A verdadeira natureza e estrutura do catolicismo – A estrutura hierárquica do catolicismo

Por L. H. Lehmann

Este artigo foi extraído da edição de 1944 da revista Converted Catholic Magazine, da qual o ex-padre Leo Herbert Lehmann (também conhecido como L. H. Lehmann) é o editor. O texto foi disponibilizado online originalmente em formato PDF pela LutheranLibrary.org.


O TERMO HIERARQUIA significa "governo de sacerdotes" e é aplicado hoje em dia a formas de governo autoritário em que todas as ações de um grupo de súditos são reguladas pelos decretos de uma pequena casta governante. Trata-se da antítese da democracia, que significa "governo pelo povo". Os regimes fascistas são hierárquicos e, assim como o governo da Igreja Católica, governam por decretos absolutos emitidos pelo "Líder" – Führer, Dulce, Caudillo, Poglavnik – e colocados em execução pelos vários "hierarcas" que ocupam cargos de poder dispostos em uma escala descendente a partir do poder supremo do líder no topo.

O conceito fundamental de ordem e autoridade na Igreja Católica está enraizado em sua estrutura hierárquica, que é tão coerente e imutável quanto uma pirâmide. Outras instituições fora dela podem ir e vir; contudo, a tabela de valores básicos da Igreja de Roma nunca muda ou evolui. Em certos momentos de sua história, a Igreja Católica foi submetida a abalos muito violentos; em assuntos temporais, chegou até a fazer concessões, por uma questão de conveniência, aos valores em mutação ao seu redor. No entanto, ela não admite, e não pode admitir, o progresso absoluto. Para a continuidade desses valores absolutos, sua estrutura fixa e hierárquica é essencial. Hitler, que também pretendia estabelecer uma estrutura milenar semelhante para o nazismo, ordenou aos seus seguidores que modelassem sua organização com base na da Igreja Católica Romana. Em seu Mein Kampf (página 882), ele afirma:

Aqui, também, pode-se aprender com a Igreja Católica. Embora sua estrutura de doutrinas em muitos casos colida, de forma bastante desnecessária, com a ciência exata e a pesquisa, ela não está disposta a sacrificar sequer uma pequena sílaba de seus dogmas. Ela reconheceu corretamente que sua capacidade de resistência não reside em um ajuste maior ou menor aos resultados científicos do momento – os quais, na realidade, estão sempre mudando –, mas sim em uma adesão estrita aos dogmas outrora estabelecidos, e que sozinhos dão a toda a estrutura o caráter de credo. Hoje, portanto, laços ainda mais firmes sustentam a Igreja Católica. Pode-se profetizar que, na mesma medida em que as aparências desaparecem, a própria Igreja, como o polo estático em meio à fuga das aparências, conquistará cada vez mais adeptos cegos.

Contudo, a Igreja Católica é hierárquica não apenas em sua própria estrutura terrena organizada, mas também em seus conceitos espirituais e raciais. Em sua visão, especialmente conforme exposta pelos jesuítas, todo o cosmos é uma grande estrutura hierárquica. A Igreja e este mundo de homens e coisas são apenas um reflexo microscópico do cosmos maior, que tem Deus em seu pináculo. Nesta Terra, como declarou o Papa Leão XIII, o Papa ocupa o lugar de Deus. Ele é o chefe supremo de toda a estrutura terrena, o Summus Pontifex  o sumo sacerdote e hierarca absoluto, cujo decreto é uma lei imutável e irrevogável.

Hierarquia espiritual-racial

Conceitos espirituais e raciais estão tão entrelaçados na ideologia católica que é difícil explicar um sem o outro. De acordo com o ensinamento jesuíta, o homem, de certa forma, já nasce em seu lugar fixo no mundo espiritual. Se ele nasce judeu, por exemplo, mesmo que venha a se tornar católico, nunca poderá se tornar um "bom católico"  no sentido de que não se pode confiar a ele a direção das diretrizes da Igreja. É por essa razão que as próprias Constituições da Ordem Jesuíta estabelecem a ascendência judaica, até a quinta geração, como um impedimento para a filiação. Isso foi confirmado na Quinta Congregação Geral da Ordem, em 1593, visto que judeus e mouros eram considerados "infames" (infames habentur) [1]. Se, por dispensa especial, um judeu convertido for admitido, essa regra impede sua "projeção" nos graus mais elevados da Ordem. Polanco, amigo e colaborador de Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas, era de ascendência judaica e, por essa razão, foi impedido de assumir o generalato da Ordem.

Pelo mesmo motivo, rapazes nascidos de pais protestantes só podem ingressar no sacerdócio católico mediante dispensa especial e nunca recebem cargos de confiança no sacerdócio ou na hierarquia. Contudo, não são apenas a raça e a mácula herética que constituem obstáculos para o recebimento de certos benefícios espirituais na Igreja Católica. O sexo também faz diferença. As mulheres são definitivamente excluídas do sacerdócio  cujo primeiro requisito é o sexo masculino. A razão apresentada é que o “poder” espiritual do sacerdócio, junto com os privilégios seletos e as altas honras que o acompanham na hierarquia espiritual, neste mundo e no próximo, não "se fixa" em uma mulher.

A própria Ordem Jesuíta está constituída sobre a mesma base autoritária e hierárquica da organização maior da Igreja Católica, a qual ela controla. Por essa razão, os jesuítas opuseram-se ferrenhamente, por séculos, a outras ordens da Igreja, como os beneditinos, porque as constituições destas eram democratizadas demais. Nos tempos modernos, no entanto, ordens religiosas como os beneditinos, cujos abades são eleitos por todos os membros, perderam sua estrutura democrática primitiva e foram enquadradas no esquema autoritário da Igreja pela suserania jesuíta. Certa latitude que dava margem para a divergência e a livre ação existia na Igreja Católica antes da chegada dos jesuítas. Agora, por causa de sua intensa centralização de poder e de seu dogma da infalibilidade papal, os jesuítas tornaram a estrutura da Igreja Católica ainda mais hierárquica do que a de sua própria Ordem.

O conceito racial jesuíta

Na visão jesuítica da humanidade, as raças constituem os degraus de uma escada hierárquica em um vasto sistema cósmico que se estende do inferno ao céu, com a Terra entre eles como um campo de testes. Cada indivíduo está fixado desde a eternidade em seu lugar "natural" nessa pirâmide cósmica. Ele está predestinado a isso e não pode deixá-lo, ainda que faça esforços e pareça alcançá-lo nesta vida terrena. A Quinta Congregação Geral da Ordem declarou: "Embora possamos estar satisfeitos com um homem quanto a si mesmo, ele ainda pode nos ser desagradável por conta do que herdou de seus pais." [2]

Na visão deles, qualquer esforço para servir a Deus de maneiras diferentes daquelas ensinadas pela Igreja Católica é chamado de "heresia" – um crime que, no ensinamento católico, é punível com a morte. Qualquer tentativa de servir a Deus de acordo com a própria consciência individual é considerada uma rebelião contra o fato de estar fixado em seu lugar "natural" no grande esquema cósmico do universo de Deus. É inútil, contudo, tentar mudar de lugar nesse esquema cósmico, e todas as heresias, sejam por indivíduos ou por movimentos como a Reforma Protestante, são vistas como meros distúrbios temporários. Assim, quando um católico se torna protestante, ele é visto pela Igreja Católica como alguém que meramente tenta se afastar, na carne, de seu lugar natural na esfera cósmica fixa. Considera-se como uma conclusão inevitável que ele retornará – se não em sua própria vida, então por uma espécie de processo de reencarnação na pessoa de seus descendentes. Um padre católico atual chamado Paul Luther, descendente direto de Martinho Lutero, é apresentado como exemplo de como os católicos que se separam da Igreja de Roma "sempre retornam à Igreja". Da mesma forma, a Igreja Católica teve um padre (morto na guerra) chamado George Washington, de quem se afirma ser descendente do primeiro presidente dos Estados Unidos, e que é apontado como prova de que George Washington, por meio desse descendente, retornou à Igreja Católica Romana.

De fato, cada "convertido" do protestantismo ao catolicismo hoje é visto como alguém que está apenas retornando à "fé de seus pais", compensando assim o desequilíbrio temporário causado por seus antepassados na estrutura cósmica do universo espiritual, conforme concebido pela Igreja Católica. Os jesuítas foram especialmente fundados no século XVI para esse trabalho de “Contrarreforma”, e toda a engrenagem da Igreja Católica pós-Reforma está voltada para a tarefa de desfazer a obra da Reforma – tanto na ordem social quanto na espiritual – e de restaurar o equilíbrio que foi perturbado na esfera cósmica pela Reforma Protestante de Martinho Lutero e seus associados no século XVI. Os primeiros protestantes eram todos católicos, e o orgulho dos propagandistas católicos atuais é de que não demorará muito para que os últimos vestígios do protestantismo sejam eliminados e os descendentes dos primeiros heréticos protestantes retornem à Igreja Católica.

Não apenas a posição espiritual dos indivíduos e das raças está fixada nessa pirâmide hierárquica jesuíta, mas também a sua posição econômica. O Papa Leão XIII, em sua tão elogiada Encíclica sobre o Trabalho (Rerum Novarum), afirma categoricamente:

Estabeleça-se, em primeiro lugar, que a humanidade deve permanecer como é... a fortuna desigual é resultado da desigualdade de condições.

O falecido Papa Pio XI, em sua encíclica Quadragesimo Anno ("Quarenta Anos Depois"), implementou a encíclica sobre o Trabalho do Papa Leão XIII e a subtitulou "Sobre a Reconstrução da Ordem Social", para fazê-la se conformar aos ensinamentos fascistas de Mussolini sobre o Estado corporativo. Enfatizando a necessidade de eliminar a democracia e restabelecer a ordem hierárquica das coisas, ele afirma:

Convençam-se, portanto, os que governam de que, quanto mais fielmente se seguir este princípio e existir uma ordem hierárquica gradativa entre as várias organizações subsidiárias, mais excelentes serão a autoridade e a eficiência da organização social como um todo, e mais feliz e próspera será a condição do Estado.

A influente revista jesuíta America, em sua edição de 13 de abril de 1940, quando os ditadores do Eixo esmagavam a democracia em toda a Europa, também ecoou o chamado para "um retorno a uma ordem social integral, cujos princípios ainda estão preservados em nossa lânguida memória do grande experimento medieval". Na introdução de seu livro-texto sobre a encíclica Quadragesimo Anno, publicado pela Paulist Press em Nova York, o padre jesuíta Gerald C. Treacy afirma: "Havia uma real ordem social nos dias em que a Europa era católica. Todos acreditavam em Deus e em Sua Igreja".

Não há saída, portanto, no ensinamento católico para um progresso absoluto da humanidade nesta Terra, seja nas esferas espiritual, racial ou econômica. Tudo está fixado para nós nesses três campos no esquema cósmico das coisas.´

"Desarmonia" herética

O expoente máximo dos ensinamentos espirituais-raciais da Igreja Católica é o conhecido jesuíta alemão Hermann Muckermann, ex-diretor do Instituto Kaiser Wilhelm para o estudo da antropologia, hereditariedade e eugenia em Berlin-Dahlem. Foi ele, de fato, quem forneceu a Hitler suas teorias nazistas de "raça superior", as quais foram levadas aos seus extremos terríveis no extermínio implacável de judeus e de outras "raças escravas" nos campos de horror da Europa ocupada pelos nazistas. As volumosas obras do Padre Muckermann que expõem essas teorias espirituais-raciais encontram-se nas maiores bibliotecas dos Estados Unidos. A principal delas é o seu livro-texto sobre eugenia racial, intitulado Volkstum, Staat und Nation — Eugenisch Gesehen ("O Povo, o Estado e a Nação — sob a Ótica Eugênica"). A segunda em importância é a sua obra teológica católica intitulada Die Sieben Sakramente ("Os Sete Sacramentos"), na qual ele aplica ao ritual dos sete sacramentos da Igreja Católica as suas teorias de raça e hereditariedade. Essa obra mostra de forma realista que os jesuítas têm se empenhado em elevar seus ensinamentos sobre o racismo à posição de um dogma religioso. A revista católica suíça Vaterland, em sua edição de 17 de julho de 1936, elogiou essa última obra de Muckermann como "tanto original quanto justificada". [3]

O ensinamento jesuíta sobre a raça, segundo Muckermann, centra-se no princípio de que a mistura de raças produz "desarmonia" entre os seus descendentes, os quais manifestam grande dificuldade em se integrar na totalidade de uma nação ou da Igreja. É bem conhecido o fato de que indivíduos fortes resultam da mistura de raças, e o temor jesuíta da "desarmonia" que tais misturas causam pode ser facilmente compreendido. Essa "desarmonia" propicia a desordem na sociedade e a heresia na religião. A Igreja Católica, para alcançar seus fins, trabalha por uma condição estática da sociedade semelhante à do Estado corporativo fascista. Ela não pode tolerar a sociedade como uma unidade viva e vibrante de indivíduos autônomos em constante progresso nas questões espirituais e físicas. A sociedade, segundo a Igreja Católica, deve ser um organismo físico e espiritual já completamente fixo e estático, no qual cada um, como uma célula em um corpo, tem o seu "lugar orgânico", o qual é determinado no momento de seu nascimento. Ninguém pode mudar esse lugar por outro, assim como uma célula não pode abandonar o lugar que ocupa em um corpo. É assim que o padre jesuíta Muckermann explica em seu livro supracitado, Volkstum, Staat und Nation, página 36 e seguintes. Ele afirma:

A posição das células é determinada por suas aptidões naturais e por sua posição natural em todo o corpo, e não a partir de qualquer outro ponto de vista. Feliz é o Estado que, dessa forma, assemelha-se a um organismo. Felizes os cidadãos que se integram em tal Estado de uma maneira tão perfeita que encontram o seu próprio lugar, em consonância com suas aptidões particulares, onde serão capazes de servir ao grupo. Nenhum camponês ou operário de fábrica, cumprindo suas funções particulares e insubstituíveis, pode de repente, como uma célula cerebral, assumir o governo supremo de um povo.

Esse ensinamento jesuíta também é aplicado aos vários agrupamentos de trabalhadores profissionais e de outras categorias no Estado. Estes também são comparados a grupos orgânicos de células, que se reproduzem independentemente dos outros, e os frutos de cujos trabalhos devem ser aplicados inteiramente ao grupo ao qual pertencem. As raças devem seguir o mesmo padrão e são consideradas também como grupos de células em um organismo superior. Assim, a humanidade como um todo, conforme decretou o Papa Leão XIII, "deve permanecer como é", sem transições de uma classe para outra. Cada indivíduo é proibido de abandonar o seu "lugar natural", no qual foi fixado pelo nascimento e pela raça. Os Estados, da mesma forma, possuem cada um o seu próprio nicho na escala cósmica e perpetuam-se pela "endogamia", isto é, os descendentes dos vários grupos raciais não devem se intercoligar por casamento, mas permanecer fixos em seu lugar orgânico. Muckermann explica isso detalhadamente da seguinte forma (p. 37):

As células da pele não podem ser transplantadas para o cérebro, e as células do cérebro não servem para nenhum propósito se forem enxertadas nos músculos, caso se queira manter a harmonia de todo o corpo. Da mesma forma, não é desejável que os trabalhadores em um Estado tornem-se parte da célula cerebral de seu governo. Pela mesma razão, não se pode permitir que os grupos celulares de diferentes raças se misturem entre si.

Pode-se, assim, perceber facilmente como, no esquema cósmico jesuíta, cada indivíduo, cada profissão e cada raça formam um degrau na pirâmide hierárquica, cada um em seu próprio lugar e cada um com o seu valor particular. Certos indivíduos, portanto, são destinados a governar sobre os outros; certas raças também são destinadas a manter outras em sujeição. Todos, por sua vez, são coroados e vinculados pelo poder espiritual da religião católica romana. Ensina-se que os sete sacramentos "místicos" da Igreja Católica são os únicos canais através dos quais esse poder da graça flui por todos os degraus dessa pirâmide cósmica. Conforme ensina o catecismo católico, apenas os sacerdotes, devidamente ordenados pela Igreja de Roma, são os dispensadores dessa graça da qual depende toda a sociedade humana.

Ao descrever essa estrutura hierárquica no céu, na Igreja e na sociedade civil, o Papa Leão XIII, em sua encíclica Quod Apostolici Muneris, afirma:

Assim como o Todo-Poderoso quis que, no próprio reino celestial, os coros de anjos fossem de ordens diferentes, subordinados uns aos outros; e assim como, na Igreja, Deus estabeleceu diferentes graus de ordens com diversidade de funções, Ele também estabeleceu na Sociedade Civil muitas ordens de variada dignidade, direito e poder. E isso a fim de que o Estado, tal como a Igreja, formasse um único corpo compreendendo muitos membros, alguns superando outros em posição e importância, mas todos igualmente necessários uns aos outros e zelosos pelo bem comum.

É apenas à luz da importância desse esquema das coisas, sob a ótica jesuíta-católica, que um não católico pode compreender, por exemplo, como se justifica a pena de morte para a "heresia". O "herege" é aquele que deliberadamente cria uma "desarmonia" nesse plano cósmico de Deus. O periódico católico Brooklyn Tablet, de 5 de novembro de 1938, explica o ensinamento católico sobre o assunto da seguinte forma:

A heresia é um crime terrível, e aqueles que iniciam uma heresia são mais culpados do que os que são traidores do governo civil.

Foi sob essa mesma ótica que os hierarcas nazifascistas, que enfrentam o julgamento em Nuremberg enquanto este texto é escrito, justificaram o extermínio implacável de judeus e de outros que ousaram criar "desarmonia" no sistema orgânico e estático de sociedade que Hitler jurou estabelecer para os próximos mil anos.

A partir do exposto, pode-se perceber de relance como esse plano espiritual e racial de coisas, conforme delineado pelos jesuítas, difere da concepção protestante de igualdade e liberdade na religião, na raça e no sexo. Liderada por Lutero e Calvino, a Reforma Protestante varreu os fundamentos do autoritarismo católico e colocou todos os homens em contato direto com Deus. A interpretação que deram ao ensinamento cristão tornou desnecessários os degraus hierárquicos de uma pirâmide cósmica, disponibilizando a graça da salvação plena a todas as raças e estratos da sociedade, e tornando-a igualmente alcançável por ambos os sexos. O ensinamento evangélico deles tornou imperativo rejeitar a insensatez do racismo, já que o Evangelho ensina que todos podem se tornar filhos de Deus. O verdadeiro protestantismo deve defender para todos, a fim de salvaguardar a igualdade e a liberdade para si mesmo, essa mesma igualdade e liberdade para todos os outros. Um pastor, no conceito protestante, é tão pecador e necessitado de salvação quanto o restante da humanidade. Esse conceito não admite privilégios especiais na ordem da santificação, nem confere a qualquer governante, na Igreja ou no Estado, um poder que não seja delegado pelo corpo geral de crentes.

Essa visão democrática da religião e da ordem social que o protestantismo trouxe à existência por meio da Reforma conduziu à soberania do povo. Ela concedeu aos judeus, pela primeira vez na história, direitos iguais aos dos cristãos na ordem social, e abriu caminho para as "quatro liberdades" que hoje são tidas como a esperança do mundo. Contudo, esse modelo democrático de coisas é violentamente e reiteradamente atacado pela Igreja Católica como o gerador da ausência de Deus na educação, da secularização do Estado, da revolta das massas contra as condições feudais de trabalho, do desrespeito à autoridade hierárquica e da Maçonaria. Tudo isso, aos olhos da Igreja Católica, é o resultado direto da terrível heresia do protestantismo, que destruiu a sociedade orgânica, hierárquica, estática e integralista da Idade Média, e abriu caminho para a sociedade desintegralista, porém dinâmica, livre e democrática, em defesa da qual a Segunda Guerra Mundial foi travada à custa de um tremendo derramamento de sangue e dinheiro.

Em sua primeiríssima encíclica (Summi Pontificatus), o atual Papa Pio XII atribuiu a culpa por todos os males da sociedade moderna à revolta protestante contra o poder hierárquico da Igreja Católica Romana. "A negação dos fundamentos da moralidade", declarou ele, "teve sua origem na Europa no abandono daquele ensinamento cristão do qual a Cátedra de Pedro é a única depositária e expoente". Isso ocorreu em outubro de 1939, um mês após o início da Segunda Guerra Mundial, e, em 16 de novembro, o Cardeal Villeneuve, do Canadá, esteve em Washington, D.C., e repetiu a mesma acusação em um discurso perante o National Press Club. De acordo com o Catholic Register de 30 de novembro de 1939, ele afirmou:

Quando, há quatro séculos, certas nações no norte e no oeste da Europa rejeitaram a autoridade da Igreja Católica como mestra divina, elas imediatamente começaram a examinar as evidências humanas sobre as quais repousavam as doutrinas do cristianismo... Não se pode ver esperança para a civilização cristã do mundo, a menos que os homens voltem novamente para o verdadeiro fundamento da sociedade cristã e reconheçam que este período sombrio e amargo de guerras e rumores de guerras nasceu de uma insurreição contra a autoridade da Igreja de Deus.

Esse retorno a uma sociedade hierárquica significaria o abandono da soberania do povo, o princípio democrático da autoridade, que o Papa Leão XIII condena abertamente em sua encíclica Immortale Dei da seguinte forma:

A soberania do povo, entretanto, e isto sem qualquer referência a Deus, é tida como residente na multidão; doutrina esta que é, sem dúvida, extraordinariamente bem calculada para lisonjear e inflamar muitas paixões, mas que carece de qualquer prova razoável e de todo poder de garantir a segurança pública e preservar a ordem. De fato, pela prevalência desse ensinamento, as coisas chegaram a tal ponto que muitos consideram como um axioma da jurisprudência civil que as sedições podem ser legitimamente fomentadas. Pois prevalece a opinião de que os príncipes nada mais são do que delegados escolhidos para cumprir a vontade do povo; de onde decorre necessariamente que todas as coisas são tão mutáveis quanto a vontade do povo, de modo que o risco de perturbação pública está permanentemente suspenso sobre nossas cabeças.

A Igreja Católica vai agora mais longe em sua acusação e afirma que o socialismo e o comunismo são os resultados finais lógicos e inevitáveis da heresia protestante. Nisso, o pensamento católico traça um paralelo com a teoria marxista de que o protestantismo e a democracia trazem em si as sementes de sua própria destruição; que a autonomia individual é apenas uma fase passageira. Em ambos os casos, a esperança alimenta a ideia de que, após o desaparecimento do modo de vida democrático protestante, a sua forma específica de coletivismo herdará a terra.

Mas os americanos protestantes não devem se deixar amedrontar a ponto de acreditar que a única escolha atual reside entre o fascismo clerical e o comunismo marxista.

Notas

1. "Qui etiam juxta Constitutiones titulo infamiae admitti non possumt." ["Que, de acordo com as Constituições, não podem ser admitidos por motivo de infâmia."] Cf. Steinmetz, History of the Jesuits, vol. II, p. 19. Ver também E. Boyd Barrett, The Jesuit Enigma, p. 42.

2. Cf. Steinmetz, op. cit., Vol. II, p. 140.

3. Após o colapso da Alemanha nazista no verão passado, o jornal católico Brooklyn Tablet, de 18 de setembro de 1945, publicou uma nota oficial da N.G.W.O. enviada de Berlim em 20 de agosto de 1945, informando que: "O reverendo Hermann Muckermann, S.J., um dos mais eminentes estudiosos católicos da Europa e ex-diretor do Instituto Imperial de Biologia da cidade, encontra-se em segurança em sua residência."


A Igreja Católica e a economia

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