Blog dedicado ao estudo de Apocalipse 14:6 a 12.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O suposto conflito entre lei e graça

A despeito do claro testemunho das Escrituras acerca da lei moral, muitos cristãos acreditam que a "nova lei do evangelho" suplantou a "antiga lei", comumente associada à vida civil e religiosa dos israelitas. Raciocinam que havia uma era de salvação anterior ao cristianismo baseado na obediência à lei, e uma era cristã distinta de salvação pela graça que substituiu o antigo modelo. Apesar da profunda consideração que tenho por estes cristãos, nada pode estar mais longe da verdade.


Além de estabelecer uma clara distinção entre as leis morais, civis e cerimoniais, a Escritura ensina que Deus sempre concebeu um só meio de redenção da humanidade por meio do sacrifício de Seu Filho, Jesus Cristo, recebido mediante a fé. Estas são as boas-novas do evangelho anunciadas ao mundo desde tempos imemoriais (Jó 19:25; Romanos 5:18; Gálatas 3:6-8; Hebreus 4:2).

Antiga e nova aliança

A nova ou superior aliança feita entre Deus e Seu povo não tornava a primeira inerentemente defeituosa. O cumprimento da promessa de Deus estava condicionado ao cumprimento das condições do pacto, mas Israel falhara nesse sentido (Hebreus 8:8-9; Romanos 9:1), e agora havia a necessidade de uma aliança superior "instituída com base em superiores promessas" (Hebreus 8:6).

Estas promessas superiores, porém, jamais anularam os Dez Mandamentos em qualquer grau, medida ou aspecto. Na verdade, elas reafirmam o concerto original de Deus com Seu povo, prometendo-lhe capacidade divina para amar e obedecer à lei moral (Jeremias 31:33; Hebreus 8:7-12; 10:15-17). Esta superior aliança exigia, contudo, um sacrifício igualmente superior capaz de efetivá-la na vida do crente (Hebreus 9:23; 10:2-4), visto que as leis sacrificais não passavam de "sombra dos bens vindouros" (Hebreus 10:1). Os ritos e serviços do antigo santuário alcançaram o seu cumprimento quando nosso Salvador ofereceu-Se como perfeita oferta pelo pecado em favor do homem.

A lei de Deus, com efeito, permaneceu um marco na nova aliança, pois Cristo, satisfazendo uma exigência moral, se fez pecado por nós a fim de que pudesse escrever na mente e no coração daqueles que O aceitam a mesma lei que Ele efetivamente guardou (Salmo 40:8). Condenando na carne o pecado, o Filho de Deus permitiu a todos os que creem no Seu nome "que a justa exigência da lei se cumprisse em nós" (Romanos 8:3-4), realizando assim a promessa contida na nova aliança com base na virtude de Sua oferta sacrifical. Deste modo, a graça de Jesus, ao invés de nos eximir da lei moral, coloca-nos em perfeita harmonia com os seus requisitos.

Um único plano divino de redenção

A expressão "evangelho eterno" (Apocalipse 14:6) contraria abertamente a falsa dicotomia dispensacionalista que reconhece propósitos distintos de salvação para Israel e para a igreja. Aliás, em parte alguma as Escrituras ensinam que há uma antiga dispensação israelita de salvação pela lei e uma atual dispensação cristã de salvação pela graça. Todos os pecadores são salvos pela graça (Salmo 6:4; Isaías 55:1-4; Efésios 2:8-9), justificados pela fé (Gênesis 15:6; Habacuque 2:4; Romanos 5:1) e julgados pelas obras (Deuteronômio 28; Mateus 5:16-21; 25:31-46; Apocalipse 20:11-13).

Nem o Antigo Testamento ensina um modelo de salvação legalista, nem o Novo Testamento, um modelo antinomista (total ausência da lei). Ambos partilham do mesmo conceito bíblico de salvação e obediência mediante a graça. O pecador que verdadeiramente aceita o dom gratuito da salvação de Deus em Cristo Jesus passa a viver em conformidade com a lei divina, e não mais sob sua condenação (Romanos 8:1-4; Hebreus 8:8-10).

Quando exorta os israelitas à obediência, Moisés não tem em mente uma observância formal e legalista da lei. Ele se refere à lei da perspectiva de um coração "circuncidado" pelo poder de Deus (Deuteronômio 30:6, ver também Jeremias 24:7; Ezequiel 36:25-27)! A exequibilidade do cumprimento da lei foi assegurada ao povo com base na aliança eterna de Deus com Adão, e renovada posteriormente com Abraão, a qual proporciona perdão pela transgressão e graça que capacita à obediência pela fé no Messias vindouro.

Moisés não ignorava a devida relação entre lei e evangelho, pois reconhecia que Deus tem um único método para salvar o homem, e a lei era uma parte integral desse plano. Não é de admirar que o apóstolo Paulo recorra às palavras de Moisés para assinalar o profundo contraste entre a justificação pela fé e as infrutíferas tentativas de cumprir a lei por meio da justiça própria (Romanos 10:3-8). Tanto o Antigo como o Novo Testamento põe em relevo a verdadeira relação entre lei e evangelho; o mesmo evangelho que proclama a fé como o princípio da justificação e da obediência.

Obediência pela fé não é legalismo

Com efeito, nem o antigo nem o novo concerto de Deus com Seu povo foi fundamentado numa observância legalista da lei, mas inteiramente na graça com base na promessa (Gênesis 3:15). O Senhor mesmo diz:

Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. (Jeremias 31:33)

O modo pelo qual Deus cumprirá Sua promessa é assim descrito:

Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis. (Ezequiel 36:25-27)

Não há nenhum legalismo aqui. A graça divina que perdoa o pecado e transforma o pecador em uma nova criatura precede a obediência requerida por Deus em Sua lei.

Tentativa de invalidar o sábado na lei moral

O argumento que procura opor lei e evangelho inclui também o ponto de vista segundo o qual o sábado teria sido abolido juntamente com as leis cerimoniosas do Antigo Testamento. Os defensores desse ensino afirmam que a ordem para santificar um dia da semana provém de lei divina, e como tal, é eterna e imutável, mas que a referência ao sétimo dia é de natureza simbólica e, portanto, transitória, o que autorizaria os cristãos não somente a deixar de observá-lo como também substituí-lo por outro dia de repouso.

Ideia semelhante transparece de uma carta do papa Gregório, o Grande (590-604), endereçada aos cidadãos romanos. Escrevendo contra os guardadores do sábado, ele argumenta que o preceito permaneceu em vigor enquanto era lícito guardar a lei que exigia sua observância, "mas depois que a graça do Deus Todo-Poderoso manifestou-se em nosso Senhor Jesus Cristo, os mandamentos da lei que foram transmitidos em sentido figurado não podem mais ser observados de acordo com a letra". (1) Esvaziando o mandamento do sábado de seu conteúdo moral, Gregório prossegue, dizendo:

Pois se alguém sustenta que o sábado deve ser observado precisa admitir que os sacrifícios carnais também devem ser oferecidos; deve admitir igualmente que o mandamento sobre a circuncisão do corpo ainda está em vigor. (2)

Para consubstanciar seu argumento, Gregório refere-se a Cristo ter supostamente abolido o sábado por "trabalhar" neste dia:

Pois se lê que mesmo nosso Senhor e Redentor fez muitos trabalhos no dia de sábado, razão pela qual reprovou os judeus... Se a própria verdade em pessoa ordenou que o sábado não devesse ser observado segundo a letra, aquele que observa o descanso no sábado de acordo com a letra da lei a quem mais contradiz, senão a própria verdade? (3)

O conceito expresso por Gregório floresceu durante a Idade Média, período em que se desenvolveu uma teologia católica acerca do domingo como cumprimento do preceito do sábado. Acreditava-se que as estipulações do quarto mandamento eram de natureza moral e permanente, ao passo que a escolha do dia era questão cerimonial e por isso mesmo temporária, transitória e sujeita a alteração pela Igreja. A formulação teológica clássica veio com Tomás de Aquino, o qual sustentava que, em seu sentido literal, "o mandamento para guardar o sábado [no decálogo] é parcialmente moral e parcialmente cerimonial": moral no sentido de que os seres humanos devem separar algum tempo para se concentrar nas coisas de Deus; cerimonial no sentido de separar um tempo específico (Summa Teológica, 2a2ae.122.4) (4)

Portanto, quando evangélicos lançam mão desses argumentos para justificar a não observância da lei, ou, em particular, do quarto mandamento, reproduzem o mesmo ensino do catolicismo, o qual eles professam rejeitar. A Palavra de Deus diz:

Tu estás perto, Senhor, e todos os teus mandamentos são verdade. Quanto às tuas prescrições, há muito sei que as estabeleceste para sempre. (Salmo 119:151-152)

Sobre o sábado, trataremos pormenorizadamente em um artigo posterior. No que tange à dimensão moral de todos os mandamentos e sua relação com a graça, é preciso tecer mais algumas considerações.


Notas e referências

1. Saint Gregory the Great Epistles, Vol. 36. Book XIII, Epistle I. Acesso em 06 de fev. 2012, 10h06min.

2. Ibid.

3. Ibid.

4. Kenneth A. Strand. "O Sábado". Em Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia. Raoul Dederen (Ed.). Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2011, p. 581.

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