jefferson em condenação ao clero: [8]

Minha opinião é de que nunca teria havido um infiel se nunca tivesse havido um padre. As estruturas artificiais que eles construíram sobre o mais puro de todos os sistemas morais com o propósito de extrair dele tostões e poder revoltam aqueles que pensam por si mesmos e que leem nesse sistema apenas o que realmente está lá.

No entanto, nesta questão do código moral do catolicismo, assim como em todos os outros aspectos de sua organização e atividades, não devemos nos precipitar em concluir que tudo é arranjado conscientemente para propósitos sinistros. Para os formuladores de políticas jesuítas da Igreja Católica, o controle das consciências é essencial para sustentar e aumentar a dominância da Igreja no mundo. A maneira como a moral é controlada pouco importa para eles, visto que se trata de um meio necessário para a consecução daquilo que consideram o ideal mais elevado em toda a criação de Deus.

Nas palavras de Harnack citadas anteriormente, esse ideal glorioso consiste em "manter e fortalecer o controle externo e o poder do eclesiasticismo".

Notas

1. Raciocínio sutil ou enganador com o objetivo de induzir em erro.

2. Harvard Theological Review, julho de 1914, página 360. A distinta carreira do Dr. Rockwell está descrita em "Who’s Who".

3. Vol. VI, parte 1, p. 223, intitulado "Catholic Reaction". Trata-se do sexto volume de sua monumental obra em sete volumes, Renaissance in Italy.

4. History of Dogma, do Dr. Adolph Harnack, vol. VII, página 102. Tradução para o inglês publicada pela Williams and Norgate, Oxford, 1899.

5. A edição em inglês do livro Doctrines of the Jesuits, de Gury, já está disponível e pode ser adquirida na Agora Publishing Co. por US$ 3,00.

6. O Dr. Möhler foi professor da Universidade de Tubingen e autor da renomada obra em defesa do catolicismo, Symbolism. A citação acima foi extraída da página 23 da obra Beitrag zur Würdigung des Jesuitenordens, do professor J. B. Leu.

7. Cartas de Lord Acton a Mary Gladstone, filha do ilustre W. E. Gladstone, página 114. Macmillan, Londres, 1913.

8. Carta de John Adams, escrita em 9 de agosto de 1816. Citada da "Edição Monticello" oficial do Congresso das Obras Completas de Thomas Jefferson, volume XV, página 60.


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