"Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus." (Ap 14:12)

quinta-feira, 28 de abril de 2016

A verdadeira e a falsa adoração

A ênfase intencional nos atributos criadores de Deus presente no juramento do Anjo forte de Apocalipse 10:5-6 sinaliza à igreja do tempo do fim que a adoração estará no centro da última grande controvérsia.

Naturalmente, apenas o Deus Criador é digno de receber adoração, mas o inimigo da verdade pretende usurpar essa prerrogativa divina mediante um sistema paralelo de culto.

Ao revelar os muitos contrastes entre a verdadeira e a falsa adoração, o Apocalipse nos fornece informações preciosas para permanecermos fiéis a Deus e não ser seduzidos pelos apelos da religião popular.


Dois grupos de adoradores

Em nossa última postagem, mencionamos que o assunto da adoração é amplamente desenvolvido em Apocalipse 13 e 14. Há oito referências ao tema nesses capítulos, sendo que Apocalipse 14 cumpre a função de contraparte complementar do capítulo 13. A comparação entre ambos os capítulos revela uma distinção clara e profunda entre dois modelos de adoração.

Em Apocalipse 14:1, João vê o Cordeiro em pé no monte Sião juntamente com o remanescente final representado pelos 144 mil. Esta visão triunfante e gloriosa que abre o capítulo e que tem animado gerações de crentes estabelece uma série de contrastes propositais com a falsa tríade satânica e seus adoradores descritos em Apocalipse 13.

Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, tendo na fronte escrito o seu nome e o nome de seu Pai.

O monte Sião é uma antítese de Babilônia. Ambos os nomes são extraídos do Antigo Testamento, e estão profundamente enraizados na história da salvação de Israel. No Apocalipse, eles representam dois modelos distintos e antagônicos de adoração. Sião e seu santuário, seu culto religioso e seus seguidores constituem a norma da verdade salvadora pela qual Babilônia, seu culto religioso e seus seguidores são medidos no tribunal do Céu. (1)

Ao passo que os seguidores da besta e de sua imagem recebem a marca da apostasia (Apocalipse 13:16-17), os companheiros do Cordeiro trazem em sua fronte o sinal de aprovação do Deus vivo (7:1-3). Enquanto que o caráter do anticristo e de seus adoradores é identificado pelo número 666, o caráter do remanescente fiel é representado por seu número: 144 mil. Os primeiros compreendem os perseguidores; os últimos, os perseguidos, os quais triunfarão com o Cordeiro (Apocalipse 17:14).

Adoração e fidelidade

Em Apocalipse 11:2, o monte Sião ou cidade santa simboliza o povo de Deus perseguido e oprimido pelos gentios. Babilônia também representa um povo. Temos aqui dois partidos, dois grupos de adoradores.

Significativamente, o conceito que os profetas do Antigo Testamento tinham de Sião não era de modo algum limitado por fatores étnicos ou geográficos. Isaías, por exemplo, considerava Sião como o Israel espiritualmente ativo, que mantinha um relacionamento vivo com Jeová. Dirigindo-se a esta Sião, Deus declarou por intermédio de Seu profeta:

Ouvi-me vós, os que procurais a justiça, os que buscais o SENHOR; [...] Ouvi-me, vós que conheceis a justiça, vós, povo em cujo coração está a minha lei... (Isaías 51:1 e 7)

A quem Deus identificava como o Seu povo? Quem Ele considerava Sião? Os que procuravam Sua justiça, que buscavam o Senhor e O conheciam, e em cujo coração estava Sua lei! Foi a esta Sião que Deus chamou de meu povo (Isaías 51:16). Não há nenhuma ênfase aqui a um lugar "santo" geográfico ou a uma etnia em particular, embora os israelitas fossem depositários, conservadores e testemunhas da verdade divina. De fato, as bênçãos destinadas a Israel eram estendidas a todos os gentios que verdadeiramente buscassem ao Senhor (Isaías 56:1-8).

Enquanto Sião permaneceu fiel a Deus e à Sua aliança e não forjou acordos ilícitos com as nações em redor, o Senhor se identificou como o seu marido (Isaías 54:5), e Israel era comparado a uma linda jovem a quem Deus vestiu e adornou para ser Sua noiva (Ezequiel 16:8-14). Quando o povo, porém, estabeleceu com as nações estrangeiras alianças que Deus expressamente havia proibido (Deuteronômio 7:2; Juízes 2:2), Sião passou então a ser identificada como uma meretriz (Isaías 1:21), "descendência da adúltera e da prostituta" (57:3).

Essa dupla caracterização de Sião como esposa fiel e meretriz, em momentos diferentes, forma o antecedente teológico para compreender as duas mulheres simbólicas no Apocalipse de João. O último livro da Bíblia descreve a igreja fiel como uma esposa radiante (12:1), e a igreja apóstata, como a grande meretriz: "Babilônia" (17:1-5) (2)

Tanto no Antigo como no Novo Testamento, o casamento é um símbolo bastante apropriado para representar a relação de intimidade e fidelidade recíproca que Deus espera manter com Seu povo. Escrevendo aos cristãos em Corinto, o apóstolo Paulo usou a mesma figura de linguagem para descrever o objetivo de seu ministério:

Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo. (II Coríntios 11:2)

É dessa forma que a igreja se mantém incontaminada de conceitos e crenças errôneos que, se adotados, certamente comprometeriam seu relacionamento com Deus e, como consequência, a qualidade de seu culto. Por outro lado, cortejar a atenção do mundo, mesmo pelos motivos mais razoáveis (veja um exemplo aqui), significa, do ponto de vista das Escrituras, cometer adultério espiritual.

Assim, fica claro porque o Apocalipse usa a figura da Grande Meretriz (17:5) para representar o maior inimigo da igreja nos últimos dias. Nos tempos de Israel, o culto idolátrico das nações pagãs constituía a maior ameaça à integridade e identidade do povo de Deus. Nos momentos finais da história humana, a igreja será confrontada pela mesma ameaça representada pela imagem de Babilônia mística e seu vinho intoxicante (Apocalipse 14:8).

O poder sedutor da falsa adoração

Nesse contexto, refletir sobre a experiência religiosa dos israelitas pode ser muito instrutivo. Quando olhamos para a história de Israel percebemos que sua trajetória foi marcada por altos e baixos, como num trapézio, ora mantendo-se íntegro por sua fidelidade a Deus, ora prostituindo-se com os falsos modelos de adoração das nações estrangeiras. Essa persistente variação na experiência religiosa dos israelitas estava geralmente associada ao grau de consagração de seus líderes.

O paganismo que frequentemente assediava o povo de Israel possuía, pelo menos, três características básicas. A primeira delas era a ausência de uma separação entre o sagrado e o comum, visto que para certas religiões primitivas o sagrado se integrava ao comum em virtude da crença na proximidade e presença natural dos espíritos. A relação direta entre o espírito (mundo sagrado) e o homem ou a natureza (mundo profano), seja pela gênese dos espíritos como descendentes dos humanos, seja pelo fenômeno de possessão, influencia a aproximação, senão a integração entre sagrado e profano (3)

A segunda característica consistia no forte apelo sensorial, em que o objetivo das fórmulas e rituais, muitas delas de natureza licenciosa e hedionda, era levar o adorador ao transe e ao êxtase, com a pretensão de promover uma unidade com o sobrenatural. As experiências extáticas nas religiões primitivas eram, portanto, o centro e o motivo dos rituais. (4) Mediante tais experiências, Satanás pretende exacerbar a inversão hierárquica da mente provocada pelo pecado (sobre isso, clique aqui).

Finalmente, o paganismo era essencialmente ecumênico, pois integrava com certa facilidade crenças e conceitos de várias religiões. Os povos da Mesopotâmia (sumérios, babilônios e assírios) foram provavelmente os que mais desenvolveram esse conceito, pois à medida que espalhavam sua influência, absorviam contribuições de diferentes culturas, de modo que novos deuses eram acrescentados ao panteão, o que constituía uma mistura de pensamento religioso. (5)

Todas as vezes que Israel se unia a esses povos, assimilava algo de sua cultura religiosa, familiarizando-se, por conseguinte, com essas três características. A frequente intimidade do povo de Deus com as crenças e rituais pagãos tornou-o incapaz de discernir entre o verdadeiro e o falso culto. Uma vez que o conceito religioso pagão se apossava da mente, era quase impossível exercer as faculdades perceptivas dentro de limites razoáveis (veja um exemplo notório em II Reis 21:1-9).

A história se repete

Cada uma das características mencionadas acima também está presente na apostasia de dimensões ecumênicas do tempo do fim. Nesse sentido, a Babilônia mencionada por João no Apocalipse não representa somente a atual confusão religiosa de que somos testemunhas, mas, sobretudo, um redescobrimento seletivo de alguns conceitos desenvolvidos pelas religiões primitivas, pelos quais se pretende satisfazer as necessidades espirituais peculiares da pós-modernidade.

Desse modo, a espiritualidade moderna (ou pós-moderna) é incapaz de reconhecer a diferença elementar entre o santo e o comum, pois a busca pela transcendência, por uma experiência existencialista com os espíritos ou mesmo com Deus implica a busca por uma unidade orgânica com o sobrenatural que não admite essa distinção. Nesse caso, prevalece a máxima maquiavelista segundo a qual os fins justificam os meios.

A busca pela transcendência é uma marca da espiritualidade moderna e, por isso, ela também possui forte apelo sensorial e emocional. Aqui, a Revelação e a razão são menos importantes do que a intuição e a emoção em matéria de experiência religiosa. Essa busca é destituída de qualquer juízo de valor; importa apenas a possibilidade de se conectar com o sobrenatural. O distanciamento da razão e a valorização do conhecimento intuitivo, contudo, prejudicam os referenciais de verdade e podem lançar o pensamento numa crise profunda. (6)

Por fim, a espiritualidade moderna é também ecumênica por natureza, não admitindo o discurso da separação, principalmente por dogmas. Ela suporta apenas o conceito de inter-espiritualidade; todas as religiões têm um objetivo comum, que é conectar o homem com Deus. Elas partilham objetivos, necessidades e recursos comuns. E, principalmente, um mesmo conceito de adoração. À semelhança das antigas civilizações mesopotâmicas, o panorama espiritual contemporâneo é caracterizado por uma mistura de pensamento religioso apropriadamente chamada no Apocalipse de Babilônia.

Como nas sucessivas apostasias do antigo Israel, a consequência imediata da adoção desse modelo por parte da igreja remanescente é a identificação com suas ideias e práticas, as quais contaminam e alteram a experiência religiosa de seus membros e suprimem o verdadeiro culto a Deus.

Nas palavras de um famoso pregador, a sutileza do diabo consiste em levar os crentes perto o bastante do mundo para serem contaminados por ele, mas suficientemente distante para acreditarem que ainda são diferentes. Não admira que a separação do mundo seja, de longe, a exortação mais frequente que Deus dirige a Seu povo ao longo de toda a Bíblia.

Diante de tudo isso, surge a pergunta: Como o povo de Deus pode se proteger e prevalecer contra o falso modelo de adoração, expressão religiosa do espírito ecumênico da atualidade? A resposta está nas características singulares que distinguem o remanescente final - os 144 mil - dos falsos adoradores. Este será o tema de nossa próxima postagem.


Notas e referências

1. Hans K. LaRondelle. As Profecias do Tempo do Fim. XXIV - Os Últimos Companheiros do Cordeiro - Apocalipse 14:1-5.

2. Ibid.

3. Vanderlei Dorneles. Cristãos em Busca do Êxtase: Adoração e espiritualidade no cenário atual. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014, p. 52.

4. Ibid., p. 64.

5. "Ancient Babylonia - Religion of the Ancient Near East". Bible History Online.

6. Vanderlei Dorneles, op. cit., p. 35.

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