Por L. H. Lehmann
Este artigo foi extraído da edição de 1944 da revista Converted Catholic Magazine, da qual o ex-padre Leo Herbert Lehmann (também conhecido como L. H. Lehmann) é o editor. O texto foi disponibilizado online originalmente em formato PDF pela LutheranLibrary.org.
TODOS OS SISTEMAS RELIGIOSOS governados pelo clericalismo subordinaram as mulheres a um estado inferior ao dos homens e as utilizaram como um meio para o poder. A mulher, nos ensinamentos deles, não possuía uma alma verdadeira e era considerada a mera contraparte material do homem – o único que se acreditava ascender aos planos mentais e espirituais mais elevados. O homem representava a mente; a mulher, a matéria do universo.
Essa filosofia pagã da relação entre os sexos considerava a mulher como um ser mau, visto que se ensinava que toda a matéria provinha do "mundo das trevas". Assim, pode-se perceber facilmente como essa negação de direitos espirituais às mulheres servia ao duplo propósito de torná-las meros joguetes dos homens em assuntos sexuais e escravas laborais deles para fins econômicos.
Se o verdadeiro ensinamento de Cristo tivesse sido mantido, ele teria posto fim a essa relação de escravidão da mulher para com o homem. Mas não foi, com o resultado de que grande parte da filosofia e da prática pagãs das religiões pré-cristãs foi transportada para a igreja cristã quase desde o início. O quanto disso persiste até hoje na Igreja Católica Romana, mesmo na América democrática, pode ser avaliado a partir do seguinte:
- Há atualmente nos Estados Unidos um vasto exército não remunerado de mais de 138.000 mulheres em conventos católicos. A estas, pelas regras da igreja, é negado o direito à maternidade; estão vinculadas por uma obediência cega, "cadavérica", aos ditames dos superiores; não têm permissão para possuir dinheiro ou propriedade próprios; devem vestir-se com trajes medievais; são conhecidas apenas por nomes diferentes daqueles de suas famílias; e o lucro de seu trabalho e aprendizado vai exclusivamente para a consolidação da organização da igreja.
- Nenhuma mulher na Igreja Católica tem permissão para se tornar pregadora ou sacerdote, cujo primeiro requisito é o "sexo masculino". As mulheres são, assim, privadas dos benefícios especiais que se acredita acompanharem o sacerdócio.
- Nenhuma mulher, nem mesmo uma freira, tem permissão para participar dos ritos e cerimônias dentro do presbitério, ou limite do altar, de qualquer igreja católica.
- Após o parto, a mulher é considerada impura pela Igreja Católica e sua entrada na igreja é proibida até que seja purificada, ou introduzida na igreja, por um padre no átrio. [1]
- O estado de virgindade é decretado na teologia católica como sendo superior ao do matrimônio. Mas a virgindade em uma mulher nunca é presumida e deve sempre ser provada. O homem, por outro lado, é sempre considerado virgem até se casar.
Ideias monásticas primitivas sobre as mulheres
Esse ensinamento maniqueísta – de que a mulher pertence à matéria e ao mundo das trevas, e o homem ao mundo da mente e da luz – foi fomentado a um nível fantástico pelos primeiros "Padres" da igreja cristã. Obcecados pelo desejo sexual e, no entanto, determinados a viver uma vida sem sexo, eles fizeram do ódio à mulher quase um dogma. "O toque de uma mulher", escreveu São Jerônimo, "deve ser tão temido quanto a mordida de um cão raivoso". Contudo, ele confessa, em sua carta A Eustóquio: [2]
Oh, quantas vezes, quando eu vivia no deserto... imaginei-me cercado pelos prazeres de Roma... Muitas vezes me vi cercado por bandos de dançarinas.
Tertuliano (De Cultu Feminarum, I, 1) escreve:
Vocês sabem que cada uma de vocês, mulheres, é uma Eva? A sentença de Deus sobre este sexo de vocês vigora nesta era; a culpa deve necessariamente vigorar também. Vocês são a porta de entrada do diabo; vocês são a tentadora da árvore proibida; vocês são as primeiras desertoras da lei divina.
São Clemente de Alexandria (Paedagogus, II) expressa uma opinião semelhante sobre as mulheres:
Para a mulher, traz vergonha até mesmo refletir sobre qual é a sua natureza.
São Gregório Taumaturgo (Metaphrasis in Ecclesiasten, VII, 28), honrado hoje como "o realizador de milagres" pela Igreja Católica, expressa seu veneno contra as mulheres da seguinte forma:
Além disso, entre todas as mulheres busquei a castidade própria a elas, e não a encontrei em nenhuma. Em verdade, uma pessoa pode encontrar um homem casto entre mil, mas uma mulher, nunca.
Esses primeiros "Padres" contribuíram amplamente para os ensinamentos e práticas básicos da Igreja Católica atual. O que eles ensinavam sobre as mulheres difere muito pouco do que é pregado por padres na América do século XX. O The New York Times de 2 de julho de 1945 citou uma condenação das mulheres feita pelo Monsenhor Flannelly, da Catedral de São Patrício em Nova York, que se iguala a qualquer declaração de São Jerônimo ou Tertuliano. Sob a manchete de sua coluna: "Padre Insta Mulheres a Corrigirem 'Caminhos Maus'; Esposas São Severamente Repreendidas; Falta 'a Mínima Concepção da Santidade do Estado Matrimonial', Declara Eclesiástico", o Times prosseguiu dizendo:
Ele acusou as mulheres casadas de não terem 'a menor concepção da seriedade e santidade do estado matrimonial ou do solene dever e privilégio da maternidade', e então acrescentou: 'Mas isso é de se esperar. Onde há luxúria antes do casamento, certamente haverá luxúria depois'.
Muitas mulheres, 'ignorando a hediondez do pecado', degradam a condição feminina, disse ele, e continuou: 'A virtude, a modéstia, a fidelidade e o dever materno, elas simplesmente descartaram como antiquados. Os homens serão sempre tão bons quanto as mulheres quiserem que eles sejam'.
Condenando a democracia e o sufrágio feminino, um artigo sobre o "Feminismo" escrito pelo Padre Lucian Johnston no The Ecclesiastical Review – uma revista mensal para padres publicada pela Universidade Católica de Washington, D.C., em sua edição de dezembro de 1916 –, esbraveja da seguinte forma contra a democracia por conceder às mulheres o direito ao voto:
A democracia no momento não me parece nem um pouco sensata... É em relação ao tratamento dado pelas feministas ao casamento e à inclinação filosófica geral da mente que, pelo menos a Igreja Católica, deve assumir e assumirá uma atitude hostil.
Portanto, tem-se aí os princípios morais feministas declarados sem pudor. Eles são franca e brutalmente materialistas e anticristãos... sobre eles todo cão libidinoso sempre se apoiou como desculpa para a sua luxúria... Isso é sustentado pela conversa fiada habitual sobre a raça... Assim corre essa filosofia ou ética lamacenta da estrebaria, do haras e do chiqueiro... Siga a maioria, mesmo quando a maioria estiver errada. E faça-o em nome da 'Mulher'. Este é o direito da mulher.
Mas o sufrágio feminino é muito mais do que isso. É parte integrante de um movimento que afeta profundamente os próprios alicerces da sociedade cristã: o lar, o casamento, a lei, a ordem e o restante. Em segundo lugar, creio ser seguro dizer que os radicais estão, até o momento, no controle do movimento geral.
A mulher nas "Eras de Fé"
O talento católico para reescrever a história conforme seus propósitos atinge o seu ápice ao retratar a vida medieval como a idade de ouro da existência humana, época em que todos seriam religiosos, virtuosos e alegremente despreocupados. A obra The Thirteenth, Greatest of Centuries [O Século XIII, o Maior dos Séculos], de James J. Walsh, alcançou um sucesso estrondoso, mas é uma das maiores distorções da verdade já escritas. Desse modo, assume-se como certo que a glorificação de Maria e o desenvolvimento da cavalaria elevaram a condição feminina a um patamar nunca antes ou depois alcançado. Uma rara mulher instruída da classe abastada é utilizada para representar todas as mulheres da Idade Média. Uma frase lisonjeira de um monge perspicaz voltada a uma benfeitora rica da igreja é apresentada como prova da glorificação de todas as mulheres por parte da instituição.
A verdade histórica pinta um quadro diferente e mostra que o desprezo pelas mulheres por parte de um clero celibatário aumentou proporcionalmente à crescente dominância da Igreja de Roma. Lecky, em sua obra History of European Morals (II, 49), relata-nos:
No século VI, o concílio católico de Mâcon estava na verdade discutindo se a mulher era um ser humano. Essa tese foi revista em uma data posterior por Geddicus. De acordo com Bayle em seu Dicionário Filosófico, a doutrina de Geddicus afirmava que: 'A natureza, que sempre visa à perfeição, produziria sempre homens; e que, quando uma mulher nasce, trata-se, por assim dizer, de um erro e de um equívoco da natureza, tal como quando alguém nasce cego ou coxo... Assim, a mulher é um animal produzido por acidente'.
Essa atitude patológica em relação à mulher, copiada do paganismo e cultivada no claustro, fortaleceu-se com o tempo. O célebre historiador G. G. Coulton, em sua obra Ten Medieval Studies (p. 51), expressa-se da seguinte forma:
Para os franciscanos estritos, o outro sexo existia apenas como uma tentação, permitida pela inescrutável providência de Deus... Como observa Bernardo de Besse, após sua advertência contra tocar as mãos ou beijar até mesmo uma irmã bebê: 'Não posso chamar de casto nem de honrado o homem que não abomina tocar uma mulher ou sofrer o seu toque. Como haveria de ser lícito tocar aquilo que não é lícito sequer olhar?'
Joseph McCabe, em seu livro The Religion of Women, explica como a Igreja Católica retirou os poucos privilégios anteriormente concedidos às mulheres:
No século V, os Concílios da Igreja começaram a fechar efetivamente as portas do ministério para as mulheres. Poucas diaconisas podem ser encontradas após esse período. Uma a uma, as funções públicas foram reservadas ao clero masculino. As mulheres foram proibidas, sucessivamente, de ensinar, batizar, pregar e assumir qualquer ordem ministerial que fosse. Os concílios de bispos começaram a dispor das mulheres de uma maneira peculiar... No Concílio de Auxerre, em 578, os bispos proibiram as mulheres, por conta de sua 'impureza', de receber o sacramento em suas mãos como os homens faziam. Por todos os lados, a mulher foi forçada a recuar da posição que havia conquistado. A dignidade que os estoicos pagãos finalmente lhe haviam concedido foi lançada ao vento.
O ressentimento contra o sexo feminino foi tão longe que as mulheres foram excluídas do canto nos coros das principais igrejas. Em vez delas, recorria-se a eunucos e, até tempos recentes, meninos eram castrados para fornecer vozes de soprano para o coro da Capela Sistina no Vaticano. [3] Nenhuma mulher tem permissão para cantar em coros na Basílica de São Pedro ou em outras catedrais católicas até os dias de hoje.
O mais degradante dos costumes feudais medievais era o "direito da primeira noite" (jus primae noctis), pelo qual o senhor feudal tinha o direito de passar a primeira noite com cada mulher recém-casada entre seus servos. A licença sexual desfrutada pelo alto clero – que também era composto por senhores feudais e, portanto, detentores do "direito da primeira noite" – encontrava paralelo no clero inferior por meio do concubinato universal. Essas condições constituem um terrível comentário sobre a alegação da Igreja Católica de ter elevado a condição das mulheres na Europa medieval. A Cambridge Medieval History (V, 12) afirma: "Por volta do início do século XI, o celibato do clero era incomum, e as leis que o impunham estavam obsoletas". E Lecky, em Democracy and Liberty (II, 179), observa que "houve um tempo em que o casamento clerical era proibido, mas em que uniões não formalmente legítimas eram geralmente toleradas e reconhecidas, e às vezes eram até mesmo exigidas pelos paroquianos no interesse da moral pública".
O efeito do concubinato clerical foi diminuir o respeito dos leigos pelo estado matrimonial. O Dr. James Donaldson, em seu livro Woman (p. 190), diz o seguinte sobre esse ponto:
As classes menos espirituais do povo, os leigos, sendo ensinadas de que o casamento poderia ser licencioso e de que implicava um estado inferior de santidade, tendiam a negligenciar o matrimônio em favor de uniões mais livres.
Somava-se a isso a prostituição generalizada e legalizada, na qual as organizações da igreja tinham participação controladora.
A mulher na Europa católica da Idade Média foi vítima direta ou indireta do direito canônico. Sua condição era degradada e muito inferior à que havia sido nos tempos pagãos. A Encyclopaedia of the Social Sciences (XV, 444) afirma:
À medida que o cristianismo se tornou dominante em toda a Europa, as mulheres foram privadas daquela liberdade que haviam alcançado na Roma pagã e que haviam desfrutado, até certo ponto, sob a lei anglo-saxônica... as mulheres, e especialmente as esposas, ocupavam uma posição de dependência abjeta.
Algumas raras mulheres participavam da escassa atividade cultural e de empreendimentos filantrópicos por meio de seu trabalho em conventos, mas a posição das mulheres, tanto nos costumes quanto na lei, era degradada.
A Enciclopédia Britânica (XXVIII, 783) diz o seguinte:
O Direito Canônico, encarando com desfavor a independência feminina predominante no direito romano tardio, tendeu para a direção oposta. O Decretum inculcou especialmente a sujeição da esposa ao marido e a obediência a ele em todas as coisas... Em alguns casos judiciais, o testemunho de mulheres não era aceitável.
Lecky, em sua obra History of European Morals (II, 339), aponta que "onde quer que o Direito Canônico tenha sido tomado como base da legislação, encontramos 'leis de sucessão' sacrificando os interesses de filhas e esposas, e um estado de opinião pública que foi formado e regulado por essas leis".
A Virgem Maria e a Cavalaria
Os propagandistas católicos têm repetido incessantemente a afirmação de que a veneração dedicada a Maria elevou a mulher a uma nova dignidade, a ponto de isso ser hoje amplamente aceito como verdade. Desconsidera-se, porém, o fato de que a virtual deificação da Virgem Maria na Idade Média fez dela um ser sem sexo, totalmente afastado das coisas terrenas, e não lhe deixou nada em comum com as mulheres comuns. Até os dias atuais, roga-se a ela por redenção e salvação, e aí termina sua relação prática com as mulheres comuns.
De fato, o culto a Maria nunca foi um obstáculo, na Igreja Católica, para o desprezo pelas mulheres em geral e para a crueldade com as esposas em particular. No volume I, página 174, de sua obra Five Centuries of Religion, G. G. Coulton relata suas conclusões sobre o tema da seguinte forma:
O culto à Virgem provavelmente contribuiu um pouco, de forma indireta, para elevar o status das mulheres; mas as alegações que geralmente se fazem nesse sentido não são, tanto quanto sei, confirmadas por nenhuma evidência documental e, por sua própria natureza, são grosseiramente exageradas... O Cavaleiro de Tour-Landry escreveu no auge da adoração a Maria, e, para ele, o espancamento de esposas era uma questão natural, mesmo na alta sociedade.
A adoração à mulher por parte dos trovadores é assumidamente permeada de futilidades irreais e, tal como se apresenta, provavelmente deve tanto à imitação dos árabes mais polidos da Espanha quanto ao culto à Virgem. Castigar a própria esposa era algo não apenas costumeiro, não apenas expressamente permitido pelos estatutos de algumas cidades, mas até mesmo formalmente concedido ao marido pelo Direito Canônico (como nos Decreta de Graciano).
Afinal, a adoração à Madonna não se restringe ao catolicismo romano. Havia Maia, a mãe virgem de Buda; e Ísis, mãe do deus egípcio Hórus, que era chamada de "Nossa Senhora" e "Rainha do Céu", exatamente como Maria é hoje na Igreja Católica. Na Babilônia, havia Ishtar, descrita como "A Senhora da Coroa Celestial, a Mãe dos Deuses". Esses cultos não produziram melhoria alguma no status das mulheres. Por que, portanto, esperar mudanças revolucionárias devido a um culto semelhante no catolicismo romano?
Da mesma forma, a cavalaria medieval é, em grande parte, um amontoado de absurdos românticos. Não serve de prova, como os propagandistas católicos gostariam que acreditássemos, da dignidade adquirida pelas mulheres sob o controle da Igreja Católica. Nenhum exército na história tem uma reputação pior em relação ao estupro de mulheres do que os cavaleiros devotos de Maria que lideraram as últimas cruzadas. No terceiro volume (p. 399) de sua obra sobre a Europa Durante a Idade Média, o Prof. Hallam afirma:
A moral da cavalaria não era pura. Na ficção divertida que parece ter sido a única leitura popular na Idade Média, reina um espírito licencioso... indicando uma dissolução geral na relação entre os sexos. Um cavaleiro consumado parecia desfrutar de prerrogativas tão indubitáveis com as mulheres, pelo consenso geral da opinião pública, quanto as reivindicadas pelos cortesãos corruptos de Luís XV.
A Igreja e as mulheres hoje
A Igreja Católica mudou sua atitude em relação às mulheres nos tempos modernos? Nos países democráticos, onde a Igreja Católica é forçada a competir com o progresso protestante, ela é obrigada a tolerar a educação das mulheres e seus direitos recém-conquistados de votar e até mesmo de exercer altos cargos no governo. O mesmo não ocorre nos países onde a Igreja Católica é dominante. No que diz respeito à educação das mulheres nos países tipicamente católicos da Península Ibérica, Espanha e Portugal, um relatório do Departamento de Educação dos Estados Unidos observa: [4]
O consenso na Península Ibérica tem sido o de que uma educação elementar e certas prendas domésticas eram praticamente tudo de que as jovens precisavam. Até uma data recente, não havia leis que admitissem as mulheres aos privilégios universitários nem na Espanha nem em Portugal.
Nos países católicos da Europa Oriental, as condições têm sido ainda piores. Na América Latina, as mulheres não apenas carecem de educação superior e do direito ao voto, mas vivem em submissão passiva ao domínio absoluto de seus maridos. O duplo padrão de moralidade – um para os homens e outro para as mulheres – é aceito como natural, e a prostituição é desenfreada. Na edição de 27 de janeiro do jornal Sunday Star, de Wilmington, Delaware, deste ano, a Madre Agatha, uma freira ursulina que escreve uma coluna regular naquele periódico, glamouriza o atual status da mulher nos países latino-americanos da seguinte forma:
Ela vive uma vida inteiramente passiva, receptiva e emocional, da qual extrai um senso de segurança. Assim vinculada à personalidade, aos destinos e ao prestígio do homem, a mulher contenta-se em desempenhar um papel secundário em relação ao dele. Sua vida é completamente subordinada à dele... É natural que a mulher colombiana dê de ombros ao comentário da mulher americana sobre feminismo, voto e afins.
A mulher latino-americana é perfeitamente feliz sem os direitos sociais e políticos desfrutados pelas mulheres americanas.
Isso parafraseia o ditame do falecido Cardeal Verdier, de Paris, sobre o estatuto das mulheres na Igreja Católica:
Pelo casamento, a mulher assume um lugar em uma sociedade hierárquica. Nesta sociedade, Deus, que instituiu o matrimônio, determinou que o marido será o chefe da família e que a esposa será sua companheira, semelhante a ele, de fato, mas sujeita a ele.
No Quebec católico, no Canadá, grande parte do antigo Código Civil Francês sobre o casamento permanece em vigor. Quando uma mulher canadense-francesa se casa, ela perde todo o estatuto legal. Seus bens são colocados à disposição arbitrária de seu marido; ela não pode sequer receber o valor de sua própria apólice de seguro sem o consentimento dele. O marido, sob a orientação da igreja, tem o direito exclusivo de decidir se sua esposa deve ou não se submeter a qualquer operação cirúrgica.
O advento do fascismo trouxe esperança à Igreja Católica de restaurar sua atitude tradicional em relação às mulheres e de impô-la à sociedade por meio de decretos ditatoriais. O Papa Pio XI, em sua encíclica Casti Connubii ("Sobre o Casamento Cristão", de 1930), refere-se entusiasticamente e cita o seu recente Tratado de Latrão com Mussolini (de 1929), afirmando que, "em consonância com a ordem correta e inteiramente de acordo com a lei de Cristo, na solene Concordata felizmente celebrada entre a Santa Sé e o Reino da Itália, também nos assuntos matrimoniais obteve-se um acordo pacífico e uma cooperação amistosa, como convinha à gloriosa história do povo italiano e às suas antigas e sagradas tradições. Esses decretos encontram-se no Pacto de Latrão".
Nesta mesma encíclica, Pio XI cita e endossa o Papa Leão XIII sobre a subserviência da mulher ao homem, nos seguintes termos: "O homem é o governante da família e a cabeça da mulher; mas porque ela é carne da sua carne e osso dos seus ossos, que ela seja sujeita e obediente ao homem".
Líderes católicos de destaque, mesmo aqueles tidos como pró-democracia, tais como o falecido cardeal inglês Hinsley, elogiaram o fascismo por suas "virtudes viris" e por seus decretos que relegavam as mulheres novamente aos deveres de "filhos, igreja e cozinha".
Não deve surpreender a ninguém, portanto, que a Igreja Católica na América se oponha firmemente à igualdade de direitos para as mulheres e faça todos os esforços em Washington para derrotar a proposta da "Emenda de Direitos Iguais" à Constituição. A seguir, apresenta-se uma amostra da pressão exercida sobre o Congresso nesse assunto. Trata-se de uma carta enviada ao deputado William T. Byrne por Charles J. Tobin, secretário do Comitê de Bem-Estar Católico do Estado de Nova York, em 2 de outubro de 1943, a partir de seus escritórios na State Street, nº 162, em Albany, Nova York:
Prezado Bill:
O Conselho Católico Nacional de Bem-Estar, falando em nome dos bispos católicos do país, protestou contra a aprovação pelo Congresso da chamada 'Proposta de Direitos Iguais para as Mulheres', atualmente em trâmite na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.
Sua Excelência, o Bispo Gibbons desta diocese, solicita os seus bons ofícios para auxiliar o Conselho Católico Nacional de Bem-Estar em seu protesto.
Atenciosamente,
(Assinado) Charles J. Tobin, Secretário.
Essa carta fez com que o destinatário e outros dois parlamentares católicos alterassem seus votos prometidos a fim de se conformarem às instruções do Bispo Gibbons.
A igualdade de direitos na ordem espiritual, independentemente de sexo ou condição, é um princípio fundamental do verdadeiro ensinamento cristão e foi reintroduzida no mundo à época da Reforma Protestante, de acordo com o que Paulo declara em Gálatas 3:28: "Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus".
Deus não faz acepção de pessoas ou de diferenças de sexo. A cada um e a todos Ele oferece o Seu dom da salvação – de forma gratuita e plena. Desse princípio espiritual de igualdade, conforme ensinado por todas as igrejas protestantes, decorrem direitos iguais na ordem social tanto para mulheres quanto para homens, como se evidencia em países onde o Evangelho de Cristo tem sido pregado livremente.
Tal igualdade em assuntos espirituais e sociais, contudo, não tende a sustentar uma organização eclesiástica como a Igreja Católica Romana, cuja estrutura hierárquica é essencial para a sua manutenção e cujos privilégios exclusivos são reservados apenas aos membros de seu corpo administrativo – todos os quais são homens.
Notas
1. Nos Estados Unidos, essa cerimônia é geralmente permitida dentro da igreja propriamente dita.
2. Ver Carta XXII em Select Letters of Saint Jerome, p. 67, da Loeb Classical Library.
3. Cf. Cristianismo e Moral, p. 339, do Prof. Edward 'A. Westermarck.
4. Relatório do Comissário de Educação para 1894-95, Vol. I, Parte I, p. 940.
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